Entidade espanhola do Black/Doom Metal avant-garde conduz sua música por estruturas rizomáticas, dissolução psicodélica e especulação metafísica em um dos trabalhos mais radicais de sua trajetória.

O PYLAR, entidade espanhola dedicada à deformação das fronteiras entre Black Metal, Doom, experimentação e pensamento especulativo, retorna com “Delyrio”, novo álbum que recebeu uma audição integral exclusiva através da Decibel Magazine antes de seu lançamento, marcado para 10 de julho, pelo selo extremo Cavsas, ligado à Cyclic Law.
Descrito pela própria Decibel como um trabalho “mergulhado em ocultismo e horror cósmico”, “Delyrio” apresenta uma das manifestações mais intransigentes e conceitualmente imersivas já concebidas pelo PYLAR. Aqui, o delírio não funciona apenas como tema. Ele é simultaneamente método composicional, processo de desorientação e destino final.
Produzido e composto pelo próprio PYLAR, o álbum foi gravado, mixado e masterizado naquilo que a banda denomina poeticamente como os “territórios desconhecidos dos Atlantes”, no estúdio La Mina, sob a condução do Mestre Alquímico, identificado como o sexto membro herético da entidade. As sessões ocorreram dois dias antes da escuridão telúrica da lua nova de março e durante as Calendas de julho, no quarto ano do terceiro milênio da Era Comum — uma descrição que, longe de funcionar apenas como ornamento, reforça a construção ritualística e temporalmente deslocada do projeto.
As artes de capa e contracapa utilizam fragmentos criados por Gonzalo Santana, enquanto os chamados escritos metatêxteis abissais foram concebidos por Francisco Tójar Pérez e Bar-Gal. Dentro dessa estrutura, Ibb-ib’thu The Renegade e Linea Serpentinata são invocados — e respondem ao chamado.
Segundo o PYLAR, “Delyrio” nasceu de uma leitura herética de determinados tratados literários e filosóficos. A partir dessas fontes, o grupo decidiu empregar aquilo que define como um arsenal de técnicas composicionais obscuras e especulativas.
“Aplicamos recursos de desterritorialização para traçar uma estrutura rizomática sombria que força a música a girar em uma espiral irracional em direção ao delírio.”
A declaração oferece uma chave importante para compreender a natureza do álbum. O PYLAR não trabalha suas composições segundo uma lógica tradicional de desenvolvimento linear. A música parece multiplicar suas próprias camadas, criando diferentes estratos sonoros que se sobrepõem até formar uma rede textural alucinatória e extravagante.
A banda define esse processo como uma incursão em uma “anomalia sonora”, território no qual procura invocar uma música oculta produzida pela superposição de múltiplas dimensões acústicas. O resultado não pretende organizar o caos, mas permitir que ele adquira uma forma temporária antes de novamente se dissolver.
Ao apresentar a audição antecipada de “Delyrio”, a Decibel Magazine descreveu o disco como mais uma descida à estranha escuridão que o quinteto — ou, em sua configuração expandida, a própria entidade PYLAR — habituou-se a explorar.
“Mergulhado em ocultismo e horror cósmico, Delyrio move-se através de ondas e energias espiraladas tanto quanto por estruturas tradicionais do Doom Metal.”
Com o novo trabalho, o PYLAR amplia seu singular conjunto de artefatos sonoros crono-irracionais. Concebido como o movimento inaugural do ciclo final de álbuns da banda, “Delyrio” penetra ainda mais profundamente em uma região fragmentada onde investigação metafísica, delírio e extremidade sonora convergem.
Depois de atravessar extensos territórios de horror cósmico e colapso existencial em trabalhos anteriores, o grupo abandona agora aquilo que ainda poderia ser reconhecido como certeza. Em seu lugar surge uma propulsão delirante, construída pela desarticulação do tempo, da identidade e da própria estrutura musical.
Os integrantes do PYLAR atuam, segundo a concepção do projeto, como agentes especulativos e detonadores simbólicos. A linguagem primordial do Metal é manipulada, torcida e deformada através daquilo que a banda denomina Lei de Salazar, um mecanismo destinado ao deslocamento radical de perspectiva.

Essa visão absorve fragmentos da ficção filosófica, do realismo especulativo e das experiências intelectuais de nomes como Reza Negarestani e Amy Ireland, além das correntes teóricas caóticas associadas à Cybernetic Culture Research Unit — CCRU. O pensamento deixa de existir como simples fundamento conceitual das letras e infiltra-se diretamente na construção da música.
Ao longo de quatro movimentos massivos, “Delyrio” desenvolve sua estrutura rizomática sombria. Fragmentos de diferentes tradições da música extrema são entrelaçados em uma arquitetura sonora densa e alucinatória. Camadas colidem, sofrem mutações e formam um continuum instável no qual peso ritualístico, dissolução psicodélica e inquietação industrial coexistem.
Em determinados momentos, espectros de Swans, Oranssi Pazuzu e Teitanblood podem ser percebidos atravessando a matéria sonora. Entretanto, essas possíveis referências são rapidamente absorvidas e transfiguradas pelo PYLAR. O que permanece é algo profundamente particular: um vórtice de alquimia metálica especulativa que opera deliberadamente além das convenções e das divisões de gênero.
TRACKLIST – “DELYRIO”
O álbum é estruturado em quatro movimentos de grande duração. Os títulos individuais das faixas não foram apresentados no texto original utilizado como fonte para esta publicação.
PYLAR
Gamaboz – bateria e percussão
Mesagret – baixo
Lingua Alauda – violinos
Ibb-ib’thu The Renegade – vocais
Linea Serpentinata – vocais
Bar-Gal – guitarra, sintetizador e Lei de Salazar
“Delyrio” será lançado em 10 de julho pelo selo Cavsas/Cyclic Law, em edição limitada de CD digisleeve de seis painéis, LP restrito a 200 cópias — 100 em vinil marmorizado vermelho e laranja e 100 em vinil preto, ambos acondicionados em capa de 3 mm com encarte interno impresso —, além das plataformas digitais.
O PYLAR não parece interessado em produzir música extrema como simples combinação de estilos reconhecíveis. Em “Delyrio”, o Metal torna-se matéria de laboratório alquímico, submetido à filosofia, ao ocultismo e à irracionalidade até perder suas formas anteriores. Não há um caminho seguro através dessas quatro estruturas. Existe apenas a espiral — e sua lenta aceleração rumo ao delírio.
Fonte: Kronus Mortus News.



