A horda paulistana AETERNUM MAUSOLEUM pode ser facilmente caracterizada como uma emanação da lendária horda MAUSOLEUM, idealizada pelo guitarrista Douglas, seu filho Felipe e o “mago” do Underground Fernando Iser.
O álbum de estreia, da horda, intitulado “Ecos do Panteão”, que tenho em minhas mãos nesse momento é um trabalho que não apenas honra o legado do MAUSOLEUM, mas o expande, com uma produção superior e uma sonoridade mais densa e sólida. Alguns pontos que eu gostaria de comentar:
Com relação à Sonoridade e Composição, o álbum é fortemente ancorado no Black Metal de escola grega (helênica), bebendo da fonte de bandas clássicas como ROTTING CHRIST, VARATHRON, NECROMANTIA e, inclusive, do próprio MAUSOLEUM.
A participação do Fernando Iser no projeto é crucial, pois ele acrescentou vozes, teclados e arranjos que trouxeram uma atmosfera fúnebre, profana e muito técnica às composições originais de Douglas e Felipe. A bateria de Marcelo Kengi também se destaca pela técnica impressionante que complementa o peso das composições.
Já no que tange a Temática e Letras, o universo lírico do disco cruza a mitologia grega com figuras ancestrais, arquétipos sombrios e bruxaria. Um diferencial importante é a escolha de cantar em português, com uma dicção clara para que o ouvinte compreenda as mensagens sem a necessidade obrigatória de um encarte. Faixas como “Suprema Nereida Atlântica” e “Erebos” exemplificam essa exploração de divindades antigas e do submundo.
Comentando sobre Arte Gráfica, a capa foi criada pelo artista grego Panos Sounas (conhecido por trabalhos com o NECROMANTIA), que utilizou tons de azul característicos para representar figuras como Prometeus acorrentado e a Nereida. Não posso deixar de comparar, como, aliás, fiz no programa “Na Lamina da Foice” o estilo visual à estética das HQs de “A Espada Selvagem de Conan”, ressaltando o tom de fantasia obscura do trabalho.
E impossível deixar de comentar sobre as Participações e Tributos nesse álbum. O álbum inclui uma colaboração especial de Jim Mutilator, um dos membros fundadores do Rotting Christ, que cedeu a letra para a música “Rei das Sombras”. Além disso, a banda incluiu um cover de “Holy Funeral” do Varathron, adaptado para o português como “Funeral Maldito“, e a faixa “Ode Helênica“, que serve como um tributo explícito à cena da Grécia.
Vamos agora aos meus comentários a respeito De algumas das faixas do álbum “Ecos do Panteão”. Como já comentado, eu percebi um cuidado minucioso com a temática, a dicção, as influências helênicas e o legado do MAUSOLEUM.
Abro meus comentários com “Suprema Nereide Atlântica”: Praticamente um “hino”, esta faixa é uma invocação de uma entidade feminina. Como o Fernando Iser explicou na entrevista no “Na Lamina da Foice”, a letra reflete uma jornada pelos oceanos para invocar divindades antigas do fundo do mar, escrita sob uma perspectiva de “visão periférica” da cena. Achei maravilhoso o uso de reverb nos vocais, os riffs marcantes e a técnica da bateria, remetendo bem a sonoridade da escola do metal extremo brasileiro do início dos anos 90.
Em seguida vou comentar sobre “Erebos”. Uma das primeiras composições de Douglas e Felipe, posteriormente desenvolvida por Fernando, a música representa o lado sombrio do submundo mitológico, com a intenção de ser mais obscura do que as representações comuns da figura de Erebos que encontramos por aí. A bateria do Marcelo Kengi nesta faixa é realmente “demoníaca” e a dicção do Fernando Iser me parece intencionalmente lapidada para que o ouvinte entenda o português claramente, apesar da complexidade do idioma no metal extremo.
A próxima que vou comentar é “Funeral Maldito”. Trata-se de uma versão da música “Holy Funeral”, da banda grega Varathron, adaptada para o português. Fernando buscou incorporar o timbre de Stefan Necroabyssious, priorizando um feeling mais pesado e métricas diferentes das tradicionais. Segundo informações do Fernando, na citada entrevista, o próprio Stefan, ao saber da versão, demonstrou interesse em receber o material físico.
Um comentário que eu gostaria de fazer sobre a faixa “Noctara”, é o de que esta música foi inspirada no poema de uma escritora do underground nacional. A letra utiliza a figura da coruja “rasga-mortalha” (Noctara) para criar uma atmosfera fúnebre e profana, baseada na lenda de que o pássaro anuncia a morte.
Por fim eu gostaria de comentar sobre 03 faixas que tem alguns atributos, digamos, especiais:
Primeiro vamos falar de “Ode Helênica” que foi a última faixa criada para o disco e serve como um tributo explícito à Grécia. A letra é uma “costura” de títulos de álbuns e músicas de bandas clássicas como ROTTING CHRIST, VARATHRON, ZEMIAL E NECROMANTIA, simulando um ritual em uma floresta. Simplesmente maravilhoso!
Depois vamos para “Rei das Sombras”: Esta faixa conta com a participação de The Magus (Jim Mutilator), fundador do ROTTING CHRIST, que cedeu uma letra inédita de seu arquivo pessoal intitulada “The King of Shadows”, traduzida para o português pela banda.
E pra encerrar temos “Olhos de Serpente” que é a única música do álbum que foge da temática mitológica central, sendo inspirada no universo de Conan, o Bárbaro, de Robert E. Howard.
Além dessas, o CD conta com algumas faixas adicionais (totalizando 10 ou 11 músicas), já que o vinil possui uma limitação de espaço para apenas 8 faixas. Inclusive um cover do lendário NEBIROS da Colombia para a faixa “Nebiros“.
O vinil, aliás, é maravilhoso e vale cada centavo!
Realmente um trabalho pra ser lembrado por gerações! O material está sendo lançado em CD pela fudida Brazilian Ritual Records e em vinil (limitado a 300 cópias) através de uma parceria entre os selos Brazilian Ritual e Gerunda Produções
Pra deixar um aperitivo, segue o single de “Suprema Nereide Atlântica”:



