O underground é um espaço em que, por muito tempo e creio que esse seja o principal motivo de se sustentar até hoje, de que é “bonito ser feio” se for mal tocado e se eu disser que “não sei tocar” é um discurso romantizado para legitimar minha preguiça em melhorar meu desempenho ou para justificar o fato de, socialmente, eu não ter condições de aprofundar meu estudo por, financeiramente/ economicamente, não conseguir alcançar esses desejos.
Por essas e outras vestir-se com roupas rasgadas e que não aparentassem tão sujas, como a roupa preta, ficou taxado como “fodido”. Outro paradigma do underground que cabe a reflexão sobre o “não saber tocar”, por tanto tudo bem você vai entender se eu não executo as músicas que fiz com boa definição ou qualidade, é que não pode haver disputa, já que estamos todos com o mesmo objetivo e, se não há disputa, todos são bons? Todos são ruins?
Todos serão bons porque os músicos mal sabem manusear seus instrumentos e cantar esganiçado não requer afinação, e todos serão ruins pelo mesmo motivo? O gosto é uma construção cultural, que diz respeito ao espaço que eu ocupo nesta sociedade e os elementos que essa cultura me atravessou na minha família, na rua onde moro ou morei, nos meus amigos, nos meus parentes, na “minha religião”, nos pratos que consumo nas refeições do dia, que imediatamente, numa sociedade tão desigual como a nossa, faz muita diferença!
Mas não, arte não pode ser percebida por esse olhar tão raso, tão mesquinho, a arte precisa ser compreendida com a sensibilidade e isso sim, é inato, mas pode ser desenvolvido através de experiencias, ou seja, empiricamente. O gosto é um sentido requintado do ser humano que só a experiencia é capaz de lapidar, o gosto equivoca-se ao emitir opinião quando não se aprofundou em outros territórios, fora do alcance prático do gosto, ou das complexidades da formação desse gosto a partir de seus atravessamentos. É deveras leviano acreditar que tudo deve estar pautado na sua régua de aferição, a arte não é individual ela é um reflexo de tudo aquilo em que você está imerso e de tudo aquilo que você mais ama ou mais detesta neste mesmo espaço.
A sociedade organizada e consumista, criou ao redor da arte o que se chama indústria cultural, a música é uma das manifestações culturais mais inseridas nessa indústria, pois entrou como um produto cheio de regras e cheio de estereótipos engessados e difíceis de serem desfeitos, porque correspondem a desejos pré-concebidos e embebidos em gostos comuns. A existência na sociedade organizada distancia o agente artístico do agente consumidor e vice-versa… ambos falam línguas muito próximas, legítimas, mas não é o que o artista quer que vá definir o que é bom ou ruim ao gosto do consumidor, é o quanto ele está inserido no modelo que foi construído por aquele grupo que moldou aquela cultura, ou contracultura no nosso caso.
No mais, essas disputas estéreis anulam a arte e preocupar-se se fulano toca mais ou menos que outro não pode ser o que nos move por essência, mas o ser humano estagnado, parado no espaço é incoerente com sua própria evolução como artista e como o humano por trás da arte, ele anula todo seu processo por crer que o que faz basta… por si mesma arte não é feita para o artista e sim “para o outro”, ainda que esse outro seja “eu” mesmo antes.
Concorrer dentro desta seara é extremamente exaustivo pelas complexidades da existência, do pensamento, do comportamento, das construções de vivência humana. O underground é um micro espaço dessa mesma seara, deste mesmo nicho onde se instala o despertar do gosto e do “fazer” artístico dentro de uma música tão áspera quanto o metal se forjou durante essas décadas. O que há de ser dito aqui neste pensamento se resume em compreender que tanto faz o músico ser um exímio executor de seu instrumento ou um pífio desajeitado que no metal isso não fará diferença? Será que há acordo sobre isso e isso acirra algum tipo de disputa?
Mesmo que o entendimento, sobretudo para aqueles que vivenciaram o underground com o passar dos anos, que para fazer metal extremo bastava ter vontade, criatividade e não necessariamente técnica, fica a ideia que todos estão navegando sobre as mesmas águas, as águas turvas do underground e somente este fato nos coloca no mesmo barco, por tanto, o barco nos iguala a ponto de não nos interessar a disputa. Por outro lado, saindo da metáfora, podemos, no mundo concreto, perceber que a disputa se dá através de dois paradigmas: um sobre o mercado da indústria cultural e outro pela inexplicável apreciação do público onde se recai o famigerado gosto!
É tão comum vermos pessoas idolatrando bandas que sua qualidade técnica é questionável, mas que sua forma de se expressar, selvagem, sem anteparos ou restrições que combinem no tempo e no espaços as devidas notas ou ainda os ritmos em sincronia e essas mesmas desprezarem a técnica, o rebuscamento, o esmero e que bom que temos um universo tão vasto capaz de nos oferecer na mesma taça o mesmo fel, o mesmo caráter antagônico e ainda, de passagem, o meio termo entre esses extremos entre o técnico e o pouco versado! Aparentemente, o meio termo passa despercebido, talvez por seu teor insosso…
Toda essa reflexão partiu de uma discussão com alguns amigos que passaram a comparar as bandas sobre “melhor e pior”, e essa é a tremenda armadilha que nos distancia de um olhar mais frio sobre tudo isso. A paixão que nos cega, por a arte ter esse poder de não pretender julgamentos e sim apenas, pura expressão que atravessa o ente em sua essência, em seu amago. Pra que servem as comparações, se não para que possamos concorrer entre si sobre nosso próprio bom gosto egóico sobre as coisas? Sim, deveras incompreensível, por vezes, ao expormos nossos argumentos sobre nossas escolhas, elas veem carregadas de nossa vaidade em demonstrar que temos e fazemos sempre as melhores escolhas e, no fundo, isso é tão mesquinho, tão menor, tão desimportante… aos que ainda não conseguiram alcançar as profundezas dessa reflexão, quero aqui expor que ela não é conclusiva, é apenas um devaneio, um questionamento que vale pensar sobre, principalmente quando a conclusão será constatar que o artista é livre para se expressar como quiser e nós escolhermos livremente idem.



