Scott Conner apresenta “Put You Out of Your Misery” como primeiro avanço de um álbum mais detalhado, orgânico e imprevisível, no qual a aceitação, a miséria interior e os equívocos sobre sua própria arte tornam-se parte da linguagem do XASTHUR.

O XASTHUR anunciou seu novo álbum, “Open to Misinterpretation”, com lançamento marcado para 2 de outubro de 2026 através da Prophecy Productions, com distribuição da SPKR. Como primeiro avanço do trabalho, Scott Conner revelou a faixa “Put You Out of Your Misery”, abrindo mais um capítulo de sua particular exploração do chamado Dark American Folk — ou American Acid Folk, como o estilo do novo registro é oficialmente apresentado.
Gravado pelo próprio Conner, “Open to Misinterpretation” amplia uma trajetória artística que há muito deixou de obedecer às fronteiras do Black Metal que inicialmente tornaram o nome XASTHUR conhecido. A escuridão permanece, mas seus instrumentos, estruturas e formas de expressão continuam em transformação.
Sobre “Put You Out of Your Misery”, Scott Conner explica:
“Onde quer que você vá, lá estará você — e terá que viver consigo mesmo. Esta música gira em torno de alcançar aquela encruzilhada interior onde alguma coisa precisa ceder. Ou você confronta os problemas que o tornam miserável ou permite que eles o destruam.”
A ideia parece sintetizar parte importante do novo álbum. Não se trata da procura por uma saída fácil ou por uma forma artificial de transcendência. A música de Conner observa a existência a partir de seus impasses, reconhecendo que determinadas batalhas acontecem em um território do qual simplesmente não é possível fugir: o próprio indivíduo.
A reflexão aproxima-se, de maneira particular, da ideia de aceitação formulada pelo filósofo francês e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura Albert Camus diante do absurdo da existência e do universo. Scott Conner, atento cronista das regiões mais sombrias do chamado sonho americano, parece ter chegado à sua própria interpretação dessa perspectiva.
Ao longo dos anos, o músico aprendeu que sua obra pode confundir, provocar leituras equivocadas ou simplesmente ser compreendida de maneiras completamente diferentes de suas intenções originais. Em vez de continuar combatendo essa realidade, Conner decidiu aceitá-la.
É precisamente dessa constatação que surge o título “Open to Misinterpretation” — “Aberto à Má Interpretação”.
A aceitação, entretanto, não representa uma tentativa de tornar o XASTHUR mais acessível. Pelo contrário. Conner demonstra ainda menos interesse em alterar sua direção artística para atender expectativas externas ou reproduzir caminhos que funcionaram para outros músicos. A possibilidade de ser mal interpretado tornou-se parte do próprio processo.
Isso não significa que o XASTHUR permaneça musicalmente imóvel. “Open to Misinterpretation” apresenta uma versão mais profunda e desenvolvida da linguagem que Conner vem construindo nos últimos anos. Sua escrita tornou-se simultaneamente mais detalhada e menos previsível.
O baixo assume uma presença maior e tecnicamente mais elaborada nas composições. Uma variedade ampliada de afinações de guitarra cria novas possibilidades harmônicas e texturais, enquanto a programação da bateria deixou de funcionar apenas como acompanhamento para tornar-se uma parte estrutural da construção das músicas.
A produção também apresenta maior clareza. Mesmo assim, Conner preserva deliberadamente uma sensação de execução ao vivo, orgânica e real. O objetivo não é esterilizar a música em busca de perfeição técnica, mas permitir que cada composição mantenha a impressão de algo acontecendo diante do ouvinte.
Existe ainda outro elemento importante na formação do álbum. Muitas dessas músicas já foram executadas ao vivo durante as recentes atividades do XASTHUR nos dois lados do Atlântico. Dessa maneira, as reações do público, ainda que indiretamente, infiltraram-se nas próprias composições e contribuíram para sua forma final.
A história do XASTHUR começou em 1995, quando o vocalista e multi-instrumentista Scott Conner concebeu o projeto na ensolarada Califórnia. O contraste geográfico sempre foi evidente: apesar de sua origem norte-americana, a primeira encarnação do grupo mergulhou profundamente na aspereza do Black Metal nórdico.
Ao longo de dez álbuns, inúmeros splits, EPs e algumas demos, o XASTHUR desenvolveu uma linguagem profundamente individual e especialmente depressiva, conquistando reconhecimento dentro da música extrema.
Em 2010, Conner declarou o encerramento do projeto. Posteriormente, retornou com uma abordagem acústica e sombria sob o nome NOCTURNAL POISONING. Cinco anos depois, retomou a identidade XASTHUR, mas afirmou que seus dias dedicados ao Black Metal haviam terminado.
Essa proibição autoimposta começou a perder rigidez em “Inevitably Dark”, de 2023. Nesse álbum, Conner recuperou parcialmente elementos do Black Metal, reconhecendo que essas possibilidades musicais sempre haviam pertencido a ele e que somente ele poderia decidir quando ou como utilizá-las.
“Open to Misinterpretation” surge como consequência dessa liberdade. Mais concentrado e seguro, o álbum desenvolve a evolução da linguagem de Scott Conner sem tentar transformá-la em algo facilmente classificável. Folk sombrio, psicodelia ácida, ecos da antiga escuridão do XASTHUR e uma crônica amarga da existência norte-americana encontram-se em uma obra que não pede compreensão absoluta.
Talvez o título seja também um aviso. Talvez seja uma resignação. Ou simplesmente o reconhecimento de que, depois que uma obra deixa as mãos de seu criador, cada interpretação passa a existir por conta própria.
TRACKLIST – “OPEN TO MISINTERPRETATION”
- Running from Silence
- Put You Out of Your Misery
- Mantras of Delusion
- Impersonating the Impostors
- Nothing in the Dark
- Waste of Eternity
- Prisoner of Your Past
- Strategic Incompetence
- Death Can Heal
FICHA DO ÁLBUM
Artista: Xasthur
Álbum: Open to Misinterpretation
Lançamento: 2 de outubro de 2026
Estilo: American Acid Folk
Gravadora: Prophecy Productions
Distribuição: SPKR
FORMAÇÃO
Scott Conner – guitarras de 12 e 6 cordas e bateria eletrônica
“Open to Misinterpretation” foi gravado ao vivo por Scott Conner, utilizando um Tascam DP-03, em diferentes locais dos Estados Unidos. O tratamento artístico e o layout ficaram sob responsabilidade de Łukasz Jaszak.
Com o novo álbum, Scott Conner parece finalmente confortável com uma verdade que acompanhou o XASTHUR durante décadas: sua música será confundida, reinterpretada e ocasionalmente colocada em categorias que talvez nunca tenham feito sentido para seu criador. Em vez de explicar-se, ele continua compondo. E, se alguém ainda interpretar tudo de maneira equivocada, talvez essa possibilidade já tenha sido incorporada à própria obra.
Fonte: Kronus Mortus News.



