Por Lord Vlad (Malefactor, Poisonous, Kosmogonya, Born In Black, Black Order Productions)
Contribuições honrosas:
Giovan Dias (Lucifer Rex)
Gustavo Alves ( Underground Memorabília)
Thiago Zuma (Site Igor Miranda – Música e Jornalismo)
Saudações maléficas!
Mais uma vez estive presente no melhor festival underground do país, e com certeza um dos melhores do mundo, e venho falar minhas impressões de mais uma edição do SETEMBRO NEGRO. Como é praticamente impossível, por várias questões, assistir a todos os shows, pedi auxílio de 3 amigos e fizemos uma resenha completa do SETEMBRO NEGRO, comentando sobre nossas impressões sobre todas as apresentações e sobre a estrutura em si, respeitando as opiniões pessoais de cada um. Quando a resenha for de outro colaborador, o crédito virá acima do parágrafo.
Cheguei a SP na quinta feira, véspera do Fest e me dirigi com minha esposa e companheira de aventuras, Sra. Tuty, direto para o The Metal Bar no Bairro Pinheiros, onde alguns amigos e amigas já nos aguardavam. Fomos pra lá direto do aeroporto, como se diz na Bahia: “de mala e cuia”.
Depois de rever muita gente do submundo metálico, era hora de ir descansar porque seriam três dias de shows com um cast sensacional.
DIA 05/09- Sexta-Feira
Lord Vlad:
Chegamos à Vip Station em cima da hora e tivemos uma surpresa ruim, a fila estava enorme e a checagem de ingressos + revista dos seguranças antes de pegar as pulseiras demorou bastante. Infelizmente perdemos todo o show dos cearenses do NECROFILOSOPHY já que no SETEMBRO NEGRO não existe atraso. De todas as edições que fui, seja como músico ou como público, é exemplar a forma como os horários são cumpridos à risca. O que a gente não esperava era tanta demora em entrar. Que sirva de lição, chegar sempre com bastante antecedência no primeiro dia do Fest.
Giovan Dias:

Peguei 1 hora de Uber da Galeria do Rock até a Vip Station, consegui enfrentar a fila de entrada e pegar a NECROFILOSOPHY em seus primeiros minutos de apresentação. Foi questão de honra, havia dito a eles que estaria na frente do palco com a camisa da banda prestigiando a abertura do festival. E que apresentação destruidora! Rafael Necro variando seus vocais entre o gutural e o rasgado junto com Jairo, Ricardo e Rodrigo, apresentaram 30 minutos de um Death Metal de alta periculosidade, abrindo o festival e dando orgulho ao ver a qualidade do Metal Extremo do Nordeste. O álbum “Contemplations of the Seven Philosophical Foundations” ficou na minha lista dos melhores de 2023, ouça e tenha uma ideia do que estou falando.
Lord Vlad:

Entramos e a banda THULCANDRA, que apesar de ter seu nome inspirado em uma demo do Dark Throne, mas é inegavelmente uma banda tributo ao Dissection, já estava começando sua apresentação no palco “Maioral”. Eu não conhecia o Vip Station e muita gente criticava a qualidade do som dos shows por lá. Pois bem, os alemães estavam com um som e um show sensacional. Os caras tocam muito, e usam partes acústicas com sampler/VS nas intros de músicas como “Spirit of the Night”, e “Frozen Kingdom”, enquanto os guitarristas solam por cima. Showzaço. Esse show já valeria o ingresso, mas o fest estava só começando.
Eu não tinha visto ainda o segundo palco, “Infernal” e só então fui informado que ficava no subsolo da casa. Diferente da área superior com capacidade para mais de 3000 pessoas, este palco fica em uma área que acredito caibam no máximo 600 pessoas. Cheio de colunas que atrapalham não só a visibilidade para o público, mas também oferecem dificuldade para regular o som, é bastante inferior em estrutura em relação ao andar acima. Para amenizar, o som foi armado com o PA distribuído pelo espaço. Isso melhorou muito a qualidade do som já que mesmo sem ver a banda (somente quem colava na frente do palco conseguia realmente ver os músicos) era possível ouvir com clareza o que vinha do palco mesmo estando no fundo do espaço. Muita gente não gostou desse palco, mas acredito que foi o palco possível. Se por um lado dificultou assistir aos músicos, por outro lado quem se aventurou e teve saúde, pode ver bandas sensacionais cara a cara. A VERMIN WOMB estava começando seu set por ali, mesclando seu crust/grindcore com Death metal. Boa banda, público interagindo bastante, mas não me fez tanto a cabeça ao vivo. Óbvio que várias pessoas estavam nitidamente impactadas com o show dos norte-americanos, mas talvez eu estivesse em outra energia naquele momento. O bom de um Festival como esse é justamente a diversidade e o mais importante é que os caras foram acolhidos e respeitados.

