Até que ponto um apadrinhamento pode beneficiar na carreira de um artista do underground? Provavelmente, para uma banda de Metal, isso deve fazer muita diferença! Retornando ao tema Thrash/Black Metal, darei seguimento falando de outras bandas seminais para o desenvolvimento deste subgênero do Thrash Metal e dessa vez iniciarei por uma banda não é muito conhecida, eu diria até que ela está numa segunda prateleira, mas o que eles fizeram com sua música, de fato, foi muito importante como marcador de território, ou mesmo como referência.
Estou falando de Aura Noir (o correto em francês seria Aura Noire, mas quem liga?), banda Norueguesa, nascida na cidade de Oslo em 1993, ou seja, no começo, lá onde tudo vai ter maior repercussão mesmo. O que há de específico sobre minha pergunta no início do capítulo e o Aura Noir? Certamente, um apadrinhamento! Aura Noir foi uma banda que teve muitas pessoas importantes da cena Black Metal lhe dando chances de gravar e participando de seus discos com alguma frequência, não apenas nos discos, mas nos shows também… ah, isso faz muita diferença no Metal sim. Originalmente Aura Noir foi um duo, formado por: Aggressor ( Carl-Michael Eide) e Apollyon (Ole Jørgen Moe).
O primeiro registro da banda, uma demo gravada em 1993, mas lançada em 1994, consta apenas o nome de Agressor nos créditos, dando a entender que apenas ele gravou todos os instrumentos e assinou as composições. Ainda no ano de 1994, Aura Noir lança uma outra demo com aspectos mais oficiais e, agora sim, com a presença de ambos Apollyon e Agressor. As músicas constantes na demo “Two Voices, One King” reapareceriam no que considero o melhor material da banda já lançado, talvez seja meu ímpeto saudosista, vai que é isso!(???)… Fato é que o próprio Apollyon justificou esse fato: “Elas nunca foram lançadas e NÃO estão à venda. Nós nem sabemos onde elas estão. Mais uma coisa… Mesmo que os títulos pareçam familiares, elas não são as mesmas músicas. Apenas as letras são parecidas.” Sobre as músicas aparecerem em outro material, mas vamos combinar que isso seria extremamente natural de acontecer.
Ah sim, o EP “Dreams Like Deserts” 1995 (Hot Records – sub selo coordenado por Shagrath – Dimmu Borgir, exatamente nesta época), é um EP de encher os olhos e dizer: “É, o Thrash Metal profano dos anos 90 ainda existe!”. Esse disco é uma verdadeira ode ao Thrash Metal oitentista, mas com toda uma atmosfera criada pelas bandas norueguesas naquele período que deu uma sonoridade extremamente peculiar as bandas naquele momento, talvez a minha principal crítica recaia sobre o timbre magro das guitarras neste registro. Aura Noir é a fusão desses dois universos em doses cavalares, pense num material espontâneo e cheio de referências mortais como Kreator (diria que principalmente), Sodom, Destruction e Slayer? Só disso aí, já é o suficiente para os amantes do Thrash Metal adorarem o Aura Noir e, mais tarde, os amantes do Black Metal, ainda que, na minha visão, Aura Noir não tenha atingido o patamar que merecia.
E o tal apadrinhamento? Já está no ar, não percebeu? Shagrath (Dimmu Borgir) por exemplo, levando-os para lançar seu primeiro material oficial, e no conteúdo do disco o que temos? Fenriz (Dark Throne) cantando na faixa 6 “Mirage” e Bestial Tormentor (Infernö – banda de Thrash Metal norueguesa da época) fazendo backing vocal na faixa 2 “Forlorn Blessings to the Dreamking”, já começamos bem, pois não? Será mesmo que todas essas credenciais, não fizeram bem ao Auro Noir? Se por um lado eu digo que eles ficaram na segunda prateleira das bandas da época, por outro ter todo esse aporte de nomes que estava em ascensão neste momento na cena mundial, alguma notoriedade viria para o Aura Noir.
No ano seguinte, Aura Noir grava seu primeiro álbum completo de estúdio, com um título extremamente sugestivo “Thrash Metal Attack” 1996 (Malicious Records – selo alemão que lançou bandas da cena Black Metal como Borknagar, Gorgoroth, Kampfar…), mais uma vez a dupla Aggressor e Apollyon responsáveis pela gravação de todos os instrumentos, porém com uma participação ilustre nas guitarras: Blasphemer (Rune Eriksen) do Mayhem. Aqui, Aura Noir coloca todo seu aporte de inspiração anos 80, neste disco fica clara a mescla entre o Thrash oitentista e o Black Metal praticado na Noruega na década de 90, a influência do Dark Throne no som do Aura Noir é muito latente, principalmente o fato do som soar orgânico e quase analógico.
