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Headhunter D.C. – “Rise of the Damned” (Mutilation Records) CD 2026

Entre chamas, heresia e devoção ao Death Metal, os amaldiçoados finalmente se erguem.

Anton Naberius junho 7, 2026 6 min read

Certamente que, mesmo com muita expectativa, um novo material da Headhunter D.C. está sempre em sintonia com seu passado e, dificilmente, ele se desprende dessa premissa. A banda deu uma virada de chave muito significativa no seu terceiro álbum, “…And the Sky Turns to Black…”, e, de lá pra cá, nos apresentou uma sonoridade diferente dos dois primeiros discos e um método de composição mais centrado em anticristianismo, blasfêmia, na maioria das vezes alicerçados pelas reflexões de Nietzsche. Assim como essa carga de negação ao cristianismo, a veneração ao Death Metal se tornou uma marca da banda desde “…And The Sky…”, e isso a colocou dentro de um seleto grupo que manteve suas características intactas ao longo das décadas.

O novo álbum nos apresenta todos esses requisitos e, como acompanho sua carreira desde o começo, posso afirmar que é um disco mais cadenciado que o normal. A banda resolveu apostar em músicas mais densas e construídas com maior peso atmosférico. Ainda que apresente as tradicionais viradas de bateria e os solos apocalípticos de sempre, a velocidade não é a principal marca de Rise of the Damned…. Falando em viradas de bateria, esse é um legado que ficou marcado na identidade da banda com a passagem de Tiago Nogueira, que imprimiu esse tom mais apressado às composições e deu uma dinâmica ainda maior às músicas desde então.

Entretanto, em Rise of the Damned…, percebo uma decisão consciente de privilegiar o impacto dos riffs e a força das estruturas das canções. Há momentos em que a banda parece menos preocupada em atropelar o ouvinte e mais interessada em esmagá-lo lentamente. Isso fica evidente em faixas como “Unblessed by the Unsacred”, “No Salvation from Above” e principalmente na excelente “Rise of the Damned”, que carrega um sentimento quase épico dentro da proposta tradicionalmente brutal do grupo. O peso continua lá, mas ele surge através da construção das músicas, dos andamentos médios e da forma como os riffs são trabalhados, algo que valoriza ainda mais a experiência do álbum como um todo.

A capa do álbum também apresenta uma configuração um tanto diferente das demais. Aquela ideia de um inferno em chamas permanece presente, mas desta vez ela parece assumir um significado mais amplo e simbólico. Em meio ao cenário de devastação, destaca-se uma figura que aparenta ser a própria responsável pelo cataclismo que se desenrola à sua volta, não como um simples espectador dos acontecimentos, mas como o agente de sua realização. A arte dialoga diretamente com a faixa-título “Rise of the Damned”, que narra a ascensão daquele que foi perseguido, condenado e lançado às chamas, mas que encontra justamente no sofrimento a força necessária para transcender sua condição. Ao invés da figura derrotada que a moral cristã insiste em retratar, o personagem central emerge como um herético triunfante, alguém que viu além das fronteiras impostas pela fé e transformou sua condenação em libertação. As montanhas do Limbo, as chamas do martírio e a vingança negra descritas na letra parecem ganhar forma na composição visual da capa, que representa não apenas um cenário de destruição, mas o momento exato em que os amaldiçoados se erguem sobre os escombros de tudo aquilo que tentou subjugá-los. É uma imagem que sintetiza perfeitamente o conceito do disco: a queda dos dogmas, a rejeição da redenção imposta e a glorificação da ascensão daqueles que foram excluídos, perseguidos e condenados, mas que encontraram na própria adversidade o caminho para sua transformação e triunfo.

Liricamente, Sérgio “Nekrobaloff666” Borges permanece fiel àquilo que transformou a Headhunter D.C. em uma das instituições do Death Metal sul-americano. O ataque ao cristianismo continua feroz, sem concessões, mas desta vez me parece haver uma camada adicional de interpretação. O conceito de ascensão presente em Rise of the Damned… não soa apenas como uma exaltação da heresia ou da condenação religiosa; ele também pode ser entendido como um reflexo da própria trajetória da banda. Após quatorze anos sem lançar um álbum de inéditas, enfrentando perdas pessoais, mudanças de formação e toda sorte de obstáculos, a ideia de renascimento atravessa o disco de maneira quase autobiográfica. Quando ouvimos versos que falam de sofrimento transformado em força e da vingança dos amaldiçoados contra aqueles que os condenaram, é difícil não enxergar ali um paralelo com a própria história do Headhunter D.C.

