A noite estava chuvosa. Fiéis batiam palmas mais por obrigação do que por fé, na pequena igreja da vila. O Pastor Elias gritava no chiado do microfone.
— O sangue e a justiça de Cristo intervêm entre nós e Satanás! O sangue de Jesus tem poder!
Ele ainda estava no meio da pregação quando um frio tomou conta do ambiente. Era como se o ar tivesse virado gelo. A temperatura despencou. Ele levantou a cabeça e olhou adiante.
E lá estava ela. Miriam.
Sentada no último banco. Encharcada.
Ninguém a viu entrar.
Ela ergueu o braço direito devagar, como se lutasse contra algo invisível. A voz saiu aos pedaços.
— Pastor… me aju…
Antes que terminasse, os olhos dela se reviraram, brancos, sem pupila. E então veio o primeiro
grito.
— Aghr.
O corpo dela esticou antes de cair, como se tivesse sido empurrado por uma mão invisível. Quando bateu no chão, já não era mais Miriam. Os ossos estalavam. A boca abria e fechava, mas saíam apenas ruídos roucos, como se algo estivesse tentando falar por um buraco na garganta.
— É o capeta! — alguém gritou.
Elias segurava a Bíblia com as mãos trêmulas. Suplicou em nome de Deus, mas a coisa dentro de Miriam apenas riu — uma risada que ecoou pela igreja.
— Pastor… — a voz era dela, mas o tom, não. — Seu Deus não está presente.
E então, ela arranhou o próprio rosto. As unhas deixaram marcas vermelhas, mas não sangravam. A igreja virou um caos. Mulheres gritavam, homens empurravam os bancos, celulares filmavam como se fosse um show. Elias olhou para a Bíblia e, pela primeira vez, duvidou de tudo.
A mulher continuava no chão, contorcendo-se. Três homens a seguravam com dificuldade, mas ela tinha a força de dez. Miriam babava, rangia os dentes, cuspia no rosto de quem se aproximava. Uma criança chorava no canto, agarrada à mãe.
— Segura ela! Pelo amor de Deus! — Elias gritou, a voz falhando.
Ele se ajoelhou, repetindo orações, esperando que algo respondesse. Nada respondia. Miriam urrava, debatendo-se contra os homens que a amarravam com uma corda. A cada grito, mais bancos tombavam, mais fiéis corriam.
Foi quando um homem entrou na igreja.
— Que porra de correria pra fora da igreja é essa que tá assustando meus clientes?!
Deco, o dono do bar da frente, apareceu na entrada com a camisa encharcada de chuva, o cheiro de cachaça pairando em volta dele. Ele olhou para a cena — a mulher amarrada, se debatendo, o pastor de joelhos, suado e trêmulo.
— É o Diabo! — uma senhora gritou, sem fôlego.
Deco coçou o queixo, examinando Miriam com olhos de quem já viu de tudo na vida.— Isso aí não é o Diabo. Acha que o Diabo, em pessoa, perderia tempo vindo até aqui? Ele deve ter mais o que fazer — disse, quase rindo. — Isso aí é encosto.
Elias se levantou, o rosto contraído.
— Respeite a casa do Senhor!
— Casa do Senhor? — Deco apontou para Miriam. — Que casa do Senhor é essa que o pastor tem medo disso?!
Elias engoliu seco.
— Já chamei outros pastores. Eles vão ajudar.
Deco coçou a cabeça e olhou diretamente nos olhos de Elias.
— E se, em vez de pastores, você chamasse quem entende?
Elias se incomodou com o questionamento de Deco, mas perguntou.
— Ela está no lugar certo, quem poderia fazer melhor?
Deco não pensou duas vezes.
— O Ivan!
Elias estalou a língua, recuando.
— O macumbeiro aqui da vila? Jamais vou trazer esse macumbeiro alcoólatra pra dentro da casa de Deus.
— Então deixa ela morrer! — Deco respondeu, cruzando os braços. — Bom… vou me retirar.
Só me avisa depois o horário do enterro. Restou apenas o silêncio. Só se ouvia o ranger das cordas em Miriam e a chuva caindo lá fora. Até que a voz saiu de Miriam novamente — grossa, seca, debochada.
— Vai deixar… ela… morrer… por orgulho, pastorzinho?
Um calafrio cortou Elias da nuca até os calcanhares.
Ela rangia os dentes como se fossem pedras, cuspia, urrava, e o corpo parecia se dobrar em direções que nenhum osso deveria permitir.
Elias suava como porco em um matadouro. A Bíblia tremia em suas mãos. A oração já não era oração — era gaguejo.
