Em entrevista exclusiva ao This Is Black Metal, a veterana entidade de Singapura reflete sobre duas décadas de trajetória, filosofia, criação artística e o significado existencial de seu novo álbum

Há bandas que atravessam décadas como tempestades passageiras, deixando rastros intensos, porém efêmeros. Outras seguem um caminho muito diferente: avançam lentamente, moldando sua identidade com disciplina, convicção e absoluta fidelidade aos próprios princípios. Desde sua formação em 2005, nas margens da cena extrema de Singapura, Draconis Infernum pertence inquestionavelmente à segunda categoria.
Longe dos grandes centros históricos do Black Metal, o grupo construiu uma carreira baseada na perseverança, recusando tanto a necessidade de visibilidade quanto as concessões impostas por tendências ou modismos. Seu mais recente trabalho, “The Black Flames of Satan”, representa a síntese de vinte anos de amadurecimento artístico e filosófico, assunto central da extensa entrevista concedida ao portal This Is Black Metal.
Durante a conversa, Xepher, fundador e principal compositor da banda, revela que Draconis Infernum nasceu da necessidade de transformar sentimentos profundamente pessoais em música. Inspirado pela Segunda Onda do Black Metal — especialmente nomes como Bathory, Mayhem e Venom —, o projeto nunca buscou apenas reproduzir uma estética sonora, mas construir uma linguagem própria baseada no isolamento, na transcendência, na oposição religiosa e na afirmação do indivíduo diante do mundo.
Segundo o músico, desde o início a proposta jamais foi seguir tendências ou buscar aceitação dentro da cena underground. O objetivo sempre consistiu em criar uma identidade que permanecesse fiel à essência do Black Metal enquanto desenvolvia sua própria personalidade artística.
Essa postura também define o processo de composição do novo álbum. Xepher explica que “The Black Flames of Satan” levou vários anos para ser concluído, sem qualquer preocupação em cumprir prazos impostos pela indústria. O material foi desenvolvido lentamente através da troca constante de demos com o baterista — residente na Indonésia — até que ambos considerassem as composições plenamente amadurecidas.
Algumas ideias presentes no disco, revela o músico, começaram a surgir quase uma década antes das gravações definitivas. A rotina profissional de todos os envolvidos naturalmente impôs um ritmo mais lento ao trabalho, mas, para a banda, isso nunca representou um obstáculo. Pelo contrário: permitiu que cada composição evoluísse de forma orgânica.
Ao ser questionado sobre o conteúdo emocional do álbum, Xepher afasta qualquer interpretação puramente teatral do satanismo ou da escuridão presentes na obra. Para ele, os temas desenvolvidos refletem experiências reais de conflito interno, alienação e enfrentamento psicológico.
As agressões sonoras, o sentimento de rejeição e a atmosfera opressiva que permeiam o disco não são construções fictícias, mas manifestações simbólicas de batalhas pessoais. Ainda assim, o compositor afirma que esse confronto interior não conduz à destruição, mas ao fortalecimento da própria identidade.
Entre todas as faixas, Xepher destaca justamente a composição que dá nome ao álbum como a mais significativa. “The Black Flames of Satan” simboliza a superação de inúmeros obstáculos enfrentados durante os anos de produção e reafirma que, apesar dos atrasos, dificuldades e interferências externas, a vontade criativa que sustenta Draconis Infernum permanece absolutamente intacta.
Outro aspecto amplamente discutido na entrevista é o papel da atmosfera dentro da música da banda. Para Xepher, Black Metal perde completamente sua essência quando reduzido apenas à velocidade ou à agressividade desprovida de significado.
Segundo ele, toda composição nasce de um riff central capaz de carregar uma emoção específica. É essa atmosfera — seja ela fria, opressiva, contemplativa ou triunfante — que diferencia uma música comum de uma obra capaz de permanecer viva na memória do ouvinte muito tempo após sua execução.
O músico também comenta que diversos momentos decisivos do álbum surgiram espontaneamente durante as gravações. Um exemplo citado é a faixa “Emissaries of Hell”, cuja versão definitiva nasceu de improvisações realizadas em estúdio após o compositor sentir-se insatisfeito com as primeiras demos. Essas descobertas intuitivas acabaram redefinindo completamente a personalidade da música.
Quando o assunto recai sobre tradição e evolução dentro do Black Metal, Xepher demonstra uma visão equilibrada. Para ele, Draconis Infernum ocupa exatamente esse espaço intermediário: profundamente enraizado na tradição da Segunda Onda, mas sem medo de reinterpretar seus fundamentos.
Evoluir, afirma, jamais significa abandonar as bases do gênero, mas refiná-las e moldá-las segundo uma identidade própria.
Questionado sobre como gostaria que “The Black Flames of Satan” fosse percebido décadas no futuro, Xepher responde de maneira direta: nunca escreveu música pensando em posteridade ou reconhecimento histórico.
Toda a discografia de Draconis Infernum foi concebida antes de tudo para satisfazer seus próprios critérios artísticos. Se algum dia o álbum permanecer relevante, isso ocorrerá exclusivamente porque foi criado com honestidade e convicção, nunca por seguir tendências passageiras.
A mesma filosofia se estende ao futuro da banda. Xepher rejeita qualquer planejamento rígido para os próximos trabalhos e afirma que Draconis Infernum sempre evoluiu naturalmente, sem mapas pré-definidos ou expectativas externas.
Ao final da entrevista, deixa uma mensagem que sintetiza toda a essência do projeto:
“Mergulhe no álbum e permita que ele o afete da forma como tiver de acontecer. Não peço compreensão nem aprovação. Este trabalho existe para aqueles que verdadeiramente ressoarem com ele.”
Mais do que promover um novo lançamento, a entrevista revela uma banda que compreende o Black Metal como uma manifestação existencial. Em uma época marcada pela velocidade, pela superexposição e pela constante necessidade de renovação superficial, Draconis Infernum permanece fiel a uma ideia quase esquecida: a de que autenticidade, convicção e permanência continuam sendo as formas mais profundas de resistência artística.
Fonte: ThisIsBlackMetal.com



