É a maior verdade compreender que escrever esse tipo de texto, tão extenso, requer um ritmo que, infelizmente, tive de reduzir diante de tantas outras tarefas que assumo, tanto na minha vida pessoal, quanto nas minhas atividades ligadas ao Metal. Mas tenho toda satisfação em escrever sobre esse tema, principalmente por ter isso definido, em meu íntimo, como algo que vai relativizar a existência e coexistência de uma grande parte do que conhecemos como Metal Extremo hoje, e tudo começou com bandas que tinham alguma pretensão no cenário “rocker” e “metal” durante os fins dos anos 1970 e início dos anos de 1980.
Dessa vez eu decidi começar minha jornada por uma banda asiática e, antes de dar início a essa ideia sobre uma banda japonesa que vai ficar conhecida como uma banda ligada ao Black Metal, principalmente nos anos noventa do século vinte, a gente precisa resgatar alguns aspectos culturais que justifiquem a existência de bandas com narrativa anticristã em terrenos onde o cristianismo é um culto alienígena.
Assim como a todos os continentes do planeta, no século XVI houve uma expansão marítima massiva realizada pelos europeus com desejos de exploração e de imposição cultural aos demais espaços, assim como a África, a Asia não ficou de fora desse intento, foi nesse período que os portugueses chegaram a ilha japonesa através dos missionários jesuítas (os mesmos que chegaram em terras brasileiras e fizeram os mesmos processos). Houve uma sensível diferença da atuação dos jesuítas em terras japonesas com relação a sua atuação em terras brasileiras, principalmente quanto a resistência cultural que houve do povo japonês. Muitos se converteram convencidos pelos jesuítas portugueses, mas depois de algum período o cristianismo passou a ser uma religião proibida no território no século XVII, mais precisamente em 1612. Os jesuítas não foram os únicos a tentarem a conversão do gentil japonês, os espanhóis também chegaram ao Japão com as companhias de franciscanos e dominicanos.

Houve no Japão algo que ficou conhecido como Rebelião de Shimabara, que foi um levante do povo que vivia nessa região de Shimabara, em sua maioria cristãos convertidos insatisfeitos com o aumento dos impostos. O regime político do Japão nesta época era regido pelo Xogunato, uma espécie de “Feudalismo”. O xogunato Tokugawa enviou uma força de mais de 125 000 homens para reprimir os cerca de 27 mil camponeses, e depois de um cerco prolongado contra os rebeldes no Castelo Hara, o xogunato obteve a vitória. Foi a partir desta rebelião que o cristianismo foi proibido em território japonês.
Obviamente que a religião continuou a existir na clandestinidade, afinal esse tipo de construção ideológica baseado em conceitos tão profundos de dominação e que tocam na imago da humanidade chamado religião, dificilmente é dissuadido por ser de forma impositiva. Após a rebelião surgiram os Kakure Kirishitan (cristãos escondidos), que continuaram a cultuar a religião sem que se revelassem, este grupo existe até hoje no Japão, mas apenas o termo existe, o cristianismo deixou de ser proibido no Japão no século XIX, precisamente em 1873.
Dito tudo isso, a banda de Thrash Metal que vai se moldar e se transformar numa banda de Thrash/Black Metal na história talvez a primeira do mundo, porém e certamente a primeira do Japão é a banda Sabbat, que incialmente teve outros dois nomes, um da época do colégio e um outro quando passou a enveredar pelo metal mais obscuro, nessa época chamou-se Evil. A banda de colégio tocava basicamente músicas do Iron Maiden e do Demon, mas quando formaram a banda Evil eles passaram a compor suas próprias canções se consolidando no ano de 1983 composta pelo baixista Gezol, os guitarristas Ozny e Elizaveat, o baterista Valvin e o vocalista Toshiya.
Já no ano de 1984, a banda perde o vocalista e Gezol assume o posto assim como os integrantes decidem tornar a banda algo mais sério e também resolvem mudar o nome de Evil para Sabbat. A banda começou a compor músicas duras, ríspidas e sofrendo forte influência do Venom, o que vem explicar a postura visual do Sabbat que estava bem atrelada ao que o Venom vinha fazendo nesta mesma época. Com essa formação, em 1985 eles gravaram seu primeiro single, contendo duas músicas e lançado através de selo próprio, a Evil Records numa tiragem de 300 cópias com o título “Sabbat”.
