Entre astronomia, guerra, medo, disciplina e absoluto desprezo pelas convenções, a história do ORDER FROM CHAOS revela uma das trajetórias mais singulares e coerentes do underground extremo norte-americano
I — DAS ESTRELAS AO CAOS: A FORMAÇÃO DO ORDER FROM CHAOS
Astronomia, tape trading, a cena de Kansas City e o pacto dos três álbuns que definiu a identidade da banda
Há histórias de bandas que parecem ter sido escritas depois que os acontecimentos terminaram. A narrativa se organiza retrospectivamente, os episódios ganham significado, as coincidências se transformam em destino e aquilo que inicialmente era apenas uma sucessão de decisões, acidentes, amizades e circunstâncias passa a parecer inevitável. A trajetória do ORDER FROM CHAOS, entretanto, me parece diferente. Quanto mais retorno às três partes da extensa entrevista concedida por Chuck Keller a Niklas Göransson, publicada pela Bardo Methodology em setembro de 2024, mais tenho a impressão de que a banda realmente passou a vida tentando cumprir uma sentença estabelecida ainda antes de possuir uma discografia: construir uma obra extremamente particular, jamais se adaptar ao que acontecia ao redor e encerrar tudo antes que a própria fórmula começasse a se deteriorar. A história não é simplesmente a de uma banda de death metal formada em Kansas City em 1987. É a história de uma ideia que encontrou três músicos, uma pequena comunidade de outsiders, uma quantidade considerável de álcool, violência, amizade, obstinação e uma visão estética suficientemente rígida para transformar limitações em identidade.
Para compreender o ORDER FROM CHAOS, porém, é necessário recuar muito antes de 1987. O primeiro elemento que me chama atenção na trajetória de Chuck é que sua relação com o desconhecido não começou através do metal. Em 1974, quando tinha apenas seis anos, ganhou um telescópio e um livro sobre estrelas. Na noite seguinte saiu para observar a Lua e, a partir daquele momento, a astronomia passou a ocupar um lugar central em sua imaginação. Aos dez anos já estava completamente envolvido pelo assunto. Paralelamente, surgiu o interesse por ficção científica, particularmente depois de entrar em contato com A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, inicialmente através do famoso registro em vinil da transmissão radiofônica de Orson Welles, de 1938. Chuck chegou posteriormente ao romance de Wells pela biblioteca da escola e, anos depois, voltou ao local para pedir justamente aquela cópia, comprometendo-se a substituí-la. Parece um detalhe pequeno, mas é justamente nesses detalhes que uma personalidade artística começa a se revelar: a necessidade de possuir, compreender e retornar às fontes que despertaram alguma coisa.
Enquanto essa relação com o cosmos se aprofundava, Chuck estudava piano. Aprendeu, entre outras peças, um minueto de Bach, e foi durante uma sessão de prática que aconteceu algo que ele próprio descreve como uma pequena revelação. Ao tocar acidentalmente o motivo principal de Star Wars, reconheceu que duas coisas que aparentemente pertenciam a universos diferentes estavam conectadas. A música, percebeu ele, guardava um mistério que podia ser parcialmente desvendado. Não é difícil compreender por que essa percepção se tornaria importante muitos anos depois. Quando Chuck finalmente encontra o metal, ele não o recebe como uma linguagem isolada, mas como uma extensão de algo que já procurava: grandiosidade, mistério, estrutura, atmosfera e uma espécie de desconhecido que pudesse ser transformado em experiência. Quando, em 1982, viu na televisão o videoclipe de “Run to the Hills”, do IRON MAIDEN, o impacto foi imediato. Ele ainda não havia desenvolvido uma cultura metal própria. Crescera cercado principalmente por música clássica e jazz antigo, e justamente por isso a dimensão quase orquestral de “The Number of the Beast”, combinada aos vocais operísticos de Bruce Dickinson, encontrou terreno fértil em sua sensibilidade. A música era grande, espessa, dramática e agressiva. Não precisava fazer sentido naquele primeiro momento. Bastava existir com aquela força.
