Evillair ratifica seu Black Metal Atmosférico em um álbum moldado de forma doentia, solitária e sem esperança.
O NORDICWINTER, projeto solo comandado por Evillair em Montreal, Canadá, sempre existiu como um reflexo direto de estados internos extremos. Longe de qualquer romantização superficial da melancolia, sua obra nasce de rupturas pessoais, isolamento prolongado e uma visão niilista da existência. Em entrevista concedida ao This Is Black Metal, Evillair oferece um raro mergulho nas camadas emocionais, conceituais e práticas que sustentam o mais recente álbum do projeto, “Solitude”, lançado em 28 de novembro pela Naturmacht Productions.
Desde sua origem, em 2005, o Nordicwinter nunca foi concebido como uma banda tradicional, tampouco como um projeto com ambições de palco. Surgiu, antes de tudo, como necessidade criativa: impossibilitado de formar uma banda após se mudar para Montreal, Evillair encontrou no formato solo a única maneira de continuar produzindo música. O que começou como uma tentativa isolada — uma única faixa lançada em fóruns de Black Metal — rapidamente se transformou no álbum “Threnody”, estabelecendo as bases sonoras e emocionais do projeto.
Entretanto, a trajetória do Nordicwinter foi marcada por longos hiatos, causados sobretudo por problemas de saúde. Diagnosticado com sarcoidose no início dos anos 2000, Evillair enfrentou dores crônicas, afastamento do trabalho e uma vida cada vez mais confinada ao espaço doméstico. Essa condição não apenas inviabilizou qualquer possibilidade de atividade ao vivo, como também moldou profundamente a estética do isolamento que atravessa toda a discografia do projeto.

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É nesse contexto que Solitude emerge como uma obra central. Embora dialogue com temas recorrentes — morte, tristeza, solidão —, o álbum apresenta um foco maior na natureza como espelho emocional, evocando paisagens frias, vastas e desoladas. A atmosfera gélida não é mero artifício estilístico, mas uma extensão direta do estado mental que deu origem às composições. Segundo Evillair, trata-se de um disco impossível de ser “feliz”: a música nasce onde a experiência pessoal encontra limites físicos e existenciais.
Do ponto de vista sonoro, Solitude representa um refinamento da linguagem do Nordicwinter. Evillair investiu em camadas sutis de orquestração, guitarras e texturas quase imperceptíveis, criando profundidade sem recorrer ao excesso. Os vocais, tradicionalmente soterrados na mixagem, surgem aqui um pouco mais à frente, enquanto a bateria busca um timbre mais natural, distanciando-se do raw absoluto típico do DSBM. O próprio criador faz questão de frisar: embora o projeto dialogue com o Black Metal Depressivo, ele se enxerga прежде como Black Metal Atmosférico, onde a emoção é construída pela ambiência e não apenas pela crueza.
A criação de Solitude também marca um retorno inesperado à composição. Após o álbum “This Mournful Dawn”, Evillair acreditava ter esgotado tudo o que tinha a dizer sob o nome Nordicwinter. A ideia de encerrar o projeto era real. No entanto, um novo período de agravamento de saúde e isolamento extremo reacendeu o impulso criativo, materializado inicialmente no riff central de “The Howling Void”. A partir daí, o álbum foi lentamente se revelando, em um processo longo, porém catártico.
No plano filosófico, a entrevista deixa clara a transição definitiva de Evillair para um niilismo existencial assumido. Se na juventude havia flertes com o espiritual, hoje essa dimensão é rejeitada sem ambiguidades. Para ele, o universo é indiferente, e qualquer tentativa de atribuir sentido cósmico à existência humana soa ilusória. Essa visão permeia Solitude não como manifesto ideológico, mas como aceitação amarga da insignificância, traduzida em som.
O futuro do Nordicwinter, contudo, não aponta para estagnação. Evillair revela que já trabalha em um novo álbum, descrito como mais agressivo, grandioso e poderoso, ainda que preservando o núcleo emocional que define o projeto. A promessa é de uma evolução que não nega o passado, mas amplia suas possibilidades expressivas.
Solitude se firma, assim, como uma obra de sobrevivência emocional: não um pedido de ajuda, nem um exercício estético vazio, mas o registro honesto de alguém que cria apenas quando há algo que precisa ser dito. Em tempos de saturação e excesso, o Nordicwinter segue como um lembrete de que o Black Metal, em sua forma mais austera, ainda pode ser verdade íntima transformada em ruído, atmosfera e silêncio.
Fonte: This Is Black Metal



