No interior do Rio Grande do Norte, longe dos grandes centros da indústria musical, surge uma força criativa que prova que o underground não tem CEP. Longe dos clichês do gelo e da neve, eles provam que a escuridão não conhece fronteiras geográficas. Nesta entrevista, mergulhamos na essência da Odalheim: suas origens, influências, processo criativo, formação e os caminhos que pretendem trilhar no futuro.
01 – O Black Metal é frequentemente associado a paisagens escandinavas, mas vocês o forjam no calor intenso do Sertão nordestino. Como surgiu a ideia de criar a banda e como nasceu a Odalheim?
Saudações, nobre guerreira. A ideia de formar a banda veio da necessidade de externar aquele sentimento de fúria em forma de som, decidimos botar pra frente essa ideia. Eu já tinha outra banda de Thrash Metal, e os caras sempre colavam nos ensaios, foi a partir daí que decidimos tirar uns covers do Darkthrone e em seguida construir nossas primeiras composições. Inicialmente éramos um trio. Danillo na bateria, Moisés na guitarra e eu no Baixo/Vocal.
02 – Assú é conhecida por ter uma forte presença do cristianismo e de tradições religiosas. Como é a recepção para vocês? Já enfrentaram resistência ou, ao contrário, encontraram curiosidade e apoio?
De certa forma nunca enfrentamos muita resistência pelo fato dos eventos que aconteceram na cidade, serem em locais fechados e que não deram margem aos curiosos e preconceituosos. Porém, em alguns eventos de outras cidades, já nos deparamos com banda cancelando a participação no show por não querer dividir o palco com uma banda de Black Metal. Uma certa banda de Teresina, dos anos 80, se retirou do cast após proferir insultos como “black metal pra mim é lixo, não toco com essas merdas”.
03 – O nome “Odalheim” chama a atenção por evocar raízes nórdicas (Odal e Heim). Qual é o real significado por trás dessa escolha?
O nome Odalheim veio diretamente do álbum de mesmo nome da banda sueca Unleashed. Seu significado abrange uma narrativa de batalha a qual acompanha guerreiros que criam um novo mundo (“Odalheim” ou “lar ancestral”) a partir das cinzas de uma Terra pós-Ragnarök, enquanto lutam contra o “Cristo Branco”. Resumidamente, Odalheim representa o fim da humanidade e seus dogmas na Terra.
04 – A sonoridade do Black Metal exige um equilíbrio delicado entre a crueza (raw) e a audibilidade. Como vocês trabalham a produção em um cenário onde o lo-fi é uma estética, mas a clareza é crucial para transmitir a complexidade da música?
Sempre tivemos apreço ao som sujo e ríspido. Nossa demo, por exemplo, teve o instrumental gravado num único take, no estilo ensaio. Apenas os vocais foram gravados separados num banheiro, para contribuir com o reverb. Contudo, o nosso EP que veio posteriormente já conta com uma melhor produção, gravado em estúdio e com faixas mais bem trabalhadas, digamos assim. Mas nunca polindo demais a sonoridade, sempre tendo a cautela de mesmo na sujeira e rispidez, deixar audível.
05 – Quais são as suas referências sonoras e como vocês definiriam a sonoridade da Odalheim?
As nossas referências vieram em sua maioria do velho continente. Bandas como Darkthrone, Mayhem, Celtic Frost, Immortal, Nargaroth. Claro que com o decorrer dos anos fomos agregando outras influências. E nas novas composições que estarão no nosso próximo lançamento, carregamos bem mais atmosfera e até um pouco mais de “melodia” no nosso som. Posso afirmar que agora as referências estão puxando mais pro lado da Finlândia e Suécia, bandas como Sargeist, Horna, Dissection, Watain… Têm tido uma influência notável nesse novo material que está por vir.
06 – Satanismo, anticristianismo e mitologia são temas abordados pela horda em sua lírica. Muitas bandas de Black Metal usam o gênero como catarse ou negação. Para a Odalheim, o ato de criar e tocar essa música é primariamente destrutivo ou há um elemento de construção, de afirmação de uma identidade ou de um caminho filosófico próprio?
Seguimos dando ênfase ao som, que consideramos a nossa linguagem e forma de expressão majoritária. No entanto, na parte lírica, abordamos temas como os já citados e ainda acrescento o Niilismo, Misantropia, Existencialismo e a Natureza em si. Estes últimos estão mais presentes atualmente.