A partir daí, a descoberta foi acelerada. Amigos apresentaram a Chuck BLACK SABBATH, JUDAS PRIEST, OZZY OSBOURNE, KROKUS e outros nomes, enquanto sua experiência como colecionador começava a assumir uma dimensão quase enciclopédica. A loja de discos 7th Heaven and Music Exchange, onde conseguiu emprego, tornou-se uma espécie de centro de formação. Ele conhecia gravadoras, distribuidores, créditos e informações dos encartes, acumulando dados que pareciam inúteis para quem estivesse fora daquela cultura, mas que dentro dela representavam uma forma de conhecimento. A troca de fitas ampliou ainda mais esse universo. O contato com Ron Quintana, figura importante da rede de fanzines e tape trading norte-americana, mostrou que o metal underground não dependia de uma geografia convencional. Uma gravação podia atravessar estados e continentes, uma carta podia aproximar desconhecidos e uma banda podia existir sem qualquer autorização da indústria.

Foi nesse ambiente que Chuck começou a se aproximar de Pete Helmkamp. Inicialmente, os dois estavam inseridos em uma banda interessada em covers de JUDAS PRIEST e IRON MAIDEN, mas a insatisfação com aquela situação crescia. Chuck e Pete queriam algo mais pesado e sombrio. No verão de 1987, enquanto os outros integrantes permaneciam interessados em reproduzir material conhecido, os dois começaram a trabalhar em composições próprias. Pete apresentou “Of Death and Dying”, enquanto Chuck escreveu “Quietus” e “The Scourge”. O momento decisivo não ocorreu em um grande palco nem em um estúdio profissional, mas na percepção de dois jovens de que aquelas músicas lhes pertenciam mais do que qualquer cover. Quando a antiga formação finalmente se desfez, Chuck e Pete seguiram juntos e chamaram Mike Miller, velho conhecido de Chuck, para assumir a bateria. Mike ouviu uma gravação rudimentar de “Quietus” e “Of Death and Dying” e praticamente não precisou de convencimento. A formação estava estabelecida.
O mais extraordinário é que, antes mesmo de possuírem uma demo, os três já haviam estabelecido uma regra que poderia facilmente ser confundida com arrogância juvenil, mas que acabaria definindo toda a existência do grupo: o ORDER FROM CHAOS teria três álbuns e terminaria. Chuck e Pete haviam observado como diversas bandas importantes do metal chegavam ao terceiro trabalho e, na opinião deles, perdiam força. Para dois músicos que ainda não tinham sequer uma gravação oficial, estabelecer antecipadamente a quantidade máxima de álbuns parecia quase absurdo. Mas era precisamente esse absurdo que continha a semente da coerência posterior. Eles não sabiam se alguém ouviria a banda. Não sabiam se existiria público. Não sabiam se conseguiriam gravar um disco. Mas já haviam decidido que, caso a banda conquistasse algum espaço, não permitiriam que ela ultrapassasse o ponto em que sua identidade começasse a se deteriorar. Mike foi informado da ideia quando entrou, embora Chuck reconheça que provavelmente dois garotos sem sequer uma demo não pareciam particularmente convincentes ao estabelecer um destino de longo prazo para uma banda que acabara de nascer.
Essa decisão ajuda a explicar a música que surgiu nos anos seguintes. O ORDER FROM CHAOS nunca pareceu interessado em simplesmente acompanhar a velocidade do underground. A banda absorveu o thrash, o death metal, o heavy metal tradicional, o punk e sobretudo a brutalidade de grupos como SODOM, BATHORY, HELLHAMMER, CELTIC FROST e SLAUGHTER LORD, mas não os tratou como uma lista de referências. Chuck descreve o SLAUGHTER LORD quase como um prisma através do qual toda decisão estética precisava passar. A pergunta, décadas depois, continuaria sendo quase infantil em sua simplicidade e absolutamente rigorosa em sua aplicação: “Isso é algo que o SLAUGHTER LORD faria?”. Se a resposta fosse negativa, a ideia era descartada. O princípio podia ser limitador, e Chuck reconhece isso, mas também foi justamente o mecanismo que impediu a banda de se dissolver dentro das tendências de cada período.