A banda, mais uma vez, passou por mudança, dessa vez na bateria, saindo Valvin e entrando Gera (irmão de Gezol). Com essa nova formação eles se ocupam bastante tocando por seu país e inclusive tendo um desses shows sendo transmitido pela TV, algo surpreendente se formos pensar no Metal sendo transmitido pela TV em pleno anos oitenta no Japão. Mas, pensando bem, a maioria das pessoas distantes de determinadas culturas sabem pouco ou nada sobre elas e acabam julgando ou analisando de acordo com seu raso conhecimento ou experiencias de vida, me incluo nessa autoanalise, quem pode me garantir que neste período o metal era um estilo “popular” no Japão? Será que posso usar como referencial os seriados de super-heróis japoneses que eram retransmitidos aqui no Brasil como referencial? Já que muitos deles tinham o estilo como trilha sonora? Provavelmente isso daria um artigo específico, então sigamos.
Neste período de turnê, Ozny chegou a ser preso por agredir uma pessoa na sua segunda noite de apresentação na capital japonesa, Tóquio. A banda seguiu firme com suas convicções e em 1987 entraram em estudio para fazer o seu segundo registro, tratava-se de mais um 7”EP sob o título “Born by Evil Blood” (Evil Records) contendo três faixas. Nesse mesmo período a família de Gezol sofre uma baixa e os irmãos, até então na banda tomam a decisão de parar de tocar ao vivo e marcam um show de “despedida” dos palcos em Nagoya, apresentando para um público pífio de 43 pessoas. O que parecia o final da banda, foi só um espaço de tempo para que eles se reorganizassem, mas ali aparentemente seria apenas uma banda de estúdio, para fazer gravações e não mais se apresentarem nos palcos japoneses.
De qualquer sorte eles gravaram seu terceiro 7”EP chamado: “Desecration” 1988 e no ano seguinte seu quarto EP “The Devil´s Sperm is Cold” 1989 (Evil Records) contendo duas faixas… em meio a estes lançamentos mais oficiais houve demos e splits gravados pelo Sabbat, mas é com esses singles e 7”EPs que a banda começa a ultrapassar as fronteiras de seu país e ganhar notoriedade em outros locais. Apesar de uma certa popularidade, Sabbat continuava uma banda de estúdio e não de palco, até que Gezol, empolgado com essa repercussão, quis voltar aos palcos, porém o Samm (baterista), não estava mais disponível porque havia ingressado na banda de Thrash Metal: Sacrifice. Com tudo isso, Gezol conseguiu alguns shows e fez o possível para convencer Elizaveat que, a princípio não havia gostado muito da ideia de voltar a tocar ao vivo, a participar de alguns deles.
É exatamente nesse processo que o Sabbat se torna um power trio: Gezol (baixo/vocais), Elizaveat (guitarra) e Zorugelion (bateria). Mas o acordo de convencimento com Elizaveat acabou sendo para apenas um show, e o banda teve de buscar um novo integrante para seu lugar. Mesmo com todos esses altos e baixo na formação uma história meio que confusa permeou a carreira da banda: Samm e Elizaveat participaram da gravação do quinto 7”EP “Seven Deadly Sins” 1990 (Evil Records) acumulando uma pilha de EPs em sua carreira. Samm deixa de participar definitivamente dos projetos do Sabbat, mas Elisaveat ainda participa gravando uma demo oficial chamada “Sabbatical Demon” 1990, e o baterista Zorugelion estreia finalmente nesta demo.
A banda continuou sem se apresentar ao vivo, mas eles estavam imbuídos em gravar suas composições ainda contando com a ajuda de Elizaveat. Com essa formação que foi gravado o primeiro álbum “Envenom” 1991 (Evil Records). Nesse período em que a banda está em estudio gravando seu álbum eles conhecem Temis Osmond que cai como uma luva para as guitarras do Sabbat e, finalmente, poderão dar vazão ao desejo de voltar aos palcos após 3 anos sem se apresentarem. Consta nas histórias sobre o Sabbat que Temis chegou a gravar solos no álbum “Envenom”, mas oficialmente isso não foi creditado. A banda estava pronta para ganhar novos territórios e lançar seu álbum na Europa, voaram para a Alemanha na tentativa de negociar o lançamento de “Envenom” pela Lethal Records e conseguir alguns concertos por lá, mas a viagem fracassou, nem lançamento nem shows.