A ansiedade foi chegando, pois o PRIMORDIAL era uma das bandas que eu mais queria ver. Com seu som épico e hipnótico, em que geralmente dois ou três riffs são repetidos por músicas às vezes por cerca de 8 minutos, era esse transe que eu buscava no show dos Irlandeses. O fantástico e performático vocalista A.A. Nemtheanga entrou com uma corda no pescoço com o conhecido nó de forca. Sua presença de palco é tão avassaladora que rouba toda a cena. Ele literalmente salvou o show, pois as guitarras estavam muito baixas enquanto o baixo acabava tomando conta do PA. O show foi prejudicado pela equalização da banda, mas mesmo assim é muito emocionante ouvir faixas como a fantástica “The Coffin Ships” e a grande “Empire Falls” com toda sua atmosfera que lembra muito o Bathory na fase “Blood on Ice”. Uma pena que não conseguiram mixar bem o som e espero que voltem em outra edição. Bandaça. Ainda não foi desta vez que ouvi a sensacional “The Golden Spiral”, pra mim a melhor música de toda a carreira dos irlandeses malditos.

Tentei ir rápido ao Palco “Infernal” para ver os suecos do THE CROWN, mas confesso que precisava comer algo e quebrar minha sobriedade com uma caipiroska que virou minha melhor amiga. Bebo quase nunca, mas desta vez resolvemos cair pra dentro. Não vimos todas as músicas do THE CROWN, que conseguiu tirar um ótimo som e recebeu uma reação fantástica do público. Para quem nunca pegou um fest com tantas bandas, saiba que é humanamente impossível você ver todos os shows. Escolha suas bandas preferidas para ver o show todo e quatro músicas das outras, senão você não se alimenta, não conversa com amigos de toda uma vida, não vê o merchandise. São apenas 10 minutos cronometrados entre um show e outro. Entre as músicas executadas “Churchburner” e “Total Satan” que receberam efusiva participação dos maníacos na plateia.
Para fechar a noite o som viajante dos norte-americanos do AGALLOCH no excelente palco “Maioral”. Tiraram um ótimo som e vi muita gente cantando as músicas, bem como muitas pessoas com camisa dos caras. Abriram o show com “Limbs” e foram destilando músicas como “Ghosts of the Midwinter Fires”, “Dark Matter Gods” até o encerramento com “Our Fortress Is Burning… II: Bloodbirds”, sempre ovacionados ao final de cada uma delas. Executando seu som que mescla black doom metal com passagens folk e atmosféricas, confesso que me surpreendeu o tanto de fãs que eles têm no Brasil. Grande show. A sexta-feira não foi sold out como nos dias seguintes, mas a casa ficou bem cheia, o que já demonstrava o provável sucesso de mais uma edição.
DIA 06/09 – Sábado
Lord Vlad:
No sábado, como a maioria das pessoas já estavam com suas pulseiras, a entrada foi muito mais rápida e conseguimos ver o show dos acreanos do NECROMANTTICU no palco “infernal”. Black Metal com algumas partes mais Death metal e cantando em português, foram super bem recebidos em uma ótima oportunidade de ver uma banda do Acre ao vivo, coisa bem rara para quem não mora naquela região. Espero ver o show deles novamente. Ótimas partes de dois bumbos em partes mais cadenciadas foram o bastante para ver boa parte do público batendo cabeça e gritando ao fim dos sons.
PS: Alguns dias depois, ficamos sabendo que a Polícia Federal encrencou com o cinto de bala do baixista no aeroporto na volta, fazendo o metalhead perder seu vôo por pura falta de conhecimento dos policiais da cultura underground. Cintos de bala estão no metal desde os anos 70.
Subimos novamente as escadas para presenciar os paraguaios do WISDOM, uma das mais antigas bandas de Black metal paraguaias em atividade, comemorando 30 anos de existência. Fizeram um show impecável, pegando muita gente de surpresa já que o Brasil ainda é muito fechado para bandas sul americanas. Ótimo show desta banda que já esteve no Brasil outras vezes sempre recebendo ótimas críticas. Que venham muitas outras vezes e que a cena sul-americana se fortaleça com estes intercâmbios metálicos do submundo. Showzão.

Era chegada a hora de ver meus velhos irmãos de guerra do LEPROVORE. Formada por músicos com bastante estrada no underground, vindos de bandas como Headhunter DC, Morbid Perversion, Inoculation e Rotting Flesh, me dá muito orgulho ver eles ali neste Fest, em especial ver meu velho amigo Demétrio Invocation de volta aos palcos. Quando comecei com o Malefactor há mais de três décadas, dividi o palco com suas antigas bandas Orgasm Crazy e Blackness por inúmeras vezes. O som do LEPROVORE demorou em ser ajustado, mas o público apoiou do começo ao fim não só por serem velhos conhecidos, mas pela sua proposta de Horror/Gore Death Metal nas bases antigas do estilo. Com elementos que me lembram o velho Benediction do começo, bem como o velho Autopsy, trouxeram aquela antiga aura do início dos anos 90, final dos 80, com os rostos literalmente escorrendo sangue enquanto batem cabeça. Conquistaram o público durante todo o set, inclusive os belgas da banda Bütcher que assistiram toda a apresentação na minha frente e estavam curtindo muito.
Ainda estava sol lá fora quando os texanos do IMPRECATION infestaram o Festival com seu Death Metal “doomy” e imundamente pesado. Aproveitando-se de uma carreira de 34 anos com sua vasta experiência, souberam conduzir o set de maneira impecável com temas como “Baptized in Satan’s Blood” e “Bringer of Sickness”. Facilmente um dos grandes momentos do SETEMBRO NEGRO com som e luz impecáveis, além de uma plateia nas mãos até o final.
Meu corpo old school já começava a demonstrar cansaço e dores, pois são horas e horas em pé tentando ver o máximo de shows. Nessa hora, comecei a selecionar como iria me organizar para me movimentar entre os palcos em um dia que a casa já começava a ficar lotada. Se na sexta-feira já estava cheio, no sábado tivemos a confirmação do total sucesso da edição com metalheads lotando todas as várias áreas da enorme Vip Station. E já sabíamos que no domingo seria ainda mais cheio.

Desci rapidamente para ver uma boa parte do show do FÉRETRO, que teve que se virar no palco “infernal”, cada vez mais quente, ficando em total sintonia o nome do palco com o Black metal dessa banda pernambucana. Tocaram em um horário excelente, quando praticamente todo o público já estava no Fest. Em suas fileiras, músicos experientes vindos de bandas como Mystifier, Decomposed God, Infested Blood e Malkuth (entre outras), se destacam pelo excelente trabalho de bateria. Bumbos velocidades da luz, aliados às sombras dos riffs e do vocal podre, mostraram que rapidamente irão se destacar na cena. Muito bem tocado e extremamente brutal.
No palco grande era hora de ver os noruegueses do 1349. É chover no molhado falar sobre a qualidade técnica de uma banda que conta com Frost (Satyricon) na bateria. Chega a ser surreal a velocidade de alguns arranjos mas confesso que o som deles me cansa depois de 20 minutos. É uma sequencia de black metal com blast beat com poucos momentos de respiração. Mas, para quem ama, tecnicamente foram impecáveis.
Gustavo Alves :
Eis que pela primeira vez no sábado, o palco Infernal faria jus ao seu nome, com o recinto abarrotado para ver a primeira apresentação dos belgas do BÜTCHER no país. O performático vocalista R. Hellshrieker logo notou a excelente recepção e virou o regente do caos, incentivando as rodas de mosh e os perigosos stage divings (que eram limitados devidos às pilastras e ao teto baixo do espaço), entre um gole e outro de whisky. A banda focou seu setlist nos seus dois últimos trabalhos, “666 Goats Carry My Chariot” (2020) e “On Fowl of Tyrant Wing” (2024), obtendo maiores respostas do público nas insanas “45 RPM Metal” e “Koraktor’s Iron Rule”.
Lord Vlad:

Sei que muitos irão discordar, mas não gostei tanto assim do show do COVEN. Óbvio que duas coisas são inegáveis: a banda tem uma das melhores aberturas de show do mundo (é de arrepiar ver a vocalista entrando no palco em um caixão e realizar uma Missa Negra em frente a quase 2000 pessoas) e o fato de que Jinx Dawson coloca à prova todo o ateísmo mundial, pois, liderando a banda desde 1967 e cantando sobre pactos satânicos, o fato é que Jynx Dawson do alto de seus 75 anos continua lindíssima e parecendo ter metade da idade. Tem coisa séria aí. Das muitas lendas sobre a banda (que hoje conta somente com ela da formação original), duas em especial se referem ao Black Sabbath. Primeiro que o COVEN já tinha uma música com este nome no disco de 69, antes do full lenght inicial dos criadores do metal. Segundo que o baixista original se chamava Oz Osborne, enquanto o Príncipe das Trevas apareceu com o nome Ossie Osborne no primeiro disco do Black Sabbath, somente depois sendo conhecido como Ozzy Osbourne. Mas o que não gostei do show? Infelizmente a voz da bruxa já não entrega nem de longe a mesma qualidade da época em que chegava a ser comparada com Janis Joplin em uma versão das Trevas. Nem de longe. Fato é que na hora de “Wicked Woman” ninguém ligou pra isso e o Festival pegou fogo. Claro que não serei injusto com essa entidade da música, os vocalistas quase sempre perdem a voz com a chegada da velhice, mas o fato é que a achei meio perdida em algumas partes, a despeito do instrumental estar perfeito. E naquela banda, que não é uma banda de metal, a estética satânica e a voz dela eram certamente os pontos altos. Foi bom, mas muito longe de “melhor show da noite” como ouvi de algumas pessoas.
Thiago Zuma:
Assim que acabou o show do BÜTCHER, algumas pessoas já se enfiaram na linha de frente do palco “Infernal” para o PRIMITIVE MAN. Era o único jeito para conseguir ver alguma coisa na escuridão proporcionada pela banda norte-americana, iluminada apenas pelas projeções soturnas do telão ao fundo. Talvez o Carioca Club não fosse mesmo o palco ideal para seu sludge claustrofóbico (o trio de Denver cancelou sua participação na edição de 2023 do SETEMBRO NEGRO). Na pista subterrânea da VIP Station, porém, deu até para dizer que o volume altíssimo, os ruídos e a tensão dos acordes lentos e arrastados foram um teste de resistência para as colunas e o teto rebaixado do lugar, além dos ouvidos de quem colou na grade e chacoalhou a cabeça no mesmo transe hipnótico dos músicos.

