Lançado em 1986, o terceiro álbum do Slayer redefiniu os limites da velocidade, da violência e da brutalidade sonora, tornando-se um monumento incontornável do Metal Extremo mundial e uma obra indispensável na discografia de qualquer headbanger. Quatro décadas depois, sua influência permanece tão devastadora quanto no momento de sua primeira manifestação.

Existem álbuns que marcam uma época, outros que estabelecem tendências e aqueles que, pela força de sua própria existência, modificam definitivamente os rumos de um gênero musical. Entretanto, existem obras que ultrapassam essas classificações, tornando-se verdadeiros monumentos históricos, referências absolutas que resistem ao tempo, às transformações estéticas e às sucessivas gerações de músicos e admiradores. Reign in Blood, terceiro álbum de estúdio do Slayer, lançado em 7 de outubro de 1986, pertence a essa última categoria. Não estamos falando simplesmente de um dos maiores registros do Thrash Metal, mas de uma manifestação artística que estabeleceu novos parâmetros para aquilo que posteriormente seria reconhecido como Metal Extremo.
Quarenta anos se passaram desde que aquelas dez composições foram lançadas sobre o mundo, condensadas em aproximadamente vinte e nove minutos de uma violência sonora que, mesmo diante de tudo aquilo que surgiu posteriormente, continua provocando uma sensação de absoluta devastação. Reign in Blood não necessita de apresentações elaboradas, tampouco de justificativas para ocupar seu lugar entre os registros mais importantes da história do Metal. Sua própria existência constitui um testemunho da capacidade que a música possui de romper convenções e estabelecer novos paradigmas.
Quando escrevi a segunda parte da série sobre o Thrash Metal, intitulada Outra Lição de Violência, publicada na seção Dark Reflections do Portal Lucifer Rex, fiz questão de destacar a importância que o Slayer exerceu sobre minha formação musical e, principalmente, sobre minha compreensão daquilo que considero a essência mais radical desse estilo. Naquela ocasião, mencionei dois registros que considero fundamentais em minha relação com a banda: Show No Mercy, de 1983, e o assassino Reign in Blood, de 1986. Alguns leitores certamente estranharam a ausência de Hell Awaits, lançado em 1985, entre minhas preferências mais marcantes. Entretanto, nunca escondi que, apesar de reconhecer sua importância, aqueles dois álbuns exerceram sobre mim um impacto muito mais profundo.
É necessário compreender que minha aproximação com o Metal aconteceu através de caminhos que talvez não fossem os mais convencionais. Meu interesse pelo ocultismo e pelo satanismo começou ainda muito cedo, por volta dos doze ou treze anos, e foi justamente essa busca por conhecimentos relacionados ao universo oculto que acabou me conduzindo à música extrema. Recordo que um amigo de escola mencionou a existência de uma banda chamada Possessed, afirmando que seus integrantes eram satanistas. Aquela informação despertou imediatamente minha curiosidade, fazendo com que eu procurasse desesperadamente conhecer aquela entidade musical. Foi assim que o Metal entrou definitivamente em minha vida.
Nesse contexto, não é difícil compreender por que bandas como Slayer, Exodus e Dark Angel despertaram meu interesse de maneira tão intensa. Havia nelas uma agressividade que ultrapassava o simples exercício da velocidade, uma identidade musical que parecia rejeitar qualquer possibilidade de conciliação com os padrões estabelecidos. No caso específico do Slayer, aquela atmosfera satânica, associada a uma sonoridade cortante, rápida e absolutamente impiedosa, representava algo muito próximo daquilo que eu procurava.
E foi justamente com Reign in Blood que essa combinação alcançou sua expressão mais devastadora.