Outro aspecto que me chamou atenção foi a coesão do trabalho. Mesmo que as músicas tenham sido compostas ao longo de vários anos, o álbum soa extremamente uniforme. Não há sensação de colagem ou de material escrito em épocas muito distintas. Pelo contrário, existe uma identidade muito clara ligando todas as faixas, desde a introdução “…40 Years’ Deathmarch” até o encerramento triunfal de “In Death Metal We Trust”, que funciona como um verdadeiro manifesto da banda e uma declaração de amor ao gênero que ajudaram a construir no Brasil.

Também merece destaque a participação dos músicos envolvidos na gravação. Danilo Coimbra entrega alguns dos melhores solos que ouvi da banda nos últimos anos, equilibrando técnica, feeling e aquele senso de caos controlado que sempre foi uma das marcas registradas do Headhunter D.C. A cozinha rítmica sustenta o álbum com firmeza e contribui decisivamente para essa proposta mais pesada e menos acelerada, sem jamais comprometer a agressividade.

Ao final da audição, a impressão que fica é a de que Rise of the Damned… não tenta reinventar a Headhunter D.C., e sinceramente nem precisava. O álbum faz algo muito mais difícil: reafirma a identidade da banda após quase quatro décadas de existência e demonstra que ainda existe relevância, convicção e inspiração em seu discurso. É um trabalho que respeita o legado construído desde os anos 1980, mas que também transforma as cicatrizes acumuladas ao longo do caminho em combustível criativo. Talvez não seja o disco mais veloz da carreira do grupo, mas certamente está entre os mais maduros, consistentes e significativos de toda a sua trajetória. Para quem acompanhou a caminhada do Culto da Morte desde os primeiros passos, Rise of the Damned… soa exatamente como aquilo que seu título promete: a ascensão de quem jamais se recusou a enfrentar o inferno para continuar existindo.

Ficha Técnica:

Gravado, mixado e masterizado no Estúdio do Beco, Salvador, Bahia, Brasil, entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026.

Engenharia de som: Vicente Fonseca

Produzido por: Sérgio “Nekrobaloff666” Borges

Todas as músicas compostas por: Sérgio “Nekrobaloff666” Borges, exceto “In Death Metal We Trust”, composta por Sérgio “Nekrobaloff666” Borges e George Lessa.

Todas as letras escritas por: Sérgio “Nekrobaloff666” Borges

Baterias gravadas por: Daniel Brandão

Baixos gravados por: Danilo Coimbra

Teclados por: Danilo Coimbra e Vicente Fonseca

Participações especiais nos solos de guitarra: Paulo Lisboa (Headkrüsher, Steel Fist, ex-Headhunter D.C.), Fabio Nosferatus (Bastard, Dead Orbs, NosferatuS, ex-Headhunter D.C.) e Jafet Amoêdo (Malefactor).

Participação especial de violão em “Praeludium ad Ascensionem Haereticorum” (instrumental): Paulo Lisboa

Coral dos queimadores de bíblias em “Burn the Book of Lies”: Nekrobaloff666, D. Morbidus, Demigod e Vicente Fonseca

Arte da capa por: MMiller (@mmiller.nauseaimage)

Layout geral do álbum por: Alcides Burn (@alcidesburn) – www.burnartworks.com.br

Logotipo da banda por: Sérgio “Nekrobaloff666” Borges (redesenhado por Alcides Burn)

Fotos da formação e fotos individuais do encarte por: The Heretic Inc.

Fotos ao vivo do digipack por: Leandro Cherutti (@leandro_cherutti) (Sérgio/Danilo) e Isis Barros (@isis.barros.fotos) (Héracles)

Créditos das fotos do pôster interno: The Heretic Inc. (formação da banda), Tássia Nazareth (@tassianazareth) (Sérgio/Danilo ao vivo) e Ana Cruz (Héracles ao vivo)

Emblema “Total Headhunting Death Cult” gerado por loucura artificial (IA), baseado no conceito e esboço de Sérgio “Nekrobaloff666” Borges

Produtores executivos: Winston Junior, pela Death Cult Musick, e Sérgio Luiz Amorim (Tullula), pela Mutilation Records.

*Sérgio “Nekrobaloff666” Borges: vocal

*Danilo “D. Morbidus’” Coimbra: guitarras e sessões de baixo no álbum

*Héracles “Demigod” Cardoso: baixo

*Juan “Death Ax” Machado: bateria

**Daniel Brandão: sessões de bateria no álbum

HEADHUNTER DEATH CULT CONTACTS:

facebook.com/headhunterdc

instagram.com/headhunterdc

youtube.com/user/headhunterdc87

headhunterdeathcult666@gmail.com

Anton Naberius

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