Em entrevista reveladora, The Magus aprofunda os pilares metafísicos, estéticos e conceituais de seu novo álbum, reafirmando o legado do Black Metal grego ocultista.
Figura central na gênese do Black Metal grego, The Magus segue expandindo um legado que transcende música e se consolida como obra espiritual, ritualística e filosófica. Em entrevista recente concedida ao portal This Is Black Metal, o músico lançou luz sobre os fundamentos que estruturam seu novo álbum, “Daemonosophia”, com lançamento previsto para fevereiro pela The Circle Music.
Mais do que uma simples continuação de seu trabalho anterior, Daemonosophia se apresenta como um aprofundamento consciente da jornada ocultista que acompanha The Magus há mais de três décadas. O título do álbum — que pode ser compreendido como a sabedoria adquirida através do estudo dos Daemons — não é metáfora estética, mas sim um eixo doutrinário que permeia letras, sonoridade e identidade visual.
Segundo o próprio Magus, o disco mantém a mesma aura sombria e metafísica que sempre caracterizou sua obra, porém assume uma forma mais agressiva, compacta e focada. O processo criativo foi rigoroso: pela primeira vez em sua carreira, músicas completas foram descartadas por não atingirem o padrão desejado, evidenciando um nível elevado de exigência artística e coerência conceitual. Trabalhado ao longo de um ano e meio, o álbum representa, nas palavras do próprio criador, “um passo à frente” em relação ao registro anterior.
No campo conceitual, Daemonosophia se estrutura a partir do estudo e da interação com entidades daemoníacas, entendidas não como símbolos caricatos, mas como forças enraizadas no inconsciente coletivo humano. The Magus deixa claro que sua abordagem não é narrativa ou fantasiosa: trata-se de uma via de transformação, evolução e acesso ao núcleo draconiano do ser — aquilo que ele define como o “Serpente interior”.
Essa visão é materializada de forma exemplar na arte de capa, inspirada em trípticos bizantinos tradicionalmente utilizados para retratar figuras divinas. Em Daemonosophia, tais arquétipos são subvertidos:
– Tiamat/Leviathan, à esquerda, com livro e cálice, representa a Sabedoria;
– Satan/Belial, à direita, com espada e ramo, encarna a Ação;
– Lucifer/Samael, ao centro, portando a chave, simboliza a Vontade.
A tríade não é apenas simbólica, mas funcional: para The Magus, qualquer realização — no plano físico ou metafísico — exige a convergência de Vontade, Sabedoria e Ação.
Musicalmente, o álbum conta novamente com Maelstrom na bateria e El nas guitarras, além da participação de George Emmanuel (Lucifer’s Child) nos teclados, reforçando a dimensão atmosférica e ritualística do trabalho. O resultado é um Black Metal profundamente helênico, ocultista e consciente de suas raízes, distante tanto da agressividade vazia quanto do estetismo superficial.
A faixa final, “La Llorona Negra”, exemplifica bem a abordagem transmutadora de The Magus. Partindo de uma tradicional canção folclórica mexicana, o músico reconstrói o mito sob uma ótica sombria e infernal, estabelecendo uma associação direta com Lilith, deslocando o lamento espectral para um território de poder feminino obscuro e daemoníaco.
Ao longo da entrevista, The Magus reafirma uma postura que sempre marcou sua trajetória: no mundo físico, define-se como ateu/agnóstico; no metafísico, como luciferiano/draconiano. É justamente no choque entre esses dois polos que, segundo ele, a verdadeira magick acontece. Essa tensão constante entre razão e abismo é o combustível de sua arte.
Mais do que um álbum, Daemonosophia surge como um manifesto de autonomia espiritual, alinhado ao Caminho da Mão Esquerda e à recusa de dogmas impostos. Em tempos de diluição simbólica e esvaziamento conceitual, The Magus reafirma o Black Metal como instrumento de gnose, transgressão e criação de mundos.

Lista de Faixas do álbum Daemonosophia:
- Pater Noster 00:23
- Pseudoprophetae 04:25
- Daemonosophia 05:07
- The Six in Three Is All One 05:09
- The Era of Lucifer Rising (Thou Art Lord cover) 06:43
- Magia Obscura 05:03
- Amelia 05:04
- The Chapel of Iniquities 04:37
- The Pact 04:39
- La Llorona Negra 06:02
Fonte: This Is Black Metal