Em 1997 é lançado “Deep Tracts of Hell” (Hammerhearts Records), o segundo álbum de estúdio da banda, novamente contando com Apollyon e Aggressor, sem o Blasphemer. Neste disco a banda apresenta um som mais cheio, mais opulento, um tanto diferente das gravações anteriores que soavam mais retrô no quesito atmosfera, porém as músicas ainda seguem o padrão de composição anterior. Até aqui, o que indica é que o Aura Noir se notifica por uma banda basicamente de estúdio e a questão de shows não é tão importante devido a essas pendencias na formação.
No ano de 2004 a banda trocaria de selo, mais uma vez, e dessa vez para o sub selo da Peaceville Records: Tyrant Syndicate Productions, nesta época administrado simplesmente por Fenriz e Nocturno Culto (Dark Throne) … olha aí os padrinhos novamente! Esse contrato lhes rendeu o terceiro álbum “The Merciless” 2004 (Tyrant Syndicate Productions). Neste álbum eles contaram mais uma vez com Blasphemer nas guitarras além de Fenriz na primeira faixa “Upon the Dark Throne” – sugestivo, não? – e Nattefrost (Carpathian Forest, Nattefrost) na faixa seis “Funeral Thrash”. Diante de tantas evidências, chegue a conclusão que Fenriz é um terceiro membro da Aura Noir só que não assumiu esse papel oficialmente, ele está sempre envolvido nos projetos da banda, seja atuando nos bastidores ou aparecendo aqui alí nas gravações, um baita de um padrinho mesmo.
Eu me atrevo a dizer que “The Merciless” é o disco mais Black Metal do Aura Noir, as questões Thrash Metal estão muito claras no disco, mas a sonoridade dele tem uma tendencia muito mais forte para o Black Metal do estilo escandinavo que os álbuns anteriores, inclusive na cadência que lembra automaticamente o próprio Dark Throne. Acho que era notório que a banda iria pender para um lado em algum momento, mas ele não deixa de soar Thrash Metal também, o Thrash é a base estruturante da música feita pelo Aura Noir.
Em 2005 acontece um acidente com Aggressor que coloca os planos da banda em suspensão. Aggressor caiu da janela de um apartamento no quarto andar, cerca de 10 metros de altura. O músico caiu sobre os pés e fraturou os tornozelos exatamente num momento de ascensão da banda e precisou ver a Aura Noir seguir seu caminho com outros músicos. Aggressor era basicamente o baterista, apesar de ser multi-instrumentista, ele vai ficar sem os movimentos dos tornozelos e afastado das funções por algum tempo. Contudo, Aggressor continuou compondo e gravando com a banda e, em 2006 ele retorna a participar de shows em uma cadeira especial que, inclusive, o deixa de pé no palco. Neste mesmo período eles compõem e gravam seu novo álbum “Hades Rise” lançado em 2008, agora pela major Peaceville Records, não mais pela Tyrant Syndicate Productions.
O lançamento de “Hades Rise” rende a primeira turnê do Aura Noir, para a bateria foi contratado um músico que os acompanhasse, Apollyon, Blasphemer e Aggresson faziam a linha de frente da banda, e Aggressor revezava-se entre vocais e guitarra. Nesta turnê eles tocaram em grandes festivais como Inferno (um festival que acontece todos os anos na Noruega, mais precisamente em Oslo criado por Jens F. Ryland do Borknagar – entrou no Borknagar em 1997 e gravou 1998 e 2016) e Party.Sam Metal Open Air (Um dos maiores festivais de Metal da Alemanha, quiçá da Europa).
Aura Noir ainda mantém atividade e depois de “Hades Rise” ainda lançou mais dois excelentes álbuns “Out to Die” 2012 (Indie Records) e “Aura Noire” 2018 (Indie Records) soando como sempre soou, aliás entre as declarações de Apollyon sobre soar “old School” é uma tônica comum nas suas falas sobre a sonoridade da banda e as inspirações para cria-las.
