Skip to content
março 5, 2026
  • RE(X)VIEWS
  • CHEGOU ESSA SEMANA
  • EQUIPE
  • CONTATO
LUCIFER REX

LUCIFER REX

World Wide Dark Extreme Culture

  • LR
  • NEWS
  • ENTREVISTA
  • RESENHAS
    • Álbum
    • Demos
    • Magazines
    • Shows e Eventos
    • Single
  • SHOWS
  • CULTURA UNDERGROUND
    • Cinema
    • Evil Books
    • Garimpo Underground
    • Horror Tales
    • Lucy’s Women
    • No Trono de Lúcifer
    • RexCover
    • Tattoo’s & Arts
  • DARK REFLECTIONS
  • LUCYFANS
  • R I P
EYE
  • Home
  • Entrevista
  • Catacumba: Entre o Hiato e o Abismo, a Progressão Perpétua da Mácula Negra
  • Entrevista

Catacumba: Entre o Hiato e o Abismo, a Progressão Perpétua da Mácula Negra

Anton Naberius fevereiro 27, 2026 16 min read

Forjada nas catacumbas do underground brasileiro desde 2003, a entidade conhecida como Catacumba atravessou hiatos, instabilidades, mortes e renascimentos para consolidar-se como um dos cultos mais resilientes do Metal Negro nacional. Nesta entrevista para o Portal Lucifer Rex, Gordoroth Vomit Noise disseca a gênese da horda, a filosofia que amalgama existencialismo, Göetia e rebelião espiritual, as articulações internacionais que levaram suas demos e álbuns a selos da Europa, América Latina e Ásia, e o silêncio imposto em 2016 diante de rupturas internas e da posterior morte de Count Único del’Inferni — mentor e principal arquiteto sonoro da banda. Entre reflexões sobre o vazio da existência, a arte como fim em si mesma e a rejeição a qualquer otimismo em relação à humanidade, a Catacumba ressurge com o EP “Decano”, registrado ainda em 2015 e finalmente materializado em 2025, além de anunciar novos splits, ritos ao vivo e um álbum completo composto antes da dissolução. Mais do que uma retrospectiva, esta conversa é um manifesto de continuidade: a reafirmação de que a mácula negra não se apaga — apenas se adensa.

1. Saudações  meus  caros  irmãos,  é  com  muita  honra  que  recebemos  vocês  nessas  páginas  sangrentas  e  celebrar  estes  longos  23  anos  de  existência  dessa  potestade  maligna  chamada  Catacumba.  Para  iniciar,  nos  conte  sobre  essa  empreitada  fundada  em  2003, como tudo começou?

 G.V.N.:  Inicialmente,  direciono  meus  sinceros  cumprimentos  a  ti  e  a  toda  a  equipe  da  Lucifer  Rex,  meu  estimado  aliado  de  tantos  anos  de  kulto  subterrâneo,  Naberius!  Antes  de  qualquer  manifestação,  deixo  claro  o  quão  honrado  estou  por  responder  a  esta  entrevista,  concebida  por  um dos maiores teóricos do metal negro sul-americano.

A  entidade  tomou  forma  neste  lapso  de  espaço-tempo  em  dezembro  de  2003,  deste  atual  calendário  consensualmente  aceito  nesta  parte  do  globo,  quando  eu  e  Count  Único  del’Inferni  resolvemos  formar  um  grupo  de  Black/Death  Metal  que  fizesse  referências  diretas  às  nossas  influências  dentro  do  estilo,  não  nos  apegando  de  modo  austero  à  forma,  e  sim  aos  mantras  negros  e  sua  mensagem,  que  atinge  diretamente  a  escuridão  interna  de  cada  um  de  nós,  conduzindo os kultistas a voltarem seus olhares ao poço abissal primal da existência.

Após  formarmos  o  pacto,  Count  Único  chamou  seu  parceiro  musickal  de  longa  data,  Amazarack,  e  assim  formamos  a  tríade  que  tornou-se  a  tônica  da  banda  por  anos.  Nestes  primeiros  dias,  conhecemos  Vultur  Necrophiler,  que  tocava  na  banda  Ritus  Tenebrum,  que  aceitou  nosso  convite  e  veio  para  as  nossas  fileiras.  Com  essa  formação,  gravamos  a  demo  “Birkat  Ha-Minim:  A  Bênção  dos  Hereges”  entre  o  final  de  2004  e  início  de  2005,  que  foi  o  ponto  inicial  da  apresentação  da  nossa  obra  a  todo  o  kulto  underground,  do  qual  somos  sócios  até  os  dias atuais.