Lord Vlad:

Até aquele momento o Imprecation era o show que mais tinha me impressionado no dia, mas bastou o MACABRE começar seu set para deixar a todos boquiabertos. Logo de cara, “Zodiac”, com um cidadão vestido com as vestes do serial killer conhecido como Zodiáco sobe ao palco, causando uma mistura de hipnose com desconforto, já que apontava incessantemente uma arma de fogo para a plateia. Em tempos loucos, quando pessoas matam músicos no palco, percebi que as pessoas mais a frente ficavam desconfortáveis em ter um trabuco apontado para suas fuças. Pronto, já tinham ganhado toda a atenção. Foram desfilando suas músicas ultra bem tocadas, mesclando histórias de serial killer com um humor pra lá de bizarro. É doentio demais ouvir “The Ted Bundy Song” enquanto a banda mescla Death metal com uma canção infantil e o ator entra no palco com uma máscara perfeita de Ted Bundy, com direito a braço enfaixado, maneira como ele enganava suas vítimas, pedindo ajuda e depois as golpeando antes de sequestra-las. Entre faixas como “Night Stalker” e “Vampire of Düsseldorf”, o guitarrista e vocalista Corporate Death falava sobre os “homenageados” das músicas e seus feitos doentios. Espetacular.
Depois do show sensacional do MACABRE, descemos rápido para ver (ouvir seria a palavra mais correta, mas foda-se) o INCANTATION. Do pouco que consegui ver, que foda notar John McEntee usando uma camisa do LEPROVORE. John foi um grande apoiador da antiga banda baiana Incrust, e pelo visto continua atento à brutalidade do Death metal feito na Bahia. Já o som estava sensacional, entregando todo o peso e a podridão da banda. Tocaram o segundo álbum “Mortal Throne of Nazarene” na íntegra e ainda fizeram o bis com “Shadows of the Ancient Empire” e “Impending Diabolical Conquest”, ambas do álbum “Diabolical Conquest” de 98.

Enquanto isso, o palco principal estava pronto para os pioneiros do Thrash, a banda OVERKILL, que entrou no lugar do Watain. Tiraram, inegavelmente, o melhor som do fest até aquele momento. Com o som absurdamente alto, porém muito nítido, a banda passou por cima do público como um rolo compressor com músicas clássicas como “Rotten to the Core”, “Bring me the Night” (que abriu rodas de mosh por todo o fest), “Deny The Cross” e tantos e tantos outros clássicos da banda. Saí dali como um zumbi, mas ansioso pelo último dia de SETEMBRO NEGRO.
DIA 07/09 – Domingo
Gustavo Alves:

Abrindo os trabalhos do terceiro e último dia do festival, tivemos os Sul Matogrossenses do MÖRKALV , com seu black metal bem elaborado e com influência escandinava (no som e nas letras). Confesso que conhecia pouco sobre a banda e os achei um pouco travados nas duas primeiras músicas de seu set, mas aos poucos foram se soltando e interagindo mais com o público presente. Destaque para o habilidoso baterista Joey Colman.
Lord Vlad:
Enquanto um bocado de cérebro de geleia estava na Avenida Paulista celebrando a Independência do Brasil embaixo de uma bandeira gigante dos EUA, me forcei a chegar cedo ao Festival porque eu jamais estarei na mesma cidade que o THE MIST e não irei a um show deles.
Usando a capa do EP “The Circle of the Crow” no telão durante todo o show, o THE MIST era uma das bandas que eu mais queria ver, principalmente pela entrega sempre matadora de Vladimir Korg. Totalmente fora da curva, Korg parece cada vez mais precisar de uma camisa de força enquanto canta, com suas expressões de tormento e sua voz inigualável. O set da banda ao que parece teve que ser ainda mais reduzido e a banda preferiu tocar quase todo o EP, a nova “Gepetto’s Song” e somente duas músicas antigas “The Hangman Tree” e “Peter Pan Against the World”. Sei que em um festival underground tocar algo mais novo é fundamental para que a banda mostre o quanto ainda é relevante, mas todo mundo ficou com aquela sensação de que o set deveria ter privilegiado os sons antigos. Execução perfeita dos músicos, palco lindíssimo, mas o THE MIST (em minha opinião) merecia um set maior pela importância histórica. Até por isso mesmo devem ter sido escolhidos para tocar mais cedo e assim criar coragem para que as pessoas chegassem logo no início do domingo. Tocaram para no máximo 1/3 do público das bandas que tocaram mais tarde e ficou essa sensação de que o set list não foi bem escolhido.
No palco “Infernal” começou logo na sequência o show brutal Death metal do ESCAFISM do Amazonas. Com toda certeza esta foi a edição com a presença de mais bandas vindas do Norte e Nordeste do país. Qual não foi minha surpresa ao perceber que o atual baixista é meu amigo Matheus Java da banda Katharzian, que levou o Malefactor para Manaus alguns anos atrás. O ESCAFISM mescla técnica, brutalidade e velocidade, a base elementar de uma boa banda de brutal Death metal. A plateia os recebeu com muita força, e como ainda tinha gente chegando, pude ver o show com tranquilidade e atenção. Show muito bom.

