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TORCHES OF NERO – O Black Metal Sul-Americano em Chamas!

Hioderman ZArtan setembro 4, 2026 12 min read

Labaredas sonoras no limiar do caos, com uma sonoridade que transita entre o Black Metal mais cru/raw e carregado de densidade caótica, o Torches of Nero vem se consolidando como uma das vozes mais expressivas do underground extremo, (des)construindo paisagens sonoras que evocam tanto a fúria quanto a contemplação.

Nesta entrevista, são referenciados os primeiros idos e o processo criativo, suas influências, temáticas líricas e os desafios de manter acesa a chama da autenticidade em meio à vida no mundo moderno.

 

O Torches of Nero surge dos escombros do ano de 2021, um início pandêmico bem propicio para o caos. Resumindo em palavras o som que o T.O.N. executa é um Black Metal simples e direto com fortes influencias da velha escola, mas com uma identidade própria, podemos notar isso a cada item lançado pela T.O.N., este sempre foi/será o intuito da horda, reverenciar a velha arte do Old Black Metal?

Antes de tudo, desculpe o atraso no responder da entrevista, escravos da rotina não temos tido tempo para refletir sobre nada e muito obrigado ZArtan pelo apoio incondicional teu e dos amigos da Lucifer Rex. O maior portal de metal extremo da América Latina abrir as portas para nós é uma grande honra. Sim, tu tens razão ZArtan, as maiores influências nossas estão naquele período temporal do início dos 80 até a metade dos 90 pois faz parte da nossa infância e juventude e serve como uma marca feita a fogo em nossos espíritos. No entanto, a ideia de um padrão musical não se aplica e talvez para os mais novos isso cause uma certa estranheza pois esse padrão não existe. Somos guiados pelo Caos e normalmente as músicas carregam uma carga importante das letras. Se a letra exprime um determinado sentimento, a música que a representa deverá estar de acordo não importando muito se ela se encaixa na proposta feita anteriormente ou não.

Mas sim, esse sentimento de reverência existe pois de uma forma ou outra foram essas bandas, músicas e momentos que marcaram nossa vida e acabaram moldando-a, levando-nos a trilhar o caminho da escuridão, então nada mais simples e claro do que expressar ou retribuir à escuridão nos deu.

 

Os 3 primeiros registros do T.O.N., Fallen Angel of Arcturo (2021), The Birth of a Lie (2021) e “The Sermon of The Impure: Prophecy and Disgrace. Live Ritual” (2022) ambas no formato kvlt tape (N.E.: Que aliás preciso adquirir para meu acervo) e limitadas a 30 peças/unidades cada título. Foi proposital que os primeiros registros fossem neste formato kvlt?

A nossa ideia foi desde o princípio lançar em tapes para que nós, e quem estivesse interessado em nosso trabalho, pudessem sentir aquilo que nós sentimos quando éramos crianças e adolescentes. Soa bastante nostálgico eu sei e naquele momento de nossa primeira demo fomos muito criticados por que diziam para nós que era datado e não havia por quê, não fazia sentido.

Enfim, o tempo provou que estavam muito enganados. Nós pouco ou nada damos ouvidos a turba, visto que temos poucas pessoas com as quais nos aconselhamos e pelo fato de estarmos isolados no Sul do Continente, não fazemos parte de nenhuma “cena”.

Sobre as tapes, a primeira Fallen Angel of Arcturo está esgotada há muito tempo, fizemos apenas 30 cópias, a tape do Live Ritual foi lançada pela Unholy War e está à disposição. The Birth of a Lie saiu somente single digital mesmo e acredito que não deverá ser lançada de forma física em um espaço curto de tempo.

 

Musicalmente o T.O.N. bebe muito da fonte do Black Metal grego (antigo), recente a horda dividiu o palco com os gregos do Rotting Christ, em um evento em Curitiba. Comente acerca desta obra, os preparativos, ensaios, a adrenalina no palco, ainda mais que a T.O.N. não é uma banda que costuma fazer apresentações com frequência.

