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POSTHUMOUS – APRESENTAM UMA CERIMÔNIA PROFANA

Giovan Dias abril 6, 2023 8 min read

Está aí uma  banda que não precisa de muitas apresentações. Tendo grande destaque na cena nacional nos anos 90, lançando o clássico “My Eyes, They Bleed”, a banda passou por anos adormecida, até retornar em 2017 com a mesma ira do passado. Conversamos com Ricardo Mutilator para falar sobre o POSTHUMOUS e muito mais…

“Unholy Ceremony” é o nome do novo trabalho que está para ser lançado. O que podemos esperar?

Ricardo Mutilator – Acredito que possa se esperar uma sequência do “My Eyes, They Bleed”, porque mesmo sendo gravado mais de 20 anos depois, as músicas são daquela época, são composições feitas entre 1999 e 2005, inclusive tendo músicas que poderiam até mesmo ter entrado no “My Eyes…”

Então certamente vem algo fudido, uma continuação de um clássico! E como foi o contato com o renomado Marcelo Vasco? A ideia foi de vocês ou o deixaram livre para criar? Percebi até uns sigilos na capa.

Ricardo Mutilator – Bem, o Marcelo já tinha feito a capa do “The Frightening Cold Tomb” e na época o contato com ele foi através do nosso baixista, o Nargoth, que era o vocalista/baixista da Somberland e já tinham as capas deles feitas pelo Marcelo. A ideia foi minha mas deixei ele livre pra criar em cima do que eu passei e devo dizer que ficou bem diferente do que eu tinha proposto no início, mas dentro da ideia passada. O Marcelo é muito talentoso e experiente, e na minha modesta opinião, acho que ele acertou em cheio, fazendo uma belíssima capa.

Este novo material será lançado pela HAMMER OF DAMNATION, assim como foi a compilação “The Frightening Cold Tomb-Compendium Mortis”. Já chegou a incomodar os comentários sobre essa “aliança”? Qual a opinião da banda sobre o estigma que o selo carrega?

Ricardo Mutilator – Já ouvi falarem de tais comentários, mas diretamente até mim não chegou comentário algum e se chegar não vou me incomodar. Sei das polêmicas em relação ao Selo por lançar bandas controversas, porém vejo isso como uma relação estritamente profissional. A verdade é que a Hammer of Damnation vem fazendo um ótimo trabalho, com lançamentos de extrema qualidade e acredito que se o Selo tivesse algum vínculo com qualquer tipo de preconceito e/ou discriminação racial não lançaria bandas como Ad Baculum e Eternal Sacrifice, por exemplo.

E por ser uma banda do sul, que lançou material com a Evil Horde, membros que já tocaram no Murder Rape… já foram taxados também de nazistas, separatistas ou algo parecido? Torna-se um fardo esses assuntos na história da banda?

Ricardo Mutilator – Já sim. Mas só falam esse tipo de besteira quem não nos conhece realmente. Isso é coisa de ignorante, e quando falo ignorante não é como ofensa, é no real sentido da palavra, de ignorar mesmo, de não ter conhecimento sobre algo, e normalmente quando alguém opina sobre algo que não tem conhecimento, acaba falando besteira. O Posthumous vive o Underground desde 1993 e não carrega fardo nenhum, o Norte e Nordeste Brasileiro é um grande apoiador da banda e temos muito orgulho disso, esperamos um dia poder tocar por lá e abraçar a todos pessoalmente.

Mas você enxerga o anti-semitismo como uma manifestação digna do Black Metal?

Ricardo Mutilator – Bem, se eu entendi a pergunta, acho que você coloca aqui anti-semitismo como anti-judaísmo. Mas o semitismo não está ligado diretamente à religião e sim a povos, tanto é que muitos povos árabes também são semitas. O problema é que o sionismo conseguiu colocar na cabeça da população mundial que falar contra judeu é ser racista. E eu não vejo dessa forma. Eu vejo o judaísmo e cristianismo como iguais. São religiões e o Black Metal é a força contrária a elas. Então se é digno se manifestar contra o cristianismo não vejo o porque não ser digno se manifestar contra o judaísmo.

Na verdade para mim, o anti-semitismo é uma espécie de movimento extremista de ódio a um povo. O problema é confundirmos povo e religião. Judeus, xiitas, chechenos, turcos, ciganos, bascos são povos independentes de sua religiosidade. Acredito que as religiões nas quais a maioria professa é que devemos combater, concorda? Ou não, nascer judeu já está fadado a ser execrado?

Ricardo Mutilator – Exatamente. A essência do Black Metal é o combate às religiões e é nisso que deve ser focado. Mas não concordo quando você diz que judeus e xiitas são povos, para mim são grupos religiosos, como cristãos, seria como dizer que quem nasce numa família cristã é do povo cristão. Na minha visão sua pergunta seria: “Nascer hebreu/israelita já está fadado a ser execrado?” e a minha resposta será: lógico que não, até porque existem israelitas não judeus, e isso seria perseguição a um povo, o que não é o objetivo do Black Metal.

Vamos falar sobre os dias atuais da banda. O Posthumous já tem novas composições com a formação atual? Que influências trouxeram esses três novos integrantes?

Ricardo Mutilator – Sim, já estamos compondo. Quando entram novos integrantes é normal que cada um traga o seu jeito de tocar e de compor, mas acredito que não ocorrerá grande mudança nas composições novas, além de que o Posthumous já criou uma identidade no seu som e essa identidade foi forjada nas bases do Heavy, Thrash, Death e Black Metal. Tudo é questão de sabermos arranjar essas influências. Porém, as músicas do “Unholy Ceremony” não foram compostas com a nova formação, porque quando paramos em 2005 deixamos 12 músicas prontas, mas todas elas foram rearranjadas com os novos integrantes, então apesar de não mudar a estrutura das músicas, sempre tem o toque pessoal de cada integrante que faz alguma diferença.

