
Catacumba
É sob gritos de desespero na escuridão que este trinar de pura maldade inicia seu curso de absoluta maldição. Eis aqui um dos principais pilares do black metal brasileiro da terceira geração — aqueles que surgiram nos anos 2000, no novo milênio, para perpetuar a marca consagrada do metal negro forjado em território nacional.
Após um hiato de aproximadamente dez anos, somos agraciados, em um verdadeiro altar de sangue e morte, com a obra-prima intitulada Decano, lançada no final de 2025 por meio da união de alguns selos: Tecido Adiposo Prods, Hela Prods, Folkvaganar e Mundo Bizarro Distro. O material foi gravado no Audio Space Estúdio, na própria cidade da banda, Serra/ES, com produção de Adriano Scaramussa e da própria Catacumba. A engenharia de som, mixagem e masterização ficaram a cargo de Daniel Escobar.
As músicas apresentam uma qualidade sonora avassaladora, abrindo os trabalhos com o verdadeiro petardo “Summoning the Evil Spirits”, uma das composições de Count Único Del’Inferni (R.I.P.), que carrega em si o peso de uma homenagem direta com o lançamento de Decano. Aliás, é possível que o próprio título do álbum seja um reflexo desse tributo, pois, mesmo não estando mais presente fisicamente, Count Único Del’Inferni permanece nas fileiras malignas da banda.
“Summoning the Evil Spirits” é uma faixa de melodia cativante, com entradas poderosas do vocal de Reverend Noise, que deixa claro seu poder devastador por meio de vocais alucinantes, cortantes como facas afiadas. Trata-se de uma música extremamente vibrante e característica, muito bem ornamentada por um baixo estridente e uma bateria criativa, pesada, veloz e marcante. “Espíritos malignos… gritando através do abismo de culpa!” Vale ressaltar que esta é uma das composições mais antigas da banda, tendo aparecido anteriormente em registros como Birkat Ha-Minim – A Benção dos Hereges (demo, 2005), Live 27/08/05 (demo ao vivo, 2007) e no DVD Legiões do Abismo – Ato I (ao vivo, 2007).
A segunda faixa, “The Phalanx”, é uma composição do guitarrista Tormento. Um pouco mais cadenciada em relação à faixa de abertura, ela mantém elevada a vibração sonora da Catacumba, criando um muro sólido e intransponível em seu soar profundamente maligno. Estamos diante de um dos discos mais interessantes lançados em 2025, que, inclusive, figurou na minha lista pessoal de melhores do ano. Toda a capacidade técnica da banda se faz presente em um material que não foi ultrapassado pela barreira do tempo, mesmo tendo sido originalmente gravado em 2015. “The Phalanx” altera seu andamento na segunda metade, alcançando a mesma ferocidade presente em “Summoning…”, além de apresentar solos muito bem arranjados que se integram organicamente ao andamento da banda.
A terceira faixa aposta em um andamento mais tradicional, flertando fortemente com bandas como Venom. Da mesma forma, a sonoridade marcante de grupos brasileiros dos anos 1990 se faz bastante evidente na abordagem sonora adotada pela Catacumba em “Spiritual Vomit”, música que também aparece no split 7” com a banda carioca Grave Desecrator, Tombs on Fire (Necromancer Records, 2010).
A quarta faixa, “The Underworld Worshippers”, inicia-se de forma frenética, deixando clara a intenção da banda em manter elevada a atmosfera do EP, com músicas que transitam entre andamentos médios e altos — sendo que o que é médio soa mais como apressado do que propriamente mid-tempo. É importante destacar a qualidade técnica da gravação que, para aqueles que apreciam ouvir música em sistemas mais antigos, é um verdadeiro deleite: tudo soa muito bem definido ao sair pelas caixas, entregando uma dose de peso coesa e digna de uma banda de metal negro.
A quinta faixa apresenta-se como um tributo ao Mystifier, por meio da clássica “An Elizabethan Devil Worshipper’s Prayer Book” (Mystifier – Demo Aleister Crowley 1991 / álbuns Wicca 1992 e Göetia 1993). A versão da Catacumba revela detalhes muito pessoais na interpretação, sem violar a originalidade da música ou descaracterizar sua essência, resultando em uma homenagem extremamente respeitosa e digna.
Após o tributo ao Mystifier, algumas músicas reaparecem com outro nível de gravação, talvez menos robusto que o das faixas iniciais. Não são todas, mas sim “Spiritual Vomit”, “The Underworld Worshippers” e “Narcomagick”, esta última apresentada em duas versões. Outro elemento interessante presente no CD é um QR Code que direciona o ouvinte a um vídeo no qual Reverend Noise comenta sobre o material — um recurso muito bem pensado pela banda.
No que diz respeito ao material gráfico, o trabalho segue a tradição das bandas do underground do metal negro, investindo em uma identidade visual obscura, predominantemente em tons de preto e cinza. A arte traz o conceito da capa Remains of Death, idealizado por Reverend Noise e ilustrado por Emerson Maia; o conceito da deusa da vagina triangular, também por Reverend Noise, com ilustração de Felipe Nahash; e o conceito do Cálice Ômega, novamente por Reverend Noise, ilustrado por Felipe Nahash.
Este é, sem dúvida, um dos materiais mais impressionantes já lançados pela banda. Tive, inclusive, a honra de receber o lançamento em duas versões — CD e K7 — além de magníficos itens de merchandise, como pingente, adesivos, patch e uma belíssima camiseta. Não por acaso, cultivar boas amizades no underground pode proporcionar tamanha consideração. Vida longa ao Catacumba!
Lista de faixas – Decano:
- Summoning the Evil Spirits
- The Phalanx
- Spiritual Vomit
- The Underworld Worshippers
- An Elizabethan Devil Worshipper’s Prayer Book (Mystifier tribute)
- Spiritual Vomit
- The Underworld Worshippers
- Narcomagick
- Narcomagick (alternative version)
Formação que gravou o material:
- Amazarack – Drums
- Reverend Noise – Vocals
- Apeph – Bass
- Count Único Del’Inferni (R.I.P. 2021) – Guitars
- Tormento – Guitars