Dando seguimento ao meu percurso, a fim de mapear essas bandas de Thrash/Black Metal nos anos 1990, eu falarei de Bewitched, entre as bandas que mais me cativaram dentro desse estilo no decorrer dos anos. O fato de ser composta por músicos de outras bandas de Black Metal muito interessantes dos anos noventa como o guitarrista e vocal Balckheim (Diabolical Masquerade e Katatonia) e Vargher (Ancient Wisdom), fez com que me interessasse muito polo material deles e logo consegui, na época o primeiro álbum e quase enlouqueci, porque ele trazia justamente tudo aquilo que eu mais gostava numa banda de Metal: Satanismo!
A primeira demo do Bewitched foi lançada em 1995 sob o título “Hellspell” contendo quatro faixas. Na sua formação, além de Blackheim e Vargher, estava o baterista Reaper fechando o power trio que daria vida a essa marca profana no underground. Achar a história sobre o Bewitched foi muito difícil, inclusive sobre fontes que me dessem informações sobre as origens da banda etc., por isso, muito do que irei escrever aqui é baseado no curso dos fatos, e nas especulações em alguns casos!
O peso de carregar o histórico de bandas que se tornaram tão conhecidas naquele momento e fazer uma demo tão boa deve ter chamado muita atenção da Osmose Productions. O primeiro álbum da banda foi lançado em 1996 pela gravadora francesa, mas como tudo que acontecia na europa naquele momento demorava pra chegar do lado de cá, pouca gente teve contato com o som do Bewitched, creio que tenha sido um dos poucos privilegiados. “Diabolical Desecration” é um grande álbum e reedita as músicas da demo, naturalmente. A gravação é muito interessante, apesar do som da bateria não parecer orgânico como o esperado, o material é surpreendente e resgata, assim como as outras bandas do estilo que já falei nessa série, a sonoridade oitentista com muita competência.
Além da sonoridade peculiar, que flerta não apenas com o Thrash Metal, mas com a NWOBHM em altas doses, o visual da banda também mescla o caráter Black Metal com muita insanidade satânica: corpse paints, cintos de bala, pentagramas, spikes e cintos de bala!!! Isso deveria dar muito orgulho ao início do Slayer ou a bandas brasileiras como Sarcófago. Alguns críticos da época diziam que o som destoa da ideia satânica, que o som não lhes parece sinistro… bom isso é extremamente discutível, quando você pensa em Metal nos anos oitenta, creio que fazer a leitura de uma banda tocando com timbragem oitentista nos anos noventa não seja um bom lugar de se fazer essa análise no início do século vinte e um, visto que até chegarmos aqui, muita água rolou por debaixo dessa ponte e as coisa mudaram muito, o cenário que avistamos no horizonte não é mais o mesmo. Sendo assim, avaliar a sonoridade destrutiva de uma banda e associar ao satanismo como conhecemos, musicalmente, hoje seria um equívoco.
Seria o mesmo que tentar dizer que o som do Venom e sua aparência são destoantes, sendo que o que eles fizeram no início dos anos 80 era extremamente atroz, vil e perverso, bom, se o Bewiched faz, um pouco mais veloz, o que o Venom fez nos anos oitenta eu posso afirmar que sim, sim o Bewitched é uma banda que faz jus ao seu som, sua sonoridade não está deslocada de forma alguma.
Em “Diaboloical Desecration” 1996 (Osmose Productions) a formação da banda contava com Blackheim Guitarra além de vocal em faixas específicas, Vargher Guitarra e vocais em outras faixas específicas e por vezes dividindo a mesma faixa, o baterista Reaper e o Baixista, que não era integrante da banda até esse registro Wrathyr (Naglfar). No mesmo ano e com essa mesma formação eles lançaram um EP maravilhoso chamado “Encyclopedia of Evil” 1996 (Osmose Productions) fazendo homenagens a grandes bandas que inspiraram o Black Metal como: Venom “Warhead” (single 1994), Bathrory “Sacrifice” (álbum Bathory 1984), Mercyful Fate “Evil” (álbum Melissa 1983), Celtic Frost “Circle of the Tyrants” (álbum To Mega Therion 1985), Black Widow “Come to the Sabbat” (álbum Sacrifice 1970 – Balck Widow não foi uma banda de Metal e sim uma banda de Rock que fez algum sucesso nos anos 1970, ela teve uma carreira muito semelhante ao Black Sabbath e se notabilizou por suas letras estarem ligadas ao ocultismo e ao Satanismo), além das gravações em tributo a todas essas bandas, Bewitched gravou também “Hellcult” musica autoral que fez parte do seu primeiro álbum “Diabolical Desecration”.
