“Summoning the Lecherous Rites of Yore (The Final Compendium of Carnalities)” resgata uma das histórias mais importantes — e menos contadas — do Black Metal brasileiro

Eu era apenas um adolescente quando, pela primeiravez, vi o Necrolust ensaiar. O estúdio ficava em um bairro de Salvador chamado São Caetano, bairro vizinho onde morava um primo, Fazenda Grande. Para quem passava pela rua, era apenas mais um imóvel antigo de onde escapavam guitarras distorcidas e uma bateria incessante. Para mim, era um templo. Naquele mesmo espaço ensaiavam bandas que, anos mais tarde, compreenderíamos como fundamentais para a construção da identidade do metal extremo baiano, como Chemical Death, Crucificator, Gorenoise e o próprio Necrolust. Na época, porém, não pensávamos em legado. Queríamos apenas estar ali, absorvendo tudo o que aquele ambiente tinha para oferecer.
A nostalgia possui uma capacidade curiosa de nos transportar instantaneamente para épocas que julgávamos adormecidas. Ela não devolve apenas lembranças; devolve cheiros, sons, sensações e emoções. Foi exatamente isso que aconteceu quando chegou às minhas mãos Summoning the Lecherous Rites of Yore (The Final Compendium of Carnalities), um impressionante box lançado pelo selo espanhol Down with the Most High que resgata, com um rigor quase arqueológico, toda a fase clássica do Necrolust. Bastou retirar a tampa da caixa para que uma parte inteira da minha juventude voltasse à superfície com uma intensidade que eu não experimentava havia algum tempo.
Naqueles dias, conseguir uma demo do Necrolust era quase uma missão. Não existiam plataformas digitais, redes sociais ou lojas virtuais. As fitas circulavam entre amigos, passavam de mão em mão, eram copiadas incontáveis vezes e, frequentemente, levavam meses para chegar até quem realmente as procurava. Eu consegui as minhas com enorme dificuldade, em um período particularmente conturbado da minha vida e da própria cena underground soteropolitana. Vivíamos dias de conflitos constantes. Havia violência, disputas entre diferentes grupos urbanos, confrontos que hoje parecem difíceis de explicar para quem não os presenciou. Eu mesmo fui um daqueles personagens inseridos naquele contexto. Hoje olho para trás com maturidade suficiente para reconhecer os excessos daquela época, mas também com enorme sentimento de dever cumprido por ter vivido um momento que dificilmente poderá ser reproduzido pelas novas gerações.
É justamente essa atmosfera que este lançamento consegue recuperar com uma honestidade impressionante. Muito mais do que uma simples reunião de demos, Summoning the Lecherous Rites of Yore (The Final Compendium of Carnalities) constitui um dos mais importantes trabalhos de preservação histórica já realizados sobre o Black Metal baiano e, por extensão, sobre uma das vertentes mais autênticas do metal extremo brasileiro.
O grande mérito do livreto que acompanha a edição está em não limitar-se a uma cronologia convencional. Em vez de simplesmente enumerar datas, gravações e mudanças de formação, ele mergulha profundamente no contexto que tornou possível o surgimento do Necrolust. Logo nas primeiras páginas compreendemos que observar a história do Black Metal brasileiro apenas através de nomes como Sepultura, Sarcófago ou Vulcano significa enxergar apenas uma parte do quadro. O Brasil nunca foi uma cena única. Era um mosaico de realidades regionais profundamente distintas. Enquanto Belo Horizonte consolidava sua posição como principal polo do metal extremo nacional graças à Cogumelo Records e ao reconhecimento internacional de suas bandas, Salvador desenvolvia silenciosamente uma identidade muito própria, distante dos grandes centros e praticamente isolada pelas dimensões continentais do país.
