Entre feitiços, feminismo, memória e ruido, o trio de bergen reivindica o black metal como espaço de transformação, diversidade e resistência

Há momentos em que uma banda não parece simplesmente surgir dentro de uma cena musical, mas irromper contra ela. O Witch Club Satan, formado em Bergen, na Noruega, em 2021, pertence a essa categoria de manifestações que compreendem o black metal não como uma peça de museu destinada à repetição de fórmulas consagradas, mas como uma linguagem ainda capaz de provocar, incomodar e, sobretudo, transformar. O trio formado por Victoria F. S. Røising, no baixo, Nikoline Spjelkavik, na guitarra, e Johanna Holt Kleive, nos vocais e na bateria, construiu desde o início uma identidade em que música, teatro, bruxaria, feminismo e posicionamento político não aparecem como elementos decorativos, mas como partes indissociáveis de uma mesma concepção artística. O próprio nome da banda sintetiza essa perspectiva: “Witch” assume a figura da bruxa como identidade e força simbólica; “Club” aponta para a ideia de comunidade; enquanto “Satan” representa, nas palavras de Victoria Røising, o rebelde que se recusa a aceitar passivamente a injustiça.
Essa escolha semântica é importante porque revela uma compreensão particular da tradição extrema norueguesa. O Witch Club Satan não procura simplesmente reproduzir a iconografia construída pelo black metal durante sua consolidação na Noruega, tampouco tenta apagar a história que o precedeu. Pelo contrário, a banda reconhece nessa história uma energia que considera fundamental. Na entrevista concedida à jornalista Carolyne Ferreira, publicada pelo Headbangers News em 14 de junho de 2024 https://www.headbangersnews.com.br/entrevistas/lancando-feiticos-e-quebrando-barreiras-uma-entrevista-com-o-witch-club-satan/, Victoria Røising estabelece uma relação direta entre o black metal norueguês e as raízes do punk, destacando especialmente a energia bruta, a atitude rebelde e a disposição para romper com convenções que marcaram determinadas manifestações do metal produzido na Noruega durante os anos 1980. Para ela, recuperar essa dimensão significa devolver ao metal uma capacidade de confronto que, em sua interpretação, foi progressivamente obscurecida por determinadas leituras apolíticas do gênero.
É justamente nesse ponto que o Witch Club Satan estabelece uma das suas mais contundentes diferenças. Para Victoria, não existe neutralidade absoluta quando uma voz possui a possibilidade de ser amplificada. A banda assume abertamente uma posição feminista, antifascista e antirracista, defendendo a humanidade, a igualdade e aquilo que chama de poderes mágicos da música. Não se trata, portanto, de utilizar o black metal como simples plataforma para declarações políticas externas à obra. A política, nesse caso, integra a própria concepção de existência da banda. O ato de ocupar o palco, de escrever as músicas, de apresentar-se como um trio de mulheres e de reivindicar a figura da bruxa já constitui, para as integrantes, uma forma de intervenção.
Essa postura ganha ainda mais significado quando colocada diante das contradições históricas do black metal. O gênero nasceu associado à radicalidade estética e sonora, mas também carrega uma história atravessada por episódios de violência, crimes, extremismos e aproximações de determinadas figuras com ideologias nazistas. Victoria não procura contornar essa herança. Ao contrário, reconhece o problema e manifesta indignação diante da presença dessas ideias em parte da comunidade. Na entrevista, sua resposta é direta: a reação possível é falar contra essas ideologias e transformar a própria raiva em impulso para a mudança. A afirmação desloca a noção de “autenticidade” tão frequentemente utilizada no discurso sobre o black metal. Para o Witch Club Satan, ser fiel à natureza contestadora do gênero não significa preservar seus aspectos mais problemáticos como relíquias intocáveis, mas recuperar sua potência de enfrentamento para confrontar também aquilo que considera intolerável dentro da própria cena.
Nesse sentido, a figura da bruxa ocupa uma posição central. A bruxaria do Witch Club Satan não é apresentada simplesmente como recurso estético ou como extensão superficial do imaginário ocultista tradicionalmente presente no metal extremo. Ela funciona como memória, identidade e linguagem de resistência. Quando Victoria afirma que as integrantes são bruxas e que a música é utilizada como uma porta de entrada para a criação de uma comunidade, a imagem da bruxa abandona o papel de personagem e passa a representar uma possibilidade de pertencimento. O “clube” anunciado pelo nome da banda torna-se, assim, uma metáfora para uma comunidade construída a partir da união daqueles que historicamente foram colocados à margem.
