Em entrevista publicada pelo Blabbermouth em 15 de outubro de 2026, o fundador do SIGH comenta o conceito budista por trás do novo álbum, a colaboração com músicos internacionais, as experiências com gravadoras e os 36 anos de uma trajetória que desafiou os limites do Metal extremo.

Eis aqui uma das bandas japonesas que conheci antes mesmo de conhecer o Sabbat. O SIGH foi uma das bandas que mais me surpreenderam no início dos anos 1990, por sua música soar extremamente perversa sem recorrer aos típicos blast beats tão característicos de muitas bandas ocidentais. Havia ali uma crueza sonora invejável, uma atmosfera estranha e perturbadora que parecia vir de outro lugar, sem a necessidade de reproduzir fórmulas estabelecidas para o Black Metal.
Minha primeira experiência com o grupo aconteceu por meio das velhas fitas K7, gravadas — não sei quantas vezes — e passadas de mão em mão, como verdadeiros documentos de um underground que se mantinha vivo na circulação informal de sons, ideias e descobertas. Somente nos anos 2000 consegui adquirir o LP de estreia da banda, Scorn Defeat, lançado em 1993 pela lendária Deathlike Silence Productions, com uma capa que evocava elementos característicos da cultura japonesa. Aquele disco representava algo que, para mim, sempre definiu o SIGH: uma perversidade que não dependia apenas da agressividade, mas também de uma identidade cultural e artística própria.
Décadas depois, essa impressão permanece. O SIGH continua sendo uma das manifestações mais singulares do Metal extremo japonês, uma banda que atravessou diferentes territórios musicais sem perder sua essência. E é justamente essa capacidade de transformar estranheza em linguagem artística que volta ao centro das atenções com Goh-Ka, o décimo quarto álbum de estúdio do grupo.
Em entrevista concedida ao Blabbermouth, publicada em 15 de outubro de 2026, o fundador, vocalista, compositor e multi-instrumentista Mirai Kawashima falou sobre o novo trabalho, suas inquietações diante da morte, a participação de músicos de diferentes países e as experiências que moldaram a longa trajetória do SIGH.
O conceito central do novo álbum é o Kuso-zu, uma tradição de pinturas e ilustrações budistas que retrata nove estágios da decomposição do corpo humano após a morte. A imagem é tão perturbadora quanto filosófica: a beleza física, a juventude e a própria existência são transitórias, e nem mesmo aquilo que parece mais precioso permanece intacto diante do tempo.
Na entrevista, Mirai explica que essa reflexão está ligada à essência do pensamento budista: nada dura para sempre. A representação da decomposição de uma mulher considerada bela evidencia a transformação inevitável do corpo e questiona o apego à aparência, à vida e às coisas que acreditamos possuir.
O compositor também revelou que o medo da morte se tornou particularmente intenso depois que completou 50 anos. Mesmo reconhecendo a profundidade das reflexões budistas, ele admite que ainda não conseguiu superar essa angústia. Foi justamente essa dificuldade de aceitar a finitude que o levou a transformar o tema no eixo conceitual de Goh-Ka.
Para mim, essa escolha dialoga com uma característica essencial do SIGH: a capacidade de abordar temas sombrios sem reduzi-los a uma estética superficial de choque. A morte, nesse contexto, não é apenas um elemento macabro, mas uma questão existencial que confronta nossas ilusões de permanência.
O primeiro single, “Unputenpu”, poderia sugerir, à primeira audição, uma atmosfera relativamente festiva. A presença de elementos tradicionais japoneses e da percussão taiko pode transmitir uma sensação de celebração, sobretudo aos ouvintes ocidentais menos familiarizados com essas referências.
Mirai, entretanto, esclarece que a intenção da composição é bastante diferente. A música trata da crueldade repentina da vida e da possibilidade de que uma tragédia aconteça mesmo quando tudo parece normal. A existência pode mudar de maneira brutal em um instante, e essa instabilidade é justamente o que a faixa procura expressar.