Acho que nossa influência maior e nosso primeiro grande apoiador foi Sakis Tolis, do Rotting Christ e bom a Torches of Nero nasce como uma proposta de homenagear através de músicas autorais o black metal grego, principalmente a banda já citada. E bom, essa oportunidade foi uma grande honra para nós, ainda não consegui definir o tamanho desse feito.

Sobre as nossas poucas apresentações: para o bem e para o mal, acho que uma banda de black metal deveria ser obscura, pouco frequente, manter-se nas sombras. No entanto, algumas bandas pensam diferente e se apresentam todo final de semana, a toda hora, o que ao meu ver acaba diluindo e muito a mensagem. Enfim, ao meu ver há muita confusão no que é black metal e o que é música comum.

As nossas apresentações serão poucas, sempre inéditas, com uma estética e uma arte que espalhem à mensagem.

Tomara que consigamos visitar vocês meus amigos do outro lado do Brasil quando tivermos a oportunidade certa.

 

Os antigos/trve antigamente diziam “não confundir evolução com traição” quando uma banda aparecia com um trabalho que diferia do anterior (mais trabalhado assim digamos), qual o parecer da T.O.N. perante a nova safra do Black Metal BR?

Minha opinião é bem possível que seja impopular. Eu respeito muito o “primeiro mandamento”: faça o que quiseres. Mas nosso exemplo é uma dedicação ao que é antigo e que faz sentido para nós. Então, na verdade e com muita clareza no que digo, não me interessa muito o que estão fazendo por que minha visão é ou talvez seja muito sectária. Nosso contexto nos leva a isso. No entanto, acredito que há bons valores nas muitas safras brasileiras desde os 80 e por outro lado nem sempre por ser mais velho o vinho ele será melhor. O meio do black metal (e da humanidade em geral) está cheio de parasitas, velhos e novos, procurando causar prejuízo de forma lenta e constante ao longo dos anos.

Não me oponho de forma alguma à evolução pois água parada tende a virar sarjeta, no entanto, acho que estamos mais perto do verde-cinza escuro da água fedorenta do que de uma água potável, se é que é possível entender a analogia. E pessoalmente gosto de bandas as quais conheço de longa data com pouca coisa nova sendo do agrado. Na verdade, quase nada e imagino que muita gente pense da mesma forma. Enfim, não cabe a mim julgar pois não me interessa em nada.

E o que seria traição? Exemplo – já fomos chamados de banda que não representava o Brasil pois nosso som (na demo Fallen…) tinha uma fundamentação grega. Já fomos boicotados muitas vezes por fazermos parte da Hammer of Damnation e veja neste caso foi uma honra termos sido boicotados de forma explícita. Traição seria se nós servíssemos aos mesmos mestres que muitos servem, aos templos, sinagogas, igrejas ou mesquitas. A Torches of Nero serve ao escárnio, ao humor ácido, a zombaria do profano e dos ídolos de Sião, Vaticano e Medina. A Torches serve a tudo que venha da escuridão e isso deveria ser o bastante para os tolos que tentam colocar-nos no rebanho do seu salvador desistirem. A Torches serve à nossa vontade e somente à essa e de mais ninguém.

Além disso, não nos interessa esse black metal com agenda positiva, vinculados a grupos sociais, a movimentos de ajuda ao próximo, buscando agradar a tudo e a todos, que foi criado há alguns anos no intuito de transformar o black metal em música que gera satisfação e não sentimentos de destruição.

O black metal trata do obscuro e de uma guerra espiritual, uma guerra contra as correntes que nos prendem aos dogmas gerais impostos pela sociedade, instituições como os cultos abraamicos do deserto e suas regras. Um tema que demandaria uma tese de muitas centenas de páginas de reflexão.

Então, faça o que quiseres (e de preferência vá se fuder bem longe de mim) é o lema da minha vida e enquanto Torches penso da mesma forma.

 

O CD/EP “Mokk” (2023), que em suas palavras é uma homenagem ao Sadistik Exekution, é uma aula de brutalidade sonora, neste as 3 primeiras músicas (de 6) também estão registradas na DT “…Live Ritual”, qual o conceito lírico de Mokk?