Essa perspectiva também explica a importância atribuída às mulheres perseguidas durante os processos históricos de caça às bruxas. A entrevista estabelece uma ligação particularmente forte entre a história da perseguição no norte da Noruega e a proposta artística do trio. Para Victoria, aquelas mulheres não são figuras abstratas pertencentes a um passado distante, mas pessoas reais submetidas a sistemas de opressão extrema e sistemática. O objetivo da banda é fazer com que essas vozes retornem através da música, transformando o palco em espaço de memória. O grito do Witch Club Satan é apresentado como o grito daqueles que foram oprimidos e daqueles que não foram ouvidos. A bruxa, portanto, deixa de ser apenas uma figura do imaginário ocultista para tornar-se testemunha de uma violência histórica e símbolo de resistência diante de outras formas contemporâneas de exclusão.
A própria constituição do trio reforça essa leitura. Victoria F. S. Røising, Nikoline Spjelkavik e Johanna Holt Kleive assumiram seus respectivos instrumentos e funções dentro da banda desde 2021, construindo uma formação exclusivamente feminina em um gênero cuja representação histórica permanece majoritariamente masculina. Victoria observa que existir como uma banda composta apenas por mulheres já constitui, por si só, um gesto feminista. A afirmação não parte necessariamente de uma tentativa de transformar a formação em espetáculo, mas da consciência de que a presença feminina em determinados espaços do metal ainda produz significado. O que poderia ser compreendido como exceção torna-se ferramenta de transformação: algumas pessoas enxergam a banda como algo novo, enquanto outras aguardavam precisamente uma ruptura dessa natureza.
É nesse processo de ruptura que o álbum de estreia autointitulado, lançado em março de 2024, assume sua importância. O disco reúne doze composições e foi produzido por Vetle Junker e Sindre Nicolaisen, com co-produção de Anders Odden, articulando diferentes experiências musicais e profissionais. A própria banda ressalta que escreveu integralmente suas músicas e chegou ao estúdio com uma concepção bastante clara daquilo que pretendia realizar. Em vez de permitir que a produção remodelasse sua identidade, o trabalho de estúdio serviu para intensificar uma expressão que já existia. A convivência durante o processo de gravação, em um chalé no interior da Noruega, é descrita por Victoria como uma experiência quase ritualística, na qual energia, competência e criatividade convergiram para permitir que as músicas se desenvolvessem.
O resultado dessa abordagem encontra correspondência na maneira como o Witch Club Satan entende a própria música. Victoria não hesita ao responder por que o black metal foi escolhido como veículo artístico: não houve dúvida, porque seria a única música capaz de conter a energia que precisavam expressar. A declaração, embora breve, é reveladora. O gênero não foi escolhido simplesmente por afinidade musical ou por tradição cultural; foi escolhido porque, para elas, sua brutalidade e sua intensidade correspondem a uma necessidade interna de expressão. O som funciona como matéria para aquilo que a palavra sozinha talvez não consiga conter.
Por isso, a banda prefere pensar suas músicas como feitiços. A metáfora não significa necessariamente uma reprodução literal de práticas ritualísticas, mas uma compreensão da música como força transformadora. O ato de tocar e o ato de ouvir participam de uma mesma experiência. Figurinos, maquiagem, cenografia, visuais, pintura de cadáveres e o cheiro de ervas integram essa construção e fazem com que os concertos se aproximem de uma experiência teatral e ritual. As integrantes possuem experiências relacionadas ao teatro e à escrita, e essas formações anteriores à música ajudam a explicar por que o espetáculo não é concebido como simples reprodução das faixas do álbum. O palco é outro território artístico, onde som, corpo, imagem e atmosfera se encontram.
Há algo particularmente significativo nessa afirmação de que a maquiagem e as fantasias não existem para esconder as integrantes, mas para acolher a bruxa que existe dentro delas. Em uma cultura musical historicamente fascinada pela construção de personagens e alter egos, o Witch Club Satan propõe uma inversão: a máscara não serve para ocultar, mas para revelar. O artifício torna-se instrumento de acesso a uma dimensão interior. O público, por sua vez, não é tratado como mero observador de um espetáculo, mas convidado a reconhecer suas próprias “bruxas interiores”. A experiência ao vivo pretende produzir uma espécie de circulação de energia entre palco e plateia, fazendo do concerto uma experiência compartilhada.
Essa abertura ao público também está relacionada à maneira como o trio enxerga o futuro do black metal. Victoria argumenta que o gênero precisa dialogar com novas gerações e com pessoas de diferentes idades, gêneros e origens se quiser continuar vivo. Os pioneiros envelhecem, e a energia que deu origem ao movimento não pode depender indefinidamente de uma única geração. Para o Witch Club Satan, diversidade não significa descaracterização. Significa justamente permitir que diferentes vozes encontrem espaço para expandir aquilo que o black metal pode ser. A sobrevivência do gênero, nessa perspectiva, depende menos da repetição de uma identidade congelada do que da capacidade de permitir que novas experiências encontrem dentro dele uma linguagem própria.