Sem amargura, Sabbat volta ao estudio para gravar seu segundo álbum “Evoke” 1992 (Evil Records), já contando com Temis como guitarrista e também dividindo os vocais com Gezol. Sem perder tempo, ainda em 1992, Sabbat entra em estudio novamente para gravar seu terceiro álbum que vai ser lançado no ano seguinte, mais uma vez pela Evil Records “Disembody”.
Na crítica, Sabbat tinha alguns “defeitos” que seria uma inconsistência em suas composições, que funcionavam muito bem nos seus registros mais curtos: singles e eps, porém não tinham a mesma pegada, o mesmo “Punch” quando se tratava de um álbum completo, fazendo com que seus álbuns não fossem tão espetaculares quanto seus materiais mais curtos, alguns desses críticos indicaram, na época, que o lado B dos álbuns caia muito a proposta da banda e fazia com que os discos se tornassem menos empolgantes, cansativos. Claro que esse tipo de critica talvez estivesse recheada de preconceito, taxar uma banda asiática de pouco criativa ou chata, apenas para justificar as poucas referencias que esses críticos acreditavam que a banda poderia ter, mas aquela altura, em ser terceiro álbum, Sabbat já era uma banda experiente e que estava na cena há mais de 10 anos, se formos contar as bandas da época do colégio. Fato é que o Sabbat teve dificuldades de ter seu material reproduzido ou licenciado na Europa e Estados Unidos, levando uma série de processos em consideração isso afetaria de alguma forma a carreira do Sabbat.
Falando em dez anos, por essa causa a banda decide entrar em estúdio para regravar suas músicas antigas, de seus EPs e reuni-las num álbum, eles fazem essa gravação, mas não lançam de imediato, concomitantemente eles gravam seu quarto álbum “Fetishism” 1994 e lançam pela Evil Records, mais uma vez. Em comemoração a estes dez anos a banda resolve fazer uma apresentação especial e conta com a participação de ex-integrantes como Elisaveat, Samm e Ozny, junto com essa celebração é lançado o álbum comemorativo compilando as músicas antigas em “Black Up Your Soul” 1994 (Evil Records).
Sabbat é o que podemos chamar de primeira onda do Black Metal, porém as raízes fincadas da NWOBHM são muito profundas, assim como a ordenação das músicas com o Thrash Metal que seria o estilo mais agressivo, mais violento e mais pérfido até então. Fato é que na segunda metade dos anos oitenta as manifestações do Thrash Metal que estavam oscilando para o Death e para o Black, deram origem a diversas bandas novas no cenário influenciadas diretamente por bandas que já foram largamente mencionadas aqui nesta série de artigos.
Outro fato importante é que diante de outras regiões que consumiam o Thrash e o Metal em geral, o Japão era um país em que poucas pessoas tinham acesso e conhecimento sobre essas bandas, mesmo com todas as tentativas feitas pelo Sabbat. Certamente foi a banda que conseguiu abrir os caminhos para outras bandas do país, assim como Sacrifice, Abigail etc.

Quando a banda lançou seu quinto álbum e, mais uma vez e frequentemente pela Evil Records, em 1996, Sabbat já tinha seu nome circulando na cena underground muito mais como uma banda de Black Metal da primeira onda que propriamente uma banda de Thrash Metal, aliás àquela altura da história o Black Metal era um dos estilos do Metal Extremo mais prestigiados enquanto o Thrash vivia seu duro momento de decadência e ruína. Curiosamente, “The Dwelling” é um álbum de apenas uma faixa com duração de 59 minutos e 49 segundos. Somente em 1999 que, pela primeira vez, Sabbat vai lançar um álbum por um selo Europeu, “Karisma” seu sexto álbum é lançado pela alemã Iron Pegasus Records.
