Em 2024, o Aethyrick reafirmou sua devoção ao Black Metal atmosférico e melódico com um trabalho que transformou a morte em contemplação, transcendência e permanência espiritual.
Existem bandas que compreendem o Black Metal apenas como agressão. Outras entendem que a verdadeira essência do gênero reside na capacidade de transportar o ouvinte para além do mundo tangível, conduzindo-o a estados contemplativos onde memória, espiritualidade e escuridão coexistem. Para mim, o Aethyrick sempre pertenceu à segunda categoria.
Oriundo da Finlândia, país responsável por algumas das manifestações mais melancólicas e atmosféricas da música extrema, o duo construiu ao longo dos anos uma identidade profundamente ligada à tradição do Black Metal melódico dos anos 1990. Em setembro de 2024, a banda apresentou o EP “Death Is Absent”, um lançamento que, embora não tenha recebido o mesmo destaque de obras mais comerciais da cena, merece ser revisitado por aqueles que apreciam a faceta mais espiritual e introspectiva do gênero.
Naquele período, o Aethyrick atravessava uma fase de transição. O encerramento das atividades da gravadora The Sinister Flame, parceira de longa data do grupo, representou o fim de um capítulo importante. Ainda assim, a criatividade da banda permaneceu intacta. O material encontrou abrigo na End All Life Productions, selo francês conhecido por sua dedicação ao underground extremo europeu.
O resultado foi um trabalho que não buscava reinventar a fórmula do Black Metal finlandês, mas aperfeiçoá-la.
Em “Death Is Absent”, o Aethyrick aprofunda elementos que já haviam sido explorados em seus lançamentos anteriores: melodias envolventes, atmosferas contemplativas, riffs carregados de emoção e uma abordagem espiritual que transcende os clichês mais comuns do gênero. Há uma clara reverência aos grandes nomes da segunda onda do Black Metal, mas sem soar como mera reprodução nostálgica.
O EP transmite a sensação de caminhar por florestas antigas cobertas por neblina, onde cada nota parece ecoar através de ruínas esquecidas pelo tempo. As composições alternam momentos de serenidade melancólica com explosões de intensidade, sempre preservando uma identidade profundamente finlandesa.
O conceito lírico também merece atenção especial. Em vez de tratar a morte como simples aniquilação, o Aethyrick a apresenta como uma passagem. A figura do Ceifador surge não como soberano absoluto, mas como agente de uma transformação inevitável. O espírito permanece. A chama continua acesa. A canção prossegue mesmo após o silêncio.
Essa visão permeia toda a obra e confere ao EP uma profundidade rara em tempos nos quais boa parte do Black Metal parece mais preocupada com estética do que com significado.
Tracklist – “Death Is Absent”
- The Fire That Sires the Sun
- Empyrean Silver
- Beyond All Death
- Midwinter Masks
- The Hands of Fate
- Only Junipers Grow on My Grave
Entre os destaques do trabalho, “Beyond All Death” sintetiza de forma exemplar a proposta conceitual do EP, enquanto “Only Junipers Grow on My Grave” encerra a jornada com uma atmosfera quase ritualística, carregada de resignação e beleza melancólica.
O que mais me chama atenção em “Death Is Absent” é sua capacidade de permanecer relevante mesmo após o impacto inicial de seu lançamento. Não se trata de um disco criado para impressionar instantaneamente. Sua força reside justamente na repetição das audições, quando seus detalhes atmosféricos e emocionais começam a se revelar gradualmente.
Em uma cena frequentemente dominada por lançamentos efêmeros, o Aethyrick demonstrou em 2024 que ainda existe espaço para obras construídas com paciência, profundidade e propósito. “Death Is Absent” permanece como um dos registros mais elegantes do Black Metal atmosférico finlandês recente e um testemunho da capacidade da banda de transformar temas universais como mortalidade, memória e transcendência em arte genuinamente tocante.
Fonte: Kronus Mortus News.



