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DEATHSPELL OMEGA E AS FORNALHAS DA REVELAÇÃO: PALINGENESIA, RUÍNA E AS MANIFESTAÇÕES TERRENAS DO DIABO

Anton Naberius agosto 1, 2026 15 min read

Quando o Deathspell Omega rompeu aproximadamente quinze anos de silêncio para discutir The Furnaces of Palingenesia, não o fez com a intenção de esclarecer os enigmas de sua obra ou oferecer ao público um confortável manual interpretativo. A extensa entrevista concedida a Niklas Göransson em 2019 parece cumprir uma função muito mais complexa: ampliar o próprio território conceitual do álbum e acrescentar novas galerias a um labirinto que a banda francesa vinha construindo, de maneira sistemática, desde Si Monvmentvm Reqvires, Circvmspice. Ao declarar que eram 23h58 no Relógio do Juízo Final, o coletivo não recorria apenas a uma imagem apocalíptica de efeito. Estabelecia a posição histórica a partir da qual desejava falar. O mundo contemporâneo, em sua leitura, já não se encontrava diante da possibilidade abstrata de uma catástrofe futura, mas imerso nas rachaduras de um processo em andamento, no interior de estruturas políticas, tecnológicas, psicológicas e espirituais cuja capacidade destrutiva talvez ainda não tenha sido inteiramente compreendida.

É justamente essa proximidade com o concreto que diferencia The Furnaces of Palingenesia de parte substancial da produção anterior do Deathspell Omega. Se a trilogia formada por Si Monvmentvm Reqvires, Circvmspice, Fas – Ite, Maledicti, in Ignem Aeternum e Paracletus mergulhava em uma linguagem profundamente teológica, construindo uma exploração da relação entre Deus, Satanás, queda, transgressão e conhecimento, as fornalhas de 2019 deslocam o olhar para aquilo que o grupo define como as manifestações terrenas de determinadas realidades espirituais. Não se trata de abandonar a metafísica em favor do comentário político ou social, mas de investigar de que maneira forças anteriormente abordadas através do vocabulário da teologia podem adquirir corpo na história. O inferno deixa de ser apenas uma topografia espiritual e passa a ser observado nos mecanismos pelos quais o homem organiza sociedades, fabrica inimigos, constrói utopias, desenvolve tecnologias e justifica a violência em nome de futuros considerados inevitáveis.

A própria materialidade do álbum foi concebida segundo essa mudança de perspectiva. O Deathspell Omega afirma que cada elemento de uma obra deve participar de uma coerência interna absoluta e, por isso, a decisão de gravar The Furnaces of Palingenesia em equipamento analógico vintage, no Kerwax Studio, na Bretanha, não aparece como nostalgia técnica. Para uma obra preocupada com encarnações terrenas, a banda considerou necessário afastar-se do que chama de conforto abstrato das estações de áudio digital e capturar a energia orgânica de uma execução. As músicas foram preparadas durante meses e, em grande parte, registradas poucas vezes, preservando as performances consideradas mais intensas. “Absolutist Regeneration”, apesar de sua complexidade, teria sido gravada uma única vez. O método revela uma concepção de arte na qual forma e conteúdo não podem ser tratados como instâncias independentes. Se a linguagem conceitual aponta para fornalhas, matéria, transformação e violência histórica, o som também precisa carregar uma fisicalidade correspondente.

Essa busca por coerência conduz diretamente ao conceito de palingenesia. A palavra, associada ao renascimento e à regeneração, recebe no discurso do Deathspell Omega uma dimensão deliberadamente ambivalente. O coletivo recorda que o termo também possui uma acepção bíblica relacionada ao Juízo Final e, a partir dessa duplicidade, constrói uma das ideias fundamentais do álbum: todo renascimento contém, desde o princípio, seu próprio julgamento. Toda revolução que promete destruir uma ordem decadente e inaugurar um mundo novo carrega consigo as condições de uma violência futura. A energia juvenil capaz de despedaçar o velho mundo pode, posteriormente, voltar-se contra os próprios filhos da revolução. O entusiasmo da regeneração e a lógica do expurgo não seriam, portanto, acontecimentos separados por um acidente histórico, mas possibilidades alojadas no interior de uma mesma estrutura.