Esse isolamento é um dos aspectos mais fascinantes abordados pelo relato. Em uma época sem internet, sem comunicação instantânea e sem qualquer facilidade tecnológica, o underground sobrevivia graças a uma complexa rede de correspondências, fitas cassete, fanzines fotocopiados e incontáveis cartas manuscritas enviadas para todas as partes do mundo. O tape-trading deixava de ser apenas uma forma de troca entre colecionadores para tornar-se um verdadeiro sistema de sobrevivência cultural. Era através dele que bandas conseguiam divulgar seu trabalho, estabelecer contatos internacionais e descobrir novas referências musicais. A escassez de recursos, em vez de impedir a criação artística, acabou moldando uma estética própria. A precariedade tornou-se parte inseparável da identidade do underground brasileiro.
É nesse cenário que o Necrolust nasce em 1989, idealizado por Robson, o Belphegor. O livreto revela detalhes curiosos sobre a origem do nome da banda, sua relação com o termo “necroluxúria” e a influência exercida por grupos como Mayhem e Bathory durante seus primeiros passos. Mais interessante ainda é perceber como Salvador imprimiu características singulares ao grupo. Ao contrário da iconografia predominante no Black Metal europeu, profundamente ligada ao imaginário cristão medieval e às tradições nórdicas, a capital baiana oferecia um ambiente cultural marcado pelo sincretismo religioso, pela convivência cotidiana com práticas ritualísticas afro-brasileiras e por uma relação muito particular com o sagrado e o profano. Não se trata de afirmar que o Necrolust incorporou diretamente esses elementos à sua música, mas seria impossível imaginar que uma cidade com tamanha riqueza simbólica não influenciasse, ainda que indiretamente, a maneira como aqueles jovens compreendiam o ocultismo e construíam sua visão artística.
Um dos pontos altos do livreto é a desconstrução do mito em torno da Rehearsal 1991. Durante muitos anos esse registro foi tratado como uma simples fita de ensaio, quando, na realidade, representava a primeira tentativa da banda de gravar sua estreia oficial. Insatisfeitos com o resultado, os integrantes decidiram arquivar o material, razão pela qual ele permaneceu sem título definitivo e sem arte de capa. Ainda assim, as cópias escaparam ao controle da banda e passaram a circular intensamente através do tape-trading, recebendo capas improvisadas criadas pelos próprios colecionadores. Hoje, esse registro possui enorme importância histórica por apresentar a inédita “Satan’s Prophecies”, além de preservar a participação de Álvaro Toy, o Satanist, cuja interpretação vocal antecede a chegada de Leviathan. Aliás, tive o privilégio de assistir uma das poucas apresentações da Necrolust tenho Toy como seu frontman, guardo sua performance de palco até hoje em minha memória, com muita reverencia e admiração pois ali tive a certeza do que queria fazer dentro do Metal Negro, o visual aterrador e sua presença de palco tornou-se inesquecível para mim.
Se Christ Excommunication documenta uma banda ainda em processo de afirmação artística, Kill and Die by Satan registra sua maturidade. O livreto (encarte) revela como a criação do Arpa Studio pelos próprios integrantes sintetiza perfeitamente o espírito do underground brasileiro. Diante da impossibilidade de depender de estúdios profissionais, a solução foi construir o próprio espaço de gravação. O resultado foi uma demo gravada praticamente ao vivo, preservando toda a espontaneidade, brutalidade e honestidade sonora que caracterizavam o Necrolust. Outro detalhe particularmente interessante diz respeito à escolha da arte da capa, que rompe deliberadamente com a iconografia tradicional do Black Metal ao representar Lúcifer como o anjo caído, inspirado em uma antiga gravura encontrada por Alastor.
Ao mesmo tempo, o texto não evita abordar um tema delicado: a violência que cercava o cotidiano da cena baiana no início dos anos 1990. Quem viveu aqueles anos sabe que os conflitos entre headbangers, punks, skinheads e outros grupos urbanos faziam parte da realidade. Não havia glamour algum nisso. Eram tempos marcados por confrontos constantes, tensões de bairro, abordagens policiais e um ambiente de permanente hostilidade. Leviathan relembra esse período sem qualquer romantização, e suas palavras dialogam profundamente com minhas próprias memórias. Ao ler aquelas páginas, revi pessoas, lugares e situações. Percebi o quanto nós também fazíamos parte daquela história, ainda que jamais imaginássemos isso na época.