Eu realmente considerava o Blackheim o coração do Bewitched, talvez por me identificar com o músico e admirar seu trabalho principalmente no Diabolical Masquerade, mas com o lançamento do segundo álbum pude notar que ele não era de fato o centro da banda… até então não foi muito fácil de ter essa percepção e farmação que gravou o primeiro álbum apenas Blackheim estava de fora, continuavam Vargher (guitarra e vocal), Wrathyr (Baixo) e Reaper (Bateria) no poderoso e não menos retumbante “Pentagram Prayer” 1997 (Osmose Productions).
Certamente, o segundo álbum deu a possibilidade de a banda fazer uma turnê promovendo o álbum e o fator “trio” deve ter servido como um facilitador para a banda. Anos mais tarde Vargher iria declarar numa entrevista que aquela turnê de 1997 teria sida a única em anos da banda. Muito provavelmente foi essa turnê que originou o álbum ao vivo lançado pela Osmose em 1998 “Hell Comes to Essen”, gravado em dezembro de 97 na cidade de Essen na Alemanha no que ficou conhecida como World Domination Tour do Bewitched.
Considerado seu álbum mais pesado e seminal “At the Gates of Hell” 1999 (Osmose Productions) ainda é um disco retro, ele tem todos os requisitos básicos que a banda construiu em sua carreira mesclando o Thrash, o Black performado pelo Venom nos anos oitenta e quase nada de modernidade. Talvez, possamos relacionar a modernidade do Bewitched apenas o fato deles serem contemporâneos do Black Metal dos anos 1990 e não terem sido tão corrompidos em sua sonoridade, aquele ar rocker na música do Bewitched estava muito latente nestes álbuns. Reaper, desde o lançamento e gravação do álbum ao vivo da banda, já não fazia mais parte da formação, Stormlord (Ancient Wisdom), foi o responsável por gravar tanto o disco ao vivo, quanto o novo álbum como baterista, outro detalhe que deve ser citado é que em “Hell Comes to Essen” Spider (Auberon) gravou a segunda guitarra.
Até aqui, tudo indica que a banda vai seguir com essa formação: Vargher, Warthyr e Stormlord, porém, em 2002 a banda lança seu quarto álbum de estúdio “Rise of the Antichrist” (Osmose Productions) e aparece um novo guitarrista: Hellfire. O que há de muito peculiar no Bewitched é a falta de ambição, eles não pretendem ser uma banda que vai mostrar malabarismos instrumentais, muitas mudanças de andamento, muito pelo contrário, eles trabalham muito com riffes simples, porém sólidos, poucas mudanças de andamento, mas tudo muito bem estruturado, no quesito composição eles realmente possuem muita influência musical dessas bandas que começaram tudo nas décadas de oitenta e início de noventa. Essa mescla entre Thrash, Black e Heavy Metal inglês deixa a sonoridade deles muito simples, mas, ao mesmo tempo, cheia de grandes ideias, uma verdadeira marca para a banda.
Seu quinto e último álbum de estúdio foi o “Spiritual Warfare” 2006 (Regain Records), depois de um hiato e ter saído de sua histórica gravadora Osmose Productions, a banda voltou a cena inclusive participando de festivais vez por outra e tocando em alguns shows menores. Aparentemente, Bewitched estava mais para um projeto paralelo de Vargher que dava muito mais ênfase ao Naglfar que qualquer outra banda, isso faz com que eu chegue a esta conclusão! “Spiritual Warfare” é o álbum que menos conheço da banda e já não tinha mais o Stormlord como baterista, foi gravado por um músico convidado chamado Marc Malice, outra curiosidade foi a mudança no nome de Warthyr para Wrath.
Outra banda paralela que vai ter integrantes de, mais tarde, conhecidas bandas de Black Metal da cena escandinava é a Nocturnal Breed, mais uma excepcional banda de Thrash/Black Metal que teve suas origens nos anos noventa. A banda foi formada em 1996 por Destroyer (baixista da banda de Black Metal norueguesa Gehenna) nos vocais/guitarra e baixo, Ed Damnator (conhecido como Silenoz, um dos fundadores do Dimmu Borgir) na Guitarra/Baixo, Bitch Molestor (Shagrath da banda Dimmu Borgir) como Tecladista e Backing Vocal e C. Demon participando como guitarrista solo.