Sadistik Exekution e Rok são grandes referências, Rok é um grande oráculo para nós. Sempre apoia o nosso trabalho e aconselha-nos.

Essa homenagem foi feita com algumas músicas baseadas em letras de conversas que tivemos ou de entrevistas que ele forneceu ao longo dos anos e outras músicas com letras mais aleatórias, temas como morte e a reverência aos que já se forma (vide We Are All Dead). As artes do disco foram todas feitas à mão pelo nosso artista e amigo Michel Barinacho fazendo o traço que o Mestre Rok costuma usar nas suas artes.

O Live Ritual tem mesmo músicas do Mokk e músicas anteriores da demo Fallen e os singles The Sermon of The Impure e The Birth of a Lie. É um ótimo resumo do que fizemos e mostra bem o aspecto caótico da nossa música.

 

O lançamento mais recente é o 7EP “The First Denial” (2024), as 2 faixas “The First Denial” e “Heil Ratzinger” são literalmente um chute no culhão religioso, há uma forte carga filosófica por trás de suas letras, a arte gráfica me lembra muito os recortes antigos feitos nos panfletos da Univer$al. E mais um lançamento em formato kvlt nos dias atuais.

Seguiremos chutando muitos! Sim, sempre há uma carga filosófica pessimista, anti – religiosa expressa pela zombaria e pelo escárnio.

As duas letras tratam disso: a primeira trata da negação de Pedro – como se fosse um grande discurso de exposição do Rei dos Ungidos. A segunda é escárnio, péssimo humor acerca do Papa que serviu ao ódio na sua juventude. As escolhas e a história se encarregaram de juntar os dois papas como alguns dos grandes representantes da Segunda Mentira Abraamica chamada cristianismo.

Um papa que serviu à máquina de extinção do povo que criou a religião que ele propõe é no mínimo um feito a ser estudado. Irônico por assim dizer.

O 7ep foi feito na Itália, lançado pela Black Metal Store e seu layout de jornal panfletário foi feito pelo baixista Blackpest. O resultado final, as 3 cores do lançamento, a sonoridade, o conjunto com o layout ficaram fantástico. Só temos a agradecer a Black Metal Store pela honra concedida.

 

Um ponto que achei muito interessante sobre o T.O.N. é que as gravações são feitas em uma única trilha, como eram feitas nos 90’s, tudo na raça bruta mesmo, e o bom da coisa é que soa como se fosse um ao vivo mesmo, me fez lembrar da gravação de um CD que virou clássico onde a banda gravou tudo num ensaio e salvou num HD (épocas difíceis eram aquelas, rs) e este CD até os dias atuais é considerado kvlt. E mesmo com a modernidade da atualidade, mesmo assim o T.O.N. insiste em manter essa essência.

As gravações da Torches foram todas ao vivo até o momento e não creio que vá mudar. Por uma série de razões: custos, limitações técnicas de todos, poucos recursos na região e também um desejo de manter as coisas mais puras, menos plastificadas.

O black metal como um todo já está muito plastificado.

 

O visual do Black Metal é icônico (corpse paint, atmosfera sombria), como vocês definiriam a estética do T.O.N.? Em se tratando que ao vivo a banda carrega uma parte teatral muito forte, lembrando muitos as heresias de filmes B, e isso (ao meu ver) é um investimento que poucos se propõem, digamos uma preocupação há mais.

Sim, concordo em toda a tua afirmação! Uma estética cheia de mensagens explicitas que poucos infelizmente ainda entendem.

Uma arte degenerada, visualmente erosiva, sonoramente caótica, que não está presa ao padrão nórdico preto e branco e nem ao padrão bestial black death preto e vermelho. Respeitamos os padrões comentados, mas nós buscamos expressar nossa arte de forma diferente, não nos encaixamos no visual comum. Sou apaixonado por filmes de terror, por textos históricos e religiosos e por isso, toda nossa blasfêmia é fundamentada e direcionada. Venom se expressava de outra forma, Mayhem de outra forma, Sadistik Exekution e Impaled Nazarene de outra forma, Profanatica de outra forma, Rotting Christ de outra forma…existem muitas formas de expressar a própria escuridão e assim, mesmo que não seja unica ou original, procuraremos manter ou respeitar a nossa forma. É quase que uma declaração de guerra espiritual feita por nós.