O sucesso inicial do álbum demonstra que essa aposta encontrou receptividade. A banda afirma ter ficado impressionada com as críticas e com a resposta recebida, especialmente diante da possibilidade de perceber que sua música alcançou pessoas muito além do círculo imediato que a criou. A atenção internacional e a expectativa de apresentações pela Europa ampliaram ainda mais essa dimensão comunitária. Para o Witch Club Satan, encontrar outros “bruxos” e “bruxas” nos shows possui um significado maior do que simplesmente conquistar público: representa a concretização daquele clube imaginado no próprio nome da banda.
Até mesmo a edição física do álbum participa dessa filosofia. O primeiro lançamento em vinil recebeu tratamento especial, incorporando fotografias e todas as letras, elementos considerados fundamentais pelas integrantes. A primeira tiragem foi vendida exclusivamente nos shows e esgotou rapidamente, enquanto uma segunda edição foi planejada com novos detalhes e distribuição on-line. O cuidado com o objeto físico acompanha, portanto, a mesma preocupação existente na música e no espetáculo: transformar a obra em experiência completa, na qual som, imagem, palavra e materialidade participam de uma mesma narrativa.
O Witch Club Satan surge, assim, em uma cena que já possui uma história extremamente pesada e uma mitologia cuidadosamente construída, mas sua resposta a esse legado não é simplesmente rejeitá-lo. A banda seleciona aquilo que considera vital nessa tradição — a brutalidade, a energia punk, a confrontação, a liberdade de expressão e a capacidade de provocar — e procura deslocá-lo para uma realidade diferente. O passado é reconhecido, mas não reverenciado de maneira acrítica. O black metal continua sendo um território de conflito, porém o conflito agora pode estar direcionado também às estruturas de exclusão, ao fascismo, ao racismo, à misoginia e ao silêncio diante da injustiça.
Talvez seja justamente por isso que a imagem do feitiço seja tão apropriada para compreender o projeto. Um feitiço é uma ação destinada a produzir transformação. No universo do Witch Club Satan, a música pretende cumprir essa função: transformar raiva em movimento, memória em voz, marginalidade em comunidade e presença em resistência. A banda não apresenta a esperança como ingenuidade, mas como uma forma de desafio. No encerramento da entrevista ao Headbangers News, Victoria afirma que o grupo foi criado como um alarme diante daquilo que a sociedade necessita e defende a necessidade de permanecer fiel ao desejo de gritar, utilizando a raiva como força para lutar por mudanças. Há, nessa declaração, uma síntese precisa de sua proposta: não abandonar a escuridão, mas fazer dela matéria para uma ação consciente.

É nesse ponto que o Witch Club Satan encontra seu lugar dentro de No Trono de Lúcifer. Não porque sua obra dependa de uma reprodução convencional do satanismo ou porque sua estética precise ser reduzida ao imaginário demoníaco, mas porque a banda compreende o símbolo de Satanás como representação do rebelde, daquele que não aceita ajoelhar-se diante da injustiça. Seu black metal não procura simplesmente vestir a pele do passado; procura perguntar o que ainda pode ser feito com a linguagem da ruptura. Em vez de transformar a tradição em dogma, transforma-a em ferramenta. E talvez seja justamente essa disposição de lançar novos feitiços sobre um gênero acostumado a cultuar seus próprios fantasmas que faça do Witch Club Satan uma das manifestações mais interessantes surgidas no subterrâneo norueguês contemporâneo.
Fontes de pesquisa: entrevista “Lançando Feitiços e Quebrando Barreiras: Uma Entrevista com o Witch Club Satan”, publicada pelo Headbangers News em 14 de junho de 2024, conduzida por Carolyne Ferreira, tendo como principal referência os depoimentos de Victoria F. S. Røising; informações de formação e line-up consultadas no Metal Archives, incluindo os registros de Victoria F. S. Røising, Nikoline Spjelkavik e Johanna Holt Kleive; pesquisa complementar na rede mundial de computadores, considerando materiais e registros disponíveis em YouTube, Facebook oficial da banda, Bandcamp e demais redes sociais do Witch Club Satan, utilizados para contextualização da trajetória, identidade artística, produção musical, apresentações e presença pública do grupo.
Assista ao Vídeo para o Single “The Kids Will Kill Us”



