Mystifier, Necrolust e Crucificator: Três Entidades que Semearam o Real Radicalismo nos Anos Noventa
No início dos anos noventa, Salvador abrigava uma das manifestações mais particulares e contundentes do Death Black Metal brasileiro. Em meio a poucos eventos, encontros restritos e uma intensa rede de relações underground, Mystifier, Necrolust e Crucificator formavam uma verdadeira tríade infernal. Música, comportamento, estética e ideologia convergiam em uma identidade marcada pela obscuridade, pelo radicalismo e pela violência sonora.
Mais do que compartilhar influências e uma linguagem musical próxima, essas bandas ajudaram a construir a mística do Metal Negro soteropolitano. Suas apresentações intensas e suas produções independentes expressavam o espírito de uma geração que transformava limitações técnicas em criatividade. Máquinas de datilografar, montagens artesanais, recortes, encartes fotocopiados e fitas cassete eram parte de uma estética própria, tão significativa quanto a música que registravam.
Essa história pode ser revisitada através de três lançamentos fundamentais. A Mystifier, com Torment the Holy Trinity (1989), apresentou uma das sementes mais originais do Death Black Metal que ganharia força na década seguinte. A Necrolust, com Christ Excomunication (1991), registrou a crueza e a energia sombria de uma cena cuja intensidade também se manifestava nos palcos. Já a Crucificator, com Diabolism (1992), entregou um dos mais memoráveis registros em cassete do Metal extremo baiano: uma obra extensa, obscura e repleta de composições que capturam o espírito daquela geração.
Naquele contexto, as Demo Tapes eram muito mais do que cartões de apresentação. Eram documentos de uma cultura em formação, circulando entre músicos, seguidores, selos e colecionadores. Cada lançamento afirmava uma identidade e alimentava uma cena pequena, mas intensa, na qual os encontros entre essas bandas representavam verdadeiros choques de titãs.
Com o passar dos anos, cada grupo seguiu seu próprio caminho, mas esses registros permaneceram como testemunhos de uma época irrepetível. Revisitar essas gravações é reconhecer a contribuição de três entidades que ajudaram a projetar Salvador como um dos territórios mais peculiares e radicais do Death Black Metal brasileiro.
Esta edição de Dark Reflections presta homenagem àquela geração e aos registros que preservam sua memória. Um retorno aos dias em que Salvador era crua, radical e violenta — e possuía uma tríade infernal que ajudou a semear alguns dos frutos mais obscuros do Metal Negro nacional.