1986: QUANDO A VIOLÊNCIA ENCONTROU SUA FORMA DEFINITIVA
Para compreender a importância histórica de Reign in Blood, precisamos observar o cenário do Thrash Metal durante a primeira metade da década de oitenta. O estilo já havia conquistado uma identidade própria, principalmente através dos trabalhos de bandas como Metallica, Exodus, Megadeth, Anthrax e, naturalmente, Slayer. Entretanto, existiam diferenças fundamentais entre as propostas musicais dessas formações, diferenças que se tornariam cada vez mais evidentes conforme o gênero alcançava maior reconhecimento.
Enquanto o Metallica apresentava em Master of Puppets, também lançado em 1986, uma abordagem mais elaborada, progressiva e estruturalmente sofisticada do Thrash Metal, o Slayer caminhava em direção praticamente oposta. Não se tratava de uma ausência de elaboração musical, muito pelo contrário. A banda procurava condensar suas ideias em composições cada vez mais diretas, violentas e desprovidas de qualquer ornamentação que pudesse comprometer o impacto da música.
Como observei em Thrash Metal parte 2 – Outra lição de Violência https://www.luciferrex.com.br/thrash-metal-parte-2/, enquanto o Metallica modificava gradativamente os rumos de suas composições, o Slayer simplesmente lançava aquele que considero o disco de Thrash Metal mais letal da história.
A diferença entre essas propostas não deve ser compreendida apenas como uma disputa entre velocidade e complexidade. O que estava em jogo eram duas maneiras distintas de desenvolver a linguagem do Thrash Metal. De um lado, a ampliação das possibilidades harmônicas e estruturais; do outro, a radicalização da agressividade, da concisão e da intensidade.
O Slayer escolheu a segunda direção e levou essa proposta a consequências até então praticamente inimagináveis.
As influências de Venom, Motörhead e do Hardcore californiano, que já estavam presentes nos trabalhos anteriores, foram intensificadas e reorganizadas em uma linguagem absolutamente particular. A atmosfera sombria herdada do Metal satânico britânico, a urgência rítmica do Punk e a agressividade das primeiras manifestações do Thrash encontraram em Reign in Blood uma síntese extraordinária.
O resultado não foi simplesmente um álbum mais rápido ou mais pesado. Foi uma obra que parecia compreender perfeitamente o significado da violência como recurso estético.

DEZ COMPOSIÇÕES, VINTE E NOVE MINUTOS E UMA DEVASTAÇÃO ABSOLUTA
Uma das características mais impressionantes de Reign in Blood é sua capacidade de produzir uma sensação de grandeza através de uma duração extremamente reduzida. São dez composições distribuídas em menos de meia hora, sem introduções desnecessárias, sem longas passagens instrumentais destinadas à demonstração de virtuosismo e sem qualquer tentativa de tornar a experiência mais confortável para o ouvinte.
Entretanto, seria um equívoco interpretar essa concisão como simplicidade. A genialidade do álbum está justamente na maneira como cada composição apresenta ideias musicais distintas, desenvolvidas através de mudanças abruptas de andamento, sequências de riffs, intervenções rítmicas e estruturas que parecem oscilar constantemente entre o controle absoluto e o caos.
A abertura com Angel of Death permanece como uma das manifestações mais aterradoras da história do Thrash Metal. O grito inicial de Tom Araya, seguido pela entrada avassaladora dos instrumentos, estabelece imediatamente a natureza daquilo que será apresentado. A composição atravessa diferentes atmosferas, alternando velocidade extrema, passagens cadenciadas e intervenções instrumentais que demonstram o extraordinário entrosamento entre os músicos.
A bateria de Dave Lombardo merece uma atenção particular. Sua execução não se limita ao acompanhamento das guitarras. Lombardo participa ativamente da construção da violência musical, utilizando viradas, acentuações e mudanças rítmicas que conferem às composições uma dinâmica praticamente orgânica. Existe uma sensação permanente de movimento, como se a música estivesse prestes a desmoronar, mas permanecesse sustentada por uma precisão quase sobrenatural.
