A horda soteropolitana ETERNAL SACRIFICE pode ser caracterizada como uma das entidades mais produtivas e consistentes do Black Metal nacional, mantendo seu legado de maldade desde 1993.
O novo álbum, intitulado “Hierophant”, é um trabalho que não apenas consolida sua trajetória, mas a expande para um território de caos e destruição, apresentando uma sonoridade consideravelmente mais pesada e extrema que seu antecessor, Inclinavit Se Ante Altare Diabolvs Est Scriptor… Regere Sinister.
Com relação à Sonoridade e Composição, o álbum marca uma mudança de paradigma, afastando-se um pouco do tom puramente operístico para algo mais cinematográfico e visceral. A participação de Chemosh Persponne foi crucial; o baterista e multi-instrumentista assumiu um papel central na composição, gravação e arranjos ao lado de seu pai, o guitarrista Charles.
Nesta obra, as guitarras ganharam maior evidência, com bases soladas e solos marcantes, enquanto os teclados de Kastiphas atuam de forma mais climática e atmosférica, servindo como pano de fundo para as vocalizações densas de Anton Naberius.
De certa maneira essas mudanças apresentam uma ETERNAL SACRIFICE bastante diferente do conceito que eu sempre defendi, que era uma espécie de MERCYFUL FATE Black Metal com uma qualidade técnica próxima do Power Metal Melódico. Mas não me entenda errado: A técnica TODA ainda está lá, mas nesse álbum, o lado Dionisíaco, do extase e do ódio, supera o lado Apolíneo, mais racional e consciente. Embora tecnicamente perfeito, é quase onírico e instintivo.
Já no que tange à Temática e Letras, o universo lírico de “Hierophant” é um rito profundo que utiliza símbolos do Tarô (especialmente as visões de Aleister Crowley), da Cabala invertida e da Alquimia. O conceito gira em torno do Hierofante como um “legislador do sagrado”, desconstruindo a ilusão das instituições religiosas e apresentando o sacrifício como um instrumento de poder, e não de redenção. As letras, carregadas de erudição e blasfêmia, funcionam como um tratado (Toth’s Letters) que rege processos rituais e de transcendência.
Comentando sobre a Arte Gráfica, a capa foi assinada pelo artista Rubens Azoth, trazendo uma estética que reflete a natureza ritualística e obscura do trabalho. A identidade visual, somada à narrativa das faixas, reforça a transição do grupo para uma experiência de imersão absoluta, onde a imagem e o som convergem para uma “Opera Negra” que não busca o conforto, mas a transformação pelo conhecimento e pela dor.
É impossível deixar de comentar sobre a Produção e os Lançamentos deste álbum. Gravado no Live Evil Studio, o material exibe uma evolução técnica notável, garantindo que cada camada sonora seja sentida com precisão. O álbum está sendo lançado pela Brazilian Ritual Records, reafirmando a parceria de longa data da banda com o selo.
Vamos agora aos meus comentários a respeito de algumas das faixas de “Hierophant”. Percebi um cuidado minucioso na construção de cada ato, onde nada é decorativo e cada verso atua como uma lâmina.
Já adianto que vou me ater às faixas já lançadas como single e à disposição do ouvinte. Quanto às demais, eu realmente espero que você adquira este material e tire suas próprias conclusões. Afinal, o conceito de perfeição é subjetivo.
Abro meus comentários com “Toth’s Letters (Clavem ritvvm in verbo occvlto dedi tibi XX)”: Com quase 8 minutos de duração, esta faixa é um manifesto ritualístico sobre as leis invisíveis que regem o poder e a fé. Musicalmente, ela traz o equilíbrio perfeito entre a rispidez do Black Metal e trechos arrastados que beiram o Doom Metal, demonstrando a versatilidade vocal de Naberius. É uma composição que fixa na memória por suas melodias marcantes em meio ao caos.
Em seguida, comento sobre “Under the Shroud (Corpvs tvvm nvdvm in calcvlo et calice meo abvndans tvo immacvlato sangvine DCLXVI)“. Esta faixa é descrita como um rito de condenação que desmonta o sagrado institucionalizado. Ela aprofunda a estética ritualística da horda, utilizando o sangue, o fogo e o silêncio para legitimar uma ordem superior invisível, servindo como uma antecipação implacável do universo conceitual do álbum.
Por fim, gostaria de destacar “Thargirion (The highest scale of the tree of death, the one who opposes Tiphareth)“. Esta música serve como o último portal antes da conclusão da jornada do álbum. É uma faixa avassaladora que evoca o sol negro e a essência do mago, unindo a violência sonora a uma profundidade lírica que desafia o senso comum e encerra o disco com um sentimento de imersão absoluta.
Quem acompanha o meu trabalho sabe da minha predileção pelo Black Death Metal, pela música mais rústica, mais lo-fi e brutal e ofensiva possível. Mas trabalhos como este me fazem lembrar o que Nietzsche dizia: O homem é algo a ser superado. Fui brutalmente atropelado pela incontestável sentimento ritualístico e extático que esse álbum transmite.
Realmente mais uma obra-prima da ETERNAL! Eu costumo dizer que a ETERNAL SACRIFICE vivia na eterna busca da perfeição. Isso é passado: Esse “Hierophant” superou a perfeição!
O material está disponível em CD pela Brazilian Ritual Records, e é um item indispensável para quem busca o verdadeiro Black Metal ritualístico