No palco principal chegou a hora dos mexicanos do ASH NAZG BÚRZ e foi realmente uma grata surpresa. Mesclando black metal com blast beats a partes mais cadenciadas, o vocalista Mouth of Sauron sabe como se comunicar muito bem e pude perceber que a maioria no público, apesar de não os conhecerem, lhes deu uma ótima recepção, deixando claro a qualidade da apresentação dos caras. Já posso sonhar com um show dos mexicanos do The Chasm?
Descendo pela milésima vez ao subsolo, nunca tinha visto ao vivo a banda ORTHOSTAT com sua pegada Death metal na linha musical do Incantation com letras baseadas em antigas civilizações e o cosmos. Óbvio que minha opinião poderia estar comprometida já que o guitarrista/vocalista David Lake é meu primo, mas seu nível no quesito técnico, bem como sua performance ao vivo merece todos os cumprimentos da cena underground. Que banda foda. Todos os músicos tocam um absurdo e conseguiram tirar, senão o melhor, um dos melhores sons do palco “Infernal”. Fiquei de cara como já estão preparados para voos mais altos. Já estão saindo para mais uma turnê e prevejo que ainda irão muito além.

Quando retornei ao palco principal, já pude ver o quanto lotado estava o festival. Já não se viam locais com espaço para caminhar tranquilamente, nem mesmo no andar de cima quando uma grande parcela já estava com dores pelo corpo e conseguiam sentar dentro dos vários camarotes. Foi ali no andar de cima que consegui um ótimo local para assistir o showzaço do DARKENED NOCTURN SLAUGHTERCULT. Liderados pela entidade Onielar desde seu início em 97, uma lutadora que venceu um câncer e que perdeu um de seus melhores amigos há pouco mais de uma semana (Jürgen Bartsch – de sua outra banda, Bethlehem), ela é uma força demoníaca em constante transe para com o público. A banda é uma máquina de guerra lançando bombas atômicas em formas de notas musicais sobre a plateia como nas músicas “In The Hue of the Night” e “Imperishable Soulless Gown”. Vale lembrar que quem comanda as baquetas nas apresentações é Toni Merkel, baterista do Sodom há 05 anos. Indiscutivelmente um dos melhores shows de todo o festival.
Gustavo Alves:
Apesar de ser um grupo sueco, o TYRANEX, além de seu som rápido e empolgante, atraia certa curiosidade pela presença de um brasileiro na formação, o guitarrista Will Tomao. Mas assim que a intro ‘Overture’ começou a rolar nos PAs, a baixista/vocalista Linnea Landstedt tomou a atenção pra si, e comandou a performance do quarteto, que teve como foco divulgar o álbum mais recente “Reasons For The Slaughter” (2023) , cujas músicas foram responsáveis por metade do setlist (apesar de não terem minha favorita do álbum, a diversificada “Full Circle”), que também abrangeu músicas dos outros três álbuns dos europeus.
Lord Vlad:

O Thrash dos norte americanos do POWERTRIP me deixou de queixo caído. Além de a banda tirar um som espetacular no palco principal, descobri que meu distanciamento da cena Thrash me fez perder muitas bandas boas. Embora eu tenha ficado impressionado com o ex-vocalista, o falecido Riley Gale (que em alguns momentos me lembrava até Max Cavalera), confesso que nunca parei realmente para ouvir os discos dos caras. Ao vivo eu achei perfeito. O atual vocalista Seth Gilmore manteve esse tipo de vocal Thrash mais sujo, flertando com partes mais Death metal. Justamente seguindo a linha do mestre Max nesse quesito. Mas que showzaço. Além da porradaria sem tempo pra respiração e da ótima presença de palco da banda toda, foi a voz de Seth que realmente me deu essa sensação de estar ouvindo algo muito superior à maioria dos vocais de Thrash que conheci nos últimos 15 anos. Repetindo, que showzaço.
Gustavo Alves:
Talvez como prova de que o Fest é igual para todos e a questão do palco do subsolo tenha sido muito mais pela única possibilidade do que por qualquer desleixo, afinal a organização do SETEMBRO NEGRO é tão boa ou melhor do que a maioria dos fests que na Europa e na América do Sul, o grande chefão Mr. Edu Lane colocou sua própria banda para tocar no palco “Infernal”. E apesar do cansaço e do local já cheio, fui conferir um pouco da apresentação do NERVOCHAOS. De cara, já vi várias pessoas ostentando a camisa do trio, e até mesmo um rapaz com o logo tatuado na mão. Nesta apresentação, era a reestreia do vocal/guitarra Guiller (em sua terceira passagem pela banda), que também conta com o Corvo no baixo (aliás, o mesmo está cada vez mais afiado nos backing vocals) e o já citado Edu na batera. Mostraram a mesma competência de sempre, mas imagino por ser a estreia deste line-up estavam mais contidos que o normal, algo que imagino que será sanado em breve, já que são umas das bandas que mais tocam na nossa cena.
Lord Vlad:

Era chegada a hora então de ver a maior banda de Heavy Doom da história, os suecos do CANDLEMASS com praticamente a mesma formação de 1986 e 1987 (Já que em 87 o Bruxo Messiah Marcolin entrou para a banda). Pude ver os caras no Monsters of Rock 2023 à luz do dia, mas o Candlemass tem que ser em local para 2000/3000 pessoas e com um volume que doa o peito. Já entraram com “Bewitched”, levando os presentes à loucura. Tudo estava perfeito. Som, luz e Johan Langquist cantando tão bem ou até mais do que na época do “Epicus Doomicus Metallicus”. Até mosh e stage dive estavam rolando em um show de Doom. Surreal. Foram emendando clássico atrás de clássico. “Dark Are the Veils of Death”, “Mirror Mirror”, “Under the Oak”, “Crystal Ball”, “The Well of Souls”. A voz do público chegava a cobrir até mesmo a voz de Johan. Deram o tiro de misericórdia com a mais que perfeita “Solitude”. A única coisa ruim deste show foi que acabou. Perfeito do início ao fim. Arrisco-me a dizer que foi o melhor show de todo o fest.
Quem me conhece sabe (essa frase geralmente vem seguida de alguma besteira) o quanto sou fanático pelo metal extremo da Grécia. Desde muito jovem que sonho em ver um show do VARATHRON. Perdi duas oportunidades no Brasil e não acreditei quando vi que estariam no cast em 2025. Fiquei triste em saber que teria que ver no palco “Infernal”, ainda mais que pela hora ficaria quase insuportável ver este show lá embaixo, justamente quando a casa já estava realmente muito cheia. Enfrentamos a multidão e conseguimos um bom lugar para vermos (ouvirmos) o show. Que show sensacional. Valeu as décadas de espera. Em determinado momento meu irmão desde a adolescência, Zulbert (LEPROVORE), me diz: “Quem diria hein? Em 93 nem a gente acreditava que íamos ver um show do Varathron”. Abriram com “Hegemony of Chaos” do ultimo álbum “The Crimso Temple”, seguida de “Tenebrous” que abre o disco “Patriarchs of Evil”. Mandaram ainda “Unholy Funeral” e “Nightily Kingdoms” do “His Majesty…”, “Saturnian Sect” do álbum “Patriarchs.”, seguiram com mais duas novas e finalizaram com as fantásticas “Son of the Moon Act 3” e “Genesis of Aprocryphal Desire”, saindo do palco enquanto tocavam no PA as instrumentais “Sic Transit Gloria Mundi / Outro”. Hail Greece! Hail Varathron!

