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DRACONIS INFERNUM: “THE BLACK FLAMES OF SATAN” E A RESISTÊNCIA DO BLACK METAL ALÉM DO TEMPO

Anton Naberius junho 20, 2026 5 min read

Em entrevista exclusiva ao This Is Black Metal, a veterana entidade de Singapura reflete sobre duas décadas de trajetória, filosofia, criação artística e o significado existencial de seu novo álbum

Capa do álbum “The Black Flames of Satan”

Há bandas que atravessam décadas como tempestades passageiras, deixando rastros intensos, porém efêmeros. Outras seguem um caminho muito diferente: avançam lentamente, moldando sua identidade com disciplina, convicção e absoluta fidelidade aos próprios princípios. Desde sua formação em 2005, nas margens da cena extrema de Singapura, Draconis Infernum pertence inquestionavelmente à segunda categoria.

Longe dos grandes centros históricos do Black Metal, o grupo construiu uma carreira baseada na perseverança, recusando tanto a necessidade de visibilidade quanto as concessões impostas por tendências ou modismos. Seu mais recente trabalho, “The Black Flames of Satan”, representa a síntese de vinte anos de amadurecimento artístico e filosófico, assunto central da extensa entrevista concedida ao portal This Is Black Metal.

Durante a conversa, Xepher, fundador e principal compositor da banda, revela que Draconis Infernum nasceu da necessidade de transformar sentimentos profundamente pessoais em música. Inspirado pela Segunda Onda do Black Metal — especialmente nomes como Bathory, Mayhem e Venom —, o projeto nunca buscou apenas reproduzir uma estética sonora, mas construir uma linguagem própria baseada no isolamento, na transcendência, na oposição religiosa e na afirmação do indivíduo diante do mundo.

Segundo o músico, desde o início a proposta jamais foi seguir tendências ou buscar aceitação dentro da cena underground. O objetivo sempre consistiu em criar uma identidade que permanecesse fiel à essência do Black Metal enquanto desenvolvia sua própria personalidade artística.

Essa postura também define o processo de composição do novo álbum. Xepher explica que “The Black Flames of Satan” levou vários anos para ser concluído, sem qualquer preocupação em cumprir prazos impostos pela indústria. O material foi desenvolvido lentamente através da troca constante de demos com o baterista — residente na Indonésia — até que ambos considerassem as composições plenamente amadurecidas.

Algumas ideias presentes no disco, revela o músico, começaram a surgir quase uma década antes das gravações definitivas. A rotina profissional de todos os envolvidos naturalmente impôs um ritmo mais lento ao trabalho, mas, para a banda, isso nunca representou um obstáculo. Pelo contrário: permitiu que cada composição evoluísse de forma orgânica.

Ao ser questionado sobre o conteúdo emocional do álbum, Xepher afasta qualquer interpretação puramente teatral do satanismo ou da escuridão presentes na obra. Para ele, os temas desenvolvidos refletem experiências reais de conflito interno, alienação e enfrentamento psicológico.

As agressões sonoras, o sentimento de rejeição e a atmosfera opressiva que permeiam o disco não são construções fictícias, mas manifestações simbólicas de batalhas pessoais. Ainda assim, o compositor afirma que esse confronto interior não conduz à destruição, mas ao fortalecimento da própria identidade.

Entre todas as faixas, Xepher destaca justamente a composição que dá nome ao álbum como a mais significativa. “The Black Flames of Satan” simboliza a superação de inúmeros obstáculos enfrentados durante os anos de produção e reafirma que, apesar dos atrasos, dificuldades e interferências externas, a vontade criativa que sustenta Draconis Infernum permanece absolutamente intacta.

Outro aspecto amplamente discutido na entrevista é o papel da atmosfera dentro da música da banda. Para Xepher, Black Metal perde completamente sua essência quando reduzido apenas à velocidade ou à agressividade desprovida de significado.

Segundo ele, toda composição nasce de um riff central capaz de carregar uma emoção específica. É essa atmosfera — seja ela fria, opressiva, contemplativa ou triunfante — que diferencia uma música comum de uma obra capaz de permanecer viva na memória do ouvinte muito tempo após sua execução.

O músico também comenta que diversos momentos decisivos do álbum surgiram espontaneamente durante as gravações. Um exemplo citado é a faixa “Emissaries of Hell”, cuja versão definitiva nasceu de improvisações realizadas em estúdio após o compositor sentir-se insatisfeito com as primeiras demos. Essas descobertas intuitivas acabaram redefinindo completamente a personalidade da música.

Quando o assunto recai sobre tradição e evolução dentro do Black Metal, Xepher demonstra uma visão equilibrada. Para ele, Draconis Infernum ocupa exatamente esse espaço intermediário: profundamente enraizado na tradição da Segunda Onda, mas sem medo de reinterpretar seus fundamentos.

Evoluir, afirma, jamais significa abandonar as bases do gênero, mas refiná-las e moldá-las segundo uma identidade própria.

Questionado sobre como gostaria que “The Black Flames of Satan” fosse percebido décadas no futuro, Xepher responde de maneira direta: nunca escreveu música pensando em posteridade ou reconhecimento histórico.

Toda a discografia de Draconis Infernum foi concebida antes de tudo para satisfazer seus próprios critérios artísticos. Se algum dia o álbum permanecer relevante, isso ocorrerá exclusivamente porque foi criado com honestidade e convicção, nunca por seguir tendências passageiras.

A mesma filosofia se estende ao futuro da banda. Xepher rejeita qualquer planejamento rígido para os próximos trabalhos e afirma que Draconis Infernum sempre evoluiu naturalmente, sem mapas pré-definidos ou expectativas externas.

Ao final da entrevista, deixa uma mensagem que sintetiza toda a essência do projeto:

“Mergulhe no álbum e permita que ele o afete da forma como tiver de acontecer. Não peço compreensão nem aprovação. Este trabalho existe para aqueles que verdadeiramente ressoarem com ele.”

Mais do que promover um novo lançamento, a entrevista revela uma banda que compreende o Black Metal como uma manifestação existencial. Em uma época marcada pela velocidade, pela superexposição e pela constante necessidade de renovação superficial, Draconis Infernum permanece fiel a uma ideia quase esquecida: a de que autenticidade, convicção e permanência continuam sendo as formas mais profundas de resistência artística.

Fonte: ThisIsBlackMetal.com

 

Anton Naberius

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