E fazemos questão de que seja assim.

 

Quais foram os maiores desafios enfrentados pela banda desde a formação inicial até os dias atuais, aliás, esta formação atual irá sempre perdurar como power trio?

Hoje temos a formação ideal e pode-se imaginar que muitos foram os desafios de uma banda no Sul do Sul do Brasil. Acho que hoje todos entendemos o nosso papel dentro da Torches e estamos trabalhando muito para aprimorar nossas dificuldades técnicas e de estrutura. No entanto, somos todos muito velhos nisso então nada mais nos assusta.

O Brasil tem muitas, mas muitas bandas dentro do heavy metal, algumas fazem um trabalho sério e dessas poucas terão uma chance. Para isso tem de trabalhar muito e fazer isso como parte de nossa vida, insistir, resistir, incomodar, entre tantos outros verbos que sugerem seguir em frente e tentar fazer melhor para ter algum lugar. É uma merd@, mas é o único jeito.

Sobre o power trio – o futuro a nós pertence, mas com as dificuldades de agenda de todos, de vida de todos, de dinheiro de todos, de saúde de todos, não imagino mais um membro. Somos amigos antes de tudo mesmo com os muitos problemas.

Se todos entendermos o nosso lugar, a nossa função a coisa anda. Não acredito muito em bandas democráticas pois dificilmente todos terão a mesma meta então é melhor que trabalhemos com objetivos claros os quais são colocados e posteriormente discutidos.

Quanto mais pessoas mais difíceis todo esse processo. Então, acho muito improvável.

 

Como vocês associam/equilibram a filosofia do Black Metal (muitas vezes associada ao isolamento) com a exposição necessária para divulgar os trabalhos da T.O.N.?

Essa resposta complementa a outra acredito. Essa merda de exposição é necessária, mas vem acompanhado de uma mutilação espiritual. A minha filosofia e a forma como vejo o mundo, a vida e o black metal é auto- destrutiva, auto- sacrificial, o espírito precisa de isolamento, solidão e silêncio. A minha escuridão, a minha reflexão é corrosiva, sou um discípulo do Emil Cioran e todo pessimismo é plenamente justificado pois a vida é a queda da graça. Se fosse de uma linha mais espírita diria que a vida é a forma como o universo nos aborta. E o contato com as pessoas é uma lembrança diária dessa punição.

Vocês podem ver pela resposta acima o meu sentimento acerca dessa “necessidade – escolha”.

 

Tava lembrando aqui uma parada antiga, uma arte do FETO estilizado no logo do VENOM, o que de Feto o T.O.N. carrega ou nada haver, são fetos diferentes? (N.E.: não resisti ao trocadilho, rs).

A Feto e TON tem muita relação! A primeira gestação começou em 1992 e só nasceu de verdade em 2010 – ensaios furados, dificuldade econômicas, desculpa para encher a cara ouvindo Venom, Bathory e jogando video game, em 2010 nasceu e foi a realização de um sonho.

A TON tem muito da Feto e nada ao mesmo tempo. O logo estilizado Venom foi obra do Blackpest nosso baixista na época recém entrado na adolescência, hoje com quase 40 anos. Nosso baterista Antimatter é primo irmão do batera da Feto e o conheci em 1999. Desde então já tocamos juntos e separados muitas vezes. Hoje acredito que estamos ficando surdos todos juntos.

O som da Torches é Caos. O da Feto mais anos 80, letras mais descompromissadas e com muitas opiniões no meio, ou seja, Babel caiu por que todos falavam algo diferente. A Feto é parte de nossas vidas continuamos amigos e confidentes como no caso do baixista da Feto Antonio – o cara que mais desencaminhou gente na nossa região; a Torches é parte de nossas vidas.

Enfim, história de como direcionar muitas vidas através do metal.

…To be continued!

@torchesofnero

Hioderman ZArtan

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