2. A banda  surgiu  em  meio  a  um  momento  de  transição  bem  forte  no  início  dos  anos  2000!  Aquele  tempo,  os  formatos  de  lançamentos  das  demos  estavam  mudando  dos  velhos  k7s  para  os  CDrs  e  a  Catacumba  foi  um  exemplo  dessa  transformação,  visto  que  sua  primeira  demo  foi  lançada  no  formato    Comente  sobre  o  lançamento  deste  primeiro material “Birkat Ha-Minim – A Benção dos Hereges”, lançado em 2005.

 G.V.N.:  Esta  época  tinha  uma  característica  muito  peculiar,  oriunda  de  um  comportamento  dos  consumidores  de  música,  que  era  o  abandono  do  formato  da  mídia  física  que  acabara  de  ter  um  sucessor.  Os  LPs  e  K7s  já  eram  considerados  ultrapassados  naqueles  dias;  o  kulto continuou,  ainda  que  de forma  frágil,  apenas  em nichos  aficionados  pelos  formatos  tradicionais,  como o metal, blues, jazz e hip-hop. O CD-R era a via mais cômoda naquele instante.

Nós  somos  oriundos  das  classes  baixas  da  sociedade  e,  naquela  época,  muito  jovens,  tínhamos  poucos  recursos.  Optei  por  lançar,  pelo  meu  selo,  Tecido  Adiposo  Prods,  o  formato  que  tivesse  o  melhor  custo-benefício  e  que  fosse  mais  viável,  sem  perder  a  qualidade  sonora  e  gráfica,  para  remessas  postais  via  correios.  Deve-se  considerar  que  a  internet  engatinhava  naqueles  tempos,  e  a  mácula  negra  da  músicka  subversiva  e  underground  era  proliferada  quase  exclusivamente  por  esta  via  —  dispendiosa  e  de  qualidade  duvidosa,  como,  em  grande  parte, ainda é hoje.

Lancei  1000  cópias  em  CD-R,  com  capa  em  papel  couchê  colorida,  que  foram  enviadas  para  os  quatro  cantos  deste  planeta,  recebendo  sempre  uma  ótima  acolhida  nos  covis  dos  kultistas  que  alcançaram.  A  obra  foi  relançada  em  tape  entre  os  anos  de  2007  e  2010  pelos  selos  Black  Vomit  Records  (Grécia)  e  Hell  Unleashed  Prods  (Portugal),  o  que  nos  conferiu  uma  maior  visibilidade  no  necrounderground  do  Velho  Mundo  e  a  certeza  de  que  nossa  arte  negra  chegava em mãos corretas. Mãos esquerdas, obviamente.

3. A Catacumba  sempre  me  pareceu  uma  banda  de  Metal  Negro  mais  voltada  para  temas  existencialistas,  sobre  o  vazio  da  existência,  das  drogas  e  da  crítica  ao  humano!  Estou  certo  na  minha  percepção?  Essa  abordagem,  em  que  momento  há  algum  auspício  centrado no sobrenatural, como há essa aliança na verve do Catacumba?

 G.V.N.:  Corretíssimo.  Os  integrantes  do  kulto  sempre  tiveram  em  comum  uma  característica:  todos  eles  possuem,  de  alguma  forma,  o  toque  da  mácula  negra  inominável  que  habita  o  fosso  mais profundo do âmago humano, seja ele psíquico ou espiritual.

Eu  nunca  segui  uma  direção  linear  com  a  temática  da  banda,  sempre  flutuando  entre  as  mais  subversivas  linhas  de  pensamento  e  amalgamando,  austeramente,  filosofias  existenciais  como  a  de  Cioran  e  dos  existencialistas  clássicos,  cosmogonias  de  diversas  culturas,  goetia  e  paganismos  das  mais  diversas  fontes,  ou  seja,  a  Mão  Esquerda  em  seus  mais  variados  contornos.  Nossa  temática  trata  o  material  e  o  abstrato  como  faces  de  uma  mesma  moeda,  apenas  em  estágios  diferentes  e  com  meios  de  acesso  que,  em  grande  parte,  ainda  não  descobrimos, sempre em caráter prosélito de rebelião, seja ela individual ou coletiva.

