Certamente esta foi uma das principais experiências musicais que tive dentro do metal extremo, algo que me cativou por sua obscuridade e excentricidade. A banda Monumentum trabalhou com sonoridades estranhas para alguém que estava acostumado a sons de britadeira e que, de repente, se viu imerso em uma atmosfera densa e não menos caótica. Para mim, a banda surgiu em meio a uma onda de grupos que faziam esse tipo de fusão, mas nada foi tão marcante quanto ouvi-los. Ademais, naquela época tive contato com experimentos musicais extremamente exóticos e com uma poética voltada ao obscuro de maneira ainda mais bizarra, que talvez coadunasse mais com meus gostos literários e musicais; porém, o que havia por trás da estrutura sonora do Monumentum transcendia tudo aquilo que parecia óbvio em minha jornada.
Poucas entidades do underground europeu carregam uma aura tão paradoxal quanto o MONUMENTUM. Sempre o percebi como algo ativo por longos períodos apenas no plano simbólico — citado mais do que ouvido, reverenciado mais pela ideia do que pela presença concreta. O projeto liderado pelo italiano Roberto Mammarella construiu sua relevância não pela produtividade, mas pela persistência espectral de um conceito. Em um cenário em que a urgência costuma ser confundida com autenticidade, o MONUMENTUM sobreviveu ao tempo como uma obra em suspensão — uma promessa que nunca se dissolveu.
Fundado em Milão, em 1987, o MONUMENTUM nasceu no mesmo caldo cultural que fermentava a segunda onda do black metal, mas desde o início se colocou à margem até mesmo desse movimento. Mammarella deixa claro que a banda não foi concebida como um grupo musical tradicional, mas como um projeto arquitetônico, pensado antes no papel do que no instrumento, antes na imagem do que no som. As “reuniões” do grupo não eram ensaios, mas sessões conceituais: cadernos, títulos, fragmentos líricos, esboços de capas e discussões abstratas precediam qualquer riff executável.
Essa metodologia singular já anunciava um destino igualmente singular.
Lançada em 1989, a demo Musaeum Hermeticum não foi apenas a estreia do MONUMENTUM — foi uma declaração de intenções. Musicalmente crua, tecnicamente instável e carregada de experimentações pouco comuns para a época, a gravação apresentava elementos que só anos depois seriam assimilados pelo metal extremo, como o uso de violino real, piano e estruturas não convencionais.
Mammarella reconhece que o grupo mal sabia afinar seus instrumentos. Ainda assim, isso nunca foi um obstáculo real: o MONUMENTUM não pretendia ser uma banda funcional, mas um manifesto estético. Assim como o CELTIC FROST de Into the Pandemonium, principal farol criativo do projeto, o MONUMENTUM era guiado mais por visão do que por virtuosismo. Não por acaso, o próprio nome da banda foi “roubado” de um título que o CELTIC FROST chegou a cogitar para um álbum que jamais existiu — um gesto simbólico que revela tanto devoção quanto apropriação consciente.
Mas o MONUMENTUM não orbitava apenas o metal. Suas raízes também se aprofundavam na darkwave e no pós-punk dos anos 80, absorvendo influências de CHRISTIAN DEATH e THE SISTERS OF MERCY. Essa fusão — ainda rara na época — colocava o projeto em uma posição liminar, distante tanto da ortodoxia do black metal quanto das cenas góticas tradicionais.

Pouco depois da demo, o MONUMENTUM se desintegrou como formação estável. Roberto Mammarella foi convocado para o serviço militar obrigatório, perdeu contato com os membros originais e retornou a um cenário pessoal fragmentado. A banda, na prática, deixou de existir — mas, paradoxalmente, seu nome começou a circular cada vez mais no underground.
Esse fenômeno se intensificou com o split EP com o ROTTING CHRIST, lançado em 1991. Enquanto os gregos apresentaram uma regravação contundente de “Feast of the Grand Whore”, o MONUMENTUM contribuiu apenas com material reaproveitado da demo. Não por escolha estética, mas por impossibilidade factual: não havia banda ativa capaz de gravar algo novo.
Ainda assim, o nome MONUMENTUM se solidificou como culto.