“Karisma” nos parece ser um divisor de águas na carreira do Sabbat, não apenas pelo fato de ser o seu primeiro álbum lançado oficialmente fora do Japão após tantos anos de existência, mas por alguns detalhes rústicos e concisos na ornamentação e ideologia por tras do álbum como as letras serem em japonês e ainda manterem o caráter irônico do legado do Venom nelas sobre um satanismo desafiador e até recreativo. Ao que tudo indica, “Karsima” é um disco de escarnio na face de pessoas que nutriram, durante tantos anos, a invisibilização de bandas tocando metal extremo em países com baixa visibilidade e o Sabbat deu aquele verdadeiro tapa escrevendo suas canções em sua língua natal e saindo das tradicionais letras em inglês.
Depois de um álbum com estruturas musicais e literárias calcadas no japonês, Sabbat retrocede com seu sétimo álbum “Satanasword” 2000 (Iron Pegasus Records). Um petardo mais voltado ao Thrash Metal que o disco imediatamente anterior e um resgate daquele Sabbat dos anos 80, em partes, claro! Daqui para frente, Sabbat se torna uma banda oficialmente do selo Iron Pegasus e continua sua carreira lançando muitos materiais ao vivo e splits com várias bandas da cena mundial, materiais com diversos selos diferentes, registros de várias possibilidades entre estúdio e apresentações ao vivo, inclusive sem desistir do seu selo próprio a Evil Records.
Depois do “Satanasword” de 2000, Sabbat ainda lançou oficialmente outros álbuns como “Karmagmassacre” 2003 (Iron Pegasus); “Sabbatrinity” 2011 (Iron Pegasus); “Sabbaticult” 2024 (Nuclear War Now) e a saga continua em seus 41 anos de Black/Thrash Metal e fazendo história com uma discografia fenomenal. Uma coisa que é muito importante ressaltar é que o som do Sabbat é extremamente indigesto, portanto, não é uma escuta agradável para quem está acostumado com uma sonoridade polida e exageradamente técnica, Sabbat entrega um tipo de som sujo, fétido, agressivo e sem muita frescura.
Acima citei a migração do integrante Samm do Sabbat para o Sacrifice, outra banda de Thrash Metal japonesa e é sobre a Sacrifice que continuo falando destas bandas pioneiras do Thrash Metal no Japão, porém, nesse caso, não se trata especificamente de uma banda que ingressa no eixo do Black Metal e sim, puramente Thrash eu diria.
Sacrifice foi formada no Japão por volta de 1985, por tanto, depois da existência do Sabbat. Sacrifice traz um som um tanto mais “leve” que o Sabbat e menos agressivo também, mesmo com todas as referências mais brutais da época, o som da banda ainda está bem calcado no Heavy Metal mais tradicional e até no Hard Rock, os elementos do Thrash no som da banda parecem bem sutis, já que a tônica das bandas dessa época era a velocidade e selvageria. Bom, levando em consideração que o que o Sacrifice faz em 1986, é Metal, só por isso já se trata de uma banda agressiva, não tão quanto outras de sua linhagem, mas é possível perceber aquela influência tradicional do Motorhead e das bandas de Speed Metal europeias da época.

A primeira demo do Sacrifice foi lançada em 1986 e tinha duas músicas: “Friday Nightmare” e “Warfare”, material lançado em K7 como de hábito nos anos 80 e 90, normalmente. No ano seguinte, Sacrifice lança seu primeiro álbum sob o título “Crest of Black” 1987 (Explosion Records – gravadora japonesa), esse disco não obteve uma grande repercussão, aliás a banda Sacrifice canadense teve muito mais notoriedade que a Sacrifice japonesa, que há uma grande dificuldade de encontrar materiais de registros dela. Tive muita dificuldade de encontrar artigos, resenhas, ou mesmo biografia da banda para compor essa matéria e isso é um indício do que Temis Osmond (Sabbat, Sacrifice) disse certa vez numa entrevista: A ilha (Japão) estava muita atrasada naquela época dos anos 1980, tínhamos pouca informação sobre o que estava acontecendo nos outros lugares, não tinha internet! (livre tradução de uma entrevista cedida ao Undisputed Attitude https://xundisputedattitudex.blogspot.com/2016/07/temis-osmond-interview-engl.html) ou seja, o Japão estava meio que tateando nos escombros, em busca de qualquer vestígio de Metal que pudesse ser fonte de alimentação para suas composições. Estava claro que nas influências dessas bandas, as bandas Inglesas e Norte Americanas exerciam grande influência como Venom, Tank e Metallica.
