Eu sempre me encontro divagando sobre sobre os prós e contras do underground do metal dos anos 80 e 90 em relação a toda a revolução digital pós 2010.
Eu vejo os anos 80 de uma maneira mais romantica, diretamente derivada da pouca idade que eu tinha na época. Como era apenas um adolescente, era muito fácil viver o metal 24 horas por dia. E esse 24 horas por dia, até pela dificuldade da vida na época – tanto em termos econômicos, quanto de acesso a informação, tecnologia e equipamento – era suprido por horas e horas gastas escrevendo cartas, atualizando catálogos de trocas de fitas,montando artesanalmente os zines e os flyers que direcionavam o fluxo de informação de então.
Uma simples troca de fitas envolvia várias etapas como a compra da fita, a gravação em tempo real – você tinha que ouvir todo o album, ou demo em questão pra gravar – a nominação das faixas e bandas, a embalagem e o envio. Depois envolvia todo o processo contrário. Quando se falava de uma troca de material com tape-traders do exterior então, essa chegava a demorar de 03 a 06 meses.
Um fanzine era normal sair uma edição por ano, já todas as entrevistas e matérias tinham que ser elaboradas a mão, enviadas via correio -muitas nem sabiamos se chegavam – e aguardadas…Custos de correio, cola por cima dos selos, flyers e mais flyers. E depois datilografar as respostas, montar as paginas, fazer o boneco, procurar uma fotocópiadora barata e com qualidade decente. Acho que nunca fiz um zine que tivesse saido mais de 100 cópias.Hoje vejo meus textos na LUCIFER REX atingirem mais de mil pessoas num dia.Era comum também zines com uma ou duas edições apenas, em cerca de 3 ou 4 anos de existência.
Shows, então, eram dois ou três por ano e uma dificuldade monstruosa pra deslocamento, alimentação, estadia…Dormir debaixo de arquibancada e em rodoviária era comum. O público na época parecia grande, mas como os eventos eram poucos, acho que era porque juntava todo mundo.
Ensaio de bandas então, era absurdo…Tinha banda que conseguia ensaiar uma vez por mês. Tudo improvisado: bateria feita de lata em funilaria, pratos usados em que se cortavam as rachaduras, guitarra, baixo e vocal numa mesma caixinha de som.
E quando se gravava o tal do “demo-reh”, era com gravador analógico. Foi uma revolução quando alguém conseguiu uma mesa de som pra gravar direto. Não existiam estudios de ensaio e o equipamento era extremamente precario. Meu primeiro pedal era de madeira e o som parecia o de um barbeador.
Como se pode ver, tudo era muito dificil, muito demorado, muito escasso,muito artesanal e ocupava praticamente todo o tempo da gente…E era uma puta ansiedade esperar as cartas chegarem com as entrevistas e as fitas das trocas.Meus amigos mais próximos tinham uma piada de que, quando eu chegava, tinha festa no correio! Mas era tudo selo com cola em cima!
Dai chegaram os anos 90 e a vida deu uma melhorada – acho que porque comecei a trabalhar em empregos formais e comecei a ter um pouco mais de dinheiro -. Mas também a informação começou a chegar melhor de fora, a distribuição de revistas melhorou e existiam várias – não só a Rock Brigade, que a gente precisava esperar alguém trazer dos grandes centros – os equipamentos deram uma melhorada e já até tinha gente que sabia gravar.
Na metade dos 90 já dava pra fazer zine com impressora. Teve bandas que explodiram, tanto nacionais como internacionais, como Sepultura, Metallica, Angra…Tinha banger pra todo lado. A MTV ajudava pra caramba, tocava no rádio, tinha revista que vinha com cd, com dvd. Começou a aparecer banda gringa pra caramba, casas de show abriram…Por um tempo, até a sua tia tinha ouvido falar de Sepultura.
E isso foi bom até pro underground. Trouxe mais gente que poderia vir a conhecer o underground, não só em termos de divisão de acesso, mas como comunidade e estilo de vida.Até dentro dos nichos o metal cresceu: O Death Metal, que tinha sido uma espécie de filho mais violento do Thrash – que tinha virado mainstream – , ficou grande também! Se ouvia falar de Cannibal Corpse em filmes…Até o Grindcore ficou relativamente grande. E nas sombras tinha o Black Metal, ainda gravando lo-fi, demorando anos pra fazer lançamentos oficiais, mas com um circulo forte, hermético, bem informado.
Os 90 deram uma sensação que o metal podia ser algo muito, mas muito grande. E ficou mesmo: Como tinha uma industria que ganhava dinheiro, tinha uma galera que investia…E muito.
Chegaram os 2000. E continuou bom. Mesmo à nível de mercado. Muito evento, cada vez atingindo mais regionalmente o país. E muito evento grande, festival, bandas enormes, grandes e médias. Muito lançamento, muita banda. Olhando hoje e comparando com os 80, acho que nunca teve tanto público, tanto mercado. E com certeza nunca teve tanta banda.
Mas a gente olha hoje e parece que tá pequeno, que ta sumindo.Que tá morrendo…Não tá. E foi agora que eu cheguei onde eu queria chegar.
Nos 80 e 90 e até na primeira década dos 2000 tinha gente que ganhava muito dinheiro com metal.Muita gente de fora da cena que via o potencial de lucro, de mercado. E dai investia. Investia em revista, em marketing, em tour, em merchandising. Tinha gravadora pra bancar turne, divulgação de banda, anuncios na mídia, em revistas, televisão, internet…A galera aparecia na MTV e etc.
Mas de repente veio a tal da democratização digital e ninguém mais precisava comprar um album. Todo mundo podia baixar mp3, comprar ou fazer o pirata, etc, indo até o streaming, o youtube e por ai vai. Nesse momento a grande industria musical parou de ganhar dinheiro com material fisico. E parou de investir. E parando de investir derrubou toda uma estrutura que envolvia empresários, distribuidores, redes de televisão, revistas, fabricantes de instrumentos.
Essa, digamos, facilidade digital que, por um momento, parecia o grito de liberdade do metal e do underground acabou por ser englobada por outra: A era das bolhas.
A bolha, ao mesmo tempo que libertou a gente da ditadura das gravadoras, midias corporativas, agencias, acabou com o investimento massivo que existia. Ninguem investia por amor ao metal: Investia por que dava retorno.Como a bolha é uma coisa muito reduzida, o retorno é muito pequeno…E ninguem investe mais. Ficou só o amor e a paixão.
Lógico que o mercado não vai desistir e vai procurar outras maneiras de capitalizar. E dai a gente vê essa loucura dos copyright, com as gravadoras e as tais distribuidoras marcando em cima qualquer 10 segundos que você usar de qualquer obra da qual eles tenham aliciado os direitos. De grão em grão a galinha enche o papo. Mas além de não gerar evidencia e, por tabela, interesse, essa estratégia da industria fominha ainda prejudica as próprias bandas, que não podem ser divulgadas dentro das bolhas.
E ainda tem um agravante: Como ninguém investe a ponto de gerar uma evidencia considerável, um conceito chamado de “Paradoxo da Escolha”, dilui trabalhos sensacionais e excepcionais entre uma maioria de trabalhos genéricos. E é tanta coisa pra escolher que realmente não tem como cobrir e dar atenção a tudo que sai.Mesmo para os iniciados e ativos em suas bolhas e nichos.
Poderia parecer que a solução para essa questão do excesso de produção seria a mídia especializada que, até pelo fato de ser, em sua maioria DIY, realmente representaria uma análise pessoal e que poderia servir de parâmetro para sujeitos com gostos semelhantes.
Mas também não é o que se vê: As chamadas assessorias, em sua quase totalidade usam textos produzidos por IA, que mostram absolutamente todos os seus clientes como “revolucionários”. Quando eu pego um texto que começa com “a espera finalmente acabou”, ou com textos com expressões como “riffs cortantes”, “bateria tonitruante” e por aí vai eu ja percebo que o cara nem ouviu o material que ele ta divulgando.
O reino das redes sociais também contribuiu muito para a dissolução da informação aprofundada. Muita gente apenas vê as chamadas de matéria em rede social e já considera informação suficiente, mesmo sem visitar os links e ler o texto, numa supremacia do meme.
E dai alguém pode falar que o algoritmo é uma solução pra isso, pois direciona conforme seus gostos. Não concordo. Ele direciona conforme suas ultimas visualizações – que podem nem ser escolhas, só curiosidade – e, dessa maneira, toma do seu processo decisório o prazer de garimpar.
Eu não sei o que vai ser daqui pra frente. Tem muito publico sim…Muita banda também. E muito trabalho de qualidade. Só que o que parece é que cada um vai ficar preso no seu micro-universo.
Se isso é bom ou ruim, eu não sei responder…Sei que tenho muito mais acesso a shows hoje. Sei que consigo acesso direto às bandas que gosto. Sei que gosto do processo de garimpar. Mas sei também que muita banda boa, muito evento bom e muita mídia boa vai ficar presa num grupo muito pequeno. O que só indica um puta de um azar de não ter nascido em outra época.
Acho que, no fim das contas, não é bom nem ruim…Nem certo, nem errado. É o que é. E cada um, conforme a sua perspectiva ou a narrativa que se adaptar,vai decidir como se posiciona. Sem a intenção de encerrar o assunto, é o que eu tenho pra dizer.



