Em entrevista exclusiva ao Lucifer Rex, a banda reflete sobre sua trajetória, a preservação do espírito underground, o relançamento de Rites of Lust and Blasphemy e o novo ciclo iniciado ao lado da Brazilian Ritual Records.
Faz alguns anos que eu acompanho com mais afinco o trabalho desta banda e posso garantir que há uma exponencial evolução em sua caminhada, por outro lado, há toda uma atmosfera criada que nos remete aos anos 90 e isso eu considero bem salutar diante de várias mudanças drásticas que o metal vem sofrendo, principalmente com o advento de várias tecnologias que, ao longo do tempo, vem desconfigurando seu aspecto mais artesanal de produção. Morbid Perversion é uma banda notável dentro desse cenário por, de alguma forma, garantir que aspectos mais primordiais seja preservado em sua estética, em sua música e em sua linha de pensamento.
Essa postura transcende a música. Ela se manifesta também na maneira como o grupo encara sua própria existência: distante de tendências efêmeras, indiferente às disputas de visibilidade nas redes sociais e comprometido, acima de tudo, com uma ética underground baseada na disciplina, na autenticidade e na dedicação integral àquilo em que acredita. Não por acaso, ao longo desta entrevista, seus integrantes deixam claro que a evolução da Morbid Perversion nunca esteve associada à busca por reconhecimento imediato, mas sim ao aperfeiçoamento constante de sua arte sem abrir mão de seus princípios mais fundamentais.
Celebrando quinze anos de atividade, preparando o relançamento de seu álbum de estreia pela Brazilian Ritual Records, trabalhando em novos splits e no terceiro disco de estúdio, a Morbid Perversion inicia um novo capítulo de sua história mantendo intacta a mesma convicção que sempre guiou seus passos. Para compreender melhor essa filosofia e conhecer os planos da banda para os próximos anos, o Lucifer Rex conversou com seus integrantes em uma entrevista exclusiva, na qual abordamos sua trajetória, influências, visão sobre o underground sul-americano e os desafios de permanecer fiel ao Metal extremo em tempos de constantes transformações.
1 A Morbid Perversion completa mais de uma década de existência mantendo-se fiel a uma proposta extremamente crua e visceral. Ao olhar para essa trajetória iniciada em 2011, qual avaliação vocês fazem da caminhada da banda? O que mudou e o que permaneceu absolutamente inegociável ao longo desses anos?
MP: Saudações a Lucifer Rex e os maníacos leitores! Sim esse ano completamos 15 anos de atividades, e continuamos com muita sede de Metal sujo e blasfemo! A avaliação que temos é continuar fazendo que gostamos e alimentando nossas almas.
Nossos ideais, nosso som, o espaço ao que pertencemos, sempre serão pontos inegociáveis em nossa caminhada com o Morbid Perversion. Desde o início, sempre tivemos os pés no chão, fazendo as coisas de maneira tradicional, simples e direta.
2 Sarcófago, Sexthrash, Expulser e diversas bandas da velha guarda do Death Metal — especialmente da cena brasileira — são referências que identifico imediatamente na sonoridade da Morbid Perversion. Essa percepção faz sentido? Como vocês definiriam o som da banda e quais artistas realmente foram fundamentais na construção dessa identidade?
MP: Acredito que essas bandas são pedras fundamentais nas influências da banda, principalmente no início. Com o passar do tempo a banda buscou evoluir seu som, incorporando outros elementos, inspirações e experimentando sair um pouco da “caixa”, sem descaracterizar ou perder o direcionamento. Nós gostamos de muita coisa, principalmente coisas antigas, então além das bandas que você citou, temos como influência bandas como Impiety, Bestial Warlust, Blasphemy, Sodom, Slayer (old), e muito mais.
3 O underground brasileiro sempre foi marcado por inúmeras dificuldades, mas também por uma forte resistência. Na visão de vocês, o que permitiu que a Morbid Perversion permanecesse ativa durante tantos anos enquanto tantas outras bandas encerraram suas atividades?
