Entre a ortodoxia do Black Metal, a busca metafísica e o confronto real com a morte, a trajetória do Blaze of Perdition revela como antigas certezas podem ser consumidas pela dúvida e como, das ruínas de uma crença no desconhecido, pode nascer uma expressão ainda mais profunda.
Há momentos em que a arte procura o abismo, aproximando-se dele através de símbolos, ritos e linguagens construídas para sondar aquilo que permanece além da experiência ordinária. Em outros, porém, o abismo simplesmente se abre sob os pés de quem o contempla, indiferente às convicções, aos sistemas filosóficos e às expectativas acumuladas durante anos de investigação espiritual. A trajetória do BLAZE OF PERDITION parece existir precisamente na interseção entre essas duas experiências. Surgida nas sombras da cena polonesa de Black Metal do período pós-milênio, a banda construiu parte significativa de sua identidade sobre a ideia de que a música poderia ultrapassar os limites do entretenimento e da provocação estética. Havia, em seus primeiros anos, uma compreensão do som como linguagem espiritual e uma convicção de que a própria execução musical poderia adquirir natureza ritualística. Anos depois, quando Sonneillon foi violentamente conduzido à fronteira concreta entre a existência e a morte, essa antiga expectativa de contato com o desconhecido seria submetida a uma experiência para a qual nenhum símbolo poderia prepará-lo. O resultado não foi uma revelação luminosa, mas a dúvida diante de uma escuridão descrita por ele como fria e indiferente.
Observada através das declarações de Sonneillon e XCIII na entrevista conduzida por Niklas Göransson, a história do BLAZE OF PERDITION ultrapassa os limites de uma simples cronologia discográfica. Seus álbuns parecem registrar diferentes estados de consciência, acompanhando transformações que atingiram diretamente os indivíduos responsáveis por sua criação. A ortodoxia, o esoterismo, a espiritualidade, o satanismo, o luciferianismo, o trauma e uma posterior inclinação ao estoicismo não aparecem como conceitos artificialmente adicionados à música para revesti-la de profundidade. Ao contrário, surgem como consequência de experiências, conflitos e mudanças de perspectiva que gradualmente alteraram a relação da banda com sua própria linguagem. Nesse sentido, compreender o BLAZE OF PERDITION exige acompanhar não apenas a evolução de seu som, mas também o lento desmoronamento de determinadas certezas e a maneira como a dúvida passou a ocupar o espaço anteriormente reservado às convicções metafísicas.
Antes do BLAZE OF PERDITION existia o PERDITION, projeto que, segundo XCIII, refletia parte dos problemas que ele identificava no Black Metal de meados dos anos 2000. Em sua percepção, o gênero atravessava um período no qual começava a se tornar difícil levá-lo inteiramente a sério. Ainda existia o desejo de explorar sonoridades extremas, e a música servia como força motriz para seu retorno à prática da guitarra, mas aquela forma de criação gradualmente se mostrou insuficiente. XCIII começou a encarar a música de maneira cada vez mais pessoal e sentiu a necessidade de encontrar um veículo que lhe permitisse expressar suas ideias com maior precisão. A transformação do PERDITION em BLAZE OF PERDITION, ocorrida em 2007 após a saída do vocalista Xaos Oblivion e uma série de divergências artísticas, deve ser compreendida dentro desse processo de busca por uma identidade capaz de corresponder a uma necessidade interior mais profunda.
A entrada de Sonneillon e Ashgan nos vocais criou inicialmente uma configuração incomum, com dois frontmen dividindo espaço dentro da banda. Segundo Sonneillon, ambos haviam demonstrado interesse em participar do projeto, enquanto XCIII simplesmente não conseguia escolher entre eles. A solução foi incorporar os dois, permitindo que perspectivas distintas participassem da construção de uma identidade ainda em formação. Em 2009, essa nova configuração produziu o EP Deus Rex Nihilum Est e um split com os russos do PSEUDOGOD. No ano seguinte, Towards the Blaze of Perdition apresentou oficialmente a banda em formato de álbum, embora seu lançamento pela Putrid Prophet Productions tenha deixado lembranças profundamente negativas em XCIII. Atrasos, problemas de impressão e uma distribuição considerada insatisfatória fizeram com que ele posteriormente definisse aquela experiência como a própria personificação do potencial desperdiçado. Apesar disso, o músico considera que o BLAZE OF PERDITION esteve entre os primeiros grupos a apresentar ao público polonês aquele tipo específico de expressão sonora e estética.