A primeira demo, “Demo 1”, gravada em janeiro de 1988, ainda carregava uma estrutura essencialmente thrash, mas já havia uma compreensão particular de peso. “Of Death and Dying”, escrita por Pete antes da formação da banda, convivia com “Quietus” e “The Scourge”, primeiras composições de Chuck. Este último tema é especialmente revelador porque demonstra que o guitarrista estava procurando compreender como produzir peso sem simplesmente aumentar a velocidade. Chuck percebeu que determinados acordes combinados criavam uma massa sonora quase doom quando tocados de maneira pesada, mas que não funcionavam da mesma maneira em alta velocidade. A descoberta de “Dawn of Megiddo”, do CELTIC FROST, ajudou-o a perceber que notas individuais dentro de uma sequência harmônica poderiam produzir um resultado igualmente poderoso. Sua formação musical fazia diferença: ele pensava na guitarra quase como um piano, construindo grandes relações harmônicas. Pete, por outro lado, vinha de uma abordagem mais agressiva e instintiva, próxima do MOTÖRHEAD. O resultado não era uma guitarra dobrando o baixo, mas uma guitarra construída ao redor dele. Chuck retirava as notas fundamentais das linhas de Pete e erguia sua parte a partir delas. A identidade do O.F.C. nasceu, portanto, também da diferença entre os dois instrumentos.
Essa diferença se tornou ainda mais evidente quando a banda começou a tocar ao vivo. O ORDER FROM CHAOS não se comportava como um grupo preocupado em reproduzir no palco a limpeza de um disco. Os shows eram experiências de violência e imprevisibilidade. Em Fort Wayne, Indiana, em novembro de 1990, a banda criou uma brincadeira chamada “Skank Ball”: Pete jogava uma bola de futebol americano para o público e anunciava que quem estivesse com ela quando a música terminasse receberia material da banda. Então o grupo tocava “Stillbirth Machine”, que naquela época durava sete minutos e meio. O resultado foi uma quantidade impressionante de violência física, com ossos quebrados, narizes ensanguentados e olhos roxos. Chuck admite que, naquele momento, observava a carnificina do palco pensando que aquilo era exatamente o que o O.F.C. deveria ser; décadas depois, olhando para trás, só conseguia perguntar o que diabos eles estavam pensando. Esse contraste entre a memória e a consciência posterior é importante porque demonstra que a violência não era simplesmente uma estratégia promocional. Ela fazia parte do ambiente social que a banda havia construído em torno de si.

Demo que ajudou a consolidar o nome da banda no underground
A Bastard Squad nasceu dessa mesma lógica. O círculo de amigos do ORDER FROM CHAOS reunia personagens que posteriormente apareceriam em NEPENTHE, ARES KINGDOM e VULPECULA. Chuck descreve-os como uma espécie de grupo de desordeiros que sabia ter a aprovação da banda para sair pelo mundo e causar problemas. Kansas City não os acolheu particularmente bem. Os promotores locais não queriam trabalhar com eles, e o próprio Chuck reconhece que a banda raramente tocava em sua cidade porque já havia construído uma reputação difícil. Mas a rejeição local teve uma consequência inesperada: o grupo deixou de se preocupar com a cena. Se aquela cena não fazia nada por eles, não havia razão para buscar sua aprovação. A Roadhouse, onde integrantes e amigos passaram a se reunir, tornou-se então mais importante do que qualquer circuito formal de shows. Ali estavam a banda, seus amigos, seus ensaios, suas festas, sua violência e sua própria comunidade.
Nesse contexto, “Crushed Infamy” consolidou o nome da banda no underground. Mais de oitocentas cópias foram distribuídas durante o primeiro ano, quantidade suficiente para chamar a atenção da Ground Zero Entertainment, de Omaha. O selo incluiu duas faixas do grupo na compilação “Midwest Metalfest”, e o responsável pela gravadora, Matt Roberts, também organizou os primeiros shows interestaduais do O.F.C.. Curiosamente, os shows em Omaha receberam mais entusiasmo do que as apresentações em Kansas City, demonstrando que a banda funcionava melhor quando estava diante de um público que não carregava as mesmas expectativas e preconceitos da cena local. O isolamento, que inicialmente parecia uma deficiência, começava a se transformar em vantagem. O ORDER FROM CHAOS não precisava conquistar uma cidade inteira. Bastava encontrar pequenos núcleos de pessoas capazes de compreender aquilo que estavam fazendo.
CONTINUA…