É nesse ponto que surge a figura do Novo Homem, presença recorrente em movimentos palingenéticos situados em extremos políticos aparentemente irreconciliáveis. Seja recuperado de um passado mitológico imaginado como puro, seja projetado a partir de um paradigma moderno apresentado como científico e objetivo, o Novo Homem nasce da convicção de que o ser humano existente precisa ser corrigido, remodelado ou superado. O problema começa quando a vida concreta inevitavelmente contradiz a perfeição abstrata da ideologia. Diante dessa contradição, a realidade não destrói necessariamente o sistema; frequentemente, é o sistema que procura destruir aquilo que não se encaixa em seu molde. As referências do Deathspell Omega às práticas de reescrita biográfica sob Mao e o Khmer Vermelho revelam a extensão desse processo. Vítimas eram forçadas a reconstruir repetidamente suas próprias histórias, confessando crimes inexistentes ou reorganizando a memória pessoal de acordo com as necessidades paranoicas de uma estrutura que precisava fabricar inimigos para continuar funcionando. A identidade deixa de pertencer ao indivíduo e torna-se matéria disponível para a fornalha.

A imagem da fornalha, portanto, ultrapassa a metáfora industrial. Ela representa um mecanismo de transformação que promete purificar a matéria humana enquanto a submete a temperaturas capazes de destruí-la. O título The Furnaces of Palingenesia sugere que a regeneração moderna talvez seja inseparável de seus instrumentos de combustão. O Deathspell Omega encontra esse padrão tanto nas grandes experiências totalitárias quanto em tendências aparentemente mais banais da vida contemporânea. A erosão da esfera íntima, a intervenção crescente de estruturas institucionais na formação do indivíduo, a necessidade de produzir consenso moral e a desumanização de opiniões divergentes são examinadas não como peças isoladas de um debate partidário, mas como manifestações de um desejo muito mais antigo de reorganizar integralmente a existência humana.

Capa do primeiro álbum “Infernal Battle” 2000

Nesse contexto, a referência de Thomas Hobbes ao Leviatã adquire importância decisiva. Para o Deathspell Omega, um projeto verdadeiramente totalizante não se limita a redefinir o Estado. Sua lógica tende a penetrar todos os aspectos da vida, alcançando a família e, finalmente, a própria mente. A esfera íntima constitui o último abrigo e, exatamente por isso, transforma-se em território a ser conquistado. O grupo menciona Kallocain, de Karin Boye, e as reflexões de Shoshana Zuboff sobre o capitalismo de vigilância para estabelecer uma ponte entre as experiências totalitárias do século XX e as tecnologias contemporâneas de coleta e interpretação de dados. O que torna a situação atual particularmente perturbadora é que grande parte dessa invasão já não precisa ser imposta exclusivamente pela força. Milhões de indivíduos entregam voluntariamente fragmentos de sua intimidade às redes sociais em troca da possibilidade de existir social e profissionalmente.

A partir de Roland Barthes, o coletivo recupera a provocadora afirmação de que o fascismo não consiste apenas em impedir alguém de falar, mas em obrigá-lo a falar. Transportada para o ambiente digital, essa formulação adquire uma inquietante atualidade. Plataformas que incentivam a exposição permanente transformam linguagem, comportamento, localização, preferências e relações em matéria interpretável. O usuário fala mesmo quando acredita estar apenas observando, porque seus rastros produzem dados. A guerra de todos contra todos descrita por Hobbes encontra, assim, um novo campo de batalha, onde a paz institucional pode coexistir com uma guerra civil subterrânea travada através de telas. Nesse espaço, não existem mecanismos de desescalada suficientemente sólidos e facções organizadas podem explorar fragilidades psicológicas, ressentimentos e medos para conduzir os conflitos àquilo que Clausewitz chamou de ascensão aos extremos.

O álbum, entretanto, não apresenta essa realidade a partir de uma posição declaradamente neutra. O Deathspell Omega reconhece que sua obra é simultaneamente diagnóstico, espelho e peça do próprio jogo. O protagonista central permanece sendo o leitor ou o ouvinte. A pergunta essencial não é apenas quem manipula, quem controla ou qual ideologia está correta. A pergunta lançada pelas fornalhas é muito mais desconfortável: quanto você já entregou ao Diabo? Quantos desses mecanismos foram incorporados inconscientemente à sua própria maneira de pensar? O indivíduo que denuncia a corrupção do adversário talvez carregue dentro de si estruturas semelhantes, reorganizadas sob uma linguagem moral diferente. A necessidade de acreditar na própria justiça é identificada como um dos grandes mitos estabilizadores da civilização. O homem precisa acreditar que suas ações são justas, que seu grupo é justo e que o bem e o mal permanecem separados com a clareza do dia e da noite. Quando Deus deixa de sancionar diretamente essa convicção, ordens produzidas pelo próprio homem podem ocupar seu lugar e funcionar como religiões seculares.

Capa do álbum “Inquisitors of Satan” 2002

É nesse sentido que o Deathspell Omega observa uma natureza religiosa no nacionalismo, no marxismo, na ideologia do progresso e até em determinadas narrativas capitalistas. A banda não afirma que todos esses sistemas sejam idênticos, mas procura revelar a recorrência de estruturas de crença, promessas de salvação, inimigos, sacrifícios e horizontes escatológicos. Georges Bataille torna-se fundamental precisamente porque oferece ao coletivo uma linguagem capaz de atravessar as divisões políticas convencionais. Ao definir seu núcleo criativo francês como batailliano, o Deathspell Omega reivindica uma perspectiva de transgressão que busca ultrapassar a oposição confortável entre esquerda e direita. Bataille, leitor profundamente penetrante de Nietzsche, é apresentado como alguém capaz de identificar os fios das marionetes quando diferentes movimentos prometiam respostas absolutas para a humanidade.

A influência de Bataille também ajuda a compreender a ideia de crueldade artística defendida pelo grupo. Crueldade, nesse contexto, não significa simplesmente produzir imagens violentas ou cultivar uma estética hostil. Trata-se, antes de tudo, de uma disciplina dirigida contra o próprio artista. Obras incapazes de alcançar os padrões exigidos devem ser destruídas. O material medíocre precisa ser morto repetidamente, e qualquer complacência representa uma traição ao processo criativo. A arte verdadeiramente relevante surgiria no limite em que a execução implacável e a escolha de temas capazes de confrontar o indivíduo produzem aquilo que a banda chama de espasmo crítico, um momento em que a experiência estética ultrapassa o entretenimento e se aproxima de uma comunhão com os deuses. A interpretação de Beth Gibbons para a Symphony of Sorrowful Songs, de Henryk Górecki, é evocada como exemplo dessa fronteira, quando o luto deixa de ser representação e adquire uma presença quase tangível.

Essa exigência explica igualmente a linguagem musical do Deathspell Omega. A banda recorre a Paul Celan para formular uma pergunta devastadora: como estruturar uma poesia capaz de refletir honestamente o mundo que produziu Auschwitz, os Gulags, os campos de reeducação de Mao e o S-21? E, uma vez encontradas essas palavras, que harmonias, dinâmicas ou riffs poderiam expressá-las sem falsificá-las? Para o coletivo, utilizar uma linguagem musical convencional diante de determinadas realidades pode representar uma forma de incoerência. A influência da música microtonal, da Neue Musik e de compositores como Krzysztof Penderecki e György Ligeti não decorre de uma necessidade de exibir erudição. Em Threnody to the Victims of Hiroshima, Penderecki teria alcançado um ponto em que instrumentos orgânicos parecem transformar-se em animais gritando até a morte. É esse poder de converter som em verdade abstrata e brutal que interessa ao Deathspell Omega.

Por isso, os ritmos convolutos, os padrões numéricos, a dissonância e a rejeição ocasional da melodia surgem como elementos de uma gramática. O grupo insiste que as bases de suas músicas são compostas em uma guitarra Gibson desligada, sem distorção ou efeitos que possam ocultar fragilidades. A complexidade posterior deve nascer de uma estrutura capaz de permanecer exposta. O black metal continua sendo a raiz, o cimento e a definição fundamental de sua música, mas o vocabulário disponível para expressar sua visão foi ampliado por um diálogo imaginário que envolve John Coltrane, Black Sabbath, Diamanda Galás, King Crimson, Judas Priest, Dead Can Dance, Celtic Frost, Kreator, Napalm Death, Carcass, Magma, Immolation, Autopsy, Portishead, Nick Cave, Tom Waits, Scott Walker, Joy Division e inúmeras outras manifestações de radicalidade artística.

A mesma recusa de um humanismo confortável aparece na inversão de Rousseau presente em “Neither Meaning nor Justice”. Se o filósofo afirmava que tudo é bom ao sair das mãos do Autor da natureza e degenera nas mãos do homem, o Deathspell Omega distorce a sentença e conduz o ouvinte para uma visão radicalmente diferente. A ascensão da modernidade antropocêntrica teria colocado o ser humano no centro de um sistema de justificações no qual praticamente qualquer ação pode ser legitimada desde que pareça servir aos interesses da humanidade. O Homo sapiens, entretanto, é descrito como uma espécie particularmente virulenta, cuja expansão talvez esteja relacionada aos primeiros estágios da sexta extinção em massa.

Capa do terceiro álbum “Si Monvmentvm Reqvires, Circvmspice”

A industrialização, nessa leitura, não corrigiu os impulsos agressivos humanos. Pensadores como Saint-Simon, Adam Smith, Herbert Spencer e Auguste Comte teriam compreendido a necessidade de canalizar essa energia e encontraram na indústria uma possibilidade de convertê-la em progresso material. O homem deixaria de conquistar outros homens para conquistar a natureza. Contudo, o impulso permaneceu essencialmente o mesmo; apenas o alvo foi substituído. A fórmula de Spinoza, Deus sive Natura, Deus ou Natureza, transforma essa conquista em uma guerra contra a própria vida. Ao separar-se simbolicamente da ordem natural e colocar-se acima dela, o homem comete, na leitura da banda, um ato de hubris sem precedente.

Günther Anders fornece outro conceito essencial para compreender essa crítica: a lacuna prometeica. A capacidade tecnológica da humanidade cresce em velocidade incomparavelmente superior ao seu desenvolvimento moral. O homem produz instrumentos cujas consequências já não consegue imaginar adequadamente. A indústria, que deveria canalizar a agressividade para o progresso, converte-se também em extensão dos impulsos mais mortais da espécie. Heidegger e Claude Lévi-Strauss são convocados para sustentar uma tese ainda mais perturbadora: os horrores do século XX talvez não constituam uma negação acidental do humanismo, mas uma de suas possíveis conclusões lógicas quando o homem se atribui o papel de Demiurgo e transforma a si mesmo na medida absoluta da realidade.

René Girard amplia o diagnóstico ao introduzir o desejo mimético. O homem deseja aquilo que vê o outro desejar e o capitalismo industrial encontra nessa estrutura psicológica um combustível aparentemente inesgotável. As redes sociais aceleram o processo e produzem um ciclo contínuo de frustração, consumo e nova frustração. Simultaneamente, o mecanismo do bode expiatório permite que grupos humanos reconstruam temporariamente sua coesão através da identificação de um inimigo. O coletivo se une para expulsar, silenciar ou destruir simbolicamente uma figura considerada responsável pela crise. A paz produzida por esse sacrifício é provisória. Um novo ciclo de tensão amadurece e outro inimigo precisa ser encontrado.

É aqui que a figura de Satanás retorna com uma profundidade muito diferente daquela encontrada na juventude do Deathspell Omega. A banda recorda os círculos radicalizados do black metal do início dos anos 2000 como ambientes marcados por violência, fanatismo, competição misantrópica e uma busca ilimitada pelo absoluto. Havia nessa atmosfera uma imprudência juvenil capaz de empurrar o gênero para territórios musicais e conceituais inéditos, mas também uma enorme quantidade de arrogância e ignorância. O grupo compara essa experiência a um banho em lava: o indivíduo queimava e fugia ou emergia transformado, purificado de determinadas escórias e finalmente capaz de decidir aquilo que merecia ser preservado.

Quando o Deathspell Omega iniciou o trabalho de aproximadamente uma década que resultaria em sua trilogia, escolheu como lema a inscrição dantesca Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate: abandonai toda esperança, vós que entrais. O papel assumido pelo coletivo seria semelhante ao de Virgílio na Divina Comédia: conduzir a mente curiosa através de uma exploração da radix malorum, a raiz dos males. A viagem pelos nove círculos do Inferno deveria transmitir elementos de uma gnose capaz de lançar alguma luz sobre a realidade comum. O grupo continua definindo esse trabalho como um ato de adoração, mas sua compreensão do objeto adorado parece ter adquirido uma complexidade muito maior.

Capa do álbum “Fas – Ite, Maledicti, in Ignem Aeternum”

Satanás, na entrevista, não é reduzido a uma personagem folclórica nem submetido a uma discussão simplista sobre existência ou inexistência. O Deathspell Omega distingue o Divino, por definição incognoscível ao homem, das maneiras pelas quais determinados princípios se manifestam. A questão ontológica torna-se secundária. O que importa é o condutor humano e o biótopo em que ele existe, este planeta. Depois de remover sucessivas camadas de dissimulação, o Acusador e o Adversário podem finalmente olhar o homem nos olhos. Satanás é descrito como tão real quanto o homem O torna, um egregor cuja denominação específica é menos importante do que sua capacidade de adquirir presença através da ação humana.