Com essa formação foi gravada a primeira demo “Raping the Angels” 1996 contendo três músicas. Na segunda demo, com um pouco mais de faixas, a banda oficialmente continha apenas Destroyer e Ed Damnator na sua formação, os outros integrantes figuraram como convidados. “Black Cult” foi lançada em 1997 e continha oito faixas em aproximadamente trinta minutos. Essa demo, se fizermos uma comparação com a demo do Bewitched, certamente a Osmose ficaria muito mais encantada, já que a qualidade é infinitamente superior, a diferença maior mesmo é a data de lançamento entre elas…
Em 1997 ainda, foi lançado o EP “Raping Europe” (Hammerheart Recrods) no formato vinil de 10” polegadas, que traria na capa a mesma imagem da sua primeira demo. Já neste material, Nocturnal Breed apresenta uma nova formação, aliás essas formações variaram com alguma intensidade, mesmo tendo dois principais fundadores como alicerce. Os materiais iniciais da Nocturnal Breed surpreendem pela visceralidade que eles apresentam, mesmo tendo toda aquela atmosfera do Thrash Metal mais cruel, rápido e devastador, a veia Black Metal da banda é muito aparente na sua musicalidade, na parte estética eles apostaram muito mais nas tradicionais calças justas, camisetas pretas e coletes jeans com patchs, relembrando o passado do estilo lá no início dos anos 1980, estilo esse inaugurado simplesmente por Lars Ulrich (aliás, já falei muito sobre isso no primeiro capítulo dessa série!) Esse EP trazia quatro faixas, entre elas um cover para a música “I´m Alive” da banda americana W.A.S.P (música constante no álbum “Inside the Eletric Circus” de 1986), esse mesmo cover vai reaparecer no EP mais conhecido da Nocturnal Breed, o “Triumph of the Blasphemer” 1998 (Hammerheart Records).
Bom, o primeiro álbum na Nocturnal Breed veio de fato em 1997, sob o título “Agressor” (Hammerheart Records) contanto com a dupla Destroyer e Ed Damnator como principais membros e participações ilustres como Tjodalv (Dimmu Borgir) como convidado na bateria, Astenu (Dimmu Borgir) na guitarra solo, Bitch (Shagrath) Molestor nos teclados e Nagash (na época no Dimmu Borgir e Covenant) também na bateria, ou seja, o álbum foi basicamente gravado por integrantes do Dimmu Borgir, literalmente. Aqui, por tanto, fica bem claro, aliás, desde quando escrevi sobre as bandas de Thrash/Black Metal que o som que eles fazem com esse estilo tem o fim de resgatar ou mesmo dar manutenção a um espírito oitentista. A percepção de que o Metal foi mudando muito com o passar dos anos nos deu essa sensação de que algo deveria ser feito para que aquela marca tão potente feita lá naqueles tempos tivesse que ser preservada de alguma forma. Muitos desses músicos bem-sucedidos nas suas bandas principais de Black Metal, escolheram projetos que vertessem para essa tendencia mais oitentista e diria que, de alguma forma, isso deu certo, pois Bewitched, Nocturnal Breed e mesmo o Nifelheim, são exemplos de bandas que conseguiram dar passos adiante sem perder a essência do Metal original e destrutivo dos anos oitenta.
“Agressor” é um disco extremamente interessante, porque ele exalta muito claramente tons de Heavy Metal Épico, Thrash Metal (óbvio) e uma atmosfera sombria provocada pelos teclados, o que seria um instrumento bem inusitado para o estilo. Acabou ornando muito bem a intenção por trás das ideias de Ed e, principalmente, Destroyer. Há um depoimento muito interessante de Destroyer sobre o álbum “Aggressor”, seria muito pretencioso sintetizar sua fala, por isso irei transcrevê-la para que fique mais claro seus relatos sobre as gravações, o desejo de fazer o álbum e tudo mais:
“Destroyer: Na verdade, tínhamos planejado nunca lançar um álbum e manter o Nocturnal Breed operando apenas com demos e fitas cassete. Mas depois que permitimos que a Hot Records incluísse duas músicas em seu sampler de CD de 1996, Rape of the Holy Trinity, as ofertas começaram a chover.