4. Nos conte  sobre  essa  experiencia,  um  tanto  comum  ao  underground,  de  lançar  uma  demo  ao  vivo  através  de  um  selo  mexicano,  como  foi  essa  aliança  e  a  repercussão  desse lançamento?

 G.V.N.:  Naqueles  tempos,  estávamos  nos  primeiros  anos  de  materialização  da  entidade  neste  plano  e  tínhamos  em  mãos  a  gravação  bruta  de  nossa  apresentação  em  2005  no  Metal  Hordes  Devastation II , em Juiz de Fora, Minas Gerais, o que,  para nós, já era motivo de júbilo.

Sempre  mantive  contato  por  cartas  e  e-mails  com  maníacos  die-hards  do  mundo  todo,  e  o  dono  da  Satanic  Records,  do  México,  era  um  deles.  Remeti  a  gravação  em  estado  bruto  para  nosso  mecenas  norte-americano  e  ele  a  apreciou,  vindo  a  lançar  uma  versão  pro-tape  limitada  em  666  cópias.  Foi  uma  realização!  Somos  metalheads  ortodoxos  e  colecionadores  de  fitas,  CDs  e  vinis;  Ter,  naquela  época,  em  mãos  a  materialização  do  nosso  ritual  foi  soberbo!  A  repercussão  foi  ótima  e  nos  abriu  diversas  oportunidades  mundo  afora.  Somos  gratos  pelo  esmero  da  Satanic Records com o lançamento.

5. Falando em  alianças  internacionais,  Catacumba  nos  parece  uma  banda  com  boas  relações  em  outros  países,  a  que  se  deve  esse  estreitamento  de  laços?  Como  todas  essas  colaborações  se  deram  durante  esse  período,  inclusive  para  lançamento  de  DVD  e  um split com Grave Desecrator, além da tape live?

 G.V.N.:  Sempre  foi  algo  natural  me  comunicar  com  pessoas  de  outros  países,  mesmo  tendo  que  aprender  outra  língua  na  marra;  Minhas  inspirações  para  tal  foram  os  metalheads  brasileiros  que  nunca  se  limitaram  a  questões  geográficas  para  a  proliferação  de  sua  arte,  como  Possessed,  Antichrist,  Beelzeebubth,  Zema  e  tantos  outros.  Para  aqueles  da  minha  Geração  Y,  que  lançavam  seus  olhos  para  as  publicações  que  ditavam  os  rumos  do  underground  mundial  naquela  época,  essa  interação  era  difícil,  mas  necessária,  sempre  na  busca  por  abortarmos  sobre  a  terra  nossa  arte  com  uma  melhor  qualidade  e  com  destino  encontrado  em  mãos  corretas,  que,  numa  era  sem  internet,  eram  realmente  obscuros  e  isolados em bolsões de cena aqui e acolá.

Tal  comportamento  sempre  foi  a  tônica  de  várias  personalidades  que  foram,  ou  são,  referência  na  música  metal,  estilo  que  nunca  se  limitou  a  barreiras  geográficas.  Lembro-me  de  ler  uma  entrevista  do  Dani  Filth,  do  Cradle  of  Filth,  onde  ele  dizia  que,  quando  a  banda  dele  começou, ele  escrevia  em  torno  de 100  cartas  por  dia!  E  eu achava  que  mandando  em  torno  de  cinquenta  missivas por semana eu estava me sacrificando… tolo.

Procurei  fazer  chegar  nossa  arte  nas  mãos  corretas  e  de  pessoas  que  entendessem  a  proposta,  sempre  de  forma  qualitativa.  Dissequei  zines  e  revistas  como  Desecration  of  Virgin ,  Slayer  Magazine ,  Deusdemoteme ,  Medical  Genocide ,  Metal  Blood ,  Obscura  Arte ,  Revelações  Abissais ,  Psicoterror ,  Vampire  Magazine  e  tantos  outros.  Escrevia  para  todos  os  maníacos  que  eu  considerava  alinhados  à  nossa  proposta  de  subversão  total,  cujos  endereços  eram  disponibilizados  nestas  revistas;  acredito  que  este  seja  o  manancial  destas  conexões  fora  do  país.