A referência à Angkar do Khmer Vermelho esclarece brutalmente essa formulação. Em poucos anos, uma organização política produziu uma entidade abstrata que parecia possuir características tradicionalmente atribuídas à divindade. A Angkar estava em toda parte, observava, julgava e determinava o destino dos indivíduos. Um quarto da população cambojana morreu sob o domínio dessa emanação espiritual do partido. Perguntar às vítimas se a Angkar era “real” talvez fosse uma questão absurdamente acadêmica. Seus efeitos eram concretos. O egregor existia através das estruturas, das crenças, do medo e dos homens que agiam em seu nome.

Essa concepção permite compreender por que The Furnaces of Palingenesia é definido pelo próprio Deathspell Omega como uma revelação. Apocalipse, aqui, recupera seu sentido de retirada do véu. O álbum não pretende simplesmente prever a destruição futura nem conclamar seus ouvintes a acelerá-la. Quando perguntada se ainda deseja detonar o mundo e colocar um fim em tudo aquilo que somos, a banda responde negativamente. Existem candidatos suficientes para essa tarefa. Seu papel seria documentar, expor, refletir, testemunhar e curvar a cabeça em assombro diante das forças reveladas. As constelações construídas pela obra são oferecidas aos intrépidos que desejarem explorá-las.

A ideia de constelação conduz finalmente à definição da discografia do Deathspell Omega como uma Summa Diabolica. Durante seus anos formativos, os integrantes procuraram em vão por um equivalente contemporâneo e relevante do Index Librorum Prohibitorum. A partir de Si Monvmentvm Reqvires, Circvmspice, decidiram construir seu próprio corpus, inspirados pela Somme athéologique de Georges Bataille, que, por sua vez, dialogava com a Summa Theologica de Tomás de Aquino. Uma frase conduz a um livro, o livro conduz a outro autor, uma citação é desmontada e reaparece deformada em outro contexto, produzindo contradições aparentes e consequências inesperadas. O grupo compara esse método à ação de vândalos revirando a história das ideias e, pouco a pouco, desenhando os contornos do Diabo.

Sob essa perspectiva, ouvir Deathspell Omega exige mais do que acompanhar uma composição ou decifrar uma letra isolada. A obra é construída como um sistema de transmissão. O ouvinte disposto a seguir suas pistas pode chegar a Bataille, Nietzsche, Hobbes, Rousseau, Celan, Girard, Arendt, Anders, Spinoza, Voegelin, Boye, Kertész, Penderecki e inúmeros outros autores e artistas. Não se trata, segundo o coletivo, de imitação ou de acumulação ornamental de referências, mas de permanecer sobre os ombros de gigantes, reconhecer aqueles cujas obras marcaram o mundo e construir, a partir desse legado, algo singular.

Talvez seja precisamente aí que resida o aspecto mais perturbador e fascinante de The Furnaces of Palingenesia. As fornalhas não estão localizadas em um inferno distante, tampouco pertencem exclusivamente aos grandes regimes assassinos preservados nos livros de história. Elas reaparecem quando o homem transforma uma abstração em absoluto, quando a promessa de regeneração exige a fabricação de um inimigo, quando a tecnologia ultrapassa a capacidade moral de compreender seus efeitos, quando o desejo é artificialmente acelerado até tornar-se frustração permanente e quando o indivíduo necessita acreditar tão profundamente na própria virtude que já não consegue reconhecer em si os mecanismos que condena nos outros.

O Deathspell Omega não oferece uma saída para esse labirinto. Sua função declarada não é salvar, reconciliar ou fornecer esperança. O coletivo prefere assumir a posição daquele que testemunha as rachaduras enquanto o Relógio do Juízo Final marca 23h58. Em vez de anunciar uma simples chegada do Diabo, a banda sugere algo consideravelmente mais incômodo: talvez o Adversário jamais tenha precisado atravessar qualquer portal metafísico. Talvez as manifestações terrenas de sua realidade sempre tenham encontrado no próprio homem o instrumento, a matéria e a fornalha necessários para adquirir forma.

 

Anton Naberius

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