Faz algum tempo que um tema vem me causando uma série de sensações, dessas que descem e sobem com a mesma intensidade. A dúvida sobre como nós enxergamos com alguma desconfiança o que vem a ser chamado de Inteligência Artificial, creio que a palavra artificial seja o que mais pega nessa relação entre homens e máquinas.
Em fato o verdadeiro inteligente por trás das máquinas é o homem, este ser complexo em que o cérebro é bem mais que abismos, cadafalsos ou labirintos, são camadas compreensíveis e incompreensíveis ao mesmo tempo, que são geniais, mas podem vir também com defeito.
Eu fui um dos que torceu o nariz sobre a utilização da inteligência artificial para criar imagens para serem usadas e qual foi a minha principal angústia: a quem dar o crédito disso? A criação de uma imagem por meio da Inteligência Artificial instaura um espaço de diálogo no qual múltiplas vozes — humanas e técnicas — se entrecruzam. Diferentemente da concepção moderna de autoria, fundada na figura do artista como sujeito singular, consciente e intencional, a imagem gerada por IA emerge de um processo distribuído, fragmentado e mediado por sistemas algorítmicos. Assim, a pergunta “quem é o autor?” não admite uma resposta unívoca, mas exige a escuta de vozes diversas que coexistem e disputam sentido.
Toda vez que vínculo a palavra artificial à alguma coisa, não sei por que, mas plástico é uma construção simbólica que me vem imediatamente. A arte produzida para ornar a concepção visual de uma banda é demasiadamente humana, em minha opinião e busco essa concretude através de meu gosto pessoal, sou daqueles que ainda ama as capas pintadas, ou desenhadas, ou ainda fotografadas. No início deste século as capas feitas com apoio digital me fizeram torcer o nariz pela primeira vez, aquilo soava para mim como algo artificial, de plástico, ao que tudo indicava, aquele modo de criar uma arte para uma capa de um disco não fazia mais sentido, não tinha mais a mesma energia da emoção… será?
Antes do computador não dava para fazer muita coisa fora da imprensa profissional das gráficas, era tudo praticamente manual, mas havia sim uma tecnologia que atribuo uma inteligência: a máquina copiadora! Como não acreditar que máquina copiadora já não era um indício de uma inteligência artificial? Ademais a Inteligência Artificial não surge de forma abrupta, mas como resultado de uma longa tradição de reflexões sobre o pensamento, a lógica e a possibilidade de mecanização do raciocínio humano. Desde a lógica aristotélica, que buscava estruturar formalmente o pensamento, até os avanços da matemática moderna, construiu-se a ideia de que o raciocínio poderia ser traduzido em regras e operações.
Partindo desse pensamento, e arregimentando dados, nós já usufruímos de inteligências artificiais há muitas décadas e, toda vez que surge alguma tecnologia revolucionária, começamos a criar resistência acreditando que tais tecnologias irão substituir o homem, mas esquecemos que as máquinas dependem do homem e não o contrário, para fazerem se mover, resistirem, serem alimentadas em vários aspectos não apenas de informação mas de produção de peças, componentes, extração de matéria prima, transporte, lapidação… ou seja, toda uma cadeia que alimenta a existência da máquina e costumamos falar disso como se fosse algo autônomo e complexo como a existência humana.
No século XX, essa perspectiva ganha força com o desenvolvimento da computação. Alan Turing (Alan Turing (1912–1954) foi um matemático, lógico, criptógrafo e pioneiro da ciência da computação, considerado uma das figuras mais importantes do século XX. Seu trabalho lançou as bases teóricas da computação moderna e influenciou diretamente o surgimento da Inteligência Artificial.) desempenha papel fundamental ao propor a noção de uma máquina capaz de executar qualquer operação lógica formal. Seu célebre “Teste de Turing” não buscava definir o que é inteligência, mas verificar se uma máquina poderia simular, de modo convincente, o comportamento inteligente humano. A partir desse ponto, a inteligência passa a ser pensada menos como consciência e mais como desempenho funcional.