Foi quando chegaram os outros dois pastores da região, amigos de campanha e oração. Um deles, careca e gordo, carregava uma Bíblia como se fosse uma arma. O outro, mais jovem, magro e com uma expressão tensa.
— Elias! — gritou o careca. — Estamos aqui, irmão!
— Glória a Deus, glória a Deus! — repetia o mais jovem, mesmo sem saber onde estava a glória naquela cena.
— Glória a Deus, irmão Aldair e irmão Carlos.
Os três cercaram Miriam. A mulher se debatia, amarrada no chão, babando. Um cheiro de suor apodrecido tomava o ambiente.
— Em nome de Jesus! Em nome de Jesus!
— Sai! Sai agora! Eu te ordeno!
— Demônio imundo, eu te repreendo!
— Queima ele, Senhor! Queima!
Nada.
A coisa dentro de Miriam apenas gargalhava. Minutos se passaram, e Carlos, o mais jovem, começou a tremer. Aldair, o careca, largou a Bíblia. Elias estava pálido e ajoelhou.— Não dá… não dá mais…
As luzes da igreja piscaram. Uma das lâmpadas estourou. Um dos fiéis que ainda não tinha fugido vomitou no chão.
— Chega! — gritou Elias. — Não dá!
O silêncio pairou no ar novamente. A mulher se contorcia no chão. As cordas estavam tão apertadas que já machucavam.
O pastor Aldair olhou para Elias, depois para Carlos.
— E se… e se for outra coisa?
— Como assim? — Elias perguntou.
— E se for… outro tipo de demônio? Algo que nossas orações não alcançam? Elias engoliu seco.
— A solução sempre vem do alto.
— Ou do bar da frente — respondeu Carlos, apontando com o queixo. — Antes de entrarmos aqui, o Deco disse que, se precisássemos de ajuda, ele saberia onde nos levar.
Elias cerrou os dentes. Pensou. Por orgulho, por medo, por tudo.
— Apenas desta vez… vamos lá!
O bar estava quase vazio. Deco limpava um copo, ouvindo o som da chuva batendo nas telhas, quando viu os três pastores entrando.
— Olha só quem chegou…
Elias segurava a Bíblia contra o peito.
— Precisamos que chame o macumbeiro até aqui.
Deco parou.
— Nessa chuva forte? Duvido que ele saia de casa. Temos que levar a Miriam até ele.
— Vamos levar ela no meu carro! — disse Elias.
O porta-malas do Monza foi fechado. Miriam se debatia lá dentro, cordas marcando seus pulsos, sangue escorrendo do canto da boca.
A viagem foi curta. A cada curva, um grito abafado vinha de trás. Ninguém falava nada. Quando o carro parou em frente à casa de Ivan, um peso desceu sobre todos. Deco tocou a campainha. Nada. Tocou novamente.
O portão se abriu. Um menino magro apareceu.
— Boa noite. Me diga, cadê seu pai? — Deco perguntou.
— Trabalhando. Somente meu tio e minha avó estão em casa.
Deco coçou a cabeça, olhou para os pastores.
— É… acho que vocês estão ferrados.
Foi quando surgiu mais uma pessoa no portão. Era Silvio, irmão de Ivan.
— O que tá pegando aqui? — Silvio perguntou, olhando nos olhos de cada um.
— Tem uma mulher possuída no porta-malas do carro — Elias respondeu, sem paciência.
— Possuída? Por quem?
— Sei lá! Algum demônio…
Silvio estufou o peito.
— Eu resolvo. Tragam-na para a garagem.
A garagem era úmida, mal iluminada, cheirando a cigarro e pinga. O altar improvisado tinha imagens de santos e velas pela metade. Havia apenas um fusca azul. Silvio entrou no fusca, deu ré para tirar o carro da garagem, abrindo espaço.Miriam foi colocada no chão. Seu corpo ainda tremia.
Silvio começou.
— Saravá, saravá! Salve Ogum, salve Exu!
Acendeu uma vela. Desenhou símbolos no chão com carvão. Bateu palmas, girou.
— Laroyê Exu! A gira vai girar!
Nada aconteceu.
Miriam só se debatia. Silvio se jogou no chão.
— Agora sou eu! Tranca-Ruas das Almas está presente!
— Jesus Cristo — disse Aldair, erguendo a Bíblia.
— Cala a boca, Silvio, tá na cara que é fingimento — Deco resmungou.
Ele ignorou, pegou uma garrafa de cachaça e deu um gole, tossiu e fez careta.
— Seu idiota! Você está engasgando — Deco esbravejou.
