O Mordeth é uma banda veterana que se mantém resistente em seus quarenta anos de estrada. Baseada em Rio Claro, no interior de São Paulo e fundada em 1988, lançaram neste ano seu quarto Full-Length, “Hermetic Creation” pela Sacramental Records e Heavy Metal Rock. Tendo passado por diversas fases nestes últimos trinta e sete anos, a banda mantém-se com seus membros fundadores, Vladimir Matheus (guitarra e vocal) e Tamir Wit (baixo). Neste álbum a bateria é creditada a Paulo Trevisolli, mas a banda tem manifestado em entrevistas a dificuldade em encontrar um baterista permanente.
Hermetic Creation apresenta dez faixas em quarenta e seis minutos e trinta e dois segundos. Trata-se de um Death Metal atmosférico com temática de ficção científica, trabalho gráfico muito bem feito e letras muito interessantes que se encaixam muito bem com toda a temática e sonoridade do álbum. De fato, creio ser essa a maior qualidade desse trabalho: a coesão entre a temática, as letras, a apresentação gráfica e a sonoridade. Apesar do uso da Inteligência Artificial, que tem se tornado onipresente e igualado bastante as capas e encartes de muitos lançamentos, nesse caso o uso é plenamente justificado pela temática e pela abordagem futurista e apocalíptica.
A abertura com “Lux in Tenebris” remete ao primeiro álbum da banda lançado em 1993 e introduz muito bem o universo caótico e mórbido para o qual somos tragados ao ouvir o trabalho em sua totalidade. A faixa seguinte “Alien” é a mais rápida e brutal do álbum, nos envolvendo em sua atmosfera cósmica. “Sacred Codes” desafia o ouvinte a descobrir os arcanos daquilo que está para além da realidade visível. Stellar Necropolis é o ponto alto do álbum no qual chegamos à constelação dos mortos após a busca pela realidade anterior ao vazio universal. “Memory Hunter” é a rememoração dessa tentativa de decifrar o enigma da temporalidade. A faixa título, “Hermetic Creation”, em estreita conexão com “Sacred Codes”, oferece algumas pistas sobre o conhecimento gnóstico e seus limites. Em todas essas faixas a atmosfera cósmica é onipresente relembrando os trabalhos mais heterodoxos de bandas como Hypocrisy e Nocturnus. Os teclados e efeitos sonoros preenchem o espaço sonoro e nos dão a sensação de uma realidade paralela para além dos limites da sensibilidade. Certamente isso incomodará ouvidos que esperam um som mais natural. Mas a temática tendo como objeto justamente aquilo que está para além dos fenômenos visíveis e palpáveis justifica essa abordagem. A sétima faixa, “Varginha’s Paradox” nos aproxima de uma “realidade” mais próxima: o célebre caso da “aparição” na cidade mineira em 1996. Independente da crença de cada um em tais fenômenos, a faixa novamente encontra seu lugar adequado no encadeamento dos temas do álbum e apresenta uma melodia bastante cativante. As três últimas faixas, “The Arcane Cosmonaut”, “Beyond the Cosmic Veil” e “The Death of Everything” encerram a jornada novamente com melodias atmosféricas e narrativas apocalípticas.
O saldo geral é um álbum muito bem construído do ponto de vista temático e lírico, com as faixas muito bem encaixadas umas às outras, com início, meio e fim e apresentadas com um material gráfico de encher os olhos. A sonoridade talvez tenha ficado um tanto sobrecarregada de efeitos sonoros e espera-se que a banda continue sua jornada oferecendo no futuro trabalhos ainda melhores e mais orgânicos.