A  maioria  dos  nossos  materiais  teve  lançamentos  em  outros  países.  Nossa  demo,  “Birkat  Ha-Minim:  A  Bênção  dos  Hereges”,  saiu  pela  minha  produtora  em  CD-R,  e  em  tape  em  Portugal  e  na  Grécia.  A  demo  live  2005  saiu  em  tape  pela  Satanic  Records,  no  México,  pela  Alastor  Rex  em  tape ,  no  Brasil,  e  em  CD-R  pela  Suicide  Apologies,  também  no  Brasil.  Nosso  split  7”  com  Grave  Desecrator  saiu  pela  Necromancer  Records,  da  Alemanha.  “Kratos”,  nosso  primeiro  álbum,  foi  lançado  inicialmente  em  CD  pela  Onslaught  Records,  do  México,  poucos  meses  depois  em  tape  pela  Ars  Funebris,  da  França,  e,  nos  anos  posteriores,  em  CD  pela  La  Medula  Spinal,  do  Equador,  e  pela  Fallen  Angel  Prods,  da  Coreia  do  Sul.  “Animus  Mortis”  foi  lançado  em  CD  no  Brasil  pela  Blasphemy  Prods,  em  tape  pela  Angel  of  Cemetery,  no  Brasil,  em  tape  pela  Metal  Squad,  na  Argentina,  em  tape  pela  Kampf  Records,  na  Polônia,  e  em  uma  edição especial em  tape  pela La Medula Spinal, no  Equador.

6. Como  vocês  analisam  a  carreira  com  o  Catacumba  até  a  parada  em  2016,  o  que  os  levou  a  parar  as  atividades  quando,  aquela  altura,  vocês  já  haviam  lançado  um  álbum  “Kratos”  2010  (Onslaught  Records  –  MEX)  e  estavam  ganhando  muita  visibilidade  na  cena nacional?

 G.V.N.:  Ao  perscrutamos  a  trajetória  da  entidade  até  o  lúgubre  hiato  de  2016,  percebemos  que  a  existência  da  Catacumba  sempre  foi  pautada  por  uma  atividade  intrinsecamente  instável.  Nossas  manifestações  —  fossem  elas  em  termos  de  gravações,  manutenção  do  line-up  ou  o  próprio  processo  de  composição  —  sempre  ocorreram  por  brechas  forjadas  em  meio  aos  grilhões do cotidiano profano da vida civil de cada membro.

Ainda  assim,  em  nossa  avaliação,  logramos  êxito  em  nosso  propósito  primordial:  transmitir  a  essência  do  Metal  Negro  àqueles  que  dele  são  integrantes.  Embora  a  obra  nem  sempre  tenha sido  lapidada  sob  as  condições  ideais,  a  mensagem  foi  emanada  com  vigor  e  devidamente  assimilada  pelos  acólitos  do  underground,  conforme  atestavam  os  constantes  feedbacks  que  recebíamos de diversos covis.

O  encerramento  das  atividades  em  2016,  contudo,  tornou-se  um  imperativo  de  sobrevivência  espiritual.  Count  Único  del’Inferni ,  nosso  parceiro  de  longa  data,  passou  a  manifestar  sinais  agudos  de  instabilidade  psíquica,  o  que  desencadeou  atritos  pessoais  e  excentricidades  que  tornaram  o  convívio  insustentável.  Tais  dissensões,  é  importante  frisar,  foram  de  ordem  puramente musical e comportamental, jamais ideológica.

Como  sempre  acreditamos  que  a  arte  negra  exige  uma  simbiose  absoluta  e  uma  consistência  interna  entre  os  membros  do  culto  para  que  seja  manifestada  de  forma  plena,  a  ausência  de  um  ambiente  de  respeito  e  alinhamento  tornou  a  dissolução  inevitável.  Naquele  momento,  os  egos  de  cada  integrante  retornaram  às  suas  respectivas  cavernas  e  as  catacumbas  foram  lacradas.  Tentamos  outras  vias  para  manter  a  chama  acesa,  mas  a  manutenção  de  inconsistências  tão  obtusas  teria  corrompido  a  integridade  da  nossa  obra.  O  silêncio  era  a  única saída honrosa.

7. Como  foi  encarar  a  morte  de  um  integrante  e  se  reerguer  para  dar  continuidade  após esse período de “luto”?

 G.V.N.:  O  encerramento  das  atividades  em  2016  já  havia  estabelecido  um  distanciamento  geográfico  e  comunicativo  natural.  Enquanto  Count  Único  del’Inferni  retornava  aos  seus  covis  em  um  isolamento  cada  vez  mais  profundo  e  silencioso,  os  demais  remanescentes  daquela  formação  (eu,  Amazarack ,  Tormentor  e  Apeph)  mantivemos  o  vínculo  e  a  chama  criativa  acesa,  inclusive  através  de  um  projeto  de  Death  Metal  chamado  Congregation  (cujo  EP  permanece aguardando o momento certo para ser expelido sobre a terra).

