Sara é de Cerquilho, uma cidade do interior de São Paulo, mas nasceu e viveu alguns anos na capital. Gosta de São Paulo, mas foi nessa cidade de quase 60 mil habitantes que sua jornada no underground começou. Seus pais sempre tiveram uma paixão por música. Seu avô era fã de vinil e tinha uma bela coleção de sertanejo raiz. Desde criança, ela gostava de ouvir música e cantar. Cresceu em uma religião cristã que canta cânticos regularmente, sendo ex-Testemunha de Jeová. Essa parte dos cultos era a que ela mais apreciava. Com o tempo, ela percebeu que verdades absolutas não lhe serviam mais. Sua mãe, muito apegada à fé, dizia que “incutiu a verdade” nela desde o nascimento, e durante sua infância e adolescência, ela seguiu verdades que não eram suas de fato.
Seus pais se divorciaram quando ela ainda era criança. Ela ficou com a mãe, que se tornou mais fervorosa após a separação. O pai, por ter deixado a religião, virou uma figura de subversão para ela. Ele era visto como o “apóstata”, e tudo que vinha dele era considerado abominável. Nas férias, ela ia para a casa dele e lá ouvia Aerosmith, Beatles, U2, Titãs… Quando voltava querendo ouvir essas músicas, sua mãe proibia, dizendo que eram músicas mundanas, “do mundo”, ou seja, do diabo. Para ela, Beatles e U2 eram coisas do maligno.
Ela sempre foi uma pessoa questionadora, que odiava seguir regras. E foi aí que nasceu seu amor pelo rock e pelo metal: quanto mais sua mãe reprova, mais ela se apegava. Só foi descobrir o heavy metal no ensino médio, quando um colega enviou “War Pigs”, do Black Sabbath, via Bluetooth. Ao ouvir, ficou até assustada, pois, como boa garota cristã, tinha preconceito e achou que estava sendo seduzida por um caminho sem volta — e, na verdade, estava certa!
Cerca de três anos depois, ela saiu de casa. Já não concordava com a ideologia da religião e não aguentava mais viver uma vida que lhe mandaram viver. Queria descobrir quem ela realmente era. Assim, abandonou a religião, passou por muitas mudanças e saiu de Cerquilho, indo para o Paraná, depois para São Paulo… e acabou voltando para Cerquilho.
Em 2018, começou a ensaiar alguns covers com um amigo, com a ideia de montar um repertório para tocar em barzinhos. Um dia, enquanto ensaiavam na casa dele, o Rodrigo — que hoje é baterista da Presidente Judas — a ouviu cantar. Depois de um tempo, ele a convidou para entrar em um projeto que ainda não tinha nome, mas já tinha uma proposta. Ela entrou como vocalista. Foi com a Presidente Judas que ela conheceu de verdade o underground.
Depois da primeira apresentação, no Nagambi, em Cerquilho mesmo, começaram a receber convites para tocar. A cada show, banda que conheciam, produtor ou agente cultural que cruzava seu caminho, ela se apaixonava mais pelo cenário. Apesar dos problemas que o underground tem, o que mais a atrai é a liberdade de ser quem ela é — e como isso a conecta com outras pessoas.
No começo, ela tinha muitas inseguranças, e ainda tem algumas. Mas antes, elas a dominavam. Tinha muito medo do julgamento e de não ser boa o suficiente, algo que sente mais intensamente como mulher. A régua que ela usa consigo mesma é pesada demais. Ainda sente o frio na barriga às vezes, mas, graças às pessoas — principalmente às mulheres — Que foi conhecendo com a banda, assim, tendo a certeza cada vez mais, onde queria está. Descobriu que sempre há alguém que se identifica com ela, com o que canta, com o que diz. A banda é o meio de mostrar quem são, o que sentem, no que acreditam — seus medos, suas inspirações. Essa conexão é o que os move.
A Presidente Judas é uma banda formada por pessoas questionadoras. Eles têm suas revoltas, e guardar isso só pra si não é suficiente. A banda virou uma forma de extravasar essas emoções. Se não é na letra, é na entrega no palco. A visceralidade é algo que eles sempre tentam trazer à tona. Têm influências de punk, death metal, doom — e tudo isso se mistura para criar uma atmosfera marcante.
Sara: “Estamos trabalhando em novas composições que afirmam isso, e logo mais vamos entrar em estúdio pra trazer esse material novo ao público. Esse ano, também temos shows confirmados na capital, o que é sempre especial. O palco é o lugar onde tudo se materializa. Onde a gente se entrega. Onde a gente se renova. E talvez, por isso, subir no palco tenha se tornado a minha religião.
Sei que minha jornada no underground começou há pouco tempo, e que ainda tenho uma caminhada pela frente. Mas sou grata. Sou grata à banda, e à versão de mim mesma que posso ser quando sou a vocalista da Presidente Judas.
A rebeldia que abracei, e a audácia de acreditar no que eu faço, são o meu norte.
Seja quem você for, mas seja você.
Esse é o maior ato de rebeldia num mundo que insiste em te rotular.”
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