O oitavo álbum de estúdio lançado pelo HellLight em maio de 2025 será lembrado no futuro não apenas como um dos melhores lançamentos da banda, mas como um clássico do Funeral Doom Metal.
Embora eu tenha adquirido minha cópia em CD desse álbum em maio, apenas agora, meses depois, eu consigo falar algo a respeito desse trabalho. A densidade sonora e poética desse álbum é absurda. Ele contém 7 faixas e 77 minutos. Em dias em que tive a oportunidade de escutar o álbum ininterruptamente e em sua totalidade, não me foi possível fazer mais nada posteriormente. São faixas tão densas, carregadas de tanta dor e amargura que muitas vezes o resultado é um surto de lágrimas ou uma inelutável acedia.
Ativa desde 1996, a banda não chegou agora à sua maturidade. Em minha opinião, com a chegada do baterista Renan Bianchi e o álbum “As We Slowly Fades” em 2018, a banda alcançou sua formação ideal. Mas o ápice veio com esse “We, The Dead”, que pode ser visto também como a suma de tudo o que a banda tem a oferecer depois de quase trinta anos.
O trio formado por Fábio de Paula (guitarra, vocal e teclados), Alexandre Vida (baixo) e o já mencionado Renan Bianchi (bateria) expõe o seu máximo nesse álbum. E como se não bastasse tudo isso, a participação especial de Heike Langhans (ex- Draconian, Soujorner, Remina) na faixa “As Daylight Fades” oferece o toque de beleza essencial para tornar esse álbum ainda mais especial.
Vamos falar então de cada uma das sete peças deste trabalho. “Echoes of Eons” abre o álbum com seus onze minutos e meio de pura angústia e prostração. Aqui o ouvinte neófito será tragado pelas névoas sombrias do Funeral Doom enquanto aquele já familiarizado com o gênero e com a banda encontrará grande satisfação na audição de uma típica faixa do HellLight. O lyric vídeo publicado em março de 2025 ressalta ainda mais a poética da passagem lenta do tempo esvanecendo na escuridão. “As a Fading Sun we Lie” fala das sombras que restam em nossa alma enquanto caminhamos no deserto do tempo em direção à escuridão eterna. “Desperate Cry” vem em seguida como um grito de desespero diante da queda inevitável da areia na ampulheta temporal em direção ao vazio absoluto. Enquanto declama seus versos desesperados, Fábio de Paula encaixa muito bem as passagens entre os vocais limpos e os vocais guturais, dando a cada verso sua entoação adequada. A quarta e faixa título do álbum “We, The Dead” é apresentada como um “interlúdio” de piano e voz, mas longe de ser uma digressão em relação à temática principal, na verdade traz a ideia central do álbum e da própria banda, já que seus versos finais resume a trajetória da banda, ao mencionar os títulos de seus últimos álbuns: “As we’re slowly fading / Through these endless storms, While the moon darkens, Until the silence embraces”. E o que falar então de “As Daylight Fades”? A voz de Heike Langhans surge como um abraço frio, como um sussurro no escuro que ao mesmo tempo nos consola e assombra. Uma faixa tão bela que inevitavelmente coloca essa banda e esse álbum ao nível dos melhores trabalhos de bandas como Skepticism, Funeral, Shape of Despair, Doom:Vs e Draconian. E o álbum ainda traz “Obsolete Dreams”, outra belíssima faixa cuja introdução com seu grito de dor e desespero toca o fundo da alma. Mais uma faixa longa e com várias camadas, variações vocais, interlúdios no piano, riffs fortes e até blast beats, uma das melhores do álbum, em minha opinião. “The Last March”, a última faixa, para a qual apenas o seleto público do Funeral Doom estará preparado, encerra o álbum como a última das marchas fúnebres depois da qual apenas o silêncio oferece o sucedâneo adequado.
Não se pode ir além no terreno do Funeral Doom. Obra prima!



