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ISEGRIM: O CORAÇÃO NEGRO QUE CONTINUA A PULSAR NAS SOMBRAS DO BLACK METAL ALEMÃO

Anton Naberius julho 11, 2026 8 min read

Em entrevista ao Kronus Mortus, A. Blackwar revisita quase três décadas de devoção ao black metal tradicional, fala sobre o relançamento do material clássico do ISEGRIM e revela como o projeto permanece sendo a manifestação absoluta de uma visão artística que jamais aceitou concessões.

O underground alemão sempre foi fértil na produção de nomes que ajudaram a moldar diferentes vertentes do metal extremo. Embora frequentemente lembrado pelo protagonismo do thrash metal durante os anos 1980, o país também desenvolveu uma cena black metal profundamente fiel às raízes do gênero, marcada por projetos que nunca buscaram reconhecimento comercial ou adaptação às tendências que surgiriam nas décadas seguintes. Entre esses nomes encontra-se o ISEGRIM, projeto criado em 1998 por A. Blackwar, cuja trajetória permanece como um exemplo raro de coerência artística dentro de uma cena que constantemente se reinventa.

Quase trinta anos após seu surgimento, ISEGRIM retorna ao centro das atenções graças ao relançamento em vinil de seu material clássico e ao anúncio de um novo álbum previsto para 2027. A ocasião serviu de ponto de partida para uma extensa conversa publicada pelo portal húngaro Kronus Mortus, na qual A. Blackwar revisita a origem da banda, comenta sua filosofia de vida, explica a importância dos símbolos que cercam o projeto e demonstra que, para ele, o tempo apenas fortaleceu convicções que permanecem inalteradas desde o final dos anos 1990.

Ao longo da entrevista, torna-se evidente que ISEGRIM jamais nasceu como um simples projeto musical. Desde o princípio, Blackwar buscava criar uma extensão direta de sua própria personalidade, livre de qualquer tipo de compromisso artístico. Seu objetivo era produzir exatamente a música que existia dentro dele: um black metal veloz, agressivo e desprovido de concessões, construído sobre letras anticristãs e uma postura de enfrentamento absoluto diante da sociedade conservadora. Não havia intenção de agradar públicos específicos ou acompanhar movimentos da cena; existia apenas a necessidade de transformar determinadas ideias e sentimentos em música.

Essa sinceridade permanece como um dos aspectos mais marcantes de sua trajetória. Enquanto diversos grupos contemporâneos modificaram sua identidade para acompanhar novas tendências, incorporando elementos sinfônicos, atmosféricos ou experimentais, ISEGRIM permaneceu praticamente imóvel em relação àquilo que considera a essência do black metal. Não se trata de uma rejeição automática ao novo, mas da convicção de que sua própria linguagem artística já havia sido definida muito antes de qualquer mudança estética atingir o gênero.

Ao recordar o período em que compôs as primeiras músicas, Blackwar descreve um estado de espírito profundamente marcado pelo ódio e pela rejeição ao mundo ao seu redor. Segundo ele, aquele sentimento era alimentado tanto por suas experiências pessoais quanto pelo convívio com pessoas que compartilhavam da mesma visão de mundo, como Nachtschatten. A combinação entre revolta, inconformismo e uma postura absolutamente antissocial tornou-se o combustível criativo que moldaria a identidade sonora de ISEGRIM, estabelecendo uma conexão inseparável entre o indivíduo e sua obra.

Essa relação entre filosofia pessoal e expressão artística também aparece de forma muito clara quando o músico aborda um dos elementos centrais do imaginário da banda: a figura do lobo. Embora o animal seja frequentemente utilizado dentro do universo do black metal como símbolo de força ou selvageria, Blackwar atribui a ele um significado muito mais amplo. Em sua visão, o verdadeiro elemento destrutivo da natureza não é o lobo, tradicionalmente demonizado pelo cristianismo, mas sim a própria humanidade. Para ele, o ser humano representa uma ruptura no equilíbrio natural do planeta, enquanto o lobo simboliza justamente a ordem estabelecida pela própria natureza. A ideia da alcateia, do líder e da sobrevivência do mais forte acaba refletindo diretamente a filosofia que acompanha ISEGRIM desde sua fundação e que continua presente em sua maneira de compreender o mundo.

Embora mantenha uma ligação inabalável com o black metal tradicional, Blackwar evita transformar sua posição em um discurso puramente saudosista. Em vez de condenar as novas gerações ou afirmar que apenas o passado possuía legitimidade, ele reconhece que cada época desenvolve suas próprias características. Ainda assim, deixa claro que sua paixão continua enraizada na música que descobriu durante os anos 1980, quando bandas como Venom, Bathory e Celtic Frost definiram aquilo que viria a ser sua identidade artística. A influência desses nomes não aparece apenas na sonoridade, mas sobretudo na maneira como ele entende o black metal: uma manifestação de personalidade antes de qualquer preocupação técnica ou comercial.

Essa preocupação com a autenticidade também se manifesta na construção da identidade visual de ISEGRIM. Em uma época em que boa parte dos artistas trata corpsepaint, spikes, correntes e cruzes invertidas como recursos meramente estéticos ou promocionais, Blackwar insiste que tais elementos continuam sendo parte integrante de sua expressão artística. Ele relembra a forte influência causada pela capa de Sentence of Death, do Destruction, durante sua juventude e afirma que seu visual nunca foi concebido como um figurino, mas como uma extensão natural do universo construído por sua música. A atmosfera criada durante as gravações reforça essa ideia: o estúdio permanece quase completamente escuro, iluminado apenas por luzes verdes e velas, enquanto pentagramas e antigos pôsteres ajudam a estabelecer um ambiente que, para ele, faz parte do próprio processo de criação.