O músico reconhece que algumas passagens de Goh-Ka apresentam beleza e podem soar esperançosas, especialmente nos momentos finais do álbum. Isso não significa, porém, que sua intenção tenha sido criar um trabalho essencialmente otimista. A beleza, nesse caso, convive com a consciência da perda e da impermanência.
Essa dualidade é particularmente interessante quando observamos a história do SIGH. A banda frequentemente utiliza elementos reconhecíveis — melodias, estruturas do Heavy Metal clássico, arranjos orquestrais e referências culturais japonesas — para construir algo que nunca se acomoda inteiramente em uma única interpretação.
Ao longo da entrevista, Mirai também comentou sua relação com diferentes estilos musicais. Embora o SIGH seja conhecido por incorporar elementos inesperados em suas composições, o músico afirma que não procura incluir referências apenas para demonstrar versatilidade. Sua filosofia consiste em trabalhar com aquilo de que realmente gosta, especialmente Heavy Metal, música clássica e Jazz.

Essa postura ajuda a compreender a variedade de caminhos percorridos pela banda desde seus primeiros lançamentos. O SIGH transitou pelo Black Metal, pelo Thrash Metal, pelo Metal clássico e por arranjos experimentais, desenvolvendo uma identidade que não depende de uma fórmula fixa.
Mirai recordou que Hangman’s Hymn foi concebido, em parte, como uma reação ao álbum anterior, Gallows Gallery. Segundo ele, a recepção deste último foi predominantemente negativa ou dividida, levando-o a buscar uma abordagem mais direta e agressiva. O resultado foi um disco concentrado no Thrash Metal extremo e na música clássica alemã, com menos variações estilísticas do que em outros trabalhos do grupo.
O compositor também reconheceu que exagerou nos arranjos orquestrais de Graveward, álbum cuja abordagem de guitarra não o satisfez. Essa experiência o levou a abandonar temporariamente a utilização mais intensa de elementos sinfônicos. Entretanto, a regravação de Hangman’s Hymn, realizada posteriormente, fez com que reconsiderasse essa decisão. Em Goh-Ka, os arranjos sinfônicos voltam a aparecer, desta vez de maneira mais moderada.
Mirai ainda revelou que, apesar de acompanhar a cena contemporânea por trabalhar com gravadoras, continua particularmente ligado aos clássicos do Thrash Metal dos anos 1980. Entre os nomes mais recentes que despertaram seu entusiasmo, destacou o DEVIL MASTER, elogiando o álbum Bloody Dreams por sua originalidade.
A formação envolvida em Goh-Ka evidencia a dimensão internacional que o SIGH assumiu ao longo dos anos. Ao lado de Mirai Kawashima estão a vocalista e saxofonista Dr. Mikannibal e o guitarrista Nozomu Wakai, além dos músicos convidados Frédéric Leclercq, baixista associado ao KREATOR, e Mike Heller, baterista ligado ao RAVEN.
Heller, em particular, recebeu elogios de Mirai por sua capacidade de acrescentar nuances inesperadas às composições. Goh-Ka é o terceiro álbum em que o baterista trabalha com o SIGH, depois de Shiki e da regravação de Hangman’s Hymn.
O compositor explicou que prefere entregar aos músicos demos cuidadosamente desenvolvidas e permitir que eles interpretem as partes com liberdade. Segundo Mirai, Heller pode gravar duas músicas em um único dia, enquanto Frédéric também trabalha com grande rapidez, chegando a concluir várias partes instrumentais em um curto período.
Mais importante do que a velocidade, porém, é a confiança. Mirai afirmou que ambos compreendem suas intenções musicais e cumprem os prazos, tornando o processo de gravação mais eficiente. Ele contrastou essa experiência com trabalhos anteriores em que uma única música podia levar mais de duas semanas para ser gravada.
A mistura de nacionalidades também é, para o músico, parte da própria identidade do SIGH. Com integrantes japoneses e colaboradores franceses e norte-americanos, a banda reflete uma relação entre culturas orientais e ocidentais que já existia desde sua origem: afinal, o Heavy Metal nasceu no Ocidente, mas o grupo sempre buscou transformá-lo a partir de sua própria perspectiva.