E como viemos de bandas que já gravavam grandes álbuns, como Gehenna, Satyricon e Dimmu Borgir, a tentação de divulgar nossa música e fazer a diferença no que era, na época, uma cena metal bem ruim ficou grande demais. Lembrem-se de que isso foi em 1996. Chamamos de Matrix… Foi quando todo o som e a pegada mudaram para muitas das bandas e para a cena em geral!
Então, pegamos nossas músicas demo e entramos no lendário Gordon Studio em Oslo em março de 1997.
O título do álbum surgiu puramente do meu amor pela banda francesa Agressor. Eu tinha uma obsessão total pela demo/EP deles, Satan’s Sodomy , e parecia um título perfeito, apenas adicionando o “G” extra para reivindicá-lo como nosso, de certa forma.
A gravação não se parecia em nada com o que acontece hoje em dia. O fator festa e a sensação de “foda-se” estavam fora de controle e se manifestaram muito bem na fita. E sim, fita! Usamos fita até o início dos anos 2000. E eu quero dizer fitas antigas, enormes, de 15 minutos. Isso, combinado com a disposição do produtor Thomas Soerlie de nos deixar ser selvagens pra caramba com equipamentos caríssimos, e até mesmo conseguir gravar as melhores partes na fita, foi impagável. Essa é a mágica dos nossos três primeiros álbuns: fita e um estúdio e produtor musical da velha guarda. E, claro, a vontade de seguir em frente com uma ideia musical que na época era desaprovada por todo mundo. Mesmo internamente, tanto a cena BM quanto a cena DM nunca levaram isso a sério e isso só acendeu ainda mais a chama.
Acho que muita gente na cena começou a perder o controle de suas origens e raízes lá por 96-97. E aquela onda de besteiras pretensiosas e egocêntricas que veio com aqueles anos sempre foi um espinho na cabeça dos velhos, a ponto de simplesmente dar ainda mais “foda-se!”
O que tiramos deste primeiro álbum com o Nocturnal Breed foi uma autoconfiança e uma crença de que o que fizemos era o caminho certo para nós. Percebemos que, quanto mais não nos importássemos e apenas experimentássemos livremente o que sentíamos, o resultado se manifestaria em uma música muito boa no final.
E vindo da doutrina muito mais rígida que tínhamos em Gehenna e Satyricon, foi uma bênção “abrir as válvulas”, por assim dizer, [e] criar de forma mais livre e exploratória. Parecia uma libertação gravar daquele jeito. Do jeito antigo! Usando uma variedade de gabinetes e amplificadores antigos, instrumentos e gadgets combinados com muito álcool e bons momentos, tudo se transformou em uma nova maneira de ver a gravação musical.
Chegamos a ter o estúdio cheio de gente nos nossos três primeiros álbuns. Só amigos festejando, usando drogas e bebendo. E funcionou como um “medidor” do desempenho das músicas. Se todos batessem a cabeça e pulassem… percebíamos que estávamos no caminho certo!” https://metalplague.com/s-a-destroyer-nocturnal-breed-interview/ consultado em 18/06/2025
Essa fala elucida muito o sentimento dos músicos de Metal que sentiam algum incomodo com o excesso de mudanças no gênero, inclusive provocada por eles mesmos ao criarem um nicho musical com sonoridades inovadoras e mescladas com outros estilos fora do Metal, e com a decadência que parecia sentencial do Metal original. Tudo fica meio que revelado quando diz que “algo deveria ser feito” e não foi uma onda retrô, foi meio que: tentar resistir as mudanças criando bandas que não tocavam mais daquele jeito e manter viva toda uma cultura selvagem que foi ficando, usando um termo da atualidade “Gourmetizada” naquela década, as bandas de Metal nos anos noventa correu para muitos lados e criaram muitos estilos originários do Metal onde o Death/Black e o Doom se misturavam com uma gama de outros estilos criando coisas inéditas e flertando com estilos como o Rock Progressivo, o pós Punk, a Música Erudita, música folclórica e ampliando horizontes, abrindo espaço para que outras linguagens artísticas fossem agregadas ao Metal e, muitas vezes, esquecendo que os requisitos mais básicos como guitarra suja, baixo e bateria espancada e o equipamento rústico eram os pilares do estilo.
Como já dito aqui, e não custa voltar ao tema, o Thrash Metal nos anos noventa do século passado perdeu muito de sua musculatura para outros estilos e, no mainstream ele passou despercebido, engolido por outros gêneros musicais mais comerciais e na moda. Bandas de Thrash gigantes como Metallica chegaram a aderir a esta nova tendencia fazendo discos irrelevantes para a cena Metal e com uma sonoridade muito mais acessível do que a proposta da Metal poderia ensejar.