MYSTIFIER – “TORMENT THE HOLY TRINITY”: O PRIMÓRDIO DE UMA ESTÉTICA E A SEMENTE DO DEATH BLACK METAL BRASILEIRO

Lançada em 1989, Torment the Holy Trinity, primeira Demo Tape da Mystifier, figura entre os registros mais significativos e originais que antecederam a consolidação do Death Black Metal brasileiro na década de 1990. Mais do que uma manifestação embrionária de uma sonoridade extrema, essa gravação representou um importante marco na construção cultural do Metal Negro local e nacional, contribuindo para estabelecer uma identidade artística que ultrapassaria os limites geográficos de sua origem baiana.
Em uma época na qual a produção independente acontecia essencialmente de maneira artesanal, entre máquinas de datilografar, recortes, montagens manuais e encartes fotocopiados, Torment the Holy Trinity também ajudou a estabelecer uma linguagem visual característica das Demo Tapes daquele período. Sua apresentação gráfica, assim como a própria materialidade do registro, traduzia o espírito de uma geração que construía sua identidade à margem dos padrões convencionais da indústria musical, transformando precariedade técnica em expressão estética e afirmação ideológica.
Musicalmente, a demo surpreende pelo ineditismo e pela personalidade de suas composições. Embora apresente limitações técnicas e momentos de pouca habilidade instrumental, perceptíveis como reflexos naturais da imaturidade e da inexperiência daqueles primeiros anos, prevalece algo muito mais significativo: a espontaneidade de uma produção artística genuinamente comprometida com a mão esquerda. Há ali um sentimento cru, visceral e despretensioso, no qual a experimentação e a intenção profanadora se sobrepõem à perfeição técnica. É justamente nessa imperfeição que reside parte considerável de sua autenticidade e importância histórica.
Formada em julho de 1989, em Salvador, a Mystifier se tornaria uma das principais forças do Black Metal dos anos noventa, não apenas pela qualidade e relevância de seus lançamentos posteriores, mas por um conjunto de realizações que modificou profundamente a percepção sobre o Metal extremo produzido em território brasileiro. Torment the Holy Trinity foi a primeira manifestação de uma trajetória que culminaria em registros fundamentais como Wicca (1992) e Goetia (1993), levando a identidade profana e particular da banda muito além das fronteiras nacionais.
Vista retrospectivamente, essa primeira demo não é apenas um documento de uma banda em seus estágios iniciais, mas um testemunho de uma época em que a originalidade, a inventividade e a necessidade de expressão moldavam os alicerces de uma cena ainda em construção. Uma verdadeira semente do Death Black Metal dos anos noventa e um dos registros que ajudaram a definir a estética, a atitude e a identidade cultural do Metal Negro brasileiro.
OFFICIAL DEMO-REHEARSAL: “TORMENTING THE HOLY TRINITY”, 1989.
LINE-UP
- BLACKHRIST: Bass.
- SARCASTIC: Distortion.
- INFERNAL CRUSHER: Drums.
- MEUGNINOUSOAN: Screams.
TRACKS
- THE WITNESS (INTRO).
- MYSTIFIER.
- POSSESSION.
- CHRISTIAN’S PROSCRIPTION.
- CURSED EXCRUCIATION.
- FIERCENESS.
- MASSACRE (BATHORY).
- THE SIX WISHES OF THE VIRGIN MARY.
- THE AWAKE OF SATANAS.
- SATAN’S ABERRATIONS.
Ficha técnica:
Produzido por Beelzebubth (BLACKHRIST) & MYSTIFIER.
Gravado no Periperi Studios, em novembro de 1989.
Todas as músicas e letras por Beelzebubth (BLACKHRIST) & MYSTIFIER.
NECROLUST – “CHRIST EXCOMUNICATION”: A MANIFESTAÇÃO DO RADICALISMO E DA MÍSTICA SOMBRIA DO METAL NEGRO SOTEROPOLITANO
Entre as manifestações mais representativas do Metal Negro produzido em Salvador no início dos anos noventa, a Necrolust ocupa um lugar de destaque. Assim como Mystifier e Crucificator, a banda ajudou a construir a reputação de uma cena soteropolitana marcada por uma atmosfera de energia sombria, na qual a música, o comportamento e, sobretudo, as apresentações ao vivo constituíam expressões de uma mesma identidade radical. Christ Excomunication (1991), sua primeira Demo Tape, é um testemunho fundamental desse período e um dos registros que melhor traduzem a crueza, a obscuridade e o espírito de confrontação que caracterizavam o Death Black Metal baiano.

Com onze composições, a demo apresentava uma sonoridade diabólica, visceral e carregada de influências de Bathory, Venom e Hellhammer, mas também revelava uma personalidade própria, construída a partir das particularidades daquela geração de músicos. Havia uma espécie de cumplicidade estética entre Necrolust, Mystifier, Crucificator e outras entidades daquele circuito, cujas propostas musicais compartilhavam elementos que, com o passar dos anos, seriam desenvolvidos em direções distintas. Mais do que simples proximidade estilística, existia ali uma linguagem comum, alimentada pelo radicalismo, pela precariedade das produções independentes e pela necessidade de afirmar uma identidade genuinamente underground.
Christ Excomunication representa, nesse sentido, muito mais do que uma gravação de estreia. É um documento sonoro de uma época em que as Demo Tapes produzidas em Salvador frequentemente assumiam dimensões e estruturas próximas às de um álbum completo, reunindo extensos repertórios e demonstrando uma disposição criativa que não encontrava limites na ausência de recursos técnicos. A Necrolust fazia parte dessa tradição e ajudava a disseminar uma concepção de Metal extremo em que a agressividade musical se confundia com a própria mística da cena local.
Outro aspecto fundamental da banda estava na atmosfera singular de suas apresentações, reconhecidas pela intensidade e pela carga sombria que ultrapassava o conteúdo das composições. Integrantes como o baixista Merifild e o baterista Pentagony tornaram-se figuras importantes dessa trajetória, que, apesar dos constantes problemas de manutenção da formação e das dificuldades estruturais enfrentadas pelo grupo, conseguiu permanecer ativa e relevante dentro do underground por vários anos.
Em 1994, a banda apresentou sua segunda Demo Tape, Kill and Die by Satan, agora com uma produção mais elaborada e a participação do vocalista Leviathan, proprietário de um estúdio de ensaios e gravações naquele período. O lançamento demonstrava uma evolução na apresentação sonora da Necrolust, sem abandonar a essência profana que havia orientado seus primeiros passos.
Infelizmente, por volta de 1995, possivelmente um pouco depois, a banda encerrou suas atividades, deixando pelo caminho uma trajetória que poderia ter alcançado outros patamares. Existiam perspectivas de gravação de um álbum e até mesmo articulações em torno de um possível Split com bandas coirmãs da época, projetos que acabaram não se concretizando diante das dificuldades de manutenção da formação e das limitações enfrentadas pelos pequenos selos e gravadoras que atuavam naquele cenário. Durante anos, rumores sobre um possível retorno circularam pelo underground, mas a reunião jamais se materializou.
O legado da Necrolust, entretanto, permanece preservado em suas duas Demo Tapes e na memória de uma geração que testemunhou uma das fases mais intensas do Metal extremo baiano. Christ Excomunication é, sem dúvida, uma das expressões mais legítimas daquele radicalismo primordial: uma gravação que carrega não apenas o peso de sua música, mas também a atmosfera, a atitude e a mística de uma cena que ajudou a projetar Salvador como um dos importantes territórios do Death Black Metal brasileiro nos anos noventa.