Você e o R. Satan são da formação original. Tiveram alguma atividade no Underground durante esse período adormecido da banda de 2005 à 2017?

Ricardo Mutilator – Primeiramente só uma correçãozinha, da primeira formação sou somente eu, o R.Satan entrou em 1996. Quanto às nossas atividades durante a pausa da banda, eu realmente passei esse tempo em casa, encaixotei meu equipamento e me dediquei ao trabalho. O R.Satan participou de um projeto chamado Luciferi Glorium acho que entre 2006 e 2007.

E como você avalia o cenário nacional nesse período que “ficou de camarote”? Para você o que mudou para melhor e o que pode ter piorado?

Ricardo Mutilator – Muita coisa mudou. A tecnologia chegou e ajudou muito em relação ao acesso às coisas do mundo da música, falo em termos de equipamentos, estúdios e todo o aprendizado que se pode encontrar na internet hoje. As redes sociais também facilitaram muito os contatos que antigamente eram feitos por cartas e durante os shows. Porém, falando em shows, acho que isso foi o que mais mudou para pior. Antigamente os shows eram celebrações, fazia-se todo o tipo de esforço para poder comparecer e eram feitas grandes amizades. Hoje eu vejo a velha guarda sobressaindo nos shows e isso me preocupa, parece que a nova geração prefere ficar em casa a um clique de qualquer som que queira ouvir ao invés de comparecer num evento e dar apoio aos guerreiros que estão ali tentando manter o Underground vivo.

Podemos considerar que os covers já realizados foram de bandas que influenciaram a sonoridade de vcs? Sarcófago, Bathory, Iron Maiden… ou não? O que mais influenciaram a sonoridade do Posthumous?

Ricardo Mutilator – Claro que sim. Com certeza não faríamos cover de uma banda que não tivesse de alguma forma influenciado na nossa história. Posso dizer que a nossa sonoridade é uma fusão de tudo que a gente tem escutado desde os anos 80, bandas como Black Sabbath, Iron Maiden, Judas Priest, Motorhead, ACDC, Mercyful Fate, Venom, Bathory, Celtic Frost, Possessed, Hellhammer, Blasphemy, Destruction, Sodom, Kreator, Running Wild, Slayer, Metallica, Megadeth, Exodus, Whiplash, Sarcófago, Sepultura, Mutilator, Holocausto, SexTrash, The Mist, Paradise Lost, Death, Morbid Angel, Deicide, Malevolent Creation, Cannibal Corpse, Dark Tranquility, Tiamat, Darkthrone, Impaled Nazarene, Mayhem, Marduk, Immortal, Mortuary Drape, Samael, Rotting Christ, Necromantia, Varathron, Emperor… e muitas outras que com certeza estou esquecendo.

Você comentou que a nova geração prefere ficar em casa, afirmação que concordo e que podemos facilmente listar diversos motivos. Mas vivemos uma era digital, onde até a “velha guarda” caiu de cabeça, inclusive o Posthumous participou de uma live recentemente. O que você acha desse assunto? Estaremos fadados a MP3, lives e encontros virtuais?

Ricardo Mutilator – A era digital está aí, é a realidade atual, não podemos querer continuar vivendo como nas décadas de 80/90, temos que ir nos adequando às mudanças. A questão dos MP3’s/Streaming eu vejo como um facilitador, pra ouvir no carro ou em uma festa por exemplo, mas em casa, na tranquilidade, eu gosto de pegar o CD, colocar no som, sentar, ouvir e ler o encarte. Já quanto as Lives, eu penso ser uma forma interessante de divulgação, mas não para shows. Show eu prefiro estar lá, sentindo o ambiente, bebendo meu traguinho, conversando com os brothers… As Lives eu acho interessante para mostrar um ensaio ou de repente apresentar uma música nova, algo nesse sentido, de forma nenhuma para substituir os shows.

O que podemos esperar do Posthumous pós Pandemia? Uma turnê por todo o Brasil? E a Europa está no plano da banda?

Ricardo Mutilator –  A gente quer voltar aos palcos. Acho que não tem satisfação maior para um músico do que estar em cima do palco e apresentar sua música. Uma turnê pelo Brasil seria ótimo, com um álbum novo lançado melhor ainda, mas é uma coisa que tem que ser bem planejada porque nós não vivemos da música e temos que conciliar isso com os nossos trabalhos. A Europa da mesma forma, já tivemos a oportunidade de ir na década de 90, mas infelizmente não foi possível. No momento o negócio é deixar isso tudo passar e depois ver o que aparece.

Ricardo, agradecemos o tempo concedido para essa entrevista. Satisfação ter o Posthumous em nosso Portal! Deixe aqui suas palavras finais….o espaço é livre.

Ricardo Mutilator – Nós é que agradecemos, é uma honra para nós ter esse espaço na Lucifer Rising que tanto contribui para manter nosso underground vivo e forte. Gostaria de finalizar dizendo que quando eu comecei a ouvir Metal na década de 80, o Metal era transgressor, era a contracultura, o antissocial, era perverso, malvado, agressivo, era a podridão; me desanima muito essa mimizeira/nutelagem que a algum tempo vem desvirtuando isso tudo. Um Salve ao Metal Nacional e a todos aqueles que permanecem com aquela essência. 

Giovan Dias

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