Não é de hoje que o cenário underground nacional vê surgindo, cada vez mais, projetos one man band! Se formos procurar as questões que envolvem o surgimento desses projetos, certamente não chegaremos a um denominador comum e motivos diversos serão indicados. Posso, talvez, relacionar duas características desse processo; surge então o chamado DIY- Do It Yourself, o faça você mesmo e um lado misantrópico, sem um convívio com outras pessoas no processo de composição, ensaio e gravação.
Fazendo este ano, 25 anos de existência, a one-man-band HATE ORGASM, oriunda do Planalto Central, lançou no final de 2024 pelo selo Misanthropic Records seu debut, Awakening by Disenchantment, após longos anos desde as duas demo tapes, lançadas no início do século.
Idealizada pelo ser J. Cyborg Daemon, HATE ORGASM apresenta neste trabalho um som extremo que navega entre um Death Metal impiedoso e um Black Metal violento, sobre produção de W. Mist ( Denial Redemption) e artes gráficas, layouts e designers realizados por Rubens Snitram ( Azoth Artworks), Depravarts e W.D.H.
Não tem como iniciamos as audições sem ter um impulso e falar: “Caralho! Isso é Morbid Angel! Isso é Altars of Madness! “. Foi minha sensação ao ouvir a primeira faixa ‘The Prayer of Nothingness’. Uma pancadaria sonora com irá e riffs intercalados, intrincados, tempos quebrados e muito peso. Os arranjos são bem elaborados com uma boa afinação trazendo uma áurea satânica, uma ode ao deus dos carnívoros, ao carvalho invertido da morte.
Seguimos com ‘At Moloch’s Kingdom Celebration’ e seu culto antigo, uma celebração e oferenda cheia de lascívia e depravação com uma pegada mais Black Metal, tempo super cadenciado, mais trampado, não deixando de ter algumas variações. Em contrapartida, ‘Enthronement’ surge com riffs rápidos e brutais típicos do Death Metal dos anos 90, emergindo do grande abismo. As linhas de guitarra dançam acompanhadas de uma bateria (programada) implacável, submetendo os filhos de Enlil no alvorecer do sol negro. As passagens lentas são pesadas e densas, agonizantes como o Doom Metal primordial um dia foi, entre sussurros que anunciam o estremecer dos pilares da criação.
A faixa título do álbum inicia bem cadenciada, vocais rasgados e bases se repetindo, antes de surgir aquele riff com algumas características do velho e sujo thrash metal. Uma explosão de agressividade para expor todo o ódio concentrado em conhecimentos ocultos proibidos. Bases extremamente pesadas e agressivas trazem êxtase e repulsa a vida cotidiana.
Os ventos sopram e trazem para os filhos da impiedade ‘To Where Belial Wildly Blows’, com uma pegada tipo o velho Autopsy, lento e marcante, fazendo o ministério de Isaías agonizar enquanto observam a carruagem de fogo de Belial. Estamos em ‘Black Magic Addicted’ cheia de variações, um laboratório de timbres, vocais, bases e solos que contam o pacto íntimo com a magia negra, passando pelos círculos mais profundos do inferno.
A introspectiva ‘Vengeance Achieved’ é um chamado à conjuração. Um clamor à Satanás, como uma oração ao ser das trevas, finalizando o álbum.