A consolidação da IA como campo científico ocorre em 1956, na Conferência de Dartmouth, quando pesquisadores passam a utilizar oficialmente o termo “Inteligência Artificial”. Naquele momento, prevalecia um otimismo significativo: acreditava-se que máquinas poderiam, em poucas décadas, reproduzir plenamente o raciocínio humano. Contudo, limitações técnicas e conceituais levaram a períodos de estagnação conhecidos como “invernos da IA”, nos quais as expectativas não se concretizaram.
O desenvolvimento da IA pode ser compreendido a partir de uma transição metodológica importante. Inicialmente, os sistemas eram baseados em regras explícitas, programadas diretamente por especialistas. Esses modelos, conhecidos como simbólicos, dependiam de estruturas lógicas rígidas e apresentavam dificuldades para lidar com ambiguidades e contextos complexos.
Com o avanço da estatística e da capacidade computacional, emergem os sistemas de aprendizado de máquina (Machine Learning), nos quais a máquina não recebe apenas regras, mas aprende padrões a partir de grandes volumes de dados. Esse processo se intensifica com o Deep Learning, que utiliza redes neurais artificiais compostas por múltiplas camadas de processamento.
O crescimento exponencial do poder computacional, aliado ao armazenamento massivo de dados e à expansão das redes digitais, possibilitou que a IA alcançasse níveis de desempenho antes impensáveis. A tecnologia deixa de ser restrita a laboratórios e passa a integrar o cotidiano, influenciando decisões, comportamentos e formas de interação social.
Aí que mora o perigo! Quando as inteligências artificiais se tornaram “públicas” não é sobre a ferramenta que deve recair as questões da dúvida e sim sobre como essa ferramenta será usada pelas pessoas e quais intenções estão por trás dessa utilização. Não podemos esquecer do grande adoecimento social qual a sociedade contemporânea vem enfrentando nos últimos anos os quais tem se expandido desde as relações com as doenças mentais até os desastrosos pensamentos sobre a polaridade política, sobretudo as quais somos capazes de testemunhar ao nosso lado.
Um primeiro exemplo concreto pode ser observado no uso de algoritmos de recomendação em redes sociais, hoje amplamente baseados em modelos de IA. Estudos recentes de instituições como o MIT Media Lab e a Universidade de Stanford indicam que conteúdos emocionalmente extremos — como indignação, medo e raiva — possuem maior engajamento e, por isso, são priorizados pelos sistemas. Esse mecanismo não cria o ódio ou a polarização, mas os intensifica, retroalimentando visões de mundo fechadas e fortalecendo bolhas ideológicas. Nesse contexto, a IA atua como um amplificador de tensões sociais já latentes.
Outro ponto sensível está na substituição progressiva do diálogo humano por interações mediadas por máquinas. Chats baseados em IA, embora úteis em diversos contextos, podem ser utilizados como espaços de validação automática de crenças e opiniões. Diferentemente do diálogo humano, que envolve conflito, escuta e negociação de sentidos, a IA tende a responder de forma coerente com o que lhe é solicitado, o que pode reforçar vieses cognitivos e convicções extremadas. Quando usada sem mediação crítica, a ferramenta deixa de provocar reflexão e passa a confirmar certezas.
É importante destacar que esses problemas não decorrem da existência da Inteligência Artificial em si, mas da ausência de responsabilidade ética, regulação adequada e formação crítica da população. Em uma sociedade já marcada por fragilidades emocionais, desigualdades estruturais e conflitos ideológicos, a IA funciona como um catalisador. Ela acelera processos, amplia discursos e potencializa efeitos — tanto construtivos quanto destrutivos.
Diante desse panorama, torna-se urgente deslocar o debate do “o que a IA é capaz de fazer” para “o que estamos escolhendo fazer com a IA”. Isso implica reconhecer que a tecnologia reflete a condição humana contemporânea: suas contradições, seus medos e suas disputas de poder. Sem um investimento sério em educação digital, ética tecnológica e fortalecimento das relações humanas, o uso indiscriminado da Inteligência Artificial corre o risco de aprofundar o adoecimento social já em curso, em vez de contribuir para sua superação.
Assim, o verdadeiro perigo não reside na inteligência artificial enquanto ferramenta, mas na combinação entre tecnologia poderosa e uma sociedade fragilizada, polarizada e emocionalmente exausta. A questão que se impõe, portanto, não é se devemos usar a IA, mas como, por quem e a serviço de quais projetos de mundo ela será utilizada.