A recepção na Polônia, contudo, esteve longe de ser consensual. XCIII recorda que a banda ocupava uma posição quase anômala dentro de sua própria cena e chegou a ser desprezada por parte do público, que a acusava de seguir tendências ou copiar o WATAIN. Segundo sua leitura, o Black Metal de direita possuía presença consideravelmente mais forte no país naquele período, e sua crítica a esse ambiente não se restringe aos aspectos políticos. Para XCIII, parte da cena local compartilhava elementos demais com o tradicionalismo cristão, algo que considerava incompatível, por princípio, com a perspectiva desenvolvida pelo BLAZE OF PERDITION. Essa posição ajuda a compreender a proximidade da banda com aquilo que passou a ser denominado Black Metal ortodoxo, corrente que, embora posteriormente tenha sofrido com repetição, desgaste e saturação, surgiu inicialmente como uma resposta ao esvaziamento percebido no underground da virada do milênio.
Na visão de XCIII, houve uma verdadeira crise na cena. Enquanto diversas referências clássicas pareciam ter perdido o rumo, a nova corrente ortodoxa reintroduziu uma seriedade e uma intensidade que ele considerava necessárias. O músico descreve esse movimento como uma “besta” capaz de revitalizar o gênero através de paixão e energia sinceras e reconhece o BLAZE OF PERDITION como um de seus filhos. Essa filiação, entretanto, não significava adesão a uma caricatura de satanismo festivo ou à simples repetição de gestos anticristãos. XCIII estabelece uma diferença clara entre a abordagem da banda e aquilo que ironicamente resume como a mentalidade de “vamos ficar bêbados e louvar Satã”. Para ele, havia uma convicção real no interior daquilo que estavam construindo. Mesmo sem conseguir definir exatamente qual posição o BLAZE OF PERDITION ocupava dentro da corrente ortodoxa, o músico insiste que seus integrantes acreditavam profundamente no que faziam.
É justamente nesse ponto que a trajetória da banda começa a ultrapassar o campo estritamente musical. Quando questionado sobre a possibilidade de algum contato percebido com o metafísico, Sonneillon admite que, naquele período, acreditava verdadeiramente que isso fosse possível. Ele havia se convencido de que a reverência sonora e a adoração poderiam estabelecer uma forma de contato espiritual, transformando a execução musical em ato ritualístico. “Eu havia me convencido de que era possível estabelecer contato espiritual por meio da reverência e da adoração sonora — de que executar música poderia, por si só, tornar-se um ato ritualístico”, recorda. A declaração adquire uma dimensão ainda mais profunda quando observada à luz dos acontecimentos posteriores, pois o homem que acreditava ser possível utilizar o som como ponte para aquilo que existia além do mundo sensível seria, anos depois, lançado involuntariamente a uma fronteira muito mais concreta com o desconhecido.
Durante essa primeira fase, contudo, a investigação espiritual ainda encontrava sustentação no esoterismo e em sistemas simbólicos capazes de organizar a busca pelo invisível. Embora o BLAZE OF PERDITION estivesse sonora e esteticamente relacionado à corrente ortodoxa, suas primeiras letras concentravam-se sobretudo em Thelema e hermetismo. XCIII reconhece que o esoterismo possuía, até certo ponto, uma função catártica, embora rejeite uma interpretação excessivamente simplificada de sua relação com essas ideias. Desde sua origem, a banda serviu como meio de expressão de sua espiritualidade, mas, com a presença de Sonneillon, esse fluxo começou a convergir com temas satânicos e luciferianos. O resultado não foi a imposição de uma doutrina individual sobre os demais integrantes, mas a construção de um espaço no qual diferentes perspectivas encontravam terreno comum suficiente para se desenvolver.