Formação que gravou Chrsit Excomunication:
LEVIATHAN: VOCAL
MERIFILD: BASS
ASCHTAROTH: GUITAR
PENTAGNONY: DRUMS
Tracklist:
01 – Intro (The Rite of Infernal Symphony)
02 – Satanic Return
03 – Blasphemy
04 – The Apocalypse
05 – Necrolust
06 – Eternal Darkness 07 – Bestial Birth
08 – The Son of God Never Was Born
09 – False Pastor
10 – Enter The Eternal Fire
11 – The Rite Continued…
CRUCIFICATOR – “DIABOLISM”: UM DOS MAIS MEMORÁVEIS TESTEMUNHOS DO DEATH BLACK METAL BAIANO

Entre os registros mais expressivos da história do Metal Negro produzido na Bahia, Diabolism (1992), segunda Demo Tape da Crucificator, ocupa um lugar absolutamente especial. Em minha opinião, trata-se do melhor trabalho em formato cassete já lançado por uma banda de Death Black Metal baiana, uma obra memorável cuja dimensão musical ultrapassa a condição de simples demo e alcança o status de um verdadeiro documento histórico do underground soteropolitano. São aproximadamente 45 minutos — ou mais — de música obscura, hedionda e perversa, repletos de criatividade, inspiração e composições que poderiam facilmente ser reconhecidas como verdadeiros hinos negros daquela geração.