Durante esse período de inatividade musical, Mammarella tornou-se uma figura central do underground europeu por meio de seu trabalho com o fanzine Thanatography e o selo Obscure Plasma Records. Foi nesse contexto que se estabeleceu sua relação com a Deathlike Silence Productions e com o MAYHEM.
Euronymous, impressionado com Musaeum Hermeticum, assinou o MONUMENTUM para a DSP antes mesmo da existência de um álbum. O acordo, porém, esbarrou nas limitações financeiras típicas da época. A solução proposta por Euronymous se tornaria histórica: lançar um álbum ao vivo do MAYHEM para financiar o futuro disco do MONUMENTUM.
Assim nasceu Live in Leipzig, lançado em vinil em 1993 pela Obscure Plasma — talvez o álbum ao vivo mais influente da história do black metal. Um lançamento que quase não aconteceu, ameaçado por disputas internas da cena, tensões pessoais e conflitos ideológicos, incluindo a famosa ira de Euronymous diante da possibilidade de Mammarella lançar material do BESTIAL SUMMONING.
Esses episódios revelam não apenas o clima volátil da época, mas também o lugar delicado que Mammarella ocupava: intermediário, editor, curador e, ao mesmo tempo, artista em suspensão.
A morte de Euronymous, em 1993, marcou uma ruptura definitiva. Mammarella chegou tarde demais à Noruega, encontrou a Helvete fechada e compreendeu que o eixo simbólico que sustentava parte do projeto havia colapsado. As trocas de cartas com Varg Vikernes, marcadas por ingenuidade, radicalismo e delírios de conspiração, completaram um quadro de desintegração moral e espiritual da cena.
O episódio mais perturbador permanece sendo o fragmento do crânio de Dead, enviado por Euronymous a alguns poucos correspondentes. Mammarella nunca aceitou plenamente a versão oficial do suicídio, questionando a cena do crime e a exploração estética da morte — uma dúvida que ecoa até hoje como parte da mitologia negra do black metal.
Gravado entre 1994 e 1995 e lançado pela Misanthropy Records, In Absentia Christi é, para mim, o resultado direto desse percurso fragmentado. Não é um álbum de banda, mas de um homem lidando com a ausência.
Sem formação fixa, sem repertório pronto e com apenas estruturas embrionárias, Mammarella entrou em estúdio com uma decisão radical: gravar primeiro a bateria, criando uma espinha dorsal sobre a qual o álbum seria esculpido posteriormente. O processo foi descrito como escultórico — um bloco bruto de tempo e ritmo do qual a obra final emergiu lentamente, guiada por uma visão interna clara, ainda que invisível aos outros.
O resultado é um disco que carrega peso ritualístico, solenidade fúnebre e um senso de transcendência negativa que o distingue de qualquer outro lançamento da época. In Absentia Christi não celebra o anticristianismo juvenil; ele lamenta o vazio deixado após a negação, encarando a ruína como estado permanente.
A história do MONUMENTUM, sob minha perspectiva, não é a de uma banda em atividade contínua, mas a de um nome que nunca deixou de existir, mesmo quando não havia música, membros ou ensaios. Seu verdadeiro monumento não está apenas nos discos, mas no espaço simbólico que ocupou entre o black metal, o darkwave e o underground editorial europeu.
Ao longo dos anos, vejo o MONUMENTUM transformar-se de projeto musical em entidade conceitual, sobrevivendo às mudanças de cena, às mortes, às desilusões e ao próprio silêncio. Um culto construído não pela presença constante, mas pela fé — uma fé estranha, melancólica e profundamente humana — na beleza que pode surgir mesmo quando tudo parece ausente.
Em um mundo que exige velocidade, o MONUMENTUM escolheu a permanência lenta.
E permaneceu.
Fonte: Esta matéria foi elaborada a partir da entrevista concedida por Roberto Mammarella (MONUMENTUM) ao jornalista Niklas Göransson, originalmente publicada em 09 de agosto de 2022 na revista Bardo Methodology #7. O conteúdo utilizado corresponde a um trecho do artigo original, cuja versão completa possui extensão maior e integra a mesma edição.