Infelizmente,  o  retorno  de  Count  Único  ao  Espírito  Santo,  após  anos  vivendo  em  Minas  Gerais,  não  trouxe  a  reaproximação  que  desejávamos.  Ele  já  estava  imerso  em  uma  negação  sistemática  deste  plano  existencial  e  de  suas  dinâmicas.  O  acompanhamos  à  distância  enquanto  enfrentava  graves  crises  de  ordem  mental,  que  resultaram  em  internações  e  tentativas  de  abreviar  sua  própria  estadia  nesta  esfera.  Em  1º  de  abril  de  2021,  recebemos  a  notícia de sua passagem definitiva.

Para  nós,  foi  um  golpe devastador.  Os  cinco membros  que  hoje  sustentam  as  colunas  da  Catacumba,  incluindo  Profanus ,  que  sempre  foi  um  aliado  tão  intrínseco  que  o  consideramos  um  sexto  membro  desde  a  gênese,  não  perderam  apenas  um  mentor  musical  ou  um  guitarrista  de  técnica  ímpar;  perdemos  um  irmão  de  armas,  um  amigo  que,  apesar  de  suas  excentricidades, enxergava a escuridão interna de um modo muito próprio e autêntico.

O  que  a  sociedade  convencionou  chamar  de  “luto”  é,  para  nós,  um  estado  perene.  Como  bem  ecoou  os  mestres  do  Sodom  em  um  de  seus  hinos  imortais,  nós  nunca  esquecemos  aqueles  que  caíram.  Se  hoje  a  Catacumba  retoma  suas  atividades,  se  hoje  voltamos  a  entoar  nossos  mantras  negros,  o  fazemos  como  um  ato  de  absoluta  devoção  e  honra  à  memória  e  ao  nome  de  Bruno Costa Martins . Cada nota de “Decano” é um  sacrifício oferecido ao seu legado.

8. Depois de  duas  décadas  trabalhando  dentro  da  cena  nacional,  como  vocês  enxergam esse cenário? É uma visão otimista?

 G.V.N.:  Enxergamos  o  panorama  atual  de  uma  forma  não  muito  distinta  daquela  que  testemunhamos  vinte  anos  atrás,  resguardadas,  obviamente,  as  modificações  e  evoluções  inerentes  ao  tempo  presente.  Não  permaneci  em  estado  de  atividade  absoluta  no  underground  após  o  encerramento  das  atividades  com  o  Congregation ,  projeto  que  sucedeu  a  Catacumba  e  cujos  ritos  cessaram  por  volta  de  2020.  Contudo,  jamais  abandonei  minha  condição  de  metalhead  fanático  por  artefatos  e  colecionador  de  souvenirs,  o  que  me  permitiu  observar,  ainda que de forma cadenciada, a transmutação dos tempos.

Compreendi  que  o  material  físico,  hoje,  transcende  a  função  de  mero  suporte  para  a  música  e  se  tornou  uma  obra  de  arte  em  si.  O  foco  contemporâneo  parece  ter  se  deslocado  da  simples  comercialização  de  itens  para  a  valorização  da  apresentação  estética,  ou  até  mesmo  para  as  dinâmicas  de  alcance  proporcionadas  pelos  algoritmos  das  redes.  Entretanto,  a  premissa  do  culto  permanece  inalterada,  que  é  a  de  proliferar  a  mácula  negra  que  habita  em  cada  um  de  nós através do metal extremo e de todas as suas vertentes subversivas.

Quanto  ao  otimismo,  jamais  nutrimos  qualquer  sentimento  desta  natureza  em  relação  à  espécie  humana.  O  fato  de  participarmos  de  um  culto  e  de  uma  cena  não  nos  confere  uma  visão  esperançosa  sobre  o  homem.  Nossa  atuação  é  pautada  pela  arte  pela  arte,  uma  manifestação  autossuficiente  que  não  busca  um  fim  maior  ou  uma  redenção  coletiva.  Não  há  otimismo  onde  reside a compreensão plena do vazio.