A Crucificator, formada em Salvador em 1989, construiu uma das trajetórias mais significativas do Metal extremo local. Em sua formação originalmente registrada estavam Black Pastor Demoniac Terrifyer (vocais e guitarra), Guardian Lost Soul of Tetragrammaton (baixo) e Diabolical Satan’s Butcher (bateria). Entretanto, minhas primeiras lembranças da banda remontam ao final de 1989, quando seus ensaios eram conduzidos essencialmente pela dupla formada por guitarrista e baterista. Tive a oportunidade de acompanhar parte dessa trajetória inicial e assistir a uma apresentação com essa formação, em um evento intitulado Tribute to Duxgor, que também contou com a participação da banda cearense Noise in Hell. Eram tempos grandiosos, de experiências musicais e vivências que dificilmente poderiam ser reproduzidas nos dias atuais.
Assim como Mystifier e Necrolust, a Crucificator representava uma das expressões mais radicais da cena de Death Black Metal que se desenvolvia em Salvador. Suas composições e letras estavam profundamente relacionadas à filosofia da mão esquerda, enquanto suas apresentações ao vivo assumiam proporções verdadeiramente infernais. Naquele período, os encontros entre essas bandas representavam verdadeiros choques de titãs, reunindo entidades que compartilhavam uma mesma disposição artística, mas possuíam personalidades e manifestações particulares. A cena era pequena, os eventos eram poucos e cercados de certa clandestinidade, e o acesso àquele universo exigia, muitas vezes, coragem, ousadia e a apresentação de alguém já reconhecido naquele círculo restrito de seguidores do Metal Negro.
A primeira manifestação oficial da Crucificator veio em 1991, com a Demo Tape The Evilness, contendo dez composições, entre elas uma versão para uma música da banda Samael. Naquela gravação, participaram Black Pastor Demoniac Terrifyer e Diabolical Satan’s Butcher, mantendo a estrutura de dupla que havia caracterizado seus primeiros anos. Contudo, foi no ano seguinte que a banda alcançou, em minha avaliação, seu momento mais inspirado e expressivo.
Lançada em 1992, Diabolism apresentava uma formação ampliada, agora contando também com Worshipper Priest From the Last Oath na segunda guitarra. O resultado foi um registro de longa duração, daqueles que na época costumávamos identificar como K7/LP, justamente por sua extensão e estrutura musical, muito mais próximas de um álbum completo do que das habituais demonstrações de duas, três ou quatro músicas. Sua sonoridade reunia passagens obscuras, construções diabólicas e uma atmosfera carregada de malignidade, conduzidas por composições de personalidade marcante. Era possível perceber ali não apenas a força criativa da banda, mas também a maturidade de uma linguagem musical que traduzia com propriedade o espírito do Death Black Metal baiano.
Diabolism é, para mim, uma daquelas gravações que permanecem impregnadas na memória. Foi uma das Demo Tapes que mais ouvi entre as produções daquela geração e que continuo revisitando até hoje. Há algo de particularmente especial nesse material: uma combinação de atmosfera, agressividade, inspiração e identidade que dificilmente encontra correspondência em outros registros do período. A própria banda parecia traduzir sua concepção ideológica e artística ao proclamar o conhecimento do lado esquerdo do universo, a mão da tolerância e da sabedoria em um paraíso em chamas. Uma declaração que sintetizava muito da simbologia e da postura que orientavam aquela manifestação musical.
Em 1993, a Crucificator apresentou uma nova direção sonora com Eyes of Pandemonium. O trabalho evidenciava uma mudança perceptível, com músicas mais rápidas, dinâmicas e violentas, abandonando parcialmente aquelas atmosferas mais sombrias de Diabolism em favor de uma concepção mais caótica, infernal e próxima da ideia de pandemônio. Worshipper Priest From the Last Oath já não integrava a formação, mas a essência lírica e ideológica vinculada à mão esquerda permanecia presente. Posteriormente, a banda atravessaria um longo intervalo sem novos lançamentos sonoros, mantendo, entretanto, suas apresentações ao vivo, até retomar a produção de materiais oficiais depois do final da década de noventa. Diferentemente de tantas outras entidades daquele período, a Crucificator permaneceu em atividade, preservando uma trajetória que atravessou diferentes momentos do underground brasileiro.
O que torna Diabolism tão especial, entretanto, não está apenas em sua importância dentro da discografia da banda ou em sua representação histórica para o Metal Negro baiano. Está também naquilo que ele representa para uma geração que vivenciou uma época de experiências físicas, musicais e culturais indescritíveis. É um registro que carrega a memória de encontros, apresentações, amizades, rivalidades e manifestações artísticas que ajudaram a construir uma das cenas mais peculiares e influentes do Metal extremo nacional.
Por tudo isso, Diabolism deveria ser eternizado por meio de uma reedição digna de sua importância, como homenagem à banda e a todos aqueles que contribuíram para a realização de um material tão magnífico. Mais do que recuperar uma antiga gravação em cassete, seria preservar um fragmento fundamental da história do underground soteropolitano. Afinal, existem demos que simplesmente registram o nascimento de uma banda; outras, entretanto, capturam o espírito de uma época inteira. Diabolism pertence incontestavelmente à segunda categoria.

Formação que gravou Diabolism:
- BLACK PASTOR DEMONIAC WARRIOR – Devilish Growls / Lead guitars
- SATANAS DISCIPLE OF THE OLD PROPHECY – Storm Bass / Backing Growls
- NECROVIOLATOR OF THE QUINTA’S GRAVE – Rhythm Guitar / Backing Growls
- DIABOLICAL SATAN’S BUTCHER – Devastation Drums
Ficha da Demotape oficial Diabolism:
Gravado em setembro de 1992 no estúdio J.R. SALVADOR/Ba
Produção: Black Pastor e Satanas Disciple
Letras: Black Pastor
Músicas: Crucificator
Tracklist:
- The Trial (intro)
- Mystic Image
- Summerian Signs
- The Evilness
- Enter the Occult
- Ceremonial Blood
- Dark Exaltation
- Tribute to the Black Image
- The Damnation (outro)
Fonte: Para organização deste Texto, foi usado os rascunhos de um livro em produção escrito por Anton Naberius que tem a arrojada pretensão de registrar uma série de bandas importantes para a formação da cena de Metal Negro Brasileira. Este livro chegou a ser anunciado com o nome The Black Book of Evil, mas precisou ser suspensa sua produção e publicação por parte da obra não ter sido finalizada. Também foi possível a realização deste texto através do material físico constante no acervo pessoal de Naberius e suas experiências vividas na época.