A tensão subia. A mulher gritava. Silvio rodando como um pião. A criança olhando toda a situação da porta.
Miriam começou a bater a cabeça no chão. Forte. Silvio gritou.
— Eu ordeno que saia, espírito maldito das profundezas do inferno!
Ela abriu os olhos. Olhou direto pra ele.
— Você não é nada. Nem sombra do outro que está chegando.
— O quê? — Silvio recuou.
Miriam começou a cantarolar, desafinada, um ponto de exu que Silvio tinha acabado de cantar.
Como se zombasse. Silvio tremeu.
A chuva aumentava. A tensão era insuportável. Elias, Aldair e Carlos começaram a orar. Deco sentou-se no canto da parede, ao lado da criança.
— Garoto, seu pai resolveria isso em segundos, é tudo falastrão esses caras aqui. E foi nesse momento que uma presença, segurando um guarda-chuva, se aproximou da entrada da garagem. Era o momento mais aguardado por todos naquela noite. Todos na garagem pararam. Silvio congelou no meio do seu teatrinho. Miriam, amarrada, virou os olhos para a entrada. Os pastores engoliram em seco. Deco soltou um — Agora vai.
Ivan entrou.
Casaco escuro, rosto sério. Não dizia nada. Apenas observou e entendeu a situação. A cena falava por si — Miriam jogada no chão, as cordas apertadas, marcas nos pulsos, o rosto riscado de sangue seco e baba. Silvio suado, com a cara vermelha de vergonha, ainda ajoelhado, fingindo incorporação. Ivan olhou direto nos olhos dele.
— Dá licença.
Silvio, calado como nunca, se levantou e foi para trás dos outros, evitando encarar o irmão. Ivan ajoelhou-se devagar. Tocou o chão da garagem com a palma da mão. Depois, os olhosdele se voltaram para Miriam.
— Você me ouve?
Por alguns segundos, silêncio. O corpo dela estava parado. Os olhos vazios.
— Eu sei o que você é. E sei o que busca — disse Ivan, como se estivesse falando com uma presença que só ele enxergava. — Mas aqui… não vai ficar!Ivan suspirou. Olhou para os lados. O altar mal montado. O cheiro de pinga misturado com vela derretida. Silvio usando uma capa, os três pastores tensos segurando a Bíblia. Aquilo tudo era um circo. E a mulher no chão era a única que pagava o preço.
Ele meteu a mão no bolso da jaqueta. Tirou um maço amassado de Marlboro. Pegou um cigarro, acendeu com fósforo, deu uma tragada curta e encarou Miriam por um instante, como se conversasse com algo além dela. Depois, abaixou-se. Colocou o cigarro aceso entre os lábios da mulher.
— Tome o que você busca e retorne de onde veio, permita que esta mulher viva em paz daqui
em diante — sussurrou.
No instante em que o cigarro encostou nos lábios de Miriam, o corpo dela tremeu como se levasse um choque. Os olhos reviraram, e um grito cortou a garagem — mas era um grito preso. Um grito de dentro, abafado. Como se algo invisível tivesse sido rompido. E então. O corpo dela caiu mole. Sem contorções. Sem voz estranha. Ivan tirou o cigarro da boca dela com dois dedos e colocou ao lado o restante do cigarro em pé, com o filtro para baixo.
Miriam tossiu.
— O que… o que aconteceu?
Ninguém respondeu. Ninguém se moveu. Os três pastores e Silvio estavam com os braços nos ombros um do outro. Ela olhou em volta. Olhos inchados, rosto machucado, as cordas marcando fundo nos braços.
— Onde eu estou?
Ivan ficou de pé, limpando a mão na calça.
— Está viva! O restante não precisa saber agora. Silvio ainda tremia. Os pastores tinham a cara de quem viu algo que vai assombrar para o resto da vida.
Deco abraçou o menino.
— Garoto… seu pai é foda!
Ivan disse mais uma coisa, sem olhar pra ninguém.
— Da próxima vez… respeitem os espíritos. Respeitem os que já se foram. E levem essa
mulher para o hospital, para cuidar dos ferimentos que vocês mesmos causaram. Saindo da garagem, Elias perguntou.
— O que era aquela coisa?
— Apenas um espírito sem luz querendo alimentar seu próprio vício — disse Ivan, agora pegando na mão de seu filho e indo para dentro de casa.
Elias olhou para a Bíblia. As mãos já não tremiam, mas também não seguravam com fé. Baixou a cabeça. A chuva ainda continuava lá fora, mas agora…
Era apenas a chuva.
Washinghton Necrow
Escritor, músico e entusiasta do cinema e do terror.