A relação entre Inteligência Artificial e arte revela-se particularmente significativa. As produções artísticas — imagens, textos, músicas e estilos — tornam-se dados, fragmentados e reorganizados em bancos de informação utilizados para o treinamento dos sistemas. A arte, nesse contexto, é traduzida em padrões formais, recorrências estatísticas e estruturas reconhecíveis e foi assim que criei minhas resistências, primeiro sobre a arte digital, feita através da computação gráfica e atualmente através da inteligência artificial, soando extremamente amador.
Surge, assim, uma estética do algoritmo, caracterizada pela recombinação, pela repetição e pelo remix de estilos preexistentes. A IA não cria a partir de uma intenção subjetiva, mas opera sobre o já produzido, reorganizando elementos culturais de maneira probabilística. Essa lógica dialoga com práticas da arte contemporânea, como a apropriação, a colagem e a reinterpretação.
No entanto, permanece a questão central: trata-se de criação ou de simulação? Enquanto o artista humano opera a partir de experiência, contexto e intencionalidade, a IA reflete e amplifica padrões existentes. Os chats e plataformas de IA tornam-se espaços híbridos, nos quais técnica e poética se cruzam, desafiando noções tradicionais de autoria e originalidade.
Dentro dessa linha de pensamento cabe uma reflexão mais apurada pois, lidar com a inteligência artificial e o plágio exige, antes de tudo, um reposicionamento ético e conceitual. A IA, por si só, não plagia: ela não possui intenção, consciência ou responsabilidade autoral. O plágio ocorre quando o sujeito se apropria do que a ferramenta produz e o apresenta como criação própria, ocultando o processo e terceirizando o pensamento. Nesse sentido, o problema central não está na tecnologia, mas na forma como ela é utilizada.
Com a popularização da IA, torna-se insuficiente compreender o plágio apenas como cópia literal. Hoje, ele também se manifesta na repetição acrítica de ideias, estilos e estruturas, sem elaboração pessoal ou posicionamento intelectual. Usar a IA de maneira ética implica reconhecê-la como apoio — para organizar ideias, revisar textos ou estimular reflexões — e não como substituta do estudo, da leitura e da autoria. A transparência no uso da ferramenta e a capacidade de sustentar criticamente o que se produz são critérios fundamentais para distinguir colaboração tecnológica de fraude intelectual.
Portanto, enfrentar o plágio na era da inteligência artificial não significa proibir ferramentas, mas fortalecer a formação crítica. Quando o pensamento é ativo e consciente, a IA pode ampliar processos criativos e investigativos; quando é usada para mascarar a ausência de reflexão, ela apenas evidencia um empobrecimento intelectual já existente.
É sobre esse raciocínio que voltamos ao tema central deste artigo: o duelo entre o homem e a máquina! A Inteligência Artificial não é, em si, nem inteligência plena nem negligência. Ela é uma potência técnica que revela, com grande nitidez, as escolhas humanas que a atravessam. O erro recorrente está em atribuir à IA uma autonomia moral que ela não possui. Quando usada de forma crítica, a IA pode ampliar capacidades cognitivas, organizar informações complexas e favorecer processos criativos e educativos. Nesse sentido, ela funciona como uma extensão do pensamento humano, ainda que limitada à lógica do cálculo e da probabilidade.
No entanto, a IA se converte em negligência quando passa a substituir o esforço intelectual, o diálogo e a responsabilidade ética. Ao ser utilizada como atalho para evitar leitura, reflexão ou posicionamento crítico, ela não produz inteligência, mas reforça a superficialidade e a repetição. O problema não está na máquina que calcula, mas no sujeito que abdica de pensar. Assim, a negligência não é artificial, é humana.
Portanto, a pergunta “A IA é inteligência ou negligência?” só pode ser respondida a partir do uso que se faz dela. A IA escancara uma verdade incômoda: tecnologias avançadas não elevam automaticamente o pensamento. Elas apenas ampliam aquilo que já está em curso — seja a inteligência crítica, seja a negligência intelectual.
Referências
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BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. São Paulo: Brasiliense, 2012.
FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Annablume, 2009.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: ______. Ditos e escritos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 2007.



