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MASTER’S HAMMER: ENTRE O OCULTISMO, A VANGUARDA E O CAOS 

Anton Naberius abril 24, 2026 6 min read

Da Tchecoslováquia comunista ao nascimento de uma das entidades mais singulares do black metal: arte, rebeldia e experimentação além das fronteiras do gênero.

“Chegou essa Semana” foi criada para mostrar, indicar títulos dos mais variados estilos dentro do Metal Extremo e nos mais variados formatos: CD, LP, K7, revista, zine, jornal, DVD assim como todo e qualquer material físico que julguemos necessário, importante ou relevante falar aqui. É importante ressaltar que essa seção não substitui o Reviews que tem seu propósito exclusivo de resenhar lançamentos, mas de enriquecer o conhecimento e as informações de tudo que gera assunto no underground extremo. Outro ponto importante desta seção é o fato do material aqui apresentado pertencer ao acervo pessoal do editor e não ser um material promocional enviado pela banda, selo ou assessoria.

E essa semana chegou um dos maiores materiais de uma das bandas que mais me influenciaram na história do Black Metal. Talvez justamente por ser uma banda com uma sonoridade diferente — até estranha, em certos momentos — tenha me capturado de forma mais intensa do que nomes mais óbvios oriundos dos polos tradicionais do gênero. Tenho em mãos um álbum triplo reunindo as demos do Master’s Hammer, um verdadeiro artefato que carrega em estado bruto tudo aquilo que mais tarde se manifestaria com força total em obras como Ritual e Jilemnický Okultista.

O material físico é muito bem elaborado, contendo informações essenciais, fichas técnicas, muitas fotos de todas as suas fases, mas, principalmente, do início da carreira. O formato é digibook com muitas páginas e luvas que acomodam cada CD, possui uma textura real de um livro e foi uma grande satisfação para mim ter em mãos um material de tamanha qualidade. Mais do que um item de coleção, trata-se de um documento histórico extremamente honesto, reforçado por um conteúdo robusto que inclui uma longa e detalhada entrevista com František Štorm. A Death Shall Rise, mais uma vez, nos brinda com lançamentos que não apenas resgatam o passado, mas o apresentam com o devido respeito e profundidade que ele merece.

Manusear esse tipo de material é quase como tocar uma relíquia viva de um tempo em que o underground era, de fato, subterrâneo. Cada página, cada fotografia e cada detalhe gráfico ajudam a reconstruir uma época em que a criação musical estava profundamente ligada ao esforço manual, à troca direta entre indivíduos e à ausência de qualquer mediação digital. Há uma materialidade aqui que dialoga diretamente com o próprio som: cru, imperfeito, mas carregado de intenção.

E é justamente essa intenção que se torna ainda mais evidente quando cruzamos o conteúdo do box com as palavras de Štorm. Voltar à Tchecoslováquia do final dos anos 80 é entender que o Master’s Hammer não surgiu apenas como uma banda, mas como uma resposta a um contexto específico — político, cultural e existencial. Em meio ao fim de um regime e ao início de uma transformação social profunda, havia também uma ebulição criativa acontecendo nas margens.

O underground daquele período não era apenas uma cena musical — era uma rede de sobrevivência cultural. Fitas eram gravadas em condições improvisadas, copiadas inúmeras vezes e enviadas pelo correio. Fanzines eram datilografados e xerocados. Shows aconteciam em espaços improváveis, muitas vezes sem estrutura alguma. E ainda assim — ou talvez por causa disso — havia uma intensidade difícil de replicar hoje.

Ao ouvir essas demos reunidas neste lançamento, essa intensidade se materializa de forma quase palpável. O som é irregular, por vezes caótico, mas nunca vazio. Há sempre uma ideia por trás, uma tentativa de romper limites, de experimentar, de criar algo que não se encaixa completamente em lugar algum.

E isso fica ainda mais evidente quando pensamos no lugar do Master’s Hammer dentro da história do black metal. Enquanto a narrativa mais difundida aponta para a Noruega como epicentro absoluto do gênero, materiais como este deixam claro que o Leste Europeu desenvolvia, simultaneamente, uma abordagem própria — menos ortodoxa, mais aberta à experimentação e profundamente enraizada em referências culturais locais.

O uso do idioma tcheco, por exemplo, não é apenas uma escolha estética, mas uma afirmação de identidade. Em vez de buscar acessibilidade, a banda opta por criar estranhamento. E esse estranhamento é essencial para compreender sua proposta. O ocultismo presente nas letras não é apenas decorativo — ele dialoga com tradições regionais, com literatura, com um imaginário específico que foge dos clichês mais difundidos no metal extremo.

Outro ponto que ganha nova dimensão ao revisitar esse material é a relação da banda com a própria técnica. Há uma honestidade brutal em reconhecer limitações — equipamentos precários, pouca experiência — e ainda assim transformar isso em linguagem. O que poderia soar como falha se torna característica. O que poderia ser visto como amadorismo se transforma em identidade.

E talvez seja justamente isso que diferencia o Master’s Hammer de tantas outras bandas de sua época. Não há aqui uma tentativa de perfeição, mas sim de expressão. Não há preocupação em seguir um modelo, mas sim em construir algo próprio — ainda que isso resulte em momentos desconcertantes.

A própria evolução posterior da banda, incorporando elementos eletrônicos, estruturas mais complexas e uma abordagem quase teatral, já está insinuada nessas gravações iniciais. Este box, portanto, não é apenas um registro do passado — é um mapa que permite entender como aquela sonoridade singular foi se desenvolvendo ao longo do tempo.

Outro aspecto que merece destaque é o cuidado editorial do lançamento. Em um momento em que grande parte do consumo musical se dá de forma digital e efêmera, iniciativas como esta reafirmam a importância do formato físico como ferramenta de preservação histórica. Não se trata apenas de ouvir — trata-se de ler, observar, contextualizar, compreender. É uma experiência completa, que exige tempo e atenção.

E isso dialoga diretamente com a própria proposta da seção “Chegou essa Semana”. Há um valor inegável em resgatar, documentar e compartilhar esses materiais, especialmente quando eles fazem parte de um acervo pessoal, carregado de significado e memória. Não é apenas uma recomendação — é um testemunho.

Ao final dessa imersão, fica claro que o Master’s Hammer não pode ser reduzido a um rótulo ou a uma cena específica. Sua importância vai além da música. Está na forma como rompeu barreiras, como desafiou expectativas e como construiu uma identidade própria em um momento de absoluta incerteza.

Décadas depois, revisitar esse material — em um formato tão bem cuidado — não é apenas um exercício de nostalgia. É uma oportunidade de reavaliar a história, de ampliar perspectivas e de reconhecer que o black metal, desde sua origem, sempre foi mais diverso e complexo do que muitas vezes se admite.

E talvez seja exatamente por isso que, ao segurar esse digibook nas mãos e ouvir cada uma dessas gravações, a sensação seja a de estar diante de algo que ainda pulsa. Algo que não pertence apenas ao passado — mas que continua ecoando, estranho, desafiador e absolutamente essencial.

NOTA: A produção deste texto teve como base a entrevista encartada no próprio álbum que é em formato Digibook, tal entrevista foi conduzida por Steven Willems (2023) e respondida por František Štorm. 

Anton Naberius

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