MP: O que permitiu seguirmos cada vez mais firmes e consolidados foi focar em fazer o que gostamos levando a sério os ideais da banda, sem seguir alguma tendência do momento, por que está dando certo para A ou B. Procuramos ir trilhando nosso caminho, um passo de cada vez, sem pretensões mirabolantes. Deixar para trás pessoas que não tinham o mesmo comprometimento ou pensamento sobre determinadas coisas que julgamos importante, também foi fundamental.
4 Hoje, com certo distanciamento do lançamento de Infamous Dogmas Of Sacrifice, como vocês analisam esse álbum? Ele conseguiu traduzir exatamente aquilo que a banda pretendia naquele momento ou, revendo o trabalho, existem aspectos que enxergam de forma diferente?
MP: Acredito que cada álbum reflete uma época, uma inspiração e intenção. Somos bastante satisfeitos com o resultado do “Infamous”, ele passa um som mais maduro que o antecessor, porém não perde a crueza bestialidade sonora. Esse disco também trouxe uma nova percepção lírica, que é a questão de escrever um disco conceitual.
O Infamous foi um disco feito com mais critério, já que com o passar do tempo, vamos agregando mais experiência, aprendendo com as situações que vão ocorrendo na caminhada. Aspectos técnicos, conhecimentos correlacionados a equipamentos e infra estrutura de áudio e demais elementos que envolvem todo o processo de se produzir um disco. Bem, Você sabe bem do que estamos falando… O álbum antecessor é mais direto, mais raivoso, mais agressor e perigoso. O Infamous é mais carregado, mais denso, mais lapidado, forjado com mais calma.
5 O primeiro álbum, Rites of Lust and Blasphemy, será relançado pela Brazilian Ritual Records. Qual o significado desse disco para a história da Morbid Perversion e como é revisitar esse material tantos anos depois de sua gravação?
MP: Esse trabalho é muito importante para nós, e sem dúvidas revisitar ele é estar sempre com um pé nas raízes da própria banda. Esse disco fez com que o Morbid Perversion entrasse dando ponta pé na porta do Underground real e verdadeiro! Tatuou nosso nome na pele do Underground nacional / gringo sem pedir licença. Rites Of Lust And Blasphemy para sempre!
6 O relançamento de um álbum costuma despertar novas interpretações tanto na banda quanto no público. Na opinião de vocês, Rites of Lust and Blasphemy continua representando plenamente a essência da Morbid Perversion ou ele registra uma fase específica da evolução do grupo?
MP: Ele sem dúvidas representa uma veia e característica forte no Morbid Perversion, que é a crueza e ódio em forma de música. É interessante revisitar esses trabalhos mais antigos, aproxima a banda novamente a esse período. Não temos intenção de ficar repetindo a mesma formula, tudo que criamos é de forma despretensiosa e natural.

7 A parceria com a Brazilian Ritual Records marca um novo momento na carreira da banda. Como surgiu essa aproximação e quais expectativas vocês depositam nessa colaboração para os próximos anos?
MP: Conhecemos pessoalmente o Eduardo em Aracaju – SE quando o mesmo levou o Deiphago e também tocando nesse evento, que foi o Bestial Massacre II, em 2016. Acompanhamos a evolução do selo como maníacos apoiadores, sempre adquirindo lançamentos e inclusive indo ao festival em SP, sempre que possível. Sempre tivemos uma relação de amizade e respeito. Em 2025 surgiu o convite para lançarmos um próximo disco através do selo e aceitamos. O relançamento do “Rites” é uma forma do selo incluir disco e banda em sua rota de logística, preparando o público para novidades que vem por ai. E claro para as pessoas que estão conhecendo a banda recentemente ter acesso a esse material físico.
8 O release menciona que a Morbid Perversion está trabalhando em dois novos splits e também na composição do terceiro álbum de estúdio. O que vocês podem adiantar sobre esse novo material? O público encontrará uma continuidade natural do trabalho anterior ou haverá novos elementos sendo incorporados à sonoridade da banda?