Fechando o festival, a banda mais aguardada por mim e acredito que pela maioria, CELTIC FROST, mas sob o nome TRIPTYKON, que todo mundo chama de CELTIC FROST no final das contas. Assisti 80% do show ao lado de Stefan “Necroabyssious” e Stratos Kountouras do VARATHRON, que subiram correndo do subsolo do Fest e ainda usando corpse paint para não perderem o show dos suíços. Começa a avalanche sonora da “Geada Celta” e logo de cara meteram cinco clássicos imortais: “Circle of the Tyrants”, “The Usurper”, “Return to the Eve”, “Into the Crypts of Rays” e “Procreation (of the Wicked)” (na versão mais Sepultura possível como bem me apontou meu irmão Mateus “Spyke”). Partiram para duas não tão conhecidas, “Ground” do álbum “Monotheist” e a dispensável “Sorrows of the Moon” do “Into the Pandemonium”. Prosseguiram esfriando a plateia com a ultra mega lenta “A Dying God Coming into Human Flesh”. Eis que surge “Dethroned Emperor” e a plateia de zumbis volta à vida, buscando os últimos resquícios de energia. Antológico. Peso de toneladas. “Dawn of Meggido” levou meu pescoço a gritar socorro, mas ao invés de tocarem “Necromantical Screams” como fizeram em seus últimos shows, pularam para “Synagoga Satanae”, talvez a música mais doom de toda a carreira de Tom Warrior. Definitivamente não é uma música para encerrar o show. Que troca horrível. O CELTIC FROST fez um show nota oito, quando podia ter feito nota 10, mas por uma opção artística. A realidade é que como era um show tributo a eles mesmos, talvez fosse uma chance de repetir a sensação nostálgica total de quando Tom Warrior trouxe o Triumph of Death para o SETEMBRO NEGRO em 2023, que obviamente, todos sabem que é o Helhammer com outro nome. Warrior quase sempre foi um gênio imprevisível e por isso, como todo gênio imprevisível, comete muitos acertos e muitos erros. Nota oito é uma nota muito alta e que eu darei ao CELTIC FROST e ao Festival como um todo. Foi pro trono. Três dias sensacionais para a música das trevas.

E assim acabou mais um SETEMBRO NEGRO.
Cheguei a minha casa ontem ainda bem cansado mas satisfeito. Continua sendo o melhor festival underground do país, colocou gringo famoso e banda brasileira “iniciante” tocando nas mesmas condições e no mesmo palco do subsolo, e colocou bandas desconhecidas ao lado de grandes medalhões no palco principal, mantendo viva a ideia de que todos somos underground e por isso, ninguém merece regalias, mas também merece respeito. Como frequentador fiel confesso que preferiria que fosse apenas um palco com a estrutura perfeita, mas irei novamente aos próximos que acredito que virão. Horários 666% respeitados, e uns rangos gostosos (com pouca variedade) e bebida com preços muito justos e de qualidade para um evento desse porte em São Paulo. Banheiros e todo o espaço sempre limpos. Zero brigas. Muito merchandise de várias partes do mundo embora eu esperasse mais variedade já que nem todas as bandas levaram LPs e Cds, algumas levaram somente camisetas. Fora isso, mais um fest sold out, amigos de tudo que é canto do planeta se vendo pela primeira vez ou revendo após alguns anos. Que venham muitas outras edições e que eu possa estar em todas elas.
Obrigado Tumba Productions. HAIL SETEMBRO NEGRO!
Galeria de fotos por Gustavo Alves ( Underground Memorabília):
Galeria de fotos por Nanda Arantes:
Galeria de fotos por Igor d’Ávila (Delicta Carnis band):








































