Entre as ruas brutais de Vancouver, a obsessão pela autenticidade e a recusa em seguir qualquer convenção, nasceu uma banda cuja influência ultrapassaria o Black Metal tradicional para redefinir os limites do extremo.
Muito antes de o termo war metal tornar-se uma categoria consolidada dentro do underground, sem esquecer que a banda brasileira Holocausto já utilizava o termo em seus registros desde 1985, o Blasphemy existia como uma força que parecia ignorar qualquer classificação. A entrevista concedida por Black Winds e Caller of the Storms revela que a gênese da banda jamais esteve ligada apenas à música. Ela nasceu como consequência direta de um ambiente hostil, de uma juventude marcada pela violência cotidiana e de uma busca obstinada por uma identidade que não pudesse ser confundida com nenhuma outra existente na cena metálica da segunda metade dos anos 1980.
Os relatos conduzem o leitor ao leste de Vancouver, onde Black Winds cresceu ao lado de 3 Black Hearts em um bairro descrito como duro e dominado por famílias de origem alemã vindas da América do Sul. Ainda crianças, ambos desenvolveram uma fascinação pela ideia de formar uma banda. Antes mesmo de dominarem qualquer instrumento, já havia uma convicção quase infantil de que aquela seria sua vocação definitiva. Quando a mãe de 3 Black Hearts comprou bateria, baixo e amplificadores para os garotos, a música deixou de ser um sonho distante para tornar-se uma prática diária, ainda que inicialmente se resumisse a uma sucessão de ruídos produzidos na varanda da casa da avó.
A chegada de Caller of the Storms representou o primeiro salto qualitativo do projeto. Enquanto Black Winds e o baterista ainda aprendiam os fundamentos de seus instrumentos, Storms já possuía habilidade suficiente para ensinar os demais integrantes. As primeiras execuções de “Blasphemer”, do Sodom, e “The Rite of Darkness”, do Bathory, estabeleceram as bases musicais que posteriormente seriam levadas a uma sonoridade muito mais extrema, rápida e caótica.
Entretanto, tão importante quanto a música era a necessidade de construir uma identidade visual absolutamente inédita. Os integrantes rejeitavam qualquer aproximação com o padrão dominante do metal daquela época. Em vez do visual convencional composto por cabelos longos, tênis e jeans, decidiram raspar completamente a cabeça e assumir a definição que eles próprios criaram: “black metal skinheads”. A intenção, segundo Black Winds, jamais esteve associada a movimentos políticos ou ideológicos, mas à busca radical por originalidade. O objetivo era que ninguém pudesse olhar para a banda e confundi-la com qualquer outro grupo existente.
Essa obsessão pela autenticidade também aparece na criação dos elaborados nomes ritualísticos dos integrantes, que evitavam vulgaridades simplistas para construir uma linguagem quase litúrgica, repleta de referências ocultistas e atmosferas macabras. O resultado produzia uma identidade que misturava a agressividade do metal extremo dos anos 1980 com uma imagética sombria próxima tanto da literatura fantástica quanto do ocultismo que permeava parte da cena underground internacional.
Outro aspecto surpreendente revelado pela entrevista é o contraste entre a brutalidade pública da banda e alguns interesses musicais pouco esperados. Embora Black Winds seja lembrado pelos vocais animalescos e pela postura agressiva, ele demonstra interesse por composições atmosféricas e até por música clássica, sendo responsável por interlúdios como “Winds of the Black Godz” e “Ross Bay Intro”. Sua preocupação era criar atmosferas verdadeiramente originais, evitando copiar introduções utilizadas por outras bandas extremas.
A gravação da demo Blood Upon the Altar, em 1989, representa um dos momentos decisivos narrados na entrevista. Os músicos recordam que ainda experimentavam diferentes abordagens vocais e efeitos de estúdio, mas o resultado acabou tornando-se uma referência internacional. Black Winds menciona a intensa troca de cartas com bandas como Sarcófago, Mystifier, Mortuary Drape e Samael durante aquilo que descreve como os “dias das cavernas”, quando toda a comunicação acontecia por correspondência. O entrevistador observa que a demo exerceu influência direta sobre o Beherit e identifica semelhanças vocais que possivelmente também alcançaram o Holocausto, percepção que não é contestada pelos entrevistados.
Paralelamente ao desenvolvimento musical, a rotina do Blasphemy era marcada por uma disciplina física quase tão intensa quanto os ensaios. O levantamento de peso aparece repetidamente como parte inseparável da identidade da banda. Após longas sessões na academia, os integrantes realizavam treinamentos em escadarias íngremes usando pesos presos aos tornozelos até atingirem o limite da exaustão. A construção daquela imagem de guerreiros cobertos por couro, munições, espinhos e pintura facial não era apenas uma estratégia estética, mas consequência de um estilo de vida baseado em força física e resistência.
