E conseguimos uma exclusiva com a banda Violator que acaba de lançar seu mais novo álbum “Unholy Retribution”. Tivemos uma conversa sobre esse lançamento e um pouco do histórico da banda com o Guitarrista Pedro Poney, que além de nos contar alguns detalhes sobre o lançamento vai nos dar algumas informações interessantes sobre seus processos criativos e expectativas sobre o novo lançamento. Vale sempre ressaltar que a banda Violator é uma das bandas que adentraram o século XXI resgatando uma sonoridade que ficou ultrapassada nos anos noventa e se juntou a uma onda de “Revival” mundial do Thrash Metal naquela época junto com Hatchet, Bonded By Blood e Evile e outras bandas que reergueram o estilo, no caso da Violator, o quesito old school ficou intocado, porém, outras bandas tentaram fazer mesclas com uma sonoridade mais moderna, técnica e influenciada por muitas outras camadas sonoras, talvez a Violator tenha sido um portal de resistência sonora dentro de toda essa nova onda do Thrash Metal dos anos dois mil.

- Gostaria de agradecer muito por ter aceitado nos ceder essa entrevista ao Portal Lucifer Rex. Me parece bem oportuno, visto que estão lançando seu mais novo álbum via Kill Again Records, mais uma vez, uma parceria duradoura. Nos conte sobre esse novo material?
Pedro Poney: Nós que temos que agradecer pelo interesse por nossa produção e por manterem vivo esse veículo underground. É isso, 12 anos depois, ainda com a Kill Again Records do setor P-Sul da Ceilândia, estamos lançando em 2025, “Unholy Retribution”. Ele é formado por 8 músicas que giram em torno da vingança e compõem nossa intenção de criar um álbum clássico de Thrash Metal fiel a tradição. Para sua realização tivemos a alegria de trazer um belga pra morar lá em casa por duas semanas, Yarne Heylen, que assinou toda a produção do disco e a partir dessa imersão conseguimos arrancar um resultado que me deixa muito orgulhoso.
- A banda levou em torno de 13 anos para lançar um novo álbum de estúdio, o que causou essa tamanha distância entre um e outro, mesmo lançando EPs, Splits e discos ao vivo?
Pedro Poney: A resposta mais sincera é apenas a vida real. Entre um disco e outro tivemos crianças que nasceram, pessoas que morreram, casamentos sendo feitos e desfeitos, empregos novos e fins de grandes empreendimentos. Capaça passou seis anos morando nas gringas. Fora isso foram anos de golpe, ascensão do neofascismo paranóico no Brasil, pandemia… não foi pouca coisa. No meio disso ainda conseguimos lançar um EP em 2017, viajar pro Japão, China, fazer vários festivais europeus entre 2016-2023, lançar um livro! Então até considero que fizemos muito nessa entressafra. A escolha do Violator pelo underground também significa a escolha de uma banda que, em vez de trocar seus membros, vai se adaptar com o desenrolar das vidas de cada um.
- Aliás, lançar EP se tornou um ato bem comum na carreira da banda, o que os fez optar por lançar EPs e Splits com tanta frequência, até mais que os álbuns completos?
Pedro Poney: Coerente com a resposta anterior, nunca foi um planejamento, apenas a vida seguindo e as oportunidades aparecendo. Essa na verdade, foi o grande modo de operação do Violator por muitos anos: sem grandes pretensões, sem grandes planejamentos, só seguindo o que aparecia e aproveitando cada boa oportunidade. Assim, quando vi, fomos parar no Japão em 2008. Os splits e EPs entram nessa mesma equação, “vamo fazendo”. Espírito totalmente diferente do que nossa intenção com esse novo álbum, que foi pensado desde o começo para ser um Full, em que todas as músicas montassem o quebra-cabeça desse formato clássico ÁLBUM que a gente tanto ama e é o formato epítome do heavy metal, em última instância.
- Para a promoção do novo álbum a banda lançou um videoclipe para a música “Chapel of the Sick” uma música em que a letra, me soou uma voz sobre a violência sofrida, principalmente, pelos negros escravizados durante o período da colonização e sobre a ação da Igreja através da ordenação jesuítica no concílio de Trento sobre a conversão dos chamados “gentís”. As imagens do vídeo são da banda tocando e cenas de batalhas nas ruas entre civis e militares (cenas que nos remete ao período ditatorial no Brasil, por exemplo). Fale-nos sobre a concepção desse vídeo e como nasceu a ideia para ornamentar essa música imageticamente?
