JULIANA: “Ao ser tão gentilmente convidada pela Rah Brilhante para contar um pouco da minha trajetória nesta coluna fiquei lisonjeada, mas também um pouco insegura: será que eu sou underground o suficiente para estar aqui?”
Mesmo após mais de vinte anos de vivência no underground, Juliana ainda enfrenta, vez ou outra, a conhecida síndrome da impostora. Com bom humor, costuma brincar: “Quem sou eu na fila do pão para falar sobre algo tão complexo?”. Pesquisadora dedicada, ela conta que, assim como muitos nomes que hoje se destacam na cena, começou a ouvir metal cedo, por volta dos 13 anos. Diferente do clichê do irmão mais velho ou do tio roqueiro, foi a internet — ainda em seus primórdios — que lhe apresentou o gênero. Naquele tempo, baixar um videoclipe podia levar dias, e o computador invariavelmente ganhava uma coleção de vírus como “bônus”. Seu nickname era Mitra, nome pelo qual alguns amigos das antigas ainda a chamam.
Durante essa mesma fase, os blogs surgiam como uma grande novidade. Curiosa e conectada, Juliana mergulhou de cabeça nas possibilidades que a nova ferramenta oferecia. Anos mais tarde, esse interesse se transformaria em uma ponte entre o passado e o presente.
Em 2024, nasceu o Curitiba Metal, fruto do desejo de documentar aspectos socioculturais da cena local. A proposta unia pesquisa e vivência: Juliana adotou a metodologia da observação participante, tratando cada saída para shows — ou, como ela mesma define, cada “rolê” — como uma verdadeira pesquisa de campo. As anotações, reflexões e experiências foram ganhando forma de crônicas, publicadas em blog.
Essa abordagem teve impacto não apenas acadêmico, mas também pessoal. Ajudou Juliana a recuperar a coragem de sair sozinha, especialmente após o isolamento da pandemia e dois anos intensos de dedicação à tese de doutorado. Curiosamente, antes desse período, ela nem era tão ligada em shows ao vivo — evitava-os, em parte pela falta de companhia, mas principalmente pelo receio do desrespeito que muitas mulheres ainda enfrentam ao irem sozinhas a eventos.
Sua trajetória no underground, iniciada por volta de 2005, também foi marcada por episódios de racismo que, por um tempo, a afastaram desses espaços e a deixaram desmotivada. Ainda assim, a paixão pelo som jamais enfraqueceu. Hoje, Juliana retorna aos rolês com outro olhar — mais crítico, mais consciente — e escreve não apenas sobre as bandas e os shows que presencia, mas também sobre as desigualdades e tensões sociais que persistem no universo do metal extremo.
Como mulher negra inserida no underground de uma cidade conservadora como Curitiba, Juliana transforma sua escrita em uma ferramenta de compreensão e denúncia das dinâmicas que atravessam esses espaços. Por meio de suas palavras, busca revelar o que muitas vezes é invisível e provocar reflexões sobre as estruturas que moldam a cena. Dessa forma, contribui para que novas narrativas floresçam onde, por tanto tempo, tantas vozes foram silenciadas.
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