Se por um lado havia disciplina, por outro existia uma impressionante sucessão de episódios violentos que atravessa toda a entrevista. Caller of the Storms relembra confrontos constantes com integrantes da cena punk de Vancouver, culminando em um ferimento gravíssimo que quase lhe custou o braço após uma briga em uma festa. Black Winds, por sua vez, narra em detalhes o episódio em que foi esfaqueado no pescoço durante uma tentativa de assalto, sofreu ruptura da jugular, foi atropelado ao atravessar uma avenida em estado de choque e sobreviveu apenas graças à intervenção improvisada de um veterano da Segunda Guerra Mundial, que estancou a hemorragia antes da chegada da ambulância. O músico descreve o acontecimento sem qualquer dramatização, como mais um entre inúmeros episódios extremos que marcaram sua juventude.
Essa naturalização da violência também ajuda a compreender a reputação adquirida pelo Blasphemy ao longo dos anos. Segundo os músicos, promotores evitavam contratar a banda porque seus shows frequentemente terminavam em confrontos, destruição de patrimônio e intervenções policiais. Embora insistam que jamais incentivaram tais comportamentos, reconhecem que a intensidade da música e a fama construída nas ruas faziam com que suas apresentações fossem encaradas como eventos potencialmente caóticos.
Com toda essa narrativa, é inevitável estabelecer paralelos com aspectos vividos por muitos de nós em Salvador. A paixão pela musculação e a assimilação da imagem construída pelo Blasphemy fizeram parte do imaginário do Death/Black Metal baiano, que em muitos aspectos se aproximava da estética criada pela banda. Não apenas isso: ideias relacionadas à violência, à sobrevivência no ambiente urbano e aos conflitos territoriais marcaram profundamente minha adolescência e, certamente, muitos dos elementos narrados pelo Blasphemy encontram ressonância em experiências semelhantes vividas por nossa geração.

A entrevista ainda revisita a gravação de Fallen Angel of Doom, álbum que consolidaria definitivamente a reputação do grupo. Entre lembranças bem-humoradas, como a destruição acidental de uma guitarra recém-comprada por Marco Banco, surgem também episódios envolvendo investigações policiais após uma sessão de fotos em um cemitério, onde lápides foram incendiadas para compor a ambientação visual. A polícia acreditou estar diante de um ritual satânico, encontrando músicos vestidos para a guerra, carregando correntes, cartucheiras e equipamentos cenográficos que, aos olhos das autoridades, pareciam armamentos reais.
Mais do que uma coleção de histórias extravagantes, a entrevista demonstra como a trajetória do Blasphemy foi construída sobre uma combinação rara de convicção artística, radicalismo estético e circunstâncias pessoais extremas. A brutalidade presente em sua música não surge como uma representação teatral cuidadosamente planejada, mas como extensão de uma existência vivida nos limites físicos e sociais de uma Vancouver pouco romantizada pela história oficial do metal.
Não apenas isso, mas o Blasphemy tornou-se a principal referência de um estilo musical e de uma estética que pode

ser facilmente associada ao chamado Ross Bay Cult, contexto no qual inúmeras bandas canadenses beberam da mesma fonte, como Conqueror e, posteriormente, Revenge; as norte-americanas Black Witchery e Von; a finlandesa Archgoat; a espanhola Proclamation, alguns anos mais tarde; as brasileiras Goatpenis e Impurity — esta última elegendo o Cemitério do Bonfim, em Minas Gerais, como seu principal reduto identitário, de forma semelhante à relação do Blasphemy com o cemitério Ross Bay —; a australiana Bestial Warlust e centenas de outras bandas espalhadas pelo mundo.
Ao final da leitura, torna-se evidente que a importância do Blasphemy não reside apenas em sua contribuição sonora para o desenvolvimento do war metal. Sua influência decorre igualmente da criação de uma identidade absolutamente singular, construída sobre a recusa em seguir tendências, sobre uma dedicação quase obsessiva à autenticidade e sobre uma visão de mundo na qual música, imagem, corpo e comportamento formavam um único organismo. É justamente essa coerência radical que explica por que, mais de três décadas depois, Fallen Angel of Doom permanece como um dos pilares incontornáveis do metal extremo mundial.
Fonte: Niklas Göransson. Blasphemy. Entrevista publicada em Bardo Methodology #5 (excerto disponibilizado em 17 de julho de 2019).