Pedro Poney: Muito interessante sua interpretação. De fato “Chapel of the Sick” é uma canção que pretende se levantar contra o regime de opressão étnica que se sustenta em uma fraude religiosa, mas no caso não se tratam dos negros na colonização das américas, mas sim o colonialismo do século XXI, que é o genocídio do estado de Israel sobre o povo palestino. Quando a música foi escolhida pelo Antônio Roldão (da Kill Again) pra ser o primeiro single do disco (por ser das mais diretas e Slayer do disco, inegavelmente thrash) eu considerei uma grande oportunidade para aproveitar a visibilidade da banda para levantar essa bandeira e fazer mais uma vez o Violator como ponta de lança de questões políticas no heavy metal. A ideia foi juntar essa mensagem com aquela estética dos clipes da Earache da virada dos 90 que a gente cresceu amando, tipo Suffer the Children.
- O lançamento é extremamente recente, mas vocês já vêm trabalhando seus singles do álbum desde o início do mês de agosto, como tem sido a percepção de vocês sobre a receptividade destas novas músicas da banda?
Pedro Poney: A minha impressão é a melhor possível! Acredito que nossa opção nesse disco, já sendo veteranos na cena, por tentar fazer um thrash metal mais antissocial, primitivo e maligno foi muito bem recebida pelos verdadeiros headbangers, que é a opinião de quem nos interessa em primeiro lugar. Estamos velhos, mas não tem baladinha, nem violinha não (risos). Acho que os bangers também entendem que tentar repetir a inocência juvenil do “Chemical Assault” seria um erro. Fora essa “aprovação orgânica” dos metaleiros, que é a mais legal, o disco também tem rodado muito em círculos de reviews gringos, espaços que a gente nunca alcançou muito e tem sido muito bacana receber um retorno positivo desses ambientes que são bem alienígenas a nós.
- Basicamente, Violator surgiu num momento histórico em que o Thrash Metal estava reacendendo através de bandas que tentaram resgatar a essência do estilo principalmente aquela atmosfera dos anos 1980, Violator se enquadra nesse perfil, visto que vocês mesmos têm essa ideia de ser uma banda de Thrash Metal Old School, qual o balanço vocês podem fazer do estilo desde que iniciaram até aqui? Quais fatores foram importantes para a manutenção do Thrash Metal em sua essência?
Pedro Poney: Excelente questão. E eu tenho minhas teorias. O Thrash Metal é um subgênero que precisa da fúria da juventude e por isso mesmo é marcada por gerações, muito mais do que por bandas quanto menos por indivíduos. O Violator é claramente uma banda de segunda geração, viemos ali daquele período sem graça do fim dos anos 90 em que o metal se afundava em power metal melódico, black metal sinfônico e new metal. Uma geração que tinha visto todas as bandas anteriores do thrash farofarem e por isso mesmo conseguiram fazer outros caminhos. E com a gente, teve um monte de banda naquele início dos anos 2000. Por ser geracional mesmo, teve uma baixa nos anos 10 e vejo um renascimento muito interessante agora nos anos 20. Outros subgêneros do metal, como o death metal, são muito mais constantes em sua produção. Pode ter modismos temporários, mas há uma continuidade muito maior que no thrash. São raras as bandas no thrash como o Sodom, instituição que não erra. O que nos coloca esse desafio: é possível envelhecer com dignidade no thrash? Quando eu vejo o Ratos detonando num show com 40 anos de carreira, me dá uma esperança…
- Vocês já declararam que formaram a banda no período escolar e que mal sabiam tocar seus instrumentos. Tudo parecia possível alcançar esse êxito na época em que vocês começaram?
Pedro Poney: Pelo contrário, parecia totalmente impossível! (risos) A gente tinha 17 anos, estava começando a conhecer os subterrâneos do heavy metal, encantados com esse mundo e cada pequeno passo que a banda dava no underground era celebrado como uma tarefa impossível. O primeiro zine, o primeiro programa de rádio, o primeiro show. A gente passou seis meses ensaiando toda semana sem ter nenhum show em perspectiva e achando que nunca íamos tocar ao vivo porque ninguém ia querer saber de thrash metal. E tudo bem! Porque assim é ser moleque, você só quer fazer um negócio com teus amigos, lamento pelos de hoje que ficam prisioneiros de métricas de visualização da internet.
