Fazia tempo que eu não ouvia algo que me chamasse tanto a atenção como esse debut do TORCHES OF NERO. Eu sei, eu tenho cansado de falar, pra quem quiser ouvir, que esse ano tem sido excelente em lançamentos. Muito melhor que o ano passado. Esse ano eu já fiquei muito bem impressionado com álbuns como o “Hierophant” da ETERNAL SACRIFICE, o “Ecos do Panteão” do AETERNUS MAUSOLEUM, o último álbum do DEATHRAISER e com o último single da HECATE, entre outros.
Todos os materiais acima são maravilhosos e superaram ou, no mínimo, atingiram a minha expectativa. Mas todos, em sua excelência, estão dentro do que se esperava dessas bandas.
O debut álbum da TORCHES OF NERO, denominado “Martyr of Disbelief: The Exposure”, me trouxe aquela sensação de “porra…nunca ouvi algo assim”. Claro que conseguimos ver todas as influências que construíram a identidade da banda: desde o ROTTING CHRIST e o MAYHEM até o SARCÓFAGO e o SADISTIK EXECUTION, passando pelo VON, PROFANATICA e até um CONQUEROR…VENOM, REVENGE, HOLOCAUSTO.
Tá tudo ali…E ainda tem uma crueza, uma distorção áspera, um ódio que me remeteu ao Hardcore 82, de bandas como ANTI CIMEX, MOB 47, RATTUS, até um RATOS DE PORÃO, do início.
O som da TORCHES OF NERO é incômodo, doloroso, angustiante… Tem umas mudanças de andamento que parecem a passagem do esculacho pro açoitamento. Tem umas passagens que trazem a mesma sensação que aquele momento em que descobriram uma merda que você fez e parece que tá todo mundo te olhando e te condenando.
Menções às 03 grandes religiões monoteístas, literalmente expondo suas contradições, tanto politicas como religiosas e humanas, permeiam esse trabalho…E te fazem sentir aquela desolação básica de quem acordou e viu que…não adianta.
Em relação às faixas de referência, eu realmente não gostaria de fazer isso, pois eu gostei de, literalmente, tudo. Mas vou seguir o meu protocolo das 03 faixas: vou começar com a mais hardcore, “Yeshuaitan – Messiahrlatan”, seguir pela mais brasileira, “HVHY” e finalizar com a que tem a letra que eu mais gostei, “The Rat”. Mas repito, se for fazer essa relação daqui a 20 minutos eu mudo todas as faixas.
Comentando a respeito da parte gráfica, de novo, tudo remete à ofensa, a profanação e a mais odiosa blasfêmia. Ao mesmo tempo que trazem à memoria contextos sacros, essas conceitos são abastardados no limite máximo do desprezo. E tem um detalhe especial: Muitas dessas ofensas gráficas nos mostram alguns ‘easter-eggs” de clássicos do metal extremo. Enfim, é algo como se Van Gogh, sob efeito do Absyntho, tivesse ouvindo Black Metal, enquanto pinta.
Enfim, é um álbum de sublimação. É como se a TORCHES OF NERO, fosse uma terapia de grupo, tentando entrar em catarse e expulsar séculos de doutrinação de rebanho.
Não tem virtuose aqui, tem instinto…Sabe aquela coisa do tubarão, que quando sente cheiro de sangue, parte pra cima? É isso que você encontra aqui. Música extrema, orgânica, confrontadora.
Com certeza Lúcifer – aquele que foi o primeiro rebelde e que desafiou toda a ordem estabelecida, todo o senso de rebanho – teria orgulho desse material. Eu, particularmente, tenho.