Mirai considera que o equilíbrio entre essas influências funcionou especialmente bem em Shiki e Goh-Ka. Para ele, uma sonoridade excessivamente orientalizada também poderia limitar as possibilidades da banda, assim como a adoção irrestrita de referências ocidentais apagaria parte de sua singularidade.
A participação de Mikael Åkerfeldt, do OPETH, também foi abordada na conversa. O músico contribuiu com um solo em “Unputenpu”. Mirai contou que não precisou fornecer instruções específicas, pois ambos compartilham referências ligadas ao Rock Progressivo dos anos 1970. A afinidade musical tornou a colaboração natural.
A trajetória do SIGH também foi marcada por diferentes experiências com selos. Ao longo da carreira, a banda trabalhou com Deathlike Silence Productions, Cacophonous, Candlelight Records, The End Records e, mais recentemente, Peaceville.
Mirai elogiou a relação atual com a Peaceville, destacando o apoio recebido e a facilidade de comunicação. Segundo ele, Paul Groundwell, responsável pela gravadora, chegou a enviar esboços próprios para a arte de capa. A relação entre ambos remonta a aproximadamente três décadas, quando Groundwell ainda trabalhava em outra função dentro do selo.
A comparação com o passado, contudo, é menos positiva. Mirai recordou que a escolha da Cacophonous, após o encerramento das atividades da Deathlike Silence Productions em consequência da morte de Øystein Aarseth, conhecido como Euronymous, acabou sendo um erro. Na época, sem a comunicação instantânea que conhecemos hoje, as negociações dependiam de fax e correspondência. A Cacophonous respondeu primeiro, e o SIGH acabou assinando com a gravadora, embora Mirai acreditasse posteriormente que a Candlelight teria sido uma opção melhor.
Esses relatos revelam um aspecto importante da história do underground: a longevidade de uma banda não depende apenas de sua produção artística, mas também de decisões administrativas, relações profissionais e circunstâncias históricas que nem sempre estão sob seu controle.
Trinta e seis anos contra as expectativas
Formado em 1990, o SIGH completa 36 anos de atividade em 2026. Mirai admitiu que jamais imaginou permanecer na banda por tanto tempo. Quando tinha pouco mais de 20 anos, a ideia de continuar em um grupo de Metal extremo aos 30 já lhe parecia improvável. Naquela época, o gênero era amplamente percebido como uma cultura de jovens, e era difícil imaginar músicos chegando aos 50 anos ainda envolvidos ativamente com a cena.
Hoje, aos 56 anos, ele continua compondo, gravando e se apresentando com o SIGH. A longevidade da banda não representa apenas resistência ao tempo: ela também demonstra que o Metal extremo pode continuar sendo um território de experimentação artística muito além da juventude.
A entrevista termina abordando outro aspecto pouco convencional da vida do músico: a presença de seus filhos nas turnês e apresentações. Como os pais fazem parte da banda, inicialmente as crianças acompanhavam a família nos bastidores. Com o tempo, demonstraram vontade de participar do espetáculo e passaram a assumir funções no palco, segurando objetos cênicos e, posteriormente, incorporando instrumentos de sopro e percussão.
Mirai explicou que a filha toca trompete e o filho participa com instrumentos de percussão. Sobre a conciliação entre as viagens e a educação escolar, afirmou acreditar que conhecer diferentes culturas, lugares e pessoas pela Europa também representa uma forma valiosa de aprendizado.
É uma visão que certamente pode gerar discussões, mas que revela como a vida do SIGH ultrapassa os limites convencionais de uma banda de Metal. A experiência artística, nesse caso, está integrada à vida familiar e a uma maneira particular de compreender o mundo.
Ao ouvir Mirai falar sobre Goh-Ka, percebo novamente aquilo que me chamou a atenção quando conheci o SIGH por meio das fitas K7 que circulavam no underground: a banda nunca pareceu interessada em simplesmente repetir aquilo que já funcionava para outras pessoas.
Sua música pode ser agressiva, teatral, melódica, experimental ou profundamente estranha, mas raramente se deixa reduzir a uma única definição. O mesmo grupo que dialoga com o Black Metal de suas origens consegue incorporar música clássica, Jazz, elementos tradicionais japoneses e passagens cinematográficas sem transformar essa diversidade em um mero exercício de exibicionismo técnico.
Com Goh-Ka, a reflexão sobre a decomposição e a impermanência oferece uma nova dimensão para essa identidade. A morte não aparece apenas como imagem de horror, mas como uma realidade inevitável que confronta o apego humano à beleza, à vida e à própria existência.
Talvez seja justamente essa disposição para encarar o desconforto — sem abandonar a experimentação e sem se render a convenções — que permita ao SIGH continuar relevante depois de 36 anos. Para mim, poucas bandas demonstram de maneira tão particular como o Metal extremo pode ser, ao mesmo tempo, brutal, culturalmente enraizado e artisticamente imprevisível.
Tracklist do álbum Goh-Ka:
- 九想詩其ノ一、二、三 (Kuso-shi 1, 2, and 3)
Tradução: Poemas das Nove Fases da Decomposição I, II e III — 09:11 - 地獄草子其ノ一、雲火霧処 (Jigoku-Zoshi 1: Unkamusho)
Tradução: Rolos Ilustrados do Inferno I: O Lugar das Nuvens, do Fogo e da Névoa — 03:55 - 黯然銷魂 (Anzenshokon)
Tradução: Profunda Melancolia e Desolação da Alma — 06:24 - 九想詩其ノ四、五、六 (Kuso-shi 4, 5, and 6)
Tradução: Poemas das Nove Fases da Decomposição IV, V e VI — 07:21 - 焦燥 (Shoso)
Tradução: Agonia — 00:56 - 運否天賦 (Unputenpu)
Tradução: A Sorte Está Lançada — 05:41 - 人面獣心 (Jinmenjushin)
Tradução: Rosto Humano, Coração de Fera — 06:14 - 地獄草子其ノ二、等活地獄 (Jigoku-Zoshi 2: Tokatsujigoku)
Tradução: Rolos Ilustrados do Inferno II: Inferno da Ressurreição — 03:06 - 空手還郷 (Kushukankyo)
Tradução: Retornar à Terra Natal de Mãos Vazias — 01:47 - 九想詩其ノ七 (Kuso-shi 7)
Tradução: Poema das Nove Fases da Decomposição VII — 01:56 - 九想詩其ノ八、九/滅諦寂静 (Kuso-shi 8 and 9 / Mettaijakujo)
Tradução: Poemas das Nove Fases da Decomposição VIII e IX / A Verdade da Cessação e a Serenidade do Silêncio — 11:23
Formação
- Mirai Kawashima — vocais, teclados, flauta, shinobue, shakuhachi, koto, hichiriki, taishōgoto, sheng, hulusi e shruti box.
- Dr. Mikannibal — vocais, saxofone alto e shamisen.
- Nozomu Wakai — guitarras e violão acústico.
Músicos convidados para participação no álbum Goh-Ka
- Million Kano — vocais de apoio.
- Billion Kano — vocais de apoio.
- Yukiko Shibutani — baixo e vocais de apoio na faixa 6.
- Ginzaburo Abe — shamisen nas faixas 1 e 6.
- Mikael Åkerfeldt (OPETH) — guitarra solo na faixa 6.
- Frédéric Leclercq (KREATOR) — baixo.
- Mike Heller (RAVEN) — bateria, bongôs, conga, tímpanos latinos, sinos, bloco sonoro de madeira, tambores de aço, maracas e pandeiro.
- Jill — violino na faixa 4.
- Hiroshi Yamanaka — vocais na faixa 1.
- Masayoshi Tanaka — wadaiko e surigane nas faixas 1 e 4.
Créditos técnicos e artísticos
- Maciej Kamuda — arte.
- Lasse Lammert — mixagem e masterização.
Fonte original: Blabbermouth — entrevista com Mirai Kawashima, publicada em 15 de outubro de 2026.