9. Sobre as  influências  que  a  banda  teve  no  início  de  sua  carreira,  estas  mesmas  referencias  continuam  na  sua  música?  Existem  novas  referencias  que  passaram  a  ser  influências  depois  desse  tempo?  Ao  passo  que,  a  busca  de  toda  banda  é  por  sua  identidade  própria,  você  considera  que  Catacumba  tem  sua  própria  fórmula  de  criar  música obscura?

 G.V.N.:  De  certa  forma,  sim.  Tudo  o  que  consumimos,  independentemente  da  geração  à  qual  pertença,  possui  um  núcleo  invariavelmente  alinhado  às  propostas  de  precursores  como  Black  Sabbath,  Bathory,  Sarcófago  e  Death,  que  foram  os  arquitetos  de  seus  respectivos  estilos.  Bandas  como  Mystifier  e  Impurity  foram  nossas  referências  seminais,  assim  como  nós  talvez  sejamos  para  novos  iniciados  hoje.  Nossas  influências  atuais  são,  em  essência,  a  reafirmação  do  que  nos  movia  outrora,  pois  o  que  realmente  desperta  nosso  interesse  no  presente  é  o  florescimento  negro  da  cena  brasileira.  Acompanhamos  este  ciclo  perpétuo  de  renascimento  e  morte  do  cenário  nacional,  e  é  nesta  efervescência  que  encontramos  nossas  maiores  motivações contemporâneas.

No  que  tange  à  nossa  identidade,  a  Catacumba  jamais  seguiu  uma  direção  linear.  A  música  obscura  nos  atrai  em  suas  múltiplas  formas,  e  quem  se  debruçar  sobre  nossa  discografia  perceberá  que  transitamos  por  todo  o  espectro  do  metal  extremo,  fluindo  do  Heavy  ao  Black  Metal,  do  Death  ao  Doom,  sem  qualquer  pudor  em  amalgamar  esses  estilos  que,  para  nós,  bebem da mesma fonte subterrânea.

Não  acreditamos  em  uma  fórmula  estrita  para  a  composição,  mas  sim  em  uma  direção.  É  fundamental  ressaltar  que  quase  a  totalidade  de  nossa  obra,  com  exceção  de  “The  Phalanx”,  presente  no  EP  Decano ,  é  fruto  da  mente  de  Count  Único  del’Inferni.  É  impossível  negar  que  as  composições  da  Catacumba  carreguem  a  assinatura  e  a  estética  dele,  contudo,  como  compartilhamos  das  mesmas  referências  e  propostas  musicais,  dar  continuidade  ao  seu  legado  é  um  processo  orgânico.  Em  síntese,  não  seguimos  um  método  mecânico  de  criação,  mas  sim  uma bússola invariavelmente voltada para o abismo.

10. Em 2025  vocês  anunciaram  o  lançamento  de  um  videoclipe,  assim  como  o  lançamento  do  CD  “Decano”  gravado  há  mais  de  dez    Nos  conte  os  detalhes  desse  empreendimento?

 G.V.N.:  Com  o  nosso  retorno,  reativamos  um  propósito  que  jazia  dormente  há  muitos  anos,  que  era  o  de  lançar  de  modo  oficial  o  nosso  canto  do  cisne,  o  EP  Decano ,  gravado  originalmente em  2015  no  estúdio  Audiospace,  em  Serra,  Espírito  Santo.  Este  registro  foi  fruto  de  uma  parceria  entre  a  horda  e  Adriano  Scaramussa,  vocalista  da  banda  Siecrist,  e  representa  uma  releitura  oficial  de  hinos  que  anteriormente  habitavam  apenas  nossas  demos  e  o  split  7  polegadas,  acrescidos  de  um  tributo  ao  Mystifier  e  da  composição  inédita  “The  Phalanx”,  que  nunca havia sido manifestada em qualquer lançamento anterior.

Após  essa  gravação,  em  2016,  a  entidade  se  dissolveu,  e  me  abstive  de  contato  com  os  materiais  da  Catacumba  durante  este  hiato.  A  arte  da  capa,  por  exemplo,  concebida  pelo  mestre  Emerson  Maia  ainda  em  2015,  chegou  às  minhas  mãos  com  a  banda  já  dissolvida  e  permaneceu  lacrada  em  um  envelope  que  só  ousei  abrir  em  julho  de  2025,  para  que  pudéssemos finalmente produzir o encarte.