Em 1998, sai o segundo álbum do Nocturnal Breed “No Retreat, No Surrender” (Hammerhearts Records), para mim, o melhor álbum já lançado por eles! Claro que estou considerando apenas álbuns, já que gosto muito do EP “Triumph of the Blasphemer”. Esse disco “No Retreat, No Surrender” é o que tem mais requisitos de Metal oitentista, já considerando a própria capa que traz toda essa ideia de resistir ao tempo numa foto em que os membros parecem avançar sobre nós e como o próprio título diz “sem recuar, sem se render” é absolutamente imerso em tudo que quis dizer até aqui sobre essas bandas de Thrash/Black Metal da década de noventa. Eu diria que esse disco é o que mais se prende ao Thrash Metal alemão que, aqui mesmo nessa série, já dediquei capítulo exclusivamente a este nicho tão peculiar. Nocturnal Breed mostra neste disco o quanto está empenhado em fazer a música do Metal Selvagem sobreviver através de novos lançamentos e como pode existir criatividade, novidade em bandas que tem suas origens num passado não muito distante, mas que vem sendo engolida por esse mesmo tempo muito mais atroz que antes… a modernidade e sua velocidade, seu poder de descartar, de jogar no esquecimento, de apagar os rastros, de execrar o envelhecido, há de existir os portos de resistência, como houve nos anos noventa ainda que houvesse confronto, houve resistência.
A formação também já aparecia com um baterista próprio da banda o Tex Terror, mas não ficou muito clara a sua alteração creio que já encontrou as músicas prontas para executar. Dois anos depois, Nocturnal Breed reaparece com mais um álbum, porém não mais pela Hammerhearts Records, o disco sai por um selo americano que lançou materiais da Gehenna nos anos noventa, a Holycaust Records. “The Tools of the Trade” saiu em 2000 e eu diria que tem um tom um pouco diferente do maravilhoso álbum anterior, é um disco que aparenta um cansaço na fórmula criada pela banda e traz um disco cheio de altos e baixos, diria que mais baixos que altos momentos. Apesar de toda acidez na minha crítica, ainda é um poderoso disco de Thrash/Black Metal com bases criativas, outras ressignificadas, pois são bem manjadas por aqueles que acompanham a carreira da Nocturnal Breed e conhece a sonoridade expelida pelas bandas de Thrash Metal ao longo dos anos.
Depois desses lançamentos, Nocturnal Breed ficou um bom tempo lançando materiais mais simples como EP´s e splits, para esse período eu destaco um split que considero muito importante para a ceno do Thrash/Black Metal do início dos anos dois mil, se trata de um disco duplo no formato de sete polegadas (famoso 7”) raramente visto nesse formato até então, mas que vai ter algum alcance anos depois com outros selos lançando seguindo esse modelo de produção. Vejamos que interessante a junção desse disco com Aura Noir, Nocturnal Breed, Infernö e Audiopain – as duas últimas um pouco mais desconhecidas, mas que, pelo menos Infernö ganhará alguma notoriedade através da gravadora Osmose Productions, além do fato do guitarrista Aggressor (Aura Noir) também tocar na banda. “Überthrash” é o título desse split e apresentava uma faixa de cada banda participante, Nocturnal Breed contribuiu com a música “Code of Conduct” que vai reaparecer em seu quarto álbum “Filds of Rot” 2007 (Agonia Records).
Este álbum traz o Nocturnal Breed no auge de sua criatividade, além de ser um dos discos da carreira da banda com melhor produção, melhor arte gráfica e músicas com o mesmo nível de composição, diferente do álbum anterior que foi um álbum oscilante. Algo muito intenso dentro da ideia das bandas de Thrash/Black Metal é ignorar o Groove e o Nu (New) Metal, essa pode ser considerada a parte mais importante dessa ideia de resistência ao tempo e as inoculações musicais que o estilo sofreu, sobretudo nos anos noventa.