- Vocês já fizeram algumas turnês pelo Brasil e no Exterior, como foram essas experiências e isso serviu, efetivamente, para que o nome da banda se internacionalizasse, mesmo ainda sendo uma banda underground?
Pedro Poney: O Violator viaja pra fora do país pra tocar desde o comecinho da banda. Em 2004, pegamos 36 horas de ônibus até o Paraguai em uma viagem que mudou nossas vidas. Em 2007 passamos um semestre de rolê pela América do Sul e desde 2008 passamos a ter uma porta aberta com a Europa, que voltamos muitas vezes. Esse espírito internacionalista, de união underground, sempre foi uma das marcas da banda e levar isso a sério nos permitiu um intercâmbio muito positivo com pessoas ao redor do mundo que depois de tanto tempo viraram amigos. Agora, nessa quadra mais recente, de 2018 pra cá como comentei anteriormente, o Violator passou a protagonizar festivais maiores lá fora, o que nos deu uma visibilidade inédita, um tanto surpresa pra nós. E o momento mais maneiro desse bom momento foi cavar um festival lá na Suécia pra ver o Mercyful Fate.
- Como estão os planos da banda sobre novas Turnês? Sendo que o guitarrista Capaça esteve fora do Brasil por algum período, isso ainda acontece? Caso sim, como vocês resolvem essas questões de distância para ensaiar e coisas do gênero?
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Pedro Poney: Capaça voltou no final de 2023. Fizemos uma bela festa para o retorno dele aqui em nossa cidade, um show underground com lotação esgotada de 300 cabeças. O retorno dele é em grande parte o motor para que “Unholy Retribution” possa ter acontecido. Por mais que a gente tenha tentado se adaptar ao longo desses anos, somos uma banda de outra geração, que faz música junto, precisa desse momento coletivo. Nos seis anos que ele passou fora, a gente teve momentos muito divertidos de ensaiar em lugares muito inusitados (como uma estação de trem na República Theca ou uma boate na China), a gente conseguia ter uma rotina de escutar e passar riffs, mas finalizar o disco mesmo só com os quatro em Brasília. Sobre os planos pra tocar, os primeiros shows acontecem em dezembro e em 2026 devemos rodar (um pouco!) com a primeira parte da Unholy Tour.
- Sabemos que, a maioria das bandas de Thrash Metal, possuem basicamente as mesmas influências para trilharem seus caminhos, eu noto muita selvageria na música de vocês com um algo que era muito comum as bandas brasileiras de Thrash Metal nos anos 1980, estou certo nessa percepção? Vocês realmente se inspiraram em bandas brasileiras?
Pedro Poney: Considero essa percepção um grande elogio. Sepultura do Beneath/Schizo sempre foi uma referência central pra banda, a velocidade e energia únicas do thrash brasileiro. Mas nesse novo álbum, acredito que damos um passo a mais em incorporar essas influências. Os discos mais primitivos do Thrash brasileiro como Mutilator, Chakal, Explicit Hate estão presentes ali, inclusive há homenagens explícitas ao Morbid Visions e ao INRI. Eu sempre gosto de pensar que o Violator nos seus melhores momentos é mais um canal dessa força caótica do metal sulamericano, com sinceridade e peãozice, e que por isso choca os gringos.
- Quais bandas atuais vocês destacariam no cenário Thrash Metal mundial que realmente fazem diferença para o estilo atualmente?
Pedro Poney: Lá fora, eu destacaria o Nekromantheon, Inculter e o Schizophrenia. Tem muita banda de speed
metal maneira rolando também. Por aqui, é preciso destacar a energia do Damn Youth do Ceará. Na nossa cidade tem uma molecadinha brilhando: Axion! Mas isso são só alguns nomes, é só dar um rolê under pelo Brasil que você vai ver um monte de banda massa.
- No mais, agradeço mais uma vez pela grande participação nas páginas da Lúcifer Rex, deixo aqui o espaço aberto para o que desejar falar sobre seu novo lançamento seus projetos e onde podemos encontrar seu novo material…
Pedro Poney: Muito obrigado por essa conversa e longa vida a Lúcifer Rex! Agradeço a quem leu até aqui. Que a gente se encontre pelo underground, que esse é o caminho!
VIOLATOR É:
Batera Bone Crusher
Poney Ret Crucifier
Cambito Chains Killer
Capaça Bloody Nightmare