O passo seguinte do Sacrifice foi lançar um split 3way em K7 ao lado de outras bandas japonesas como Casbah e Dementia “F.E.T.U. Split Tape vol 3”, 1988 (F.E.T.U. selo japonês especializado em Thrash Metal com atividades encerradas). Sacrifice segue sua carreira e, aparentemente consegue um contrato melhor para lançar seu segundo álbum que sai no ano de 1990 através do, também japonês, selo Howling Bull Records sob o título “Total Steel” contendo nove faixas.

Em “Total Steel”, Sacrifice mostra outras faces de suas influências, sobretudo o Hard Core de seu próprio país que, afinal, era a base da criação do Thrash Metal, mas sem perder as referencias dos seus lançamentos anteriores, certamente que até o vocal ainda tinha um pouco daquela ideia, meio que, mais punk que metal, digamos assim! Sacrifice, por dar ênfase a essa veia mais hard core em muitos momentos chegou a soar mais uma banda de Crossover que propriamente de Thrash Metal tradicional onde as influências do Speed e do NWOBHM ficavam mais em evidência.
Dois anos mais tarde, Sacrifice vai lançar seu terceiro e último álbum sob o título “Tears”, 1992 (Howling Bull Records) mesmo ano em que a banda encerrou suas atividades. Em 2013, Sacrifice retorna com Temis Osmond (ex-Sabbat) nas guitarras, porém a banda não lança nenhum material novo até aqui, seus álbuns ganharam relançamentos com itens especiais, mas ainda não houve nenhum novo material em vista.
Outra banda japonesa que, talvez, tenha alcançado mais notoriedade que Sabbat e Sacrifice tenha sido a Casbah, essa percepção se dá pelo acervo documental que há em maior quantidade em relação ao Casbah em se comparado as duas outras bandas aqui já abordadas, além dela ter sido uma das bandas do cast da Roadrunner simplesmente um dos gigantes selos/gravadoras norte-americanas especializado em lançar bandas da cena underground e do extremo como as bandas de Thrash e Death Metal que apontava com muita força na segunda metade dos anos 1980.
A banda foi formada em 1983 por Taka Hatori e o guitarrista original Nariaki Kida, a princípio a banda vai seguir uma linha próxima do Heavy/hard como Kiss, inclusive utilizando do mesmo apelo visual e uma influência muito forte da banda japonesa de Heavy Metal Seikima-II, que por sua vez, também seguia a linha estética do Kiss. A diferença entre Casbah e suas influências seria na sonoridade, Casbah estava mais voltado para as bandas de Speed Metal e isso deu uma credencial para a banda enveredar pelos caminhos do Thrash Metal.
Seu primeiro registro se deu em 1985, através de uma demo tape chamada “Bang Your Heads to Hell” e continha a seguinte formação: Kouichi Mitani (Baixo), Taka Hatori (Vocals), Takashi Usui (Bateria) e Nariaki Kida (Guitarra). Como já exposto anteriormente, o Japão dos anos oitenta não estava na rota do metal mundial e, como os demais países fora da Europa e Estados Unidos, viviam dentro de uma bolha cultural onde somente ali seus trabalhos estavam visíveis àquela altura.
Casbah se revelou uma banda extremamente ativa e começou a participar de coletâneas e splits com outras bandas japonesas, muitos desses materiais produzidos pelo selo F.E.T.U., já mencionado acima neste texto. A musicalidade que a Casbah demonstrou em sua carreira poderia estigmatizar a banda como a primeira, no Japão, a trabalhar com o Death Thrash, que, até então, era um estilo muito extremo, mas a estrutura sonora que a banda apresentou durante esse período a credenciou, facilmente, a ser vista como uma banda de Death/Thrash Metal e se tornando extremamente popular no seu país. Nos anos oitenta seu trabalho mais expressivo vai ser o EP “Russian Roulette” 1986 (No Poser Records – selo japonês aparentemente criado apenas para lançar este single), a faixa do lado B com o sugestivo título “Death Metal” dá o tom avassalador da música do Casbah e isso pode nos dar os verdadeiros indícios de uma banda que foi pioneira no estilo no Japão, mas também na própria cena mundialmente falando.