Outro aspecto fascinante é compreender como o reconhecimento internacional do Necrolust nasceu exclusivamente da força do underground. Muito antes de qualquer interesse de gravadoras, as demos da banda já circulavam por Portugal, Malásia, Indonésia, Singapura e diversos países do Leste Europeu graças ao incansável trabalho de troca de correspondências. É impressionante pensar que uma fita gravada em condições tão modestas conseguia atravessar oceanos e despertar interesse em pessoas que talvez jamais tivessem ouvido falar de Salvador. Esse fenômeno demonstra que autenticidade sempre foi o maior patrimônio da banda, sem esquecer que a sonoridade da Necrolust era bem compartilhada com as demais que comungavam de uma mesma verve sonora, a identidade das bandas de Salvador era de uma identificação imediata, carregava consigo uma espinha dorsal muito própria em bandas como Mystifier, Crucificator e Chemical Death, assim como The Side War, por exemplo.
As páginas finais adquirem um tom inevitavelmente melancólico ao recordar o falecimento do baterista Valdez, conhecido como Belial ou Pentagony. Leviathan relembra o amigo com enorme respeito e demonstra como revisitar essas gravações significa também reencontrar pessoas que já não estão entre nós. Talvez seja justamente essa dimensão humana que transforme este lançamento em algo muito maior do que um simples box de vinis. Trata-se de um documento histórico que preserva não apenas músicas, mas uma forma inteira de compreender o underground.
Ao fechar Summoning the Lecherous Rites of Yore (The Final Compendium of Carnalities), tive a certeza de que não estava apenas diante de um conjunto de discos cuidadosamente produzidos. Segurava um fragmento preservado da história do Black Metal brasileiro. Um testemunho de uma época em que a paixão compensava a ausência de recursos, em que amizades eram construídas através de cartas e fitas cassete e em que fazer música extrema significava, acima de tudo, permanecer fiel às próprias convicções. Poucas obras conseguem transformar memória em documento histórico com tamanha competência. Este lançamento consegue isso de maneira admirável. Para quem viveu aqueles dias, como eu vivi, ele representa muito mais do que o reencontro com o Necrolust. Representa o reencontro com uma parte essencial da própria vida.
Ficha do lançamento
Necrolust – Summoning the Lecherous Rites of Yore (The Final Compendium of Carnalities)
Selo: Down with the Most High (Espanha)
Edição: Limitada a 100 cópias, numeradas manualmente. O exemplar utilizado nesta resenha corresponde à cópia nº 20.
Conteúdo musical
LP I
- Christ Excommunication — Demo (1991)
LP II
- Kill and Die by Satan — Demo (1994)
LP III (exclusivo do box)
- Live 1990
- Rehearsal 1994
CD Gatefold Digisleeve (exclusivo do box)
- Rehearsal 1991
Conteúdo da edição
O box é acondicionado em uma caixa rígida de alta gramatura com impressão em tinta Pantone prata e arte exclusiva.
A edição inclui:
- três LPs em vinil prata (Silver Vinyl);
- um CD em embalagem Gatefold Digisleeve;
- capas dos LPs em cartão 350 g/m², coloridas, com impressão em tinta Pantone prata e interiores em preto e branco;
- encarte de 12 polegadas, com quatro páginas (300 g/m²) contendo um extenso ensaio histórico sobre o Necrolust;
- reproduções de releases originais, capas das demos e fotografias históricas;
- três pôsteres tamanho A2;
- cartões individuais para download digital das demos Christ Excommunication e Kill and Die by Satan via Bandcamp;
- cartão-postal A5 numerado manualmente, que funciona como certificado de autenticidade.
Observação: Os registros Live 1990 + Rehearsal 1994 e Rehearsal 1991 são exclusivos da edição física e não possuem download digital. Apenas as demos Christ Excommunication e Kill and Die by Satan acompanham cartões para download via Bandcamp.