07 – Quem forma a Odalheim atualmente?
Atualmente o Odalheim é composto por: Disintegratör (Vocal/Guitarra), Paimon (Guitarra), Nekromisantrop (Bateria) e Shadow (Baixo).
08 – Como funciona o processo de criação da temática e da sonoridade? Todos participam da composição?
O processo criativo é feito por mim, Moisés e Danillo. Sempre começamos com um riff. Se ele transmitir algum feeling ou atmosfera que nos agrade, damos continuidade à construção da música. Após isso vem a bateria, estudamos como encaixá-la e se necessário, modificamos a linha de guitarra pra isso. Em seguida construo também a linha do baixo. Quanto as letras, normalmente as escrevo após ouvir a música finalizada e perceber o que ela me passa. Mas já ocorreu o inverso, de criar os riffs inspirados após a leitura da letra.
09 – A banda está ativa desde 2013, com uma demo e um EP lançados. Poderia comentar sobre esses dois materiais? Eles ainda se encontram disponíveis?
Ambos os materiais foram gravados de forma independente e seu lançamento contou com o apoio do selo e grande parceiro Rising Records. Por questões de limitação técnica e financeira, algumas faixas ficaram de fora e nunca as lançamos. Tanto a Demo quanto o EP ainda se encontram disponíveis com a banda, pois fizemos uma outra tiragem. Mas também estão disponíveis no Bandcamp e Youtube.
10 – Qual é o principal desafio para uma banda de Black Metal do Nordeste brasileiro ao buscar lançamentos de maior porte (full-lengths) e a inserção no mercado internacional?
Acredito que um fator que contribui para a pouca visibilidade, além do gênero, é a própria localização geográfica. Infelizmente até no próprio país há uma certa discriminação com a região nordestina. Já lancei materiais de outras bandas que faço parte fora do país, mas em prensagens ultra limitadas. Aqui no país o custo de um Full-lenght está bem elevado em comparação a 10 anos atrás. Isso mesmo com a popularização do streaming. O lance é correr atrás de selos para dividir os custos da produção e fazer a coisa acontecer.
11 – O Black Metal, em sua essência, muitas vezes se opõe ao mainstream. Qual é a visão da Odalheim sobre a “profissionalização” do underground? Vocês veem necessidade de um isolamento total ou acham importante o uso estratégico de plataformas digitais para difundir o som?
Se não fosse o meio digital, nunca teríamos construído as pontes com outras bandas, produtores e grandes amigos que conhecemos nesse meio tempo. Não acreditamos que o uso de plataformas digitais vá inferiorizar a essência do underground. Sempre priorizamos o formato físico, mas por questões de logística ou até mesmo de comodismo, o digital colabora de forma bastante positiva. Não temos aversão ao que a tecnologia e a globalização nos propõem para disseminarmos nosso som. Somos totalmente anti à movimentos separatistas, extremistas ou radicais.
12 – Para o leitor que nunca ouviu Odalheim, que tipo de experiência sonora e lírica vocês prometem? E qual é o “rito de passagem” — a faixa de estreia — que vocês recomendam?
A experiência é caótica e desoladora, nosso “caro chefe” tem sido há tempos a faixa “The Taste of Death is Blood” (presente no nosso EP), segundo o feedback de quem curte o nosso som e frequenta os eventos. Mas já tocamos algumas das músicas novas nos últimos shows e eu acho que esse rito de passagem vai mudar hahaha.
13 – Quais são os próximos passos da horda? Há novidades no horizonte?
Estamos finalizando as composições do nosso Full-lenght e logo mais entraremos em estúdio para gravá-lo e lançá-lo nos formatos físicos (CD, TAPE) e digitais.
14 – Odalheim, agradecemos pelo tempo e pela franqueza em compartilhar as chamas criativas do submundo de Assú. Que a escuridão continue a inspirar seus hinos.
Nós quem somos gratos pelo espaço cedido neste veículo de extrema importância no cenário underground! Sempre é uma satisfação contribuir de alguma forma nesse submundo, esperamos que nossos hinos profanos ecoem e despertem as sensações desejadas em quem os ouve. Non Serviam!
CONTATO: @odalheim.blackmetal
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