XCIII explica que ele e Sonneillon eram profundamente apaixonados e sinceros em suas convicções, e essa intensidade permitia que as contribuições de um ampliassem as ideias do outro. Mais importante do que a individualidade dos músicos era a própria essência da banda, compreendida como uma entidade distinta. “Esta banda sempre foi um canal para um fluxo contínuo de consciência, permitindo que cada um de nós contribuísse com seus pensamentos pessoais. O foco estava mais na essência da banda como uma entidade distinta e uma mente coletiva do que nos músicos individuais envolvidos”, afirma XCIII. Essa definição oferece uma chave fundamental para compreender o BLAZE OF PERDITION, pois Thelema, hermetismo, satanismo e luciferianismo deixam de funcionar como categorias isoladas de um inventário ocultista e passam a integrar uma linguagem construída através da convergência de diferentes consciências.
Lançado em outubro de 2011, The Hierophant representa um dos momentos mais evidentes dessa busca por coerência conceitual. Naquele período, a banda havia assinado com a Pagan Records, selo polonês de trajetória respeitável durante os anos 1990. XCIII inicialmente considerou a parceria positiva, mas posteriormente passou a questionar a decisão. Antes do contrato, possuía diversos contatos internacionais e percebia que a música do BLAZE OF PERDITION encontrava melhor recepção fora da Polônia. A associação com a Pagan Records, em sua análise retrospectiva, manteve o grupo excessivamente ligado a uma cena local na qual nunca se encaixara completamente. A sensação de potencial inexplorado que marcara o primeiro álbum parecia repetir-se, produzindo mais tempo desperdiçado e uma nova lição.
Apesar das dificuldades externas, The Hierophant revelou uma banda profundamente concentrada na organização de seu universo interior. Sonneillon, através de seu estúdio Kontamination Design, participou diretamente da construção visual do álbum, concebendo letras, imagens, fotografias e símbolos como partes de uma mesma estrutura. O objetivo era afastar-se da prática superficial de reunir elementos obscuros apenas porque possuíam uma aparência ameaçadora ou misteriosa. Para Sonneillon, “embora o simbolismo obscuro possa ser visualmente atraente, ele não significa nada sem o contexto adequado”. Sua observação atinge uma das contradições mais recorrentes da estética ocultista dentro do Black Metal, onde símbolos frequentemente são removidos de seus contextos e transformados em ornamentos. Em The Hierophant, a presença de três letristas diferentes exigiu pesquisa e intensa comunicação interna, pois a imagem deveria complementar a palavra e a palavra precisava permanecer integrada ao conceito geral do álbum.
No centro dessa construção estava a ideia de evolução espiritual, e o Tarô foi incorporado como parte do sistema simbólico do disco. Entretanto, o Sonneillon que hoje observa The Hierophant já não possui exatamente a mesma relação com essas ferramentas. Questionado sobre a capacidade do Tarô de prever o futuro ou influenciar a realidade, ele responde negativamente e afirma compreendê-lo atualmente como instrumento de autodescoberta, contemplação e meditação. Seu valor estaria mais próximo de um auxílio psicológico do que de uma tecnologia metafísica capaz de moldar o mundo. Essa mudança poderia ser interpretada como consequência natural do amadurecimento, mas, dentro da história do BLAZE OF PERDITION, existe uma ruptura muito mais violenta entre a antiga convicção e a dúvida que gradualmente ocuparia seu lugar.
Em 2012, Ashgan deixou as funções vocais. A tentativa de combinar duas vozes e duas atitudes profundamente diferentes havia se tornado cada vez mais difícil, exigindo esforços constantes para preservar a coerência da banda. XCIII decidiu retornar a uma estrutura mais tradicional, e sua amizade com Sonneillon já havia se aprofundado suficientemente para que ambos desenvolvessem uma química artística particular. Pouco depois, o grupo gravou duas faixas para um split com o DEVATHORN, concebidas como uma antecipação da nova direção que pretendia seguir. O futuro parecia novamente aberto diante da banda, mas, logo após o lançamento, um acontecimento interromperia brutalmente qualquer continuidade previsível.
Nas primeiras horas de 2 de novembro de 2013, enquanto viajava para uma apresentação, o BLAZE OF PERDITION sofreu um grave acidente em uma rodovia da Baixa Áustria. O motorista havia permanecido acordado durante toda a noite e, ao cochilar por um instante, perdeu o controle do veículo. Sonneillon dormia no momento do impacto e suas lembranças permanecem fragmentadas. Existem lampejos do choque e dos momentos posteriores, mas ele próprio questiona se essas imagens constituem memórias verdadeiras ou tentativas de seu cérebro de reconstruir uma sequência perdida. Quando procura recordar os detalhes, encontra algo semelhante a um sonho distante, composto por visões vagas e cenas breves incapazes de formar uma memória coerente. No período imediatamente posterior ao acidente, toda percepção de tempo e espaço desapareceu.
Sonneillon permaneceu em coma por aproximadamente duas semanas, e o retorno à consciência ocorreu de maneira gradual. Primeiro surgiram vozes desconhecidas ao redor de sua cama, enquanto tudo permanecia borrado e onírico. A distinção entre realidade e estado comatoso era instável, e cada breve despertar parecia conduzi-lo um pouco mais perto da consciência plena. Quando finalmente abriu os olhos, estava paralisado e fortemente sedado em um hospital austríaco, cercado por enfermeiras que falavam alemão e sem qualquer compreensão clara do que havia acontecido. A experiência, em suas palavras, foi profundamente surreal e perturbadora para a mente.
O acidente também matou 23, amigo próximo e baixista da banda. Uma campanha de financiamento coletivo foi organizada para possibilitar o transporte médico de Sonneillon de volta à Polônia, em um processo que envolveu também o translado do corpo de seu companheiro. O vocalista admite nunca ter investigado profundamente como toda a operação foi organizada. Sua forma de abordar o assunto combina gratidão e um humor brutal, quase desconfortável, como se a linguagem áspera lhe permitisse tocar em uma experiência cuja dimensão talvez continue impossível de organizar completamente. Não existe, em seu relato, qualquer tentativa de construir uma narrativa sentimental em torno da tragédia. O que aparece é a consciência de que uma realidade havia terminado e outra, radicalmente diferente, começava.
Ao despertar, o homem que anteriormente acreditava na música como instrumento de contato espiritual encontrou uma nova realidade material. A cadeira de rodas passou a integrar sua existência, tarefas simples tornaram-se difíceis e a adaptação exigiu força de vontade, além do apoio de amigos e familiares. Sonneillon afirma ter compreendido relativamente cedo que permanecer consumido pelo acontecimento não modificaria sua situação. “Eu precisava me adaptar. Muitas coisas continuam difíceis e estou constantemente aprendendo. Até as tarefas mais simples podem ser complicadas quando você está preso a uma cadeira de rodas. Mas o que posso fazer além de descobrir como viver com isso?”, questiona. Não há nessa declaração uma romantização do trauma ou a tentativa de apresentar o sofrimento como caminho obrigatório para algum tipo de elevação. O próprio músico reconhece que outras pessoas podem ser completamente destruídas por experiências semelhantes e insiste que não existe vergonha nisso, pois ninguém conhece sua reação diante de uma catástrofe até ser obrigado a enfrentá-la.
A resposta pessoal de Sonneillon foi voltar-se progressivamente para o interior. Ao refletir sobre a experiência de S.D., do AVERSIO HUMANITATIS, igualmente paralisado após um acidente em 2013, ele identifica uma redução da dependência em relação à própria presença física. Sua atenção deixou de permanecer fixada na deficiência e se concentrou no mundo interior, levando-o a formular uma das imagens mais perturbadoras de toda a entrevista: “Minha mente é como um hospício onde posso me expressar e me curar sempre que necessário”. O espaço mental não aparece como um templo de iluminação ou um refúgio de serenidade permanente, mas como um ambiente caótico no qual pensamentos, dores e experiências podem ser confrontados, expressos e, eventualmente, transformados.
A música e o design gráfico assumiram importância fundamental nesse processo. A continuidade de seu trabalho com a Kontamination Design e sua atividade musical ofereceram um senso de propósito e algo pelo qual esperar a cada dia. Sonneillon explica que não procura simplesmente reprimir pensamentos indesejados, mas canalizá-los para a produtividade. A criação torna-se uma forma de organização psíquica, um mecanismo através do qual sentimentos potencialmente destrutivos podem adquirir forma. Antes mesmo de deixar o hospital, ele já havia concebido o título Near Death Revelations e começado a escrever letras para aquilo que se transformaria no terceiro álbum do BLAZE OF PERDITION.
Lançado pela Agonia Records em junho de 2015, aproximadamente um ano e meio após o acidente, Near Death Revelations poderia facilmente ter sido convertido em um disco sobre superação ou em uma narrativa iniciática na qual o sobrevivente retorna da fronteira da morte carregando algum conhecimento inacessível aos demais. Dentro de um gênero profundamente fascinado pelo oculto, pelo além e pelas regiões limítrofes da existência, essa interpretação quase se oferecia espontaneamente. Entretanto, foi justamente essa expectativa que o álbum recusou. O título carrega uma ironia amarga, pois a proximidade da morte não ofereceu a Sonneillon qualquer revelação capaz de solucionar as antigas questões que alimentavam sua busca espiritual.
As duas últimas faixas do disco, “The Tunnel” e “Of No Light”, formam juntas um único título: The Tunnel of No Light, o túnel sem luz. A construção desmonta deliberadamente um dos arquétipos mais conhecidos associados às experiências de quase-morte. Não há luminosidade orientadora, entidade aguardando além do véu ou conhecimento oculto revelado ao sobrevivente. “A minha provação não trouxe, para citar uma das músicas, ‘sabedoria alguma, apenas confusão’”, explica Sonneillon. A violência filosófica dessa afirmação nasce precisamente do contraste entre sua antiga relação com o metafísico e aquilo que encontrou quando a morte deixou de ser símbolo para tornar-se uma possibilidade concreta.
Durante séculos, sistemas religiosos, esotéricos e místicos construíram mapas para aquilo que supostamente existe além da morte. Luzes, passagens, entidades, julgamentos, renascimentos e estados superiores de consciência oferecem estruturas através das quais o ser humano tenta organizar o medo diante de sua própria extinção. Sonneillon havia dedicado parte de sua trajetória à investigação espiritual e acreditado na possibilidade de contato através da reverência sonora. Contudo, quando chegou involuntariamente à fronteira que antes contemplava por meio de símbolos, não encontrou confirmação alguma. “Independentemente das crenças, dos rituais realizados ou dos livros iluminadores lidos, encarar a morte é inimaginável até que você esteja exatamente à sua beira. E, para mim, não havia nada — nenhuma luz guia, apenas uma descida gradual rumo a uma escuridão fria e indiferente”, afirma.
Talvez a dimensão mais profunda de Near Death Revelations esteja justamente na ausência de uma revelação definitiva. Sonneillon, porém, não converte o vazio experimentado em uma nova forma de dogma. Sua antiga convicção não é simplesmente substituída pela certeza absoluta de que nada existe. A dúvida, que já estava presente antes do acidente, apenas se intensifica. Em uma entrevista de 2021 relacionada ao MĀNBRYNE, ele declarou que “a dúvida está sempre presente, mesmo agora, porque eu realmente não acredito em respostas finais ou verdades absolutas”. A antiga crença de que o som poderia estabelecer uma ponte com o metafísico dá lugar a uma suspeita permanente diante de qualquer resposta conclusiva, inclusive daquelas formuladas pelo próprio cérebro diante da morte.
Mesmo a sensação de paz que Sonneillon recorda durante sua descida à escuridão permanece submetida ao questionamento. Ele não sabe se experimentou algo que pudesse ser interpretado como transcendência ou se aquela tranquilidade representava apenas o cérebro resignando-se ao próprio destino e preparando-se para desligar. A incapacidade de oferecer uma resposta torna-se mais importante do que qualquer tentativa de preencher o vazio com uma nova crença. O desconhecido deixa de ser um território que precisa necessariamente ser dominado por símbolos e passa a existir como aquilo que talvez seja em sua forma mais brutal: algo indiferente à necessidade humana de compreender.
É nesse território que o BLAZE OF PERDITION começa a se afastar de sua antiga ortodoxia sem renegar completamente as próprias raízes. Near Death Revelations transforma o trauma em matéria sonora e lírica, enquanto XCIII atravessava seu próprio processo de mudança. Experiências psicodélicas modificaram sua percepção da composição e da essência do som, ao mesmo tempo em que o acidente alterava profundamente a escrita de Sonneillon. Essas duas trajetórias convergiram em uma nova direção e, segundo XCIII, redefiniram a música da banda, conferindo-lhe uma profundidade pessoal singular. As drogas fizeram parte desse período específico, antes e depois do acidente, mas o músico afirma estar completamente limpo desde então.
A transformação prosseguiu em Conscious Darkness, lançado em novembro de 2017. Depois de canalizar a violência de sua experiência em Near Death Revelations, Sonneillon afirma ter se tornado mais tranquilo. Seu weltschmerz, a dor do mundo que ocasionalmente retorna como lembrança dolorosa e fonte de inspiração, não desapareceu, mas passou a ser administrado. Em um nível mais profundo, o vocalista acredita ter encontrado alguma forma de paz, e essa mudança explica por que as letras de Conscious Darkness e de seu sucessor abandonaram parte da fúria presente no álbum anterior para assumir um caráter mais reflexivo e estoico. Paralelamente, a banda tornou-se progressivamente indiferente àquilo que outras pessoas esperavam ou exigiam de um grupo de Black Metal.
Essa independência tornou-se ainda mais perceptível em The Harrowing of Hearts, lançado em fevereiro de 2020. Depois de dois álbuns pela Agonia Records, o BLAZE OF PERDITION assinou com a Metal Blade e apresentou um trabalho que, em uma primeira audição, poderia parecer mais acessível devido a determinadas estruturas próximas da canção. Sonneillon, entretanto, insiste que o disco é intrincado e detalhado, exigindo atenção e sucessivas audições para revelar suas camadas. Parte do público reagiu negativamente ao fato de o álbum não possuir a mesma atmosfera opressiva de trabalhos anteriores, e a associação com uma gravadora de maior projeção alimentou acusações de que a banda havia se vendido. Para Sonneillon, esse tipo de narrativa já não merece mais do que uma risada.
Existe uma ironia particular nessa indiferença. Durante seus primeiros anos, o BLAZE OF PERDITION esteve profundamente inserido em uma corrente marcada pela seriedade, pela convicção e por rígidos códigos de autenticidade. Décadas depois, a banda alcançou um ponto no qual já não parece sentir necessidade de demonstrar fidelidade às expectativas externas. A experiência concreta atravessada por seus integrantes, sobretudo por Sonneillon, revelou-se mais profunda e destrutiva do que qualquer julgamento proveniente da cena. Isso não significa, entretanto, que suas raízes tenham sido abandonadas. O vocalista reconhece que a música da banda pode ter evoluído para além do Black Metal “puro”, mas sua atitude e seu senso estético continuam ligados às cenas dos anos 1980, 1990 e início dos anos 2000.
Essa ligação também permanece na maneira como o grupo pensa sua produção sonora. O BLAZE OF PERDITION prefere um som orgânico, capaz de preservar a atmosfera, e Sonneillon considera que uma produção excessivamente polida pode destruir a essência de uma obra independentemente da qualidade de suas composições. O objetivo é encontrar equilíbrio entre profissionalismo e a manutenção de uma aura escura e inquietante. A clareza sonora não deve eliminar a presença da sombra, assim como a evolução musical não precisa significar ruptura completa com o impulso que originou a banda.
A relação de Sonneillon com o Black Metal tornou-se, contudo, muito mais complexa do que a devoção quase fanática de seus primeiros anos. Ele reconhece que a banda viveu um período de fervor juvenil intenso e que determinadas declarações exageradas ou atitudes extremas podem parecer absurdas quando observadas com a distância proporcionada pelo tempo. Ainda assim, foi naquele ambiente que a primeira centelha surgiu. Sonneillon admite sentir alguma nostalgia daquele período, embora não deseje revivê-lo. O Black Metal tornou-se uma parte imensa de sua vida, permaneceu presente em suas buscas artísticas e, de maneira indireta, esteve ligado à provação mais difícil que já enfrentou. Foi durante uma viagem para uma apresentação que o acidente aconteceu, fazendo com que a música anteriormente utilizada como instrumento de exploração do desconhecido o conduzisse, por uma cadeia brutal de circunstâncias, ao confronto mais concreto possível com esse mesmo desconhecido.

Hoje, Sonneillon descreve sua relação com o gênero como uma relação de “amor e ódio”. Continua admirando profundamente a música e reconhece valor em suas diferentes manifestações, desde expressões antirreligiosas superficiais até conteúdos mais complexos, mas demonstra cansaço diante dos narcisistas e edgelords que habitam a cena. Sua crítica não parte de uma posição de superioridade, pois ele próprio admite ter sido um deles. O amadurecimento não apagou suas origens, mas alterou sua capacidade de observá-las. Apesar de todas as mudanças, alguma coisa permaneceu intacta, sintetizada quando afirma que “meu romance com a imundície existente em seu interior continua sendo, até hoje, aquilo que me impulsiona adiante”.
Talvez seja precisamente nesse romance com a imundície que o BLAZE OF PERDITION encontre sua forma mais sincera de permanência. Não na preservação artificial de uma ortodoxia, na repetição de símbolos cujo contexto se perdeu ou na necessidade de oferecer respostas definitivas sobre aquilo que existe além do véu, mas na fidelidade a uma linguagem capaz de penetrar regiões desconfortáveis da consciência. Nos primeiros anos, Sonneillon acreditava que a música poderia tornar-se ritual e estabelecer contato espiritual. Depois, a morte aproximou-se sem qualquer cerimônia, sem círculo traçado, invocação ou preparação. Houve metal retorcido, fragmentos de memória, duas semanas de coma, um hospital estrangeiro, a perda de um amigo e uma realidade física completamente transformada.
Quando o homem que havia contemplado o metafísico através de símbolos tentou recordar aquilo que existia na fronteira da morte, encontrou apenas uma descida em direção à escuridão e a impossibilidade de distinguir uma experiência transcendente do simples processo biológico de um cérebro preparando-se para cessar suas funções. Dessa experiência não nasceu uma nova doutrina, mas uma dúvida mais profunda, e talvez seja justamente essa recusa em preencher o silêncio com respostas artificiais que tenha conduzido o BLAZE OF PERDITION a uma forma mais madura de expressão. O verdadeiro abismo jamais prometeu respostas; talvez tenha sido o ser humano quem, aterrorizado diante de sua indiferença, criou a necessidade de uma revelação. O BLAZE OF PERDITION retornou desse silêncio sem uma verdade absoluta e encontrou, precisamente na ausência de certeza, uma nova profundidade para sua música.
Anton Naberius
Fonte original: GÖRANSSON, Niklas. Blaze of Perdition. Entrevista com Sonneillon e XCIII. Publicada em 14 de fevereiro de 2024. As declarações, informações biográficas, referências discográficas e contextos utilizados neste artigo foram extraídos da entrevista original e preservados em seus respectivos sentidos e contextos.



