Dando continuidade a antrevista com ARMANDO LEPROUS, agora a lenda fala sobre a transição entre os anos 80 e 90, o período até o retorno com o HOLOCAUSTO e os dias atuais, com IMPURITY, TORMENTADOR e SATANICRISTO! segue a parte II:
9 – A propósito do SEPULTURA, existem muitas histórias da época, sobre o cenário como um todo. Qual a importância que você atribui aos irmãos Cavalera, no desenvolvimento do metal extremo mineiro da época? E enquanto baterista, o Igor exerceu alguma espécie de influência sobre vocẽ?
Leprous: Sobre o Sepultura, eu sempre fui amigo do pessoal do Sepultura, apesar de ter aqueles negócios com o Sarcófago na época. Na realidade, eu nem participei dessa briga, eu tinha uma namorada na época que era a guitarrista do Placenta e o Andreas, que veio de São Paulo pra cá e a gente ficou muito amigo, ele namorava a baixista do Placenta e elas eram muito amigas.
Então uma chamava a outra pra ir na casa do Max e eu acabava indo junto. Então eu já tinha amizade com o Max e com o Igor. A gente era de bandas distintas mas a gente nunca teve briga, treta, etc. E aí como comecei a frequentar a casa deles e conviver com a família toda do Max e do Igor, junto com o Andreas, frequentemente, todo final de semana, digamos assim, durante alguns anos. Então criamos um laço de amizade muito grande na época, né?
Então eu sempre gostei do Sepultura, eu acho que a importância do Sepultura é fantástica, é marcante o som do Sepultura. Escuto até hoje, é muito bom, muito pesado, principalmente nessa época dos irmãos Cavalera. Com relação à importância pro desenvolvimento, é top de linha, são ícones dentro do metal extremo da época.
E com relação ao Igor enquanto baterista, um ia sempre no ensaio do outro, porque a gente gostava de ver o som, gostava de ver tocando, então a gente conversava muito sobre Slayer, sobre Dave Lombardo.. Então o Igor sempre foi um bom baterista, eu sempre tive muito respeito por ele, meu amigo até hoje, toda live que eu participo, ele aparece na live, pelo menos como ouvinte. A gente troca WhatsApp até hoje, é um grande colega, grande amigo e um dos maiores bateristas do mundo. E sendo um excelente baterista, o estilo dele eu gosto muito e respeito muito.
10 – Uma outra curiosidade, você participou de 03 das mais importantes bandas da época, como você via o cenário de então? Que perspectivas você tinha, com quais bandas tinha contato…Alias, quais bandas brasileiras, da época, você curtia??
Leprous: É verdade…Eu participei realmente de três bandas importantes da época, né? Foram muito importantes, aprendi muito com essas três, um pessoal muito bacana, um aprendeu muito com o outro, sou grato, extremamente grato ao pessoal do SARCÓFAGO, extremamente grato ao pessoal do HOLOCAUSTO, extremamente grato ao pessoal do MUTILATOR, porque todos fizeram parte de um desenvolvimento musical juntos, né, cara?
Sobre a cena da época tinha muita irmandade, era muito diferente de hoje, que quase você não vê essa irmandade. Você vê mais um individualismo. Aliás, o mundo tá muito individualista. Naquela época tudo o que você queria, se precisasse de alguma coisa, o cara estendia a mão, você estendia a mão. Era muita irmandade mesmo, a cena de metal. Hoje, pelo menos eu tenho essa impressão, não tem essa mesma irmandade mais. Porque às vezes tem alguns shows em que não convidam determinadas bandas,tem uma série de separações que a gente não consegue entender muito bem por que que acontece.
E eu tô achando até bom esses registros históricos da cena que você está fazendo, porque a gente não… Eu, por exemplo, não tenho nada contra banda nova, esse papo de o cara mais novo, o cara mais velho…Não tem nada disso, não. Só que, pô, a gente tem que entender que tem gente que pavimentou isso tudo.
Por isso eu acho interessante isso que você tá fazendo: Pra deixar o histórico pro pessoal saber aonde está, antes de entrar num determinado movimento… Saber que existem pessoas que estão lá há algum tempo, que receberam credibilidade, que conquistaram certos mercados, conquistou certos fãs, que você conquistou certo respeito das pessoas em função da sua trajetória. Então isso é muito importante.
Que bandas brasileiras eu curtia na época? Attack Epiléptico, eu gostava pra caramba. Sepultura, eu gostava pra caramba. Tinha o Freax, eu gostava pra caramba de Freax, que era muito bom na época. Sagrado Inferno, legal pra caramba também.
E muita banda de São Paulo, tipo Rato de Porão, Olho Seco, Dorsal Atlântica eu gostava por caramba. Eram bandas que influenciaram muito a época. Muitas banda de hardcore também, que eu sempre gostei muito de hardcore. Mas essas foram as principais bandas que influenciaram na época.
11 – Voltando à sua história, pelas minhas pesquisas você permaneceu no MUTILATOR até 1993. O que motivou sua saída? E depois disso, só fomos ouvir seu trabalho novamente em 2018, no álbum de retorno do HOLOCAUSTO, “Diário de Guerra”. São mais de 20 anos. Como foi a sua vida nesse período? Manteve alguma ligação com o cenário? E mais: que te motivou a voltar?
Leprous: Bom, eu permaneci no MUTILATOR até 1993, realmente. O MUTILATOR tinha tudo pra bombar, e a gente acabou com a banda – na realidade eu não sai, a banda acabou – em função de que a gente chegou à conclusão que o Magoo tava dando conta de acumular a função em que ele era excelente, de criação de música, de guitarrista e de vocalista, e mais a função que tinha o Silvio SDN, de gerenciar a banda, agenciar shows, fazer contratos…
Ele tentou, se esforçou, mas a gente chegou à conclusão que não dava. Ele inclusive ficou bravo com a gente, porque ele achava que ele tinha essa condição de lidar com isso…Mas não aparecia contrato, show. Então ele ficava centralizando nele, as coisas e não queria contratar uma pessoa pra mexer com isso. E a gente tava com expectativa que tudo ia andar. Até porque o CM tava vindo pra cá, ele precisava de dinheiro pra sobreviver.
E todo mundo tava: “vamos apostar na banda, ir com a banda ou não”? E ele não queria largar a direção da banda nesse aspecto administrativo, terceirizando pra quem pudesse captar clientes, captar oportunidade de shows, etc. Então, foi aí que a banda acabou terminando. Não foi que eu saí, a banda terminou.
E nesse período que vai do fim do MUTILATOR até o “Diário de Guerra”, eu também não fiquei parado. Eu criei junto com o Pacotinho com o Alexandre,uma banda que até hoje existe, que é o Metallica Cover O Jairo que era do SEPULTURA também tocou lá e, durante muito tempo passamos tocando tudo do Metallica, a gente era muito fan do Metallica.
Fora isso, eu também dei aulas particulares de bateria. E o pessoal sempre me chamava pra voltar, várias pessoas me chamavam. Mas chamavam mais pra fazer cover, Black Sabbath, etc…Mas eu não aceitava porque meu negócio sempre foi autoral.
E foi assim até o Rodrigo e o Valério me chamaram de novo pra gente, pra voltar com o HOLOCAUSTO. Na verdade, o Valério me chamou pra fazer parte do B-HELL. E depois me chamou pra voltar pro HOLOCAUSTO também. Aí a gente gravou o “Diário de Guerra”. Foi isso que motivou eu a voltar à banda autoral. Porque esse negócio de banda cover, é bom, é legal, mas a gente foi criado nesse negócio de fazer composição de música, né. Então o que eu gosto é isso ai, trabalho autoral.
12 – Uma outra curiosidade minha: Quando você tomou consciência que os seus trabalhos com as lendas citadas tomou a proporção que tomou? Quando você percebeu que você era conhecido e admirado a nível mundial e como é a reação do pessoal de fora quando encontra vocẽ pessoalmente?
Leprous: Cara, eu tomei consciência de que tudo em que eu participei com essas bandas clássicas tinha tomado essa proporção à medida que eu ia tocando nos shows e a gringalhada chegava pra me pedir autógrafo, com respeito pra caramba por mim.
Aqui no Brasil nem sempre o pessoal tem isso. Eu não sei se é porque o pessoal da antiga que não quer conversar. Às vezes pode ser, porque também, ninguém gosta muito de tietagem, né? Mas também tem aquela coisa de chegar com respeito, tipo o pessoal de fora que chega falando coisa tipo: O “SARCÓFAGO é muito relevante, nós todos bebemos daquela água, da influência de SARCÓFAGO, da metranca ser muito legal, etc.. Tem uma certa respeitabilidade.
Em São Paulo o pessoal também tem um grande respeito pela gente, assim. Mas muitas vezes aqui em Belo Horizonte eu sento do lado do camarada, o cara tá com a camisa com o meu rosto pintado na camisa e nem sabe que eu tô do lado dele, entendeu? Ou pelo menos faz que não sabe.
Então quando eu fui tocar nesses grandes festivais e vi o tanto de gringo fazendo fila pra autografar álbum e falando o respeito que eles tem pela gente e, efetivamente, da influência que a gente teve no mundo…Pessoal do BLASPHEMY, pessoal de outras bandas, todo esse respeito e admiração, a gente realmente percebeu a proporção que isso tomou no meio do Metal Extremo.
13 – E chegando nos dias atuais, hoje você atua em 03 das mais brutais bandas brasileiras da atualidade, todas as 03 com os dois pés fincados no que se fazia nos anos 80, o lendário IMPURITY e as novas forças TORMENTADOR e SATANICRISTO. Como você avalia o seu momento atual, enquanto headbanger e enquanto baterista?
Leprous: Realmente, atualmente eu estou com três bandas: o IMPURITY, TORMENTADOR e SATANICRISTO. Eu avalio o meu momento enquanto baterista como o meu melhor momento, onde eu atingi uma boa maturidade técnica. Não que eu me considero um excelente baterista…
Não me considero e acho que ainda tenho muito que aprender. Estou sempre aprendendo até hoje. Mas eu acho que, nesse meio, eu já tenho uma razoável experiência e que dá pra fazer um som razoável, sem ter pretensão de ser do nível de um Dave Lombardo, por exemplo. Então eu to muito feliz nesse momento, seja enquanto headbanger, com as bandas que eu to fazendo parte e também enquanto baterista.
14 – Pegando um gancho na pergunta anterior, como você o mundo do metal extremo nos dias de hoje em comparação com á época inicial, de meados dos anos 80. O que você ressalta e o que você condena de cada época?
Leprous: Cara, é o que eu falei pra você, anteriormente tinha mais irmandade, né? Eu vejo o pessoal de algumas bandas da época quando a gente chega, o cara é muito amigo, tipo, gente com o pessoal do MYSTIFIER, pessoal do BLASPHEMY, pessoal do WITCHCRAFT, né?
E é o caso do IMPURITY também, a gente chega pra conversar e é aquela irmandade da época mesmo. O que eu vejo que quando a gente vai em outros shows, a gente vê um certo individualismo, né? Acho que o mundo tá muito individualista. Você vê que há um tempo atrás não tinha tanto esse negócio aí de terrorismo, etc. É a prova do egoísmo humano, da individualidade, de que o pessoal não tá nem aí pro próximo.
Então eu acho que é isso que eu percebo que mudou muito. Não tem mais essa camaradagem com o outro, é muito individualismo… Outros só na busca de dinheiro e fama. E o negócio não é bem assim dentro do metal.
15 – E, na penúltima pergunta de nossa extensa entrevista, quais são os planos para os seus 03 trabalhos? O que vem por aí em termo de lançamentos, shows, merchandising, etc?
Leprous: Os planos para as três bandas são os melhores possíveis. O plano para o IMPURITY é gravar mais álbum, fazer a tour internacional, fazer merchandising de camisetas e outros; o plano para o TORMENTADOR é a gente continuar com a banda criando um War Metal cada vez mais extremo. Já vamos lançar o álbum “Altares em Chamas” split com o GOATSEMEN do Peru e a gente tem muita expectativa em relação a esse álbum, que ficou muito interessante, são quatro músicas inéditas, muito legais.
A gente tá na expectativa de gravar um outro álbum só do TORMENTADOR, estamos com o ensaio encima disso. Shows, a gente vai tocar agora no Chile, em agosto, junto com o IMPURITY também.E estamos tentando angariar mais shows, à medida do possível.
E com relação ao SATANICRISTO, foi surpreendente o retorno 100% positivo que tivemos. Foi assustador ter esse retorno em tão pouco tempo. Tivemos muitas mensagens de pessoas que gostaram muito do som do SATANICRISTO. E após a tour do IMPURITY, nós pretendemos fazer uns shows com o SATANICRISTO, ainda no ano de 2025.
O Merchandising do SATANICRISTO também tá bombando, o do Tormentador também… Tem muita coisa, mudamos a camisa. Camisa de manga curta, camisa de manga longa, com artes muito interessantes. Sobre o SATANICRISTO também fizemos diversas fotos com visuais extremos, muito interessantes, tudo a ver e ficaram excelentes!
16 – E por ultimo, nossa pergunta padrão: Armando Leprous, você é um gigante do metal extremo mundial, com o nome cravado em aço e fogo na história. Passou por bandas lendárias como Sarcofago, Holocausto, Mutilator. Se encontra em uma banda lendária como o Impurity e em mais duas prováveis lendas do metal extremo. Você se considera reconhecido pela importância que possui? E mais: VALEU A PENA?
Leprous: Muito obrigado pelo “gigante do metal extremo mundial”. Acho que eu tenho que comer muito arroz e feijão pra chegar nisso aí. Mas eu te agradeço pelo elogio! Como eu te falei, eu nunca tive uma pretensão de ser um dos maiores bateristas do mundo, sempre quis fazer um som sério e acredito, não no meu individualismo como baterista mas sim, no trabalho final entregue pela banda. Por isso que chama conjunto: Todos juntos entregando um trabalho. Não um individualismo.
E eu sou extremamente grato por ter tido essas oportunidades de tocar no SARCÓFAGO, HOLOCAUSTO, MUTILATOR e IMPURITY, que são bandas respeitadíssimas, E isso, pra mim, é muito importante. O respeito eu sinto quando o pessoal das bandas extremas de fora vem me cumprimentar e sabe de toda a minha história gostam de me ver tocando, bateristas fotografando, bateristas me filmando, os ensaios e a gente trocando ideias…
E eu não posso deixar de citar também que quando vai muito pra São Paulo, o pessoal trata a gente muito bem. Vocês da LUCIFER REX fazem um excelente trabalho, o pessoal do “Na Lâmina da Foice” também faz um excelente trabalho. E tudo com uma seriedade muito grande. A gente nunca combinou nada e tudo foi sempre com elogios verdadeiros e fatos reais.
Acho que isso é uma marca muito grande que existe nas revistas do metal extremo, desde da Rock Brigade até a LUCIFER REX, que é uma excelente revista. E também passando aí pelo programa do Reinaldo, o MG Metal aqui em Minas, o Underground Force e outros, todos aqui, e outros que fazem um ótimo trabalho de história real, com fatos reais e fidedignos.
Então isso aí,valeu a pena? Valeu a pena demais, o metal extremo é muito bom. Só que o que eu sugiro é que nós, que gostamos do metal extremo, refletíssemos a respeito do seguinte: à medida que você acha R$20, R$30 ou R$40 caro pra entrar num show e quer entrar de graça, à medida que você tá comprando bootleg, que você tá fazendo camiseta pirata, ou comprando camiseta em loja que faz pirata e não paga o royalty pros donos, pros proprietários da banda, você não tá ajudando o metal extremo a permanecer.
Porque se você comprar direto com as bandas, aí sim você vai ajudar o metal extremo a permanecer, porque o dinheiro vai pra banda pagar ensaio, corda, baqueta… Pra você manter a banda. Então, isso vai ser a chama que vai manter o metal extremo. A gente tem que se conscientizar que um tem que ajudar o outro. Então, à medida que você burla esse caminho, faz desse jeito, você tá quebrando o elo e você tá fazendo com que o metal extremo afunde.
Então, se você gosta desse tipo de som, gosta das bandas, faça a sua parte também. assim como a banda faz a sua, que é se apresentar de uma forma adequada, bem ensaiado, tocar da melhor forma possível pro público ter um show legal, o público também têm que se comportar da mesma forma, uma mão lava a outra, uma ajuda a outra. Um não existe sem a outra. O que adianta a gente fazer tudo isso se o público não gostar?
Então acho que a gente tem que unir essas forças nesse sentido, pra que a chama do metal extremo não apague. Valeu a pena? Valeu a pena demais! O metal extremo é maravilhoso. Obrigado pela oportunidade, parabéns pela LUCIFER REX e continue assim, fazendo um trabalho verdadeiro e de qualidade. Grande abraço!