Talvez, sonoramente, a ideia que podemos ter como referência é o tipo de som de bandas como Sepultura, Korzus e Dorsal Atlântica faziam no Brasil naquela época e o Sepultura, na avaliação de muitos críticos e apreciadores do Metal, a consideram uma banda de Death Thrash e isso não distancio o Casbah, pelo contrário, estreita a experiencia de ouvir suas músicas exatamente por causa de sua sonoridade serem tão próximas das referencias que usei para descrevê-la.
A maioria dos materiais das bandas japonesas demoraram de atravessar as fronteiras do seu próprio país, e é por isso que, talvez, muitos de nós tenhamos convivido tão distantes de bandas tão antigas e que tiveram tanta representatividade para o estilo, mas que acabaram restritas, com suas carreiras encurraladas em seus nichos. Creio que o que me fez abrir o capítulo tentando justificar a abordagem anticristã do Sabbat e uma veia tão “ocidental” das bandas japonesas que chegam a desejar resgatar os valores e elementos de sua cultura, seja tão importante serem mencionados, já que nossa inserção nesse universo tão distante de muita gente por aqui, seja mais complicado de perceber as conexões.
Casbah teve seu ápice, quero crer, com o lançamento de seu primeiro álbum por uma gigante do Metal na época. Após vários lançamentos nem tanto expressivos como splits e demos, “Bold Statement” foi lançado em 1997. Esse disco é recheado de contradições, ao passo que a banda não está mais tão ligada ao passado, origem de sua música (hard core japonês e NWOBHM) e aparentemente se aproxima do famigerado groove e até do traumaticamente rotulado como Nu (new) Metal. Esse disco é uma fusão complexa destes gêneros de uma maneira que coloca a banda no meio de tudo isso e uma indefinição de sons, mas que pouco dá pra notar o Thrash Metal apresentando em “Russian Roulette” ou “Bang Your Heads to Hell”. Outro ponto negativo, em minha opinião, é a mudança de tons do vocal, que passa a seguir a trilha de Phill Anselmo (Pantera) e até imitar os trejeitos as vezes, torna o som maçante e até irritante.
Por volta do início do século vinte a banda se dissolve para retornar em 2013, basicamente composta por seus integrantes dos anos 80, salvo o baterista Shu Ishikawa que ingressou no retorno. Esse regresso a cena rendeu o lançamento do segundo álbum, com uma sonoridade muito próximo do que podemos conferir as bandas de Thrash Metal pós anos 1990. “Reach Out” 2015 (Bang the Head Records – JAP), álbum traz nove faixas e mostra uma banda bem vigorosa e altamente atualizada. Seu último material registrado foi em 2018, um split com a banda Idora, chamado “Friction” no formato CD contendo duas músicas de cada banda. Casbah ainda se encontra em atividade.
Depois de um longo hiato entre o número 18 e o 19, consegui concluir e espero continuar escrevendo sobre esse estilo tão basilar para a construção do Metal Extremo ao longo do tempo. Por hora deixo a lista de indicações das bandas que abordei nesse capítulo:
Sabbat – “The Devil´s Sperm is Cold” 1989 EP (Evil Records)
Sabbat – “Envenom” 1991 (Evil Records)
Sabbat – “Evoke” 1992 (Evil Records)
Sabbat – “Karisma” 1999 (Iron Pegasus Records)
Sabbat – “Sabbaticult” 2024 (Nuclear War Now)
Sacrifice (JAP) – “Crest of Black” 1987 (Explosion Records)
Sacrifice – “Total Steel” 1990 (Howling Bull)
Casbah – EP “Russian Roulette” 1986 (No Poser Records)
Casbah – “Bold Statement” (Roadrunner Records)



