A consolidação da linguagem própria, a construção de uma trilogia e a decisão de encerrar a banda no auge de sua coerência
O primeiro álbum, “Stillbirth Machine”, nasceu dentro dessa mesma lógica de precariedade. Em maio de 1991, a banda entrou no The Sound Factory, estúdio pertencente a Gary West, antigo integrante da banda de rock clássico SHOOTING STAR, com Ron West como engenheiro. A gravadora Wild Rags não forneceu dinheiro para a gravação. O próprio ORDER FROM CHAOS financiou o projeto e precisou comprar a fita. O estúdio estava tecnologicamente atrasado, com equipamentos quebrados, uma máquina de fita que superaquecia e monitores que apresentavam problemas. Ron, pai da ex-namorada de Chuck, ajudava gratuitamente e, segundo o próprio músico, normalmente havia cerca de três horas úteis por sessão antes que o engenheiro bebesse demais para continuar trabalhando. Ainda assim, aquela precariedade não destruiu o projeto. Ao contrário, ela se incorporou a ele. Chuck queria uma guitarra gigantesca, Pete queria um baixo à maneira do MOTÖRHEAD, enquanto Mike imaginava uma bateria próxima do CANDLEMASS. Não havia espaço suficiente para todas essas exigências coexistirem integralmente, e a solução foi uma espécie de negociação interna em que cada integrante sacrificava alguma coisa para que o conjunto funcionasse.
Chuck, entretanto, nunca ficou satisfeito com o timbre de guitarra de “Stillbirth Machine”. Pelos monitores do estúdio, o álbum parecia perfeito para eles, quase como “The Return……”, do BATHORY. Quando levou a gravação para casa, ouviu outra coisa: um som que comparou a um ninho de vespas furiosas. Tentou corrigir o problema, regravou as guitarras duas vezes e finalmente desistiu por exaustão. É uma passagem que considero reveladora porque mostra até que ponto a obsessão estética do ORDER FROM CHAOS era concreta. Não se tratava simplesmente de dizer que a banda era “underground” e aceitar qualquer resultado. Chuck queria um som específico e passou meses perseguindo-o, mesmo sem possuir os recursos técnicos necessários para alcançá-lo. A imperfeição final não nasceu da falta de ambição, mas do choque entre ambição e realidade.
Também é nesse período que a astronomia retorna explicitamente à música. “The Edge of Forever”, título tomado de Cosmos, de Carl Sagan, amplia as preocupações cosmológicas presentes em “Nucleosynthesis”. Chuck estava na universidade e começava a considerar seriamente uma carreira em astronomia. As questões relacionadas ao universo não eram decoração conceitual para um álbum extremo; eram interesses pessoais que estavam tentando encontrar uma forma musical. A mesma pessoa que aos seis anos olhava para a Lua agora transformava estrelas, tempo, matéria e infinito em títulos de músicas. A trajetória é coerente demais para ser tratada como coincidência.

A história de “Stillbirth Machine” também revela o quanto o relacionamento da banda com as gravadoras era marcado por desconfiança. A Wild Rags havia demonstrado interesse em lançar oficialmente “Crushed Infamy” e produzir uma versão em cassete de “Will to Power”, supostamente para financiar o álbum. Na prática, Chuck afirma que o dinheiro serviu para cobrir custos de produção e nada chegou à banda. O lançamento de “Stillbirth Machine” demorou e, enquanto a gravadora apresentava desculpas sobre custos e problemas de prensagem, o O.F.C. registrou “Alienus Sum”, uma demo de ensaio gravada no porão da Roadhouse. Quando a relação com a Wild Rags finalmente terminou, a gravadora reteve materiais importantes, e o grupo descobriu posteriormente que o álbum havia sido anunciado e lançado. Chuck admite que, apesar da situação, hoje considera a versão da Wild Rags excelente e exatamente próxima da concepção original da banda.
A versão da Decapitated Records, da Grécia, seria ainda mais problemática. A arte foi modificada, nomes foram trocados, a lista de agradecimentos ficou incorreta e palavras desapareceram dos títulos das músicas. Para Chuck, foi um verdadeiro desastre. E é interessante que esse episódio não seja apenas uma anedota sobre uma gravadora incompetente. Ele revela o grau de controle que o ORDER FROM CHAOS queria exercer sobre sua própria obra. A música, a embalagem, os nomes, os símbolos e a apresentação faziam parte de um mesmo objeto. Alterar um desses componentes significava interferir no significado geral.
Enquanto isso, os shows continuavam produzindo situações que pareciam saídas de uma versão alcoólica e extremamente violenta de Spinal Tap. Em abril de 1993, durante um show em Springfield, Missouri, o amplificador de Chuck captou uma transmissão de rádio de uma partida de beisebol entre o Kansas City Royals e o St. Louis Cardinals. Em vez de interromper a apresentação, ele simplesmente incorporou o acidente à experiência. Para ele, aquele tipo de imprevisibilidade fazia parte do O.F.C.. O caos não era algo que precisava ser evitado; era algo que podia ser absorvido.
E então chegamos a “Plateau of Invincibility”, talvez o momento em que toda aquela filosofia finalmente ganha uma formulação mais clara. Gravado em junho de 1993 no Reichstag Studio, instalado no porão da casa de Chris Overton, baterista do NEPENTHE, o mini-LP foi produzido praticamente sem ajuda externa. A estrutura era ainda mais limitada que aquela de “Stillbirth Machine”: oito canais contra vinte e quatro, com bateria e baixo registrados simultaneamente em tomadas únicas. A única assistência externa significativa veio de Quorthon, do BATHORY, que ensinou Chuck a condensar múltiplas pistas em uma só, método que o próprio Quorthon havia utilizado no Heaven Shore Studio. Mais uma vez, o ORDER FROM CHAOS transformava limitação em método.

Mini-LP gravado em junho de 1993 no Reichstag Studio. Posteriormente foi lançado em CD e vinil pela Shivadarshana Records, em 1994, com edição limitada a 1.500 cópias.
O título “Plateau of Invincibility” não representa, entretanto, uma fantasia adolescente de superioridade. Chuck utiliza a palavra “elitismo” para falar de aperfeiçoamento disciplinado. É um elitismo voltado para dentro: a tentativa de se tornar melhor através da superação de conflitos pessoais. O ciclo “Conqueror of Fear” nasceu justamente dessa ideia. “Stillbirth Machine” identifica o problema; “Plateau of Invincibility” representa a conclusão. Entre ambos existem percepção, formulação, luta e ascensão. Chuck insiste que todos passam por essas fases de maneiras diferentes, algumas vezes enfrentando batalhas prolongadas, outras compreendendo rapidamente aquilo que precisam fazer. Pete utilizava as letras para trabalhar questões que os três músicos estavam vivendo, e Chuck não hesita em considerá-lo um dos melhores letristas que conheceu.
A dimensão simbólica desse projeto também cresceu. A imagem associada a “Conqueror of Fear” começou em 1988, quando Pete criou uma primeira versão inspirada no Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci. Ao longo dos anos, o símbolo foi sendo transformado até incorporar a cabeça de Hórus, a terra em quatro níveis e outros elementos retirados das próprias letras. Chuck acrescentou runas, influenciado por sua paixão por Wagner e pela simbologia nórdica. A imagem final tornou-se uma síntese da filosofia da banda: Hórus em chamas contra o medo, a iluminação, a escada da ascensão e, finalmente, a invencibilidade. Não se trata de uma iconografia montada ao acaso. Ela evolui juntamente com a música, exatamente como as composições antigas do grupo seriam posteriormente reconstruídas.
“Dawn Bringer”, gravado em dezembro de 1993, aprofundaria esse procedimento. “Apocalyptic Visions”, de “Inhumanities”, tornou-se “Tenebrae”. “Crimes Against the State”, de “Crushed Infamy”, reapareceu como “Labyrinthine Whispers”. “Megalomania”, originalmente de “Will to Power”, transformou-se em “Ophiuchus Rex”. O passado não era abandonado; era retrabalhado. Chuck define “Dawn Bringer” como um “EP glorificado”, comparando-o ao “Rrröööaaarrr”, do VOIVOD, que havia começado como demo. O objetivo era desenvolver aquilo que havia sido iniciado em “Plateau of Invincibility”. A faixa de abertura combinava death metal, passagens faladas e ruídos estranhos. Os próprios integrantes criaram sons de guitarra desafinada, fogo e outros efeitos, enquanto Mike, grande admirador de RUSH, contribuiu com ideias relacionadas à manipulação de fragmentos sonoros.

A logística continuava tão precária quanto a filosofia era ambiciosa. Em março de 1994, o ORDER FROM CHAOS organizou uma turnê pela Costa Leste para divulgar “Plateau of Invincibility”. Como o mini-LP estava atrasado, a banda produziu por conta própria o EP “Jericho Trumpet”, lançado pela Gestapo Records, contendo uma gravação ao vivo de “Webs of Perdition” e um cover de “War and Pain”, do VOIVOD. A embalagem também revelava o gosto da banda por apropriar-se de elementos históricos do próprio underground: Chuck conta que a fotografia do verso, mostrando o palco em direção ao público, foi inspirada na série “Assault”, do VENOM, particularmente “Canadian Assault”.
A viagem pela Costa Leste, entretanto, não teve nada de glamorosa. A banda alugou um caminhão de mudança e o equipou com almofadas retiradas da Roadhouse. O problema é que aquelas almofadas carregavam anos de urina de gato impregnada. Com o grupo de amigos amontoado no veículo, o resultado foi um odor de urina que acompanhou a excursão. Em Washington, durante o horário de pico, Mike pisava violentamente no freio, fazendo músicos e equipamentos voarem para a frente. Chuck olha para aquilo décadas depois com a consciência de um pai que jamais permitiria que seus filhos fizessem algo semelhante. Mas é precisamente essa distância temporal que transforma a lembrança em documento de uma época em que a fronteira entre turnê, sobrevivência e completo absurdo ainda era praticamente inexistente.
O Deathstock Festival, realizado em Nova York em agosto de 1994, foi considerado por Pete o melhor show da história do O.F.C., e Chuck concorda. O espetáculo superou até mesmo o caos de Fort Wayne. Mas existe uma ironia na lembrança: o que mais marcou Chuck foi a separação do BOLT THROWER, ocorrida apenas três dias antes do festival, frustrando profundamente a banda porque os ingleses eram os headliners esperados. Naquele mesmo mês, a holandesa Shivadarshana Records finalmente lançou “Plateau of Invincibility” em CD e vinil, limitando-o a 1.500 cópias e utilizando o formato de dez polegadas justamente para criar algo visualmente diferente e ampliar a qualidade da embalagem. O O.F.C. ainda gravaria, durante uma onda de calor, “Live: Into Distant Fears”, utilizando o mesmo gravador de oito canais no porão de Chris. Chuck considera essa gravação uma de suas favoritas porque a descreve como “Armagedom em fita”: microfones instalados, alguns testes e, então, a banda simplesmente tocando.
O passo seguinte, porém, já carregava o fim dentro dele. “Dawn Bringer” havia sido planejado inicialmente como um mini-LP de doze polegadas, mas a gravadora exigiu mais material e acabou transformando o lançamento em CD, incorporando o EP inédito “Pain Lengthens Time” e “War and Pain”. Quando o trabalho foi lançado no início de 1995, o ORDER FROM CHAOS já estava diante do terceiro álbum. E então o antigo pacto ressurgiu.

Gravado em dezembro de 1993. Inicialmente concebido como um mini-LP de 12 polegadas, posteriormente foi transformado em lançamento em CD, incorporando o EP Pain Lengthens Time e “War and Pain”, cover do VOIVOD.
Chuck e Pete conversaram sobre o futuro. A resposta de Chuck foi simples: fariam o terceiro e último álbum e encerrariam a banda. Pete concordou. Mike ficou furioso. Ele aparentemente não se lembrava da conversa original de anos antes, e a notícia pareceu-lhe uma decisão repentina justamente quando o O.F.C. atravessava um período em que estava funcionando relativamente bem. Chuck não o culpa. É fácil compreender sua reação: para Mike, a banda ainda tinha vida. Para Chuck e Pete, entretanto, a vida da banda sempre esteve condicionada ao projeto que haviam estabelecido quando tudo começou.
Foi assim que nasceu “An Ending in Fire”, e talvez nenhum título pudesse ser mais apropriado. As sessões começaram no início de 1995. Novamente bateria e baixo foram registrados em tomadas únicas, enquanto Chuck mergulhava em mais uma busca obsessiva pelo timbre perfeito de guitarra. O álbum reuniria três grandes composições, duas delas divididas em múltiplos movimentos. “There Lies Your Lord, Father of Victories”, com quase doze minutos, assume uma dimensão explicitamente wagneriana. “Somnium Helios” torna-se uma suíte de três partes que incorpora uma versão atualizada de “Nucleosynthesis”, conectando-a à faixa-título através de “De Stella Nova”. O ciclo “Conqueror of Fear” é finalmente reunido através de “Dawn Bringer Invictus”, “Tenebrae”, “The Sign Draconis” e “Plateau of Invincibility”. E o encerramento, “Angry Red Planet”, incorpora um leitmotiv inspirado em Gustav Holst.
A presença de Holst contém outra dessas pequenas ironias que parecem perseguir a história da banda. Quorthon havia contado a Chuck que utilizaria música do compositor inglês em uma faixa do BATHORY. Chuck imediatamente ficou preocupado porque “Angry Red Planet” terminava justamente com uma cadência inspirada em “Mars, Bringer of War”. Foi perguntar diretamente a Quorthon se ele estava utilizando aquela peça. Quorthon respondeu que era outra obra e que Chuck teria de esperar pelo álbum. É uma pequena conversa entre dois músicos separados por continentes, mas unidos por uma mesma obsessão: a capacidade da música clássica de fornecer uma linguagem monumental para o metal extremo.

Terceiro e último álbum do ORDER FROM CHAOS. As sessões começaram no início de 1995
O aspecto mais impressionante de “An Ending in Fire”, entretanto, é psicológico. Chuck sabia que estava gravando o último álbum da banda. Mesmo assim, continuou trabalhando durante meses, exaustivamente, perseguindo o resultado que considerava adequado. Quando perguntado sobre como conseguiu continuar, responde de maneira quase seca: quando diz que fará alguma coisa, ele faz. A música era importante demais para ser abandonada incompleta. O ORDER FROM CHAOS precisava terminar corretamente porque tudo o que havia acontecido desde 1987 conduzia àquele momento. Não havia contradição entre saber que a banda morreria e trabalhar obsessivamente para aperfeiçoá-la. Pelo contrário: justamente porque seria o último trabalho, ele precisava ser definitivo.
O último show público ocorreu em fevereiro de 1995. Dois meses depois, na Roadhouse, aconteceu a última Friday Night Witching Hour. Para os presentes, era uma celebração da insanidade, praticamente uma repetição das dezenas de encontros anteriores. Quase ninguém acreditava que aquela seria realmente a última noite. Chuck, entretanto, sabia. A mixagem de “An Ending in Fire” sequer estava concluída; ele continuava obcecado pelo timbre da guitarra e provavelmente essa insistência alimentava a esperança dos demais de que a banda ainda tivesse algum tempo pela frente. O fim só se tornou evidente quando Chuck começou a retirar seu equipamento. Em meados de junho, gravação, produção, mixagem e masterização estavam concluídas. O ORDER FROM CHAOS foi encerrado oficialmente.
Há uma ironia adicional: naquele momento, a Shivadarshana Records havia deixado de existir. O álbum estava pronto, mas a gravadora que deveria lançá-lo já não funcionava. Ainda assim, Chuck não quis adiar o fim. As relações entre os integrantes estavam tensas, e ele sentia que era necessário seguir em frente. A intenção original, curiosamente, não era necessariamente uma separação definitiva. A ideia era interromper a banda por um ano e depois voltar para fazer outra coisa. Eles eram jovens, e os planos de jovens raramente sobrevivem intactos ao tempo. Mas o fim teve consequências sobre toda a pequena comunidade construída em torno do grupo. Alex Blume, posteriormente, relataria que a dissolução do O.F.C. provocou uma divisão entre os amigos e contribuiu para o colapso do NEPENTHE. Chuck, por sua vez, simplesmente afirma que sabia que havia chegado a hora e que a situação havia deixado de ser saudável para todos.
CONTINUA…