Em 2014 foi lançado o “Napalm Night” (Agonia Records), um dos discos que menos conheço deles, ainda estava muito preso ao passado da banda, dos seus primeiros álbuns e EPs para seguir acompanhando sua carreira, logo que comecei a pesquisar para escrever esse capítulo, tratei de ouvir os álbuns que tive menos contato e esse foi um dos que me surpreenderam, visto que eu considero o Nocturnal Breed uma das melhores bandas nesse estilo. “Napalm Night” é um disco em que o direcionamento sobre a guerra fica muito mais evidente, talvez, que em outros álbuns… a crítica sobre ele também foi bem generosa como nesse trecho:
“Os vocais realmente vendem isso mais do que qualquer outro componente: uma versão intensificada dos delírios viscerais de uma tal Mille Petrozza, com um segundo vocalista gritando em um tom mais agudo e melódico para adicionar uma textura maníaca. Ao mesmo tempo crus e ridículos, eles estabelecem uma nostalgia absoluta pelo que havia de tão empolgante no thrash europeu dos anos 80… aquela distinção imediata gerada tanto pela mácula do sotaque nativo quanto pela disposição de mantê-lo sujo sem restrições. No que diz respeito aos riffs, eles são um pouco menos impressionantes. Progressões thrash no estilo da Costa Oeste, que lembram os antigos Exodus e Dark Angel, entrelaçadas com leads eletrizantes e esporádicos e um punhado de padrões de trêmolo que parecem irromper mais diretamente no território do death metal do final dos anos 80, via Death ou Morbid Angel. A bateria soa impetuosa, estrondosa, infernal, caseira como o Dave Lombardo que todos nós venerávamos nos primeiros 4-5 discos do Slayer, mas, por outro lado, o baixo nunca se destaca além das faixas rítmicas, e acho que linhas mais interessantes teriam tornado as músicas como um todo mais únicas. Você só notará o cara quando ele estiver sozinho solo ao ritmo da batida, como na introdução de “Dragging the Priests”. Arquitetonicamente, a música encontra um meio-termo confortável entre os pioneiros da Bay Area e os teutônicos durante a Era de Ouro, mas poucas partes de guitarra, se é que há alguma, transcendem o todo ou têm qualquer intenção de competir com os clássicos.” https://autothrall.blogspot.com/2014/02/nocturnal-breed-napalm-nights-2014_13.html consultado em 06/072025
A postura da banda se mantém intacta, mas é visível que sua fórmula de composição evoluiu muito desde “Aggressor”. Também fica mais evidente o interesse pelas temáticas de guerra afastando-se um pouco do lado místico e/ou satânico que era uma prática mais comum a banda, assim como as demais bandas desse nicho que tinham muita influência de Venom e Bathory, além das próprias bandas de Thrash Metal em início de carreira: Exodus, Sodom, Destruction, Slayer e Dark Angel… essas influências se mostram mais presentes na sonoridade que propriamente nas suas letras. A constatação pode ser feita no seu “We Only Came for the Violence” 2019 (Folter Records) e “Carry the Beast” 2023 (Dark Essence Records). Outra coisa que ficou muito evidente na música do Nocturnal Breed, além dos quesitos que já levantei anteriormente, foi a assunção dos músicos em relação a banda, muitos deles se tornaram exclusivos dela e isso talvez tenha trazido mais identidade a sua carreira.
Fechando esse capítulo, vamos as tradicionais indicações:
Aura Noir – EP “Dreams Like Deserts” 1995 (Hot Records)
Aura Noir – “Thrash Metal Attack” 1996 (Malicious Records)
Aura Noir – “Deep Tracts of Hell” 1998 (Hammerhearts Records)
Aura Noir – “The Merciless” 2004 (Tyrant Syndicate Productions)
Bewitched – “Diabolical Desecration” 1996 (Osmose Productions)
Bewitched – EP “Encyclopedia of Evil” 1996 (Osmose Productions)
Bewitched – “At the Gates of Hell” 1999 (Osmose Productions)
Bewitched – “Rise of the Antichrist” 2002 (Osmose Productions)
Nocturnal Breed – EP “Raping Europe” 1997 (Hammerheart Recrods)
Nocturnal Breed – “Agressor” 1997 (Hammerheart Records)
Nocturnal Breed – “Triumph of the Blasphemer” 1998 (Hammerheart Records)
Nocturnal Breed – “No Retreat, No Surrender” 1998 (Hammerhearts Records)
Aura Noir/Nocturnal Breed/Infernö/Audiopain – split4way “Überthrash” 2004 (Duplicate Records)
Nocturnal Breed – “Filds of Rot” 2007 (Agonia Records).