Com  a  produção  do  artefato  em  andamento,  nosso  novo  guitarrista,  Profanus,  cuja  trajetória  é  ligada  ao  universo  do  cinema,  nos  incentivou  a  concretizar  uma  ideia  que  ele  sempre  alimentou,  que  era  a  gravação  de  um  videoclipe  oficial.  Definimos  o  roteiro  após  reuniões  entre  mim,  Profanus  e  a  atriz  Roberta  Portela,  nossa  aliada  que  protagonizou  a  obra,  buscando  um  nexo  direto  com  a  lírica  de  “Spiritual  Vomit”,  que  é  uma  afirmação  do  ser  com  seu  interior  e  com  todas  as  nuances  de  sua  escuridão.  O  resultado  foi  sublime,  especialmente  pela  performance  de  Roberta  Portela,  que  encarnou  a  proposta  de  forma  magistral.  O  lançamento  do  clipe  precedeu  o  show  “Retorno  dos  Hereges”,  culminando  na  disponibilização  de  Decano  em  versões de CD, Tape e nas plataformas digitais em setembro de 2025.

11. Além desses  lançamentos,  como  a  banda  se  encontra  estruturalmente  e  quais  os  projetos daqui para a frente?

 G.V.N.:  Sem  dúvida,  atravessamos  um  dos  momentos  mais  vigorosos  de  toda  a  trajetória  da  entidade.  Atualmente,  contamos  com  um  line-up  sólido,  composto  por  indivíduos  alinhados  musical  e  ideologicamente,  que,  de  diversas  formas,  sempre  estiveram  intrincados  na  história  da  Catacumba.  Refiro-me  a  Amazarack ,  que  me  acompanha  desde  os  primórdios  ao  lado  de  Count  Único  del’Inferni,  e  a  Vultur  Necrophiler ,  guitarrista  fundamental  que  integrou  nossas  fileiras  na  gravação  de  Birkat  Ha-Minim  e  do  live  de  2005,  tendo  retornado  agora,  em  2025,  para  selar  este  novo  pacto.  Contamos  também  com  Apeph ,  baixista  que  ingressou  em  2010  e  permaneceu  até  a  dissolução  em  2016,  trazendo  uma  nova  tônica  e  profundidade  à  nossa  arte,  e,  finalmente,  Profanus ,  um  aliado  cuja  amizade  e  parceria  precedem  a  própria  existência  da  banda.  Profanus  esteve  presente  na  gênese,  acompanhando  o  nascimento  do  culto  há  mais  de  vinte  anos,  e  sua  oficialização  nas  nossas  fileiras  é  algo  que  já  parecia  determinado  pelo  destino.

Quanto  aos  nossos  movimentos  futuros,  o  ano  de  2026  reserva  manifestações  já  em  estágio  avançado  de  maturação.  O  primeiro  artefato,  com  previsão  de  envio  à  fábrica  em  maio,  é  um  split  7  polegadas  com  a  horda  Amen  Corner ,  apresentando  um  registro  ao  vivo  de  cada  entidade.  Também  lançaremos  um  split  ao  vivo  com  a  Labyrinth  Spell ,  capturado  durante  o  rito  Retorno dos Hereges  de 2025.

Além  disso,  no  dia  06  de  junho  de  2026,  data  marcada  pelo  simbolismo  do  número  da  Besta,  realizaremos  o  Retorno  dos  Hereges II  ,  ao  lado  de  Impurity ( MG) ,  Papa  Necrose ( BA) ,  Profanus  (BA)  e  Labyrinth  Spell  (ES) .  Nesta  ocasião,  as  apresentações  de  Catacumba  e  Impurity  serão  gravadas  para  um  split  ao  vivo,  a  ser  expelido  nos  meses  subsequentes.  Findo  este  ciclo,  entraremos  em  estúdio  para  gravar  o  novo  álbum  completo,  composto  integralmente  por  Count  Único  del’Inferni  entre  2015  e  2016.  É  uma  obra  que  já  possuíamos  completa,  ensaiada  e  conceituada,  restando  apenas  a  sua  materialização  definitiva,  prevista  para  2027.  Daqui  em  diante,  o  que  se  verá  é  a  progressão  perpétua  da  mácula  negra,  cada  vez  mais  densa e agregada.

