Por Robson Desgraça *
Após ler esse conto de Elimar Oliveira Jr, a imagem da obra “Guernica” de Pablo Picasso não saía de minha cabeça.
A pintura é uma referência ao bombardeio na cidade de Guernica (região basca) durante a Guerra Civil Espanhola. A poética pictórica, estilizada ao extremo, é repleta de dor, tortura e morte de inocentes. Em meio a esse caos a gente vê um olho com uma lâmpada no lugar da íris e, ao lado, um candeeiro. É uma grande ironia à sociedade ocidental, uma vez que a razão é base nesse nosso mundo louco; e na Grécia Antiga o olho e a luz eram símbolos de racionalidade. É como se a pintura nos dissesse: “Esse mundo se orgulha tanto de ser racional, mas olha como é tão irracional massacrar inocentes!”
Eu vi nessa ironia um elemento balizador da simbologia que vigora no conto de nosso querido Mazinho (Elimar Oliveira Jr). A escrita do soturno Amraking opta trafegar por rumos ilógicos e em situações psicodélicas. A pretensa racionalidade incrustada nesse nosso cartesiano mundo não evitou o capitalismo e a divisão cruel que o mesmo reafirma. Então, “A Viagem”, lisérgica e noturna de Mazinho vai ao encontro daqueles que habitam as sombras do capitalismo periférico. Desta forma Feira de Santana (BA) e seu povo são homenageados por meio de uma poética psicodélica desenvolvida numa caminhada por ruas e becos que circundam a rodoviária da cidade considerada Princesa do Sertão baiano. O passeio noturno tem forte relação com um mundo onírico e a escrita de Mazinho confronta a “lógica” sonial com a realidade dos guetos, trazendo à tona bêbados, trambiqueiros, feirantes, prostitutas, trabalhadores do comércio, praticantes do candomblé e loucos de rua. A cultura popular local é lembrada em referências ao mundo dos orixás (Iemanjá), lendas urbanas e situações ligadas ao cotidiano da cidade. Parte da conexão entre o onírico e essa força da cultura popular está na citação do painel de Lenio Braga na rodoviária de Feira. O olhar alucinado do personagem central encontra vida nos elementos pictóricos da composição, contribuindo para a semântica escolhida por Mazinho.
O painel de Lenio Braga foi o estalo que me levou a”Guernica” e a toda uma construção conceitual erguida em “A Viagem” , propondo – ironicamente – (a meu ver) a desconstrução da lógica vigente. Meu argumento apontando para a crítica a uma visão de mundo pretensamente racional se fortalece diante da passagem que cita uma voz feminina chegar aos ouvidos do personagem central. A voz diz :“Deixe que sua intuição o guie e não as superstições de charlatões.” O conto propõe um sensível mais intenso que o inteligível, lidando com um espaço-tempo confuso.
Em suma, o conto aqui analisado é um freio de arrumação, uma cabeça que sacode de um lado pro outro, tentando bagunçar as ideias em busca de uma nova organização, um novo idearium. Intuitivamente, Elimar Oliveira Júnior, em seu pequenino conto lombrado, me entregou uma grande ponte entre Guernica e Feira de Santana, instigando em mim um exercício estético prazeroso e questionador. “A Viagem” acaba sendo um texto que se utiliza da irracionalidade para trazer pitadas de lucidez nesse mundo insano.
Para aquisições: @elimarolibeirajr
* Robson Desgraça é fanzineiro, editor do Desgraça Zine, artista visual/ilustrador underground e poeta.
Milita no subterrâneo contracultural desde o início dos anos 90 e acredita que o Metal é ferramenta subversiva de combate ao status quo e suas formas de opressão (cristianismo, islamismo, judaísmo, fascismo…).