Outro aspecto particularmente revelador da entrevista diz respeito à forma como Blackwar encara o próprio conceito de banda. Apesar de ISEGRIM ter contado com músicos para apresentações ao vivo durante o início dos anos 2000, chegando inclusive a participar de eventos importantes como o Summer Breeze e dividir palco com o Eisregen, essa experiência acabou se transformando em uma de suas maiores decepções. À medida que outros integrantes passaram a interferir diretamente nas composições, ele percebeu que o projeto começava a perder sua identidade original. A decisão de encerrar aquela formação foi, segundo o próprio músico, inevitável. Desde então, ISEGRIM voltou a ser aquilo que sempre deveria ter sido: a manifestação criativa de uma única pessoa. Não por acaso, Blackwar afirma categoricamente que “ISEGRIM só pode existir comigo”, frase que sintetiza toda a filosofia construída ao longo de quase três décadas.

Essa necessidade de preservar a identidade do projeto também orientou o recente relançamento em vinil do material originalmente publicado em 1999. Mais do que simplesmente disponibilizar novamente aquelas gravações, Blackwar buscava recuperar a apresentação visual que sempre considerou mais fiel ao espírito do trabalho. Em parceria com Markus Wosgien, da Fireflash Records, refez fotografias, restaurou a arte original, reorganizou encartes e acrescentou um livreto histórico, transformando a nova edição em uma verdadeira celebração da memória do projeto. Até mesmo um cartão autografado foi incluído como forma de agradecer aos colecionadores que mantiveram vivo o interesse pelo ISEGRIM durante todos esses anos.

Embora o material tenha sido frequentemente classificado como um EP por diversas publicações especializadas, Blackwar explica que sua intenção original sempre foi lançar um registro curto, composto por quatro músicas rápidas e objetivas, concebidas como sucessivos ataques sonoros. A inclusão das faixas bônus na edição atual amplia naturalmente a duração do disco e justifica sua apresentação como álbum completo, mas sem alterar a essência daquelas gravações. O mesmo cuidado aparece na remasterização realizada em parceria com Nils Lesser, que procurou preservar a aspereza característica das gravações originais em vez de submetê-las a uma modernização excessiva. Até mesmo o antigo videoclipe de “Angel with Fire and Sword”, originalmente registrado em VHS, foi restaurado respeitando suas limitações técnicas e sua atmosfera original.

Entre as novidades da reedição destaca-se ainda a inclusão de “Bestial Invasion”, clássico absoluto do Destruction. A escolha da música vai além de uma simples homenagem. Ela estabelece uma ligação direta entre ISEGRIM e uma das bandas responsáveis por despertar em Blackwar o interesse pela música extrema ainda durante sua adolescência. A intenção inicial era inclusive contar com a participação de Schmier nos vocais, colaboração que acabou não acontecendo devido aos compromissos do músico com o Destruction. Ainda assim, a presença da faixa funciona como um reconhecimento explícito da importância histórica exercida pelo thrash metal alemão sobre a formação artística de seu criador.

Se o relançamento representa uma reconciliação com o passado, o futuro também ocupa um espaço importante na entrevista. Blackwar confirma estar trabalhando na gravação de oito novas composições que integrarão o segundo álbum de ISEGRIM, previsto para 2027, quando o projeto celebrará trinta e cinco anos de atividade. Segundo ele, o novo disco apresentará uma sonoridade diversificada, mas permanecerá completamente fiel à identidade construída desde os primeiros anos da banda. A capa, dedicada à figura de Lúcifer diante de uma monumental representação do Céu e do Inferno, reforça a continuidade temática que sempre caracterizou o projeto, enquanto algumas das novas composições retomam deliberadamente o espírito do material lançado no final da década de 1990.

Ao encerrar a conversa, Blackwar resume sua relação com ISEGRIM em uma imagem que parece condensar toda a filosofia desenvolvida ao longo de sua carreira. Ele afirma que o projeto representa “o coração negro em seu peito” e que apenas pequenos fragmentos desse coração podem ser oferecidos ao público, pois entregar tudo significaria sua própria morte. A frase, carregada de simbolismo, evidencia que ISEGRIM nunca foi concebido como um empreendimento artístico convencional. Trata-se de uma manifestação profundamente pessoal, construída sobre convicções que permaneceram praticamente intactas desde 1998.

Em uma época em que o black metal frequentemente oscila entre a tradição e a reinvenção, ISEGRIM ocupa um lugar singular. Seu retorno não pretende reviver nostalgicamente uma era passada nem adaptar-se às expectativas do presente. Ao contrário, reafirma que ainda existem artistas para os quais o black metal continua sendo, antes de tudo, uma extensão direta de sua própria existência. Talvez seja justamente essa fidelidade absoluta às próprias convicções que faça de A. Blackwar uma figura tão respeitada no underground europeu: alguém que nunca permitiu que o tempo diluísse aquilo que, desde o início, considerou inegociável.

Fonte da entrevista original: Kronus Mortus.

Anton Naberius

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