Eis então que, finalmente, é lançado o tão aguardado segundo álbum da banda soteropolitana de Death Metal Papa Necrose; após um longo período de gravação e produção do mesmo, ele vê a luz do firmamento.
Faz algum tempo que eu não escuto um material de tão boa qualidade no quesito Death Metal no Brasil nestes últimos anos; nesse sentido, estou me referindo à completude do disco, desde a qualidade das composições, os arranjos muito bem feitos, a execução do disco com uma perfeição absurda, à qualidade técnica da gravação, que está fora de série; ou seja, é um álbum que enche os olhos e a esperança de que ainda estamos respirando bem os ares fétidos dos mortuários e ainda estamos dissecando cadáveres e enterrando sistemas cristãos muito bem, obrigado!
“Anthropomorphy Execution”, curiosamente, é um disco que deu algum destaque ao baixo, instrumento tão injustiçado no Metal, principalmente por ele ter um aspecto oculto dentro de uma banda; em geral, esse instrumento não tem o devido destaque ou valor, o que o Papa Necrose mudou, o habitual, neste seu trabalho. Prova maior é que, pelo menos, duas músicas do álbum começam pelo baixo tocando sozinho e dando o tom macabro da música. Isso acontece logo na faixa de abertura do disco: “Fall, Die and Break”, música cheia de passagens intrigantes que nos faz remeter imediatamente às bandas dos anos 1990 de Death Metal clássico; aliás, essa é a tônica da banda, que deixou muito claras suas influências mais massivas que permeiam Pestilence, Cancer, Cynic, Death e Obituary, guardadas as suas devidas proporções.
A banda apostou num disco técnico e mortal, sem precisar usar da velocidade, mas trabalhando muito as passagens, as mudanças de andamento, as variações rítmicas, a ponto de o disco chegar a soar jazzístico em muitos pontos; vale ressaltar o trabalho impressionante do baterista Luquian “Chemosh” Silva (Eternal Sacrifice, Diabolism), que incluiu arranjos às músicas, seguindo muito forte a escola de Death Metal que citei acima, dando tons mais atuais em seus arranjos e trabalhando com desenhos próximos das gerações mais recentes do estilo também. De fato, em muitos momentos as músicas soam simples nos riffs de guitarra, enquanto Luquian está fazendo desgraça com a bateria; esse, para mim, é um dos melhores bateristas de Metal Extremo surgidos nos últimos tempos no Brasil.
Depois de um interlúdio, chegamos à quarta faixa, que carrega com muita responsabilidade o título do álbum; aliás, essa é uma das músicas que possui grandes inspirações que consegui detectar, como Gorguts da era “Considered Dead”, de 1991, e Disincarnate, em seu maravilhoso e único álbum “Dreams of the Carrion Kind”, de 1993. Como eu disse, esse álbum merece uma atenção especial, pois tem uma qualidade de gravação espetacular e, como ainda sou do espírito antigo, eu escuto os álbuns físicos em systems que não se fabricam mais, aqueles em que os graves estão audíveis em alto e bom som!!! O peso desse material é extraordinário e nos entrega aquela mesma sensação de estar ouvindo um lançamento de lá, lá dos anos 90 mesmo.
Claro que, nessa análise, não posso deixar de falar das guitarras, que também vêm com muita força, técnica, criatividade, e dá pra perceber o quanto os músicos estão afiados, inspirados, e não podemos deixar de dizer que, ao menos, Carlos Silva é um guitarrista de mão cheia e um veterano na cena baiana/soteropolitana e sempre chamou muita atenção por sua técnica ímpar e sua capacidade de criar riffs inesquecíveis em outras bandas por que passou, como Eternal Sacrifice, Diabolism e Sower; ou seja, um músico com muita bagagem e um incansável operário em função do Metal Obscuro. Os solos que Carlos divide com Danilo Vagner são repletos de melodias e virtuosismo, típicos das influências que a banda faz questão de exaltar.
Mais um item indispensável nessa resenha é a voz de Alessandro, que está cada vez mais podre, mais incisiva, e fica bem claro como ele tem se sentido à vontade nesse disco, onde pode mostrar o amadurecimento da técnica na hora de emitir sua voz, sem parecer forçado, e fica muito evidente que é a sua voz natural, sem querer soar como seus ídolos declarados; ainda assim, ele segue a escola de Death Metal que citei, sem deixar pingar nenhuma gota de sangue, e isso ele tem feito com maestria e mostrado seu crescimento junto com a banda.
A escuta dessas dez faixas do álbum do Papa Necrose me soa como uma ilustre homenagem aos deuses do Death Metal Tradicional, mostrando toda sua reverência e respeito às raízes do estilo, mostrando que, sim, é possível fazer um álbum cheio de referências e, ainda assim, novo, vigoroso, criativo, técnico, bem arranjado e diabolicamente bem executado; mas o melhor, o melhor mesmo, está por vir na última faixa: não bastasse a participação ilustre de um dos magos do Death Metal, o Sr. James Murphy, extraordinário e excepcional guitarrista histórico de bandas como Cancer, Obituary, Death, Disincarnate e Testament, uma verdadeira lenda, que faz um dos solos mais fantásticos que já tive o privilégio de ouvir, a música em si é a melhor música do disco e tem uma composição completa, em minha opinião.
Nesta faixa, sob o título “The Thousand Yard Gaze”, a banda demonstra tudo isso que fiz questão de exaltar no texto inteiro, e só tenho elogios a render; é nesta música que conseguimos perceber toda a fluidez desse Death Metal emotivo que nos transporta para dimensões inconscientes e perfeitas; o efeito de voz nessa música cria a justa medida de finitude, de que tudo está ruindo ao seu redor… “um sofrimento traumático, vazio e sem alma, sem expressão…”
Não podemos deixar de falar do material gráfico, que parece simples, mas nos apresenta uma diagramação de muito bom gosto, principalmente na escolha dos tons, saindo um pouco dos tons frios e muito escuros do preto e do cinza, buscando uma relação mais neutra com tons de ocre. Letras, ficha técnica e fotos ao vivo e de estúdio da banda fazem parte de um material eficiente e informativo, numa boa medida, sem exageros. A capa segue uma característica artística modernista, próxima da escola expressionista alemã, com tons de musgo e vermelho, imagens aterradoras da figura máxima da Igreja Católica com feições cadavéricas, algo que faz parte da crítica que a banda se presta a partir do seu próprio nome e do seu discurso.
O que tenho a dizer, meus amigos, é que estamos diante de um disco que nasceu clássico, mas que muitos precisarão de alguns anos pra notar que um material como esse foi feito por negros nordestinos que não são melhores nem piores que ninguém, mas são diferenciados!



