Essa é uma das series de entrevistas idealizada para conhecer melhor personalidades do Metal Extremo, sobretudo de áreas pouco visibilizadas como as artes visuais, fotografia, Produtores e outros profissionais do universo musical que, muitas vezes, gostaríamos de conhecer, mas nos falta oportunidade. Rubens Azoth é um desses artistas visuais que vem se despontando numa ascensão meteórica nos últimos oito anos, eu diria! Sua técnica e características com um ar envelhecido, digno das iluminuras e gravuras medievais, fazem com que a atmosfera atingida por sua obra ganhe admiração e elogios rasgados. Por isso estamos aqui para saber mais da trajetória desse artista, assim como entender melhor seus processos criativos, suas inspirações e sua relação entre arte e “mercado cultural” que o Metal Extremo oferece.
Saudações meu nobre, é com muito prazer que iniciamos nossa entrevista com esse talentoso artista do underground mundial. Para começarmos bem, como você descobriu seu talento para as artes e como iniciou seu trabalho dentro da cena?
RUBENS AZOTH: Saudações! O prazer é meu por contribuir deste ilustre portal! A minha inclinação pelas artes é proveniente da infância (expressão enfadonha do processo comum que é proferido por parte dos artistas). À época com sete a oito anos de idade eu já rabiscava – sem refinamentos, obviamente – representações demoníacas, diabos violentando querubins e profanando seres celestiais. Recordo-me de fragmentos, e partes dessas memórias foram declaradas pelos meus próprios progenitores, e assim, fui prosseguindo com esse intento até a época presente, carregando instintivamente percepções tétricas, personificadas em minha arte e reflexões filosóficas.
Naturalmente, foi o ponto culminante na incorporação de tais preceitos para o cenário musical, literário, e ademais partes que compreendem os saberes no campo hermético, esotérico, místico, ocultista… É o que respiro e manifesto nesse plano terrestre até o desfecho da minha existência…
Quais foram seus primeiros trabalhos que você realmente foi reconhecido?
RUBENS AZOTH: Cada arte foi concebida alinhando a estética sonora das bandas com uma narrativa visual simbólica e vigorosa, o que ajudou a consolidar a identidade visual de cada projeto. Destaco algumas que evidenciaram por traduzirem, de forma simbólica, conceitos ligados ao infernal, o místico, o caos, a morte: Eternal Sacrifice, Cruor Cultum, Spell Forest, Murder Rape, Profane Souls, Triumph, Pactum, Luvart, Great Vast Forest, Bode Preto, Berzabum, Vulturine, Cultus Funeris, Embalmed Souls, Valhalla, Necrofilosophy, Nargaroth, Ebauche Noire (membros do Vociferian, Macabra), Sinistral King (membros do Unlight, Triumph of Death, Vredehammer), entre outras.
Seu estilo nos remete imediatamente a arte da época medieval e início da era moderna, onde predominaram ícones da arte ocidental como Michelangelo, Da Vinci. Quais suas influências para produzir suas obras, já que há tanta conexão com esse passado estético?
RUBENS AZOTH: Efetivamente, as minhas obras remetem a padrões medievais, como a arte medieval gótica e a arte funerária medieval, que advêm das artes Vanitas, associada à natureza morta, expressada de uma forte obsessão pela morte e a certeza de sua vinda, as efemeridades da vida e o vazio existencial. Inspiram-me as tendências que dominaram a arte Barroca, como o Caravagismo que transmite uma atmosfera mais dramática e realista através da utilização de tonalidades sombrias e do tenebrismo na pintura que davam um aspecto mais obscuro. O meu crescente interesse está na valorização de ideais clássicos em que há um estado da alma influenciado por uma potência sobrenatural funesta, repleta de escuridão e coberta por trevas nesse contexto de minhas influências.
A cena Metal, como um todo, sempre privilegiou muito artistas plásticos, fotógrafos, desenhistas… Você se inspirou também nesses trabalhos voltados ao Metal? Qual artista você considera uma grande influência no seu trabalho?
RUBENS AZOTH: Sem dúvida, a estética do Metal sempre teve certa influência na minha construção artística. Desde muito cedo, fui profundamente impactado por essa linguagem visual carregada de simbolismos, cenários apocalípticos, paisagens de ruína, abismo existencial, representações que se opõem aos dogmas estabelecidos pelo judaico cristianismo ou quaisquer religiões abraâmicas que vieram do deserto. Existem, sim, artistas que admiro profundamente. No entanto, não vou citar nomes, mas não por negação, mas por reverência, pois as verdadeiras influências são como venenos alquímicos: são absorvidas, se dissolvem no sangue e deixam de ser do outro para se tornarem parte da própria essência. E é essa essência que transbordo na minha obra.
A gente sabe que arte no Brasil é uma coisa muito difícil de viver desta profissão, como você lida com esse aspecto? Você vive de sua arte ou precisa de um trabalho considerado formal para se sustentar?
RUBENS AZOTH: Sim, eu vivo exclusivamente da minha arte, sempre foi assim. É um caminho que tem seus desafios, mas eu escolhi construir minha trajetória dentro desse universo e trabalho de forma comprometida para que isso seja sustentável, apesar de não ser a direção mais simples ou linear. Atendi a um chamado antigo e mergulhei no estudo da necropsia, me entreguei a esse curso que é uma antiga obsessão, quase ritual, que talvez se transforme em hobbie, ou só mais uma extensão natural do meu trabalho. Não por fuga, mas porque há beleza e estranheza entre a carne e o vácuo, que também dialoga com o universo da minha arte e com as minhas inquietações existenciais. Afinal, tudo que habita o limite entre a matéria, o silêncio e o vazio acabam, inevitavelmente, se tornando parte da minha criação.
Nos últimos anos, creio, seu trabalho começou a ganhar grandes proporções isso tem lhe deixado com pouca agenda?
RUBENS AZOTH: Sim, meu trabalho tem tomado maiores proporções nos últimos anos, e naturalmente isso impacta na agenda. Mas também me obriga a ser mais seletivo e criterioso. Meu processo é denso e meticuloso. Prefiro qualidade, profundidade e coerência do que quantidade.
As bandas, produtores, gravadoras que quiserem contratar seus serviços, como devem proceder?
RUBENS AZOTH: Quem deseja atravessar esse processo deve me procurar pelas redes ou e-mail, trazendo seu projeto, sua visão e a atmosfera que deseja invocar. Avalio se há conexão real com minha linguagem, com aquilo que construo. Cada trabalho é um rito, uma manifestação feita sob demanda para quem entende o peso e o significado do que está sendo construído.
Falando em técnica de produção, quais são as ferramentas, suportes e técnicas que você costuma usar para produzir seus trabalhos?
RUBENS AZOTH: Meu processo começa sempre no tradicional. Trabalho com técnicas manuais – tinta, nanquim, grafite, carvão e outros materiais que me permitam construir texturas orgânicas, linhas, manchas, rasuras. Essa parte manual é essencial, é onde nasce a essência da obra. Depois disso, trago tudo para o digital, onde entra o design gráfico. Uso ferramentas digitais para composição, montagem, tipografia, diagramação e finalização dos projetos, principalmente quando o destino é um álbum, um material gráfico ou identidade visual. Mas a raiz do meu trabalho é tátil, suja, orgânica. O digital entra como ferramenta de estrutura, organização e acabamento.
Você tem trabalhos preferidos diante dos que você já realizou? O que torna esses trabalhos especiais para você?
RUBENS AZOTH: Tenho trabalhos que guardo com um carinho especial, não só pelo resultado, mas pelo processo que vivi em cada um deles. São peças que representam momentos de imersão profunda, onde cada detalhe carrega uma carga emocional, ritualística e pessoal. O que torna esses trabalhos especiais é a conexão intensa que estabeleço com o tema e a liberdade que encontro para expressar minhas inquietações mais verdadeiras. Não são apenas imagens, são extensões do meu próprio universo, onde arte e existência se entrelaçam. Os meus trabalhos têm características e particularidades individuais e estão todos canalizados em seus enigmáticos planos energéticos.
Você costuma trabalhar ouvindo música? O que tem tocado no seu aparelho de som ultimamente?
RUBENS AZOTH: Sempre trabalho ouvindo música. Ela é parte do processo, quase como um combustível ritual. No meu ambiente de criação, predominam sons que transitam entre a música erudita, especialmente da antiguidade, medieval, renascentista e barroca – E, em contraste ou complemento, as camadas extremas do metal, do doom ao black. Sons que carregam densidade, ruído, dissonância, silêncio e espiritualidade sombria. Tudo isso alimenta o espaço mental onde minha obra se manifesta. Não é só trilha, é invocação.
Agradecemos muito por seu tempo cedido ao portal Lucifer Rex, fica aqui nosso abraço e o espaço aberto para suas palavras livremente.
RUBENS AZOTH: Que este eco lançado pelo portal Lucifer Rex siga reverberando onde arte e música se fundem na escuridão absoluta. Agradeço pelo espaço e pela conexão que brota do abismo, onde habitam lamentos e o suplício dos que se perderam. Seguimos alimentados pela chama negra e pelo caos primordial. Meu respeito aos que caminham entre sombras.
Serva artem ritualisticam chaosis gnostici! Ignis Satanae non desinat!