Jeff Hanneman e Kerry King, por sua vez, desenvolveram uma linguagem “guitarrística” baseada em riffs cortantes, harmonias dissonantes e solos que rejeitavam deliberadamente as convenções melódicas do Heavy Metal tradicional. Muitas vezes interpretados equivocadamente como demonstrações de desordem instrumental, esses solos cumprem uma função estética fundamental: ampliar a sensação de instabilidade e agressividade.
Não existe qualquer intenção de produzir beleza segundo os parâmetros convencionais. A beleza de Reign in Blood reside precisamente em sua capacidade de transformar o caos em uma estrutura musical coerente.
Piece by Piece, Necrophobic, Altar of Sacrifice, Jesus Saves, Criminally Insane, Reborn, Epidemic e Postmortem constituem uma sequência de composições que praticamente não permite ao ouvinte recuperar o fôlego. Cada uma apresenta particularidades rítmicas e estruturais, mas todas compartilham uma identidade sonora perfeitamente reconhecível.
A curtíssima Necrophobic, em particular, representa uma das expressões mais extremas da velocidade desenvolvida pelo Slayer naquele período. Sua execução parece desafiar os próprios limites físicos da música, antecipando procedimentos que seriam amplamente explorados por inúmeras bandas de Death Metal.
Entretanto, é na transição entre Postmortem e Raining Blood que o álbum alcança uma de suas manifestações mais extraordinárias. O encerramento de Postmortem, com sua aceleração devastadora, prepara o terreno para a tempestade que introduz Raining Blood. O riff inicial desta última composição tornou-se um dos mais reconhecíveis de toda a história do Metal, ultrapassando as fronteiras do Thrash e alcançando admiradores dos mais diversos subgêneros.
Existe algo profundamente ritualístico naquela sequência. A tempestade, os acordes ameaçadores e a explosão instrumental parecem anunciar uma espécie de cataclismo sonoro. Não por acaso, Raining Blood permanece como uma das composições mais emblemáticas de toda a carreira do Slayer.
E quando os últimos sons da tempestade desaparecem, a sensação é de que acabamos de atravessar uma experiência muito maior do que os vinte e nove minutos efetivamente transcorridos.
RICK RUBIN E A ARQUITETURA SONORA DA BRUTALIDADE
Outro aspecto fundamental para compreender a importância de Reign in Blood está relacionado à sua produção musical. A participação de Rick Rubin representou uma mudança significativa em relação aos registros anteriores do Slayer. Sua abordagem privilegiou a definição instrumental, a separação das frequências e a valorização da execução dos músicos, permitindo que a velocidade e a agressividade fossem apresentadas com uma clareza até então pouco comum em produções daquela natureza.
Isso não significa que o álbum tenha perdido sua identidade underground ou adquirido uma sonoridade excessivamente polida. Pelo contrário, a produção possibilitou que cada ataque das guitarras, cada intervenção da bateria e cada frase vocal fossem percebidos com uma nitidez que ampliava consideravelmente o impacto das composições.
A brutalidade deixava de depender exclusivamente da saturação sonora. Esse aspecto é particularmente importante porque demonstra que peso e violência musical não são necessariamente resultados de uma produção obscura ou excessivamente distorcida. Em Reign in Blood, a clareza tornou-se um instrumento de agressão.
A execução de Dave Lombardo ganhou uma dimensão monumental, enquanto as guitarras de Hanneman e King adquiriram uma definição que evidenciava a complexidade de seus riffs. A voz de Tom Araya, situada entre a agressividade do Thrash tradicional e uma interpretação quase desesperada, completava aquela arquitetura sonora.
O álbum foi lançado pela Def Jam Recordings, gravadora associada principalmente ao universo do Hip-Hop, circunstância que, por si só, já demonstra o caráter pouco convencional de sua realização. A distribuição pela Geffen Records, após a resistência da Columbia Records diante do conteúdo controverso do trabalho, acrescentou mais um episódio à trajetória de confrontação que acompanhava a banda.
Aquela combinação entre uma produção extraordinariamente definida e uma proposta musical absolutamente radical contribuiu decisivamente para transformar Reign in Blood em uma referência para as gerações seguintes.
LARRY CARROLL: A REPRESENTAÇÃO VISUAL DE UM INFERNO PARTICULAR
Se musicalmente Reign in Blood representava uma manifestação de violência extrema, sua apresentação visual precisava corresponder àquela atmosfera.
A responsabilidade pela criação da capa ficou com Larry Carroll, artista que até então desenvolvia trabalhos de ilustração editorial e que encontrou naquele projeto a oportunidade de construir uma das imagens mais perturbadoras e reconhecíveis da história do Metal.
A composição apresenta uma paisagem grotesca, povoada por figuras deformadas, corpos, sangue e criaturas que parecem emergir de um universo de tormento e degradação. No centro da representação, uma entidade monstruosa é conduzida sobre uma espécie de trono, compondo uma cena que remete simultaneamente a uma procissão infernal e a uma cerimônia de natureza profana.
A utilização de colagens, as deformações anatômicas e a atmosfera de pesadelo conferem à imagem uma identidade profundamente particular. Não estamos diante de uma representação convencional do satanismo, construída simplesmente através de pentagramas, cruzes invertidas ou figuras demoníacas tradicionais. Carroll desenvolveu uma iconografia própria, na qual o grotesco, a violência e a corrupção da matéria humana assumem protagonismo.
A capa não funciona apenas como embalagem para o conteúdo musical. Ela constitui uma extensão visual da experiência proposta pelo álbum. Recordo que, durante os anos oitenta, muitas capas de discos exerciam uma influência tão importante quanto a própria música sobre nosso imaginário. Antes mesmo de ouvir determinadas bandas, aquelas imagens já provocavam fascínio, curiosidade e, em alguns casos, uma sensação de verdadeiro desconforto.
Reign in Blood pertence a essa categoria de registros cuja identidade visual se tornou inseparável da música. A recusa inicial da Columbia Records em distribuir o trabalho, motivada pelas controvérsias relacionadas à capa e ao conteúdo das letras, demonstra como aquela proposta ainda era capaz de provocar reações significativas fora dos círculos do Metal Extremo.
Quatro décadas depois, a obra de Carroll permanece tão reconhecível quanto as próprias composições do álbum.
O MAL COMO NARRATIVA: CONTROVÉRSIAS, VIOLÊNCIA E TRANSGRESSÃO
Desde seus primeiros registros, o Slayer construiu uma identidade lírica associada ao satanismo, à morte, à violência e às manifestações mais perturbadoras da existência humana. Entretanto, Reign in Blood apresentou uma abordagem temática mais diversificada, incorporando narrativas sobre assassinatos, experiências humanas, insanidade, conflitos religiosos e diferentes expressões da crueldade.
A composição Angel of Death tornou-se o exemplo mais conhecido dessa proposta e também uma das maiores fontes de controvérsia na história da banda. Escrita por Jeff Hanneman, a música aborda as experiências conduzidas pelo médico nazista Josef Mengele no campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial. Sua narrativa, construída através de descrições violentas e perturbadoras, provocou acusações de simpatia pelo nazismo, algo que os integrantes do Slayer reiteradamente negaram.
Como observei anteriormente em Thrash Metal parte 2 – Outra lição de Violência https://www.luciferrex.com.br/thrash-metal-parte-2/ considero fundamental distinguir a representação artística de acontecimentos históricos da defesa ideológica dos personagens envolvidos nessas narrativas.
A arte frequentemente utiliza figuras moralmente repugnantes, acontecimentos traumáticos e perspectivas narrativas desconfortáveis para produzir experiências estéticas que não necessariamente correspondem às convicções de seus criadores.
Isso não significa que toda representação esteja automaticamente isenta de questionamentos. Pelo contrário, determinadas escolhas artísticas podem e devem ser examinadas criticamente, sobretudo quando envolvem acontecimentos históricos marcados pelo extermínio e pela violência sistemática.
Entretanto, reduzir uma composição à suposta identificação ideológica de seus autores com os personagens representados constitui uma interpretação insuficiente. No caso do Slayer, a abordagem do mal assumia diferentes formas, frequentemente relacionadas ao horror, à transgressão e à provocação. A banda jamais dependeu de uma mensagem religiosa ou política uniforme para construir sua identidade. Sua proposta estava muito mais relacionada à exploração das possibilidades extremas da linguagem musical e da imaginação sombria.
Aquelas letras, associadas à agressividade instrumental, contribuíram para consolidar uma estética que influenciaria profundamente o desenvolvimento do Death Metal e de outras manifestações do Metal Extremo.
A HERANÇA DE REIGN IN BLOOD E O NASCIMENTO DE NOVAS EXTREMIDADES
Poucos álbuns podem reivindicar uma influência tão abrangente quanto Reign in Blood. Sua importância não está limitada ao desenvolvimento do Thrash Metal norte-americano, tampouco ao reconhecimento conquistado pelo Slayer entre as grandes bandas do gênero. O álbum participou diretamente da transformação da linguagem musical que seria explorada por inúmeras formações de Death Metal, Black Metal e outras vertentes extremas.
Bandas como Morbid Angel, Deicide, Atheist e At the Gates desenvolveram propostas musicais distintas, mas pertencem a um universo no qual a radicalização promovida pelo Slayer exerceu influência significativa. A velocidade, as mudanças abruptas de andamento, a agressividade vocal, as estruturas fragmentadas e a utilização de harmonias dissonantes tornaram-se elementos fundamentais para diferentes manifestações do Metal Extremo.
Naturalmente, seria historicamente incorreto atribuir exclusivamente ao Slayer o surgimento desses estilos. O desenvolvimento do Death Metal e do Black Metal resultou de um processo complexo, envolvendo inúmeras bandas, cenas regionais e experiências musicais paralelas.
Entretanto, é impossível ignorar o papel desempenhado por Reign in Blood na consolidação de uma linguagem que demonstrava ser possível ultrapassar os limites até então estabelecidos pelo Thrash Metal.
No Brasil, onde o Metal Extremo desenvolveu características particularmente radicais durante a década de oitenta, a influência dessa geração de bandas encontrou terreno fértil. O cenário brasileiro já apresentava manifestações extremamente agressivas, desenvolvidas por formações que buscavam construir uma identidade própria através de condições materiais frequentemente precárias, mas de uma determinação artística extraordinária.
A existência de bandas como Sarcófago, Sepultura, Vulcano e outras entidades fundamentais daquele período demonstra que a radicalização do Metal não aconteceu exclusivamente nos Estados Unidos ou na Europa.
O que considero particularmente interessante é observar como diferentes cenas musicais estabeleceram relações com aquela linguagem de violência, transformando influências comuns em manifestações sonoras distintas.
Reign in Blood tornou-se uma dessas referências capazes de atravessar fronteiras geográficas, culturais e estilísticas. Seu impacto não depende da identificação exclusiva com o Thrash Metal. Admiradores de Death Metal, Black Metal, Heavy Metal tradicional e inúmeras outras vertentes reconhecem naquele registro uma obra de importância incontornável. E isso talvez constitua uma de suas maiores conquistas.
QUARENTA ANOS DE UM CLÁSSICO QUE NÃO ENVELHECEU
Existe uma questão que considero fundamental quando analisamos discos históricos: a diferença entre uma obra importante por aquilo que representou em determinado momento e uma obra que permanece artisticamente relevante independentemente de seu contexto original. Muitos registros são fundamentais para compreendermos o desenvolvimento de um gênero, mas nem todos conservam a mesma capacidade de provocar impacto quando revisitados décadas depois.
Com Reign in Blood, acontece exatamente o contrário. Sua violência continua impressionante. Seus riffs permanecem extraordinariamente eficazes. A bateria de Dave Lombardo conserva uma energia quase inacreditável. As composições continuam apresentando uma dinâmica que desafia qualquer tentativa de reduzi-las a simples demonstrações de velocidade.
É evidente que o Metal Extremo ultrapassou posteriormente muitos dos limites técnicos estabelecidos em 1986. Surgiram bandas mais rápidas, produções mais pesadas, vocais mais agressivos e estruturas musicais ainda mais complexas.
Entretanto, nenhuma dessas transformações diminuiu a importância ou a força artística de Reign in Blood. A razão é relativamente simples: a grandeza do álbum não depende exclusivamente de seus atributos extremos.
Sua verdadeira força reside na combinação entre composição, identidade, execução e coerência estética. Não existe uma faixa deslocada, uma composição que comprometa a unidade do trabalho ou uma passagem que pareça ter sido incluída apenas para ampliar sua duração. Tudo funciona como parte de uma estrutura perfeitamente integrada.
Essa coesão é uma das características que diferenciam os grandes álbuns daqueles que apresentam apenas algumas composições memoráveis.
Reign in Blood não é uma coleção de músicas reunidas sob um mesmo título. É uma obra concebida como uma experiência integral, cuja sequência de acontecimentos musicais constrói uma narrativa de tensão e devastação. Talvez por isso continue sendo tão difícil encontrar outro registro capaz de produzir a mesma sensação em um espaço de tempo tão reduzido.
UM MONUMENTO INDISPENSÁVEL NA HISTÓRIA DO METAL
Quando observo retrospectivamente minha trajetória como admirador do Metal Extremo, percebo que determinados discos não apenas acompanharam diferentes momentos de minha vida, mas contribuíram diretamente para a formação de minha compreensão estética e musical.
Reign in Blood ocupa um lugar privilegiado nessa história. Não se trata simplesmente de nostalgia, tampouco de uma tentativa de atribuir superioridade automática às produções da década de oitenta. Sempre considerei importante reconhecer a criatividade e a competência das gerações posteriores, inclusive quando suas propostas musicais se afastam consideravelmente daquelas que marcaram minha formação.
Entretanto, existem registros cuja grandeza se torna ainda mais evidente conforme o tempo passa. O terceiro álbum do Slayer é um desses registros. Sua influência ultrapassou o universo do Thrash Metal, alcançando músicos e admiradores de praticamente todas as vertentes da música extrema. Suas composições tornaram-se referências obrigatórias, seus riffs atravessaram gerações e sua identidade visual consolidou-se como uma das mais emblemáticas da história do gênero.
Quarenta anos depois, continuo considerando Reign in Blood uma das expressões mais perfeitas daquilo que compreendo como a essência do Thrash Metal: velocidade, agressividade, transgressão, criatividade e uma recusa deliberada de qualquer domesticação estética.
Aquela aura satânica que tanto me fascinava durante a juventude permanece associada ao disco, mas hoje consigo observar sua importância através de uma perspectiva ainda mais ampla. O que o Slayer realizou em 1986 ultrapassou a provocação religiosa, a violência lírica ou a simples demonstração de extremismo musical.
A banda construiu uma obra de arte cuja brutalidade se tornou sua própria linguagem. E talvez seja justamente essa a característica que distingue os registros verdadeiramente extraordinários: eles não necessitam ser os mais rápidos, os mais pesados ou os mais complexos para permanecerem insuperáveis em sua proposta.
Reign in Blood continua sendo uma manifestação absolutamente singular. Não importa se o ouvinte prefere Heavy Metal tradicional, Thrash, Death, Black, Doom ou qualquer outra vertente. Existem álbuns cuja importância exige reconhecimento independentemente das preferências individuais, porque constituem fundamentos históricos de uma cultura musical inteira.
E, nesse sentido, considero que Reign in Blood deveria ocupar um lugar obrigatório na discografia de qualquer headbanger que deseje compreender a história e a evolução do Metal. Não apenas por sua importância histórica, mas porque continua sendo um álbum extraordinário.
Quatro décadas depois, suas dez composições permanecem como testemunhos de um momento em que quatro músicos decidiram levar a violência sonora a um patamar até então praticamente desconhecido.
O resultado foi uma obra compacta, coesa, brutal e absolutamente definitiva. O Slayer não precisou de uma hora de música para construir um monumento. Bastaram aproximadamente vinte e nove minutos para modificar definitivamente a história do Metal Extremo. E quando os primeiros acordes de Angel of Death voltam a ecoar, seguidos pela sucessão de ataques que culminam na tempestade de Raining Blood, compreendemos que determinados registros simplesmente não envelhecem. Eles permanecem, eternamente, como manifestações de sua própria grandeza.
Quarenta anos depois, o sangue continua reinando.
Hail Slayer!
SLAYER – REIGN IN BLOOD (1986)
Ficha técnica, formação, produção e repertório
SLAYER – REIGN IN BLOOD (1986)
Ficha técnica, formação, produção e repertório
Dados gerais
Banda: Slayer
Álbum: Reign in Blood
Lançamento: 7 de outubro de 1986
Gravadora: Def Jam Recordings
Gênero: Thrash Metal
Duração: 28min 55s
Formatos originais: LP, cassete e CD
Formação e músicos
- Tom Araya: Vocal e baixo
- Jeff Hanneman: Guitarra solo e rítmica; composição e letras
- Kerry King: Guitarra solo e rítmica; composição e letras
- Dave Lombardo: Bateria
Produção e gravação
Produção musical: Rick Rubin e Slayer
Engenharia de gravação: Andy Wallace
Assistência de engenharia: Steve Ett
Mixagem: Andy Wallace e Rick Rubin
Masterização: Howie Weinberg
Estúdio de gravação: Hit City West, Los Angeles, Califórnia
Estúdio de mixagem: New Fresh Studios, Nova York
Arte da capa: Larry Carroll
Direção de arte: Stephen Byram
Fotografia: Waring Abbott
Gravadora original: Def Jam Recordings
Distribuição nos EUA: Geffen Records
Repertório completo
Edição original de 1986 — 10 faixas
- Angel of Death — 4:51
- Piece by Piece — 2:02
- Necrophobic — 1:40
- Altar of Sacrifice — 2:50
- Jesus Saves — 2:54
- Criminally Insane — 2:23
- Reborn — 2:11
- Epidemic — 2:23
- Postmortem — 3:27
- Raining Blood — 4:14
Duração total: 28 minutos e 55 segundos.
Composição e autoria
Jeff Hanneman: Principal responsável por algumas das composições mais emblemáticas do álbum, incluindo Angel of Death, Postmortem e Raining Blood. Seus créditos de composição abrangem as faixas 1 e 3 a 10; os créditos de letras, as faixas 1, 3, 6, 9 e 10.
Kerry King: Participação na composição das faixas 2, 3, 5, 6 e 8; créditos de letras nas faixas 2 a 8 e 10.
Informações complementares
Posição na discografia: terceiro álbum de estúdio, sucedendo Show No Mercy (1983) e Hell Awaits (1985).
Billboard 200: alcançou a 94ª posição nos Estados Unidos.
Arte gráfica: Larry Carroll criou a ilustração original, marcada por figuras grotescas, uma procissão demoníaca e um cenário de sangue e degradação.
Edições especiais: o álbum recebeu prensagens em vinil colorido, picture discs e relançamentos remasterizados.
Relançamento expandido de 1998: inclui Aggressive Perfector e um remix de Criminally Insane como faixas adicionais.
Legado: tornou-se uma das principais referências sonoras para o desenvolvimento do Death Metal e das vertentes mais extremas do Thrash Metal.