MP: O primeiro Split será com os irmãos paulistanos do Necrogosto, o outro Split com bandas de fora. Em seguida daremos continuidade ao terceiro disco da banda, o qual já temos a metade composta. A banda sempre busca adicionar novos elementos na sua música, mesmo que de forma sutil, nada de distancie do seu caminho.
9 No mês passado vocês se apresentaram na Argentina, durante o Ritual de Exterminio IV, em Buenos Aires. Como foi essa experiência? O que mais chamou a atenção de vocês na recepção do público argentino e quais impressões essa apresentação deixou para a banda?
MP: Sim, fomos muito bem recebidos, o público presente correspondeu de forma positiva, todo o suporte por parte da produção foi impecável. No ano passado tocamos no Paraguai e acreditamos que foi algo ainda mais legal, em termos de construção de uma cena Death/Black Metal atual, pequena porém firme! Mas nada é comparado ao Brasil, praticamente vivemos em um Continente, multiétnico e multicultural, e em cada canto do país você é surpreendido com excelentes bandas e público fervoroso. Temos muito ainda a conhecer no nosso próprio país.
10 Ao longo da carreira, a Morbid Perversion teve seus trabalhos lançados por selos de diversos países e hoje possui distribuição em mercados importantes para o Metal extremo. Como vocês enxergam essa crescente projeção internacional e quais portas acreditam que ainda podem ser abertas?
MP: Não temos tanta pretensão nesse sentido, tudo é uma questão de acompanhar a cena como banger e consumidor, ver o que está acontecendo, naturalmente os contatos vão surgindo, trocas ou envios de promos, etc. Selos brasileiros como Sociedade dos Mortos e Angel of Cemetery Records nos ajudaram bastante em termos de divulgação e distribuição fora do país. Não sabemos ao certo quais portas precisam ser abertas, apenas vamos seguindo e vivendo dia após dia, e se surgir algo que julguemos interessante damos a devida atenção.
Sem olhar para os lados, sem nos ater a distrações, ou nos envolver em polêmicas de botequins, conversinhas de bar e internet, vamos fazendo o que temos que fazer sem questionamentos, sem perda de tempo, sem terceiros, sem desperdícios de energia.
O que nos apoia e nos agrega, mantemos! O que não nos serve, descartamos. Simples assim!
Temos essa postura desde o início de nossa amizade e banda, e assim seguimos firmes e fortes!
Quando você é disciplinado, qualquer pensamento, qualquer intenção, qualquer coisa, pode se transmutar, ainda que de forma lenta.
Somos apenas apaixonados por metal extremo e nosso legado é confrontar as ilusões projetadas para controle humano.
0% de sonhos e 100% de disciplina! Esse é o nosso lema!

11 A cena extrema sul-americana atravessa um momento de renovação, convivendo com bandas históricas e novos nomes. Como vocês avaliam o atual cenário do Black/Death Metal no Brasil e na América do Sul? Existe uma nova geração capaz de manter vivo o espírito mais primitivo do underground?
MP: Sem dúvidas existe uma “nova” geração capaz de manter vivo esse espírito, porém é uma geração 25 ou 30 +, eu não conheço ninguém de 20 anos de idade no Metal, lembro que quando eu tinha 15, 16 anos éramos muitos!! Porém muita coisa não tem como ser como antes. Por exemplo, hoje se torna impossível fazemos trocas de materiais físicos como antes, então o apoio e o “espirito” tende a nunca ser como antes, é preciso a pessoa estar disposta a ser menos saudosista e mais interessado em colaborar para que a engrenagem continue a girar, apoiando bandas, selos, zines que julgue digno.
12 Para encerrar, qual é a principal mensagem que a Morbid Perversion pretende transmitir através deste novo ciclo — marcado pelo relançamento do álbum de estreia, pelos novos materiais em desenvolvimento e pela consolidação da parceria com a Brazilian Ritual Records? O que os seguidores do Lucifer Rex podem esperar da banda nos próximos anos?
MP: Muito obrigado pelo espaço, o que podemos dizer é que continuamos trabalhando firme, em breve teremos novidades, aqueles que apreciam a Morbid Perversion, fiquem atentos!