12. Agradeço muito  por  essa  participação,  deixo  o  espaço  aberto  para  a  mensagem  que desejar aqui…

 G.V.N.:  Em  nome  de  todo  o  culto,  manifesto  minha  gratidão  pela  oportunidade  de  expressar  os  ideais,  os  conceitos  e  a  musicalidade  desta  entidade  em  um  veículo  tão  ortodoxo  e  prestigiado  quanto  a  Lucifer  Rex .  É,  para  nós,  uma  honra  imensurável  figurar  em  um  dos  pilares  da  divulgação  da  música  subterrânea  sul-americana,  mantendo  viva  a  chama  da  comunicação  direta  e  sem  concessões.  A  mensagem  que  desejo  deixar  não  é  extensa,  mas  é  absoluta,  pois  a  mácula  que  permeia  a  existência  de  todos  nós  está  em  perfeita  sintonia  com  a  proposta  que  buscamos  emanar  sobre  este  plano.  Que  a  escuridão  interna  continue  sendo  a  nossa  única  e  verdadeira bússola.

 Honre o rito. Entre no culto. Espalhe a mácula.

nota: As fotos desta matéria foram realizadas por Luciano (Retorno dos Hereges)

Anton Naberius

See author's posts

Tags: catacumba death black nacional lucifer rex lucifer rex extreme portal lucifer rex extreme web portal lucifer rex mag lucifer rex magazine lucifer rex portal lucifer rex web lucifer rex web portal Metal Extremo

Continue Reading

Previous: DARK GATES ZINE N⁰ 08
Next: VELHO anuncia o seu novo EP “Em Inglês” e lança single para “Sabbathical Orgy”

RELACIONADOS

Anax: As Formas Antigas Permanecem

Veteranos da arte negra nacional falam sobre luciferianismo, tradição helênica, criação ritualística e o renascimento consciente do Black Metal como linguagem espiritual e subversiva.
6 min read
  • Entrevista

Anax: As Formas Antigas Permanecem

Veteranos da arte negra nacional falam sobre luciferianismo, tradição helênica, criação ritualística e o renascimento consciente do Black Metal como linguagem espiritual e subversiva.

fevereiro 6, 2026

Vulthum: A Continuidade do Veneno Negro em Tempos de Decadência

Filosofia em antagonismo ao mundo moderno e ideologia com raizes profundas.
9 min read
  • Entrevista

Vulthum: A Continuidade do Veneno Negro em Tempos de Decadência

Filosofia em antagonismo ao mundo moderno e ideologia com raizes profundas.

janeiro 30, 2026
PAGAN THRONE – Explorando e Enovando em Terra Dourada.
5 min read
  • Entrevista

PAGAN THRONE – Explorando e Enovando em Terra Dourada.

janeiro 23, 2026

AGENDA DE SHOWS

ARTES NEGRAS DO SUBMUNDO E SUAS LEGIÕES 2.
1 min read
  • Shows

ARTES NEGRAS DO SUBMUNDO E SUAS LEGIÕES 2.

março 5, 2026
CRIES OF DESCRIPT SOULS
1 min read
  • Shows

CRIES OF DESCRIPT SOULS

março 4, 2026
AS FLORES DO MAL ,LITÂNIAS DE SATÃ, O Alvorecer da Eterna Escuridão
1 min read
  • Shows

AS FLORES DO MAL ,LITÂNIAS DE SATÃ, O Alvorecer da Eterna Escuridão

março 2, 2026
RITOS FÚNEBRES DA MORTE
2 min read
  • Shows

RITOS FÚNEBRES DA MORTE

março 2, 2026
ESCARNIUM – MORKALV – KATASTROFE
1 min read
  • Shows

ESCARNIUM – MORKALV – KATASTROFE

março 2, 2026

TATTOO’S & ARTS

A ARTE DO DEATH METAL – Curso de Guitarra
3 min read
  • Tattoo's & Arts

A ARTE DO DEATH METAL – Curso de Guitarra

M. Prophanator fevereiro 18, 2026
Denise Barros – Fotógrafa

Denise Barros – Fotógrafa

outubro 4, 2025
Biancast – um talento da fotografia em ascensão

Biancast – um talento da fotografia em ascensão

agosto 16, 2024

LUCYFANS

LUCYFANS – Drusila Imp – 2025
2 min read
  • Lucyfans

LUCYFANS – Drusila Imp – 2025

Alan Luvarth abril 8, 2025
LUCYFANS – Lullaby

LUCYFANS – Lullaby

agosto 23, 2023
LUCYFANS – Drusila Imp

LUCYFANS – Drusila Imp

junho 4, 2023
Copyright ©Lúcifer Rex Magazine. All rights reserved. | DarkNews by